



   Zeke Coulter gostava de viver sozinho - ou pelo menos achava que gostava - at conhecer a sua vizinha, a atraente cantora Nathalie Patterson. Zeke tinha ido a
casa de Nathalie para ter uma conversa sria sobre o filho dela, Chad, que tinha vandalizado o jardim e a casa nova de que Zeke tanto se orgulhava.

   Na esperana de ensinar ao rapaz o que  a responsabilidade, Zeke insiste em que Chad trabalhe em sua casa para recuperar os danos. Nathalie e a sua filha Rosie
querem ajudar igualmente para que Chad no falhe o acampamento de Vero. Nathalie, recentemente divorciada e lutando para sobreviver com os dois filhos, sabe que
Chad est a atravessar uma fase difcil mas no adivinhava que o tempo passado com Zeke era precisamente aquilo de que Chad necessitava.

   Quando as obras acabam, Zeke d por si numa casa imensamente vazia mas ainda a tempo de tomar a deciso que pode mudar a sua vida.

Olhos Brilhantes
   Catherine Anderson

   Traduo de: Francisco Silva Pereira 
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
  Arcadia
  
arcdia
     uma chancela
   Babel
    
    OLHOS BRILHANTES
    Catherine Anderson
    
    ttulo original
    BRIGHT EYES
    
    Edio (c) 2010, by BABEL
    Copyright (c) 2004 by Adeline Catherine Anderson
    
    TRADUO
    Francisco Silva Pereira
    
    reviso
    Ldia Freitas
    
    Este livro foi composto com o tipo
    Minion Pro por Fotocompogrfica e impresso
    na Guide para a Arcdia
    em Setembro de 2010
    
    isbn
    978-989-28-0027-1
    
    depsito legal
    315 845/10
    
    BABEL
    Avenida Antnio Augusto Aguiar 148, 6.
    1069-019 Lisboa
    PORTUGAL
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    www.babel.pt
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   Para Julie Seybert, tambm conhecida como Jules Maree, cuja voz  
   quase to bonita como ela. No desistas dos teus sonhos, minha amiga. 
   Nashville espera por ti, e o mundo seria um lugar muito mais pobre
   sem a tua msica.
   
   
   E tambm, como sempre, para o meu marido Sid, que tem sido a 
   minha ncora em todas as tempestades e nunca deixou de me apoiar.
   
Captulo Um
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   Quando naquela tarde de Agosto Zeke Coulter estacionou o Dodge Ram vermelho diante da sua nova casa construda de estilo rancheiro, era com grande expectativa 
que aguardava o fim-de-semana. Um dos inconvenientes de ser dono de um armazm de mercadorias para ranchos era o facto de ter de trabalhar quase todos os sbados, 
mas ele reorganizara a escala dos empregados naquela manh para conseguir umas minifrias, dois dias inteiros para fazer o que muito bem lhe apetecesse. Ainda que 
tivesse meia grade de garrafas frescas ao seu lado no banco, naquela noite no haveria cerveja. Planeava trabalhar na horta at anoitecer e depois passar o resto 
do sero a preparar os legumes para o Inverno.
   Quando ia desligar a carrinha, o seu telemvel tocou. Imaginou que fosse algum do armazm. Randall, o gerente do turno da noite, no era capaz de limpar o prprio 
rabo sem que ele lhe explicasse como.
   - Fala o Zeke - disse ele, o seu tom marcado pela frustrao.
   - Tens um encontro daqueles esta noite?
   Zeke sorriu. No tinha notcias de Hank, o seu irmo mais novo, h mais de uma semana.
   - Ol, maninho. J pensava que devias estar com um problema nos dedos. - Hank era recm-casado, e Zeke no perdia uma oportunidade para o provocar. - Essa tua 
mulher bonita deve manter-te bastante ocupado.
   - De vez em quando, vimos  superfcie para respirar - respondeu Hank com bom humor. - A Carly e eu estamos a contar contigo para jantar. Galinha panada  moda 
do sul com tudo a que tens direito.
   - Julgava que o cheiro de comida frita a deixava agoniada.
   - J no. J lhe passou e agora est outra vez com aqueles apetites repentinos. Hoje  galinha panada com pur de batata e molho.
   - Qual de vocs  que est grvido? Parece-me muito suspeito. Esse  o teu prato preferido.
   Hank riu-se.
   - Temos gostos parecidos. O que  que posso dizer? Vens ou no?
   Com um pesar genuno, Zeke explicou que tinha outros planos para o sero.
   - Apanhar legumes e enlat-los? - repetiu o irmo com um desagrado no disfarado. - No te esqueas, tens de defender a reputao dos Coulter. Faz parte do pacote 
gentico, isso e o nariz.
   Zeke no pde deixar de se rir. Era verdade, ele e todos os irmos tinham os traos do pai: cabelo escuro, pele morena, olhos azuis e feies vincadas, a mais 
proeminente das quais era um grande nariz que a me frequentemente comparava  lmina de uma faca de caa.
   - Se no trato dos tomates este fim-de-semana, estragam-se. Trabalhei demasiado naquela horta para deixar que as hortalias se percam.
   - O que  que se passa contigo, mano? Trinta e trs anos e solteiro numa sexta-feira  noite, e vais enlatar tomates? Devias estar a divertir-te.
   - Quase trinta e quatro, e gosto de enlatar.
   - No contes isso a ningum.
   Zeke riu-se de novo.
   - Tu divertiste-te pelos dois e v l o que te aconteceu. Enlatar  mais seguro.
   - Gosto do que me aconteceu - retorquiu Hank num tom satisfeito.
   Ele parecia realmente estar bem, e Zeke estava feliz pelo irmo. Mas casar e criar uma famlia no era para todos.
   - Lamento no poder ir jantar, mano. Diz  Carly que agradeo o convite.
   Zeke tinha acabado de desligar quando viu um rapaz, que parecia ter cerca de doze anos, sair a correr de trs da casa. Pela forma como ele corria, ombros curvados 
e corpo perto do cho, percebeu que havia marosca. Praguejando entre dentes, saiu da carrinha.
   - Hei! - gritou ele.
   O rapaz nem sequer reduziu a velocidade. Zeke viu-o meter pelo campo que se situava entre os seus dezasseis hectares e a quinta vizinha. "Fantstico." Recordava-se 
muito bem de quando tinha aquela idade. Os Veres no campo podiam ser longos e enfadonhos para um rapaz que no estivesse ocupado, e muitas vezes o tdio levava 
 asneira.
   O sol do final de tarde queimava-o atravs da camisa azul quando ele seguiu ao longo da fachada oeste da casa para ir ver o que o rapaz andara a fazer. Quando 
chegou ao alpendre lateral, viu uma mancha vermelha na parede de cor creme, logo abaixo da janela da cozinha. Parou e contornou os degraus de pedra para poder ver 
melhor. A polpa de um tomate maduro tinha sido esfregada na tinta recente.
   - Raios partam! - praguejando com um marinheiro, Zeke dobrou a esquina da casa e deu de caras com muitas outras manchas vermelhas na pintura. E no era tudo. 
A porta de correr da sala e a janela da casa de banho estavam estilhaadas, e a porta do barraco estava pendurada numa dobradia, as barras de reforo partidas 
ao meio.
   Quando Zeke se voltou para inspeccionar a horta, foi percorrido por uma vaga de desgosto. Os tomateiros e o milho pareciam ter sido esmagados por um tornado. 
Uma fria sbita e escaldante apoderou-se dele. Aquilo no era apenas uma partida, mas sim vandalismo maldoso. As manchas de tomate nunca sairiam das paredes. Teria 
de as pintar de novo. E isso para no falar da despesa para substituir as janelas e a porta do barraco.
   Levado pela fria, Zeke largou campo fora, seguindo as pegadas do rapaz. "Mas onde  que este mundo vai parar?" perguntava ele a si mesmo, vencendo a distncia 
com grande passadas. Exactamente como ele desconfiava, as pegadas levavam  quinta antiga, uma monstruosidade branca de dois pisos com um alpendre a toda a volta, 
tinta a descascar, e um telhado de chapas de madeira pintadas de verde a gritar por conserto. Quando Zeke entrou no ptio lateral, semeado de ulmeiros e carvalhos, 
viu movimento no relvado da frente. Ainda com passos decididos, contornou a casa, com a esperana de apanhar o rapaz antes que ele fugisse para o interior.
   Em lugar de o encontrar, deu de caras com uma mulher. No havia dvidas quanto a isso. Estava debruada sobre uma grande mesa de madeira, tentando cobrir uma 
variedade de coisas com uma folha de plstico azul que se enfunava constantemente com a brisa. O vestido preto mnimo que ela tinha deixava-lhe as coxas praticamente 
descobertas, revelando pernas longas e bem desenhadas da cor de caf bastante diludo com leite. Quando ela se esticou mais um pouco para apanhar o plstico, a bainha 
subiu ainda mais. "Meu Deus." Se ele soubesse que algum assim vivia na quinta do lado, j teria aparecido para pedir uma chvena de acar.
   - Peo desculpa - disse ele para o bonito traseiro.
   - Oh! - sobressaltada com a voz dele, ela endireitou-se e voltou-se de repente.
   A fachada era to agradvel  vista como a traseira. Normalmente, Zeke preferia mulheres mais magras, de acordo com a moda, mas decidiu rapidamente que havia 
algo a dizer sobre as mulheres generosamente curvas em todos os devidos lugares, especialmente quando as ditas curvas eram exibidas em tecido preto, justo e bastante 
revelador.
   Desculpe. No ouvi o seu carro. - Ela puxou o vestido para baixo e apontou para a coleco de tralha espalhada sobre a mesa. - Estava s a arrumar as coisas at 
amanh, mas se quiser dar uma vista de olhos, esteja  vontade.  o terceiro dia, e acabei de pr os preos em tudo.
   Zeke decidiu que ela devia estar a fazer uma venda de garagem. Infelizmente, o nico artigo que lhe interessava no tinha uma etiqueta ile preo. No obstante 
a forte camada de maquilhagem, ela era linda. Uma juba de caracis negros descia-lhe abaixo dos ombros, os quais se encontravam nus  excepo das finas alas pretas. 
A boca era generosa, macia e definida por um batom escuro cor de vinho, o lbio inferior revirado e brilhante  luz do sol, o superior com a forma tentadora de um 
arco. Acima do corpete do vestido, seios cheios e plidos num decote que convidava o olhar. Educado como um cavalheiro, Zeke resistiu ao convite, baixou os olhos 
e deu por si a olhar antes para as pernas. "No pode ser."
   Sentiu o aroma de baunilha, que o perturbou ainda mais. Os seus momentos mais agradveis eram passados na cozinha.
   - Eu, hmm... no estou interessado em comprar nada - conseguiu ele acabar por dizer.
   Alisando novamente a saia curta, ela brindou-o com um olhar interrogativo, os olhos castanhos calorosos ao sorrir.
   - Nesse caso, veio ver o meu pai?
   Durante um momento embaraoso, ele no conseguiu lembrar-se do motivo da sua presena ali. Ento, olhou para os ps, viu um pedao de tomate colado  biqueira 
da bota de vaqueiro, e recordou-se. Antes de se poder lanar numa explicao, ela sorriu de novo, fazendo uma covinha na bochecha:
   - Tem a certeza de que no consigo vender-lhe nada? Tenho um conjunto de ferros de golfe Ping que est como novo.
   "Podias vender-me praticamente qualquer coisa." Zeke abanou a cabea.
   - No sou apreciador.
   - Ento, e que tal umas calas de treino em muito bom estado? - Mirou-o com um olhar avaliador. - Provavelmente, no. O Robert  um bom bocado mais baixo. - Os 
olhos dela quase danavam, marotos. - Mas tenho uma excelente caadeira, e estou disposta a vend-la por quase nada, juntamente com um kit de recarga que nunca foi 
usado. Tambm tenho todos os nmeros da Playboy desde Maro de 1970. Pode ficar com tudo por um dlar.
   - Grande coleco.
   - Sim, bem o Robert ... - ela calou-se e encolheu os ombros. Algo de sombrio passou-lhe pelos olhos, velando-lhes momentaneamente o brilho. -  um apreciador, 
por assim dizer...
   Zeke no percebia como  que qualquer homem no seu juzo perfeito podia olhar para outras mulheres quando tinha aquela em casa. Com um suspiro, ela voltou ao 
seu normal, as sombras desaparecendo do olhar. O sorriso malandro era contagioso, e Zeke deu por si a sorrir.
   - Por acaso no estar a divorciar-se? - perguntou ele.
   - J est feito. Agora, estou apenas a tentar recuperar o que puder e vingar-me um bocadinho.
   Ela era mulher para fazer qualquer homem chorar com um baloiar daquelas ancas. Zeke manteve os olhos fixos no rosto dela e deu o seu melhor para parecer um menino 
de coro.
   - Se est interessado numa camisa da sorte com provas dadas ou numa camisola de universitrio, veio ao lugar certo. - Ela tinha um par de sapatos pretos de salto 
alto de tiras que realavam os tornozelos estreitos e as barrigas das pernas torneadas. Enquanto contornava a mesa para ir buscar o plstico, equilibrava-se nas 
pontas dos ps para evitar que os taces se enterrassem na relva. - No quero ser desagradvel, mas estou a ficar atrasada para ir trabalhar. Se quer ovos ou leite, 
o meu pai est em casa.
   Zeke interrogou-se sobre o tipo de trabalho que ela poderia fazer, para estar vestida daquela maneira. "Nem penses nisso, rapaz." Ela parecia estar perto dos 
trinta, tanto para menos, como para mais, o que, se tivesse casado nova, a deixava com a idade certa para ser a me do atirador de tomates. Zeke olhou para aqueles 
olhos bonitos e lamentou o motivo que o levara ali. Duvidava que ela gostasse de saber que o seu filho acabara de provocar danos dispendiosos na casa e no jardim 
do vizinho.
   - Sou o Zeke Coulter. Vivo aqui ao lado.
   - Ah, o novo vizinho do meu pai. - Ela acabou de puxar o plstico para cima da mesa e avanou para lhe apertar a mo. - Ainda bem que finalmente nos conhecemos. 
Quando voc se mudou fiz-lhe um bolo, mas aconteceu uma desgraa antes que eu tivesse tempo de o tirar do forno. A minha filha, Rosie, estava a saltar  corda na 
cozinha.
   - Ui. Gente a saltar  corda e bolos no forno no  uma boa mistura. Zeke apertou-lhe a mo, tendo o cuidado de no usar muita fora. Os dedos dela eram esguios 
contra a sua palma calejada. - Foi uma pena. Adoro um bom bolo.
   - Eu no disse que era bom. - Ela torceu o nariz. - No sou grande cozinheira, lamento. E provvel que no tivesse crescido. A Rosie foi apenas uma boa desculpa.
   Com aquele aspecto, quem precisava de dotes culinrios? Contrariado, Zeke largou-lhe a mo.
   - E o seu nome ?
   - Oh! - Ela riu-se de novo e revirou os olhos. - Peo desculpa. Natalie Patterson. - Ela libertou os dedos e olhou para o relgio.
   - Tenho a certeza de que gostaria de conhecer o meu pai. Se vier comigo at casa, apresento-lho antes de agarrar na carteira e sair.
   Mais uma vez, Zeke pensou qual seria o trabalho dela. Empregada de mesa num bar, provavelmente, mas como  que podia sobreviver a um turno de oito horas com aqueles 
saltos?
   - Por acaso, conhecer o seu pai no foi o que me trouxe aqui. - Ele queria ter uma forma mais branda de lhe dizer aquilo, mas a franqueza era mais o seu estilo. 
- Quando cheguei a casa, h poucos minutos, vi um rapaz a fugir do meu quintal. Segui-o at aqui.
   O sorriso dela desvaneceu-se lentamente.
   - Deve ser o meu filho, o Chad. H algum problema?
   - Pode-se dizer que sim. - Zeke explicou-lhe o que tinha acontecido. - Calculando por alto, e se for eu a fazer os consertos, diria que so cerca de mil dlares 
de prejuzo. Para no falar no trabalho que investi na horta e que foi por gua abaixo. Tenho andado de volta daqueles tomateiros desde o princpio de Junho, e, 
finalmente, j estavam maduros.
   As sobrancelhas bem desenhadas dela uniram-se quando ela franziu o sobrolho.
   - Oh, Sr. Coulter. Lamento imenso.
   Zeke esperava que ela saltasse em defesa do filho, no que conclusse imediatamente que o rapaz era culpado.
   - No mais do que eu.
   Ela esfregou os braos nus como se quisesse proteger-se do frio e voltou-se na direco da casa.
   - Chad! - chamou ela. - Podes vir aqui fora, se fazes favor?
   Zeke reparou que as janelas antiquadas tinham sido abertas para deixar entrar a brisa. Atravs de uma rede descolorida pelo tempo, um homem de idade com cabelo 
branco e despenteado olhava para eles.
   - O que  que passa, Nattie? Precisas de mim a fora?
   - No  nada, av. S quero falar com o Chad.
   - Chad! - berrou o velhote. - A tua me est a chamar!
   O vento aumentou, trazendo com ele o ar refrescante do fim de tarde que tornava os Veres no Oregon Central to agradveis. "Nattie." Zeke gostou daquele nome. 
Assentava-lhe bem - doce e atrevido. A brisa empurrou-lhe algumas madeixas de cabelo encaracolado para a cara. Quando ela os afastou, ele aproveitou a oportunidade 
para lhe estudar as feies, que pareciam ainda mais perfeitas quando observadas mais de perto. Mas do rosto definidas, um narizinho perfeito, uma boca que pedia 
para ser beijada, e uma tez impecvel, dourada pelo sol.
   A porta de rede da frente abriu-se, e o rapaz saiu para o alpendre. Deitou um olhar a Zeke que queimava com ressentimento. Em seguida, baixou a cabea e desceu 
os degraus raquticos de madeira. Quando chegou ao lado da me, meteu as mos nos bolsos das calas de ganga, baixou os ombros e comeou a dar pontaps num tufo 
de erva.
   - Chad - comeou Natalie -, este senhor diz que lhe estragaste a horta, atiraste tomates  casa dele, partiste duas janelas e avariaste a porta do barraco.
   Finalmente, o rapaz levantou a cabea. Uma trunfa de cabelo cor de mel escuro caiu-lhe sobre os olhos, os quais eram um reflexo dos da me.
   - E ento?
   No era o que Zeke estava  espera. Nenhuma negao? No que mentir tivesse sido uma sada inteligente. A T-shirt dos Portland Trail-blazers e as sapatilhas Nike 
estavam sujas de polpa de tomate.
   - E ento? - Natalie agarrou no brao do rapaz e abanou-o ligeiramente. -  s isso que tens para dizer? O Sr. Coulter diz que causaste pelo menos mil dlares 
de prejuzo. Eu no tenho tanto dinheiro. Tu sabes isso.
   Os olhos do rapaz brilharam de fria:
   - Telefona ao pai. Ele tem bastante.
   Natalie parecia querer dizer alguma coisa, mas prendeu o lbio inferior entre os dentes e manteve-se calada. Por fim, deixou escapar um suspiro.
   - Oh, Chad. O teu pai nem sequer paga a tua penso de alimentos. O que  que te leva a pensar que te vai ajudar com isto?
   O rapaz sacudiu o brao.
   - A culpa  tua se o pai no manda cheques. Ele odeia-te,  por isso. Se ele souber que eu estou com problemas,  diferente. Vais ver.
   Antes que ela pudesse responder, a porta de rede abriu-se de novo. O homem de idade que Zeke vira antes atravessou o alpendre e desceu os degraus. Usava um macaco 
de ganga coada, uma camisola interior bastante usada, e um par de chinelos velhos de sola de couro nos ps ossudos.
   - O que  que se passa aqui? - as sobrancelhas grisalhas uniram-se acima dos olhos azuis reumosos.
   Natalie poisou uma mo no ombro do filho enquanto se voltava para responder ao av:
   - Este senhor  o nosso novo vizinho, av. Parece que o Chad a fez bonita em casa dele; entre outras coisas, atirou tomates s paredes. Ele calcula que o prejuzo 
seja de mil dlares ou mais.
   - Ha - exclamou o velhote, deitando um olhar imperioso a Zeke. - Encontrou algumas impresses digitais nesses tomates, foi?
   O absurdo da pergunta fez com que ele no respondesse de imediato. Olhando para o rapaz, acabou por dizer:
   - Nem foi preciso procur-las. O rapaz est coberto de polpa de tomate.
   O av de Natalie virou-se, estreitou os olhos e olhou para o seu bisneto. Quando voltou a olhar para Zeke, disse:
   - Os tomates so bastante vulgares por aqui. At ns temos uns quantos prontos para serem colhidos.
   - Av - interveio Natalie. - Por favor. S est a piorar as coisas.
   - Hmmf. A piorar como? - Prendeu os polegares nas alas do macaco, baloiou-se para trs e para a frente e olhou para Zeke. - Sabe com quem  que se est a meter, 
rapaz? Westfields, nem mais.
   O nome no lhe disse nada, mas Zeke absteve-se de o dizer.
   - Os Westfields andam por aqui h quase cem anos - prosseguiu o velhote. - No venha c fazer acusaes  toa sem ter provas. No reagimos bem quando tentam manchar 
o nosso nome.
   Zeke tambm no reagia bem quando lhe manchavam a casa, mas, mais uma vez, calou-se. A cara do homem parecia um pimento e ele no queria que o coitado tivesse 
um ataque.
   Natalie largou o filho para passar um brao em redor dos ombros frgeis do av.
   - Ento, av, est a perder o seu jogo na televiso.
   - O jogo que v para o raio que o parta! - exclamou ele. - At parece que no tenho nada de melhor para fazer! - A sua boca engelhada apertou-se ainda mais. - 
Estou a convid-lo educadamente a sair da minha propriedade, senhor. O nosso Chad  um bom rapaz. No era capaz de fazer nada do que voc diz que ele fez. Estamos 
entendidos?
   - Av, por favor - insistiu Natalie, mas desta vez com um tom mais firme. - J chega. O Sr. Coulter no foi desagradvel e o Chad confessou.
   - O qu? - O av pestanejou. Virou-se novamente para trs e olhou para o rapaz. - Isto  verdade, Chad?
   O rapaz assentiu, amuado. Ento, a porta de rede abriu-se outra vez e uma sereia de cabelo escuro, minissaia vermelha e camisola de alas apareceu no alpendre. 
Era muito parecida com Natalie, mas o cabelo comprido e ondulado estava penteado com gel e a rapariga caminhava com as pernas hirtas, assentando o peso do corpo 
nos calcanhares. Zeke olhou para os ps descalos e viu que ela tinha bolas de algodo entre os dedos.
   - Ol - disse-lhe ela com um sorriso atrevido. - Sou a Valerie, irm mais nova da Natalie. - Tendo parado junto  balaustrada do alpendre, descontraiu-se, poisou 
uma mo esguia sobre a anca e piscou um olho. - Ouvi algum falar em novo vizinho?
   - Sou o Zeke Coulter. - Teria percebido que ela era a irm mais nova de Natalie sem que ningum lho dissesse. As duas mulheres podiam ter sido feitas com o mesmo 
molde. Calculou que a verso mais nova estaria no princpio da casa dos vinte, no propriamente menor, mas quase. - Comprei a quinta aqui ao lado.
   - Altamente - disse Valerie, passando provocadoramente as pontas dos dedos pelo osso da anca. - J no era sem tempo, alguma coisa interessante neste fim de mundo. 
- Rebentou um balo de pastilha elstica, um hbito que irritava Zeke, e sorriu, com uma covinha na bochecha idntica  de Natalie. - S c estou h duas semanas, 
e j estou a morrer de tdio.
   A insinuao dava a entender que ele lhe poderia proporcionar alguma diverso bastante desejada. O cheiro do seu perfume chegou at ele. Obsession. Zeke reconheceu-o 
porque a sua irm Bethany o usava muitas vezes. No havia dvida. Valerie era uma dose e tanto, toda ela curvas e pernas compridas, com olhos grandes, escuros e 
expressivos, capazes de tirar o ar a um homem antes que ele se apercebesse que estava a afogar-se. Zeke j aprendera h muito a no se aventurar em guas profundas. 
Apenas se sentia mais velho do que Matusalm quando olhava para ela.
   Fez por no sorrir e devolveu a sua ateno a Natalie, que continuava a tentar acalmar o av. Ela tambm no fazia o seu tipo. "Mas  agradvel  vista." Ele 
preferia mulheres naturalmente bonitas que no precisavam de muita maquilhagem, saltos de agulha e vestidos pretos reduzidos para chamar a ateno de um homem.
   Natalie olhou novamente para o relgio. Deu uma palmadinha no ombro do av e disse:
   - Av, agora quero que volte para dentro. - Virou-se para o filho: - Tu tambm. E para o teu quarto, meu menino. Sem televiso, sem jogos de computador, sem msica, 
e sem Harry Potter. Quero que fiques a olhar para o tecto e penses no que fizeste. Amanh de manh voltamos a falar e decidimos o teu castigo.
   Nos tempos de Zeke, o castigo teria sido resolvido com um cinturo. Quando era rapaz, detestava aquelas idas ao celeiro com o pai, mas a dor fizera-lhe companhia 
durante horas e fizera-o pensar duas vezes antes de voltar a fazer asneira. Ao ver Chad afastar-se, tentando conservar a sua imagem de duro, Zeke no conseguiu 
deixar de pensar que uma visita ao celeiro das antigas era o que ele estava a precisar.
   Ouviu a porta de rede bater de novo. "Porque  que no estou admirado?" Ele era um de seis filhos e crescera sempre com bastante gente por perto. Enquanto olhava 
para a personagem mais recente do cl Westfield, uma verso mais nova do av, com cabelo grisalho, menos rugas e macaco remendado com buracos nos joelhos, Zeke 
decidiu que os seus parentes, em comparao, eram bastante normais.
   - Pai, o que  que est a fazer aqui? - perguntou o mais novo, arrastando-se pelo relvado com uma mo apoiada nos rins. - Parece-me que a Natalie lhe est a dizer 
para estar calado, mas o pai no est a ouvir.
   Natalie deitou-lhe um olhar implorativo.
   - Pai, importa-se de o levar para dentro? No est a ajudar nada.
   O pai coou a cabea, a qual, verdade fosse dita, no parecia precisar de champ.
   - Pai, tem de voltar para dentro. A Nattie toma conta do assunto.
   - No toma, no. Precisa de um homem para a defender a ela e ao rapaz. Aquele marido da treta anda demasiado ocupado com a sua rameira loira para olhar pela famlia. 
S sobramos os dois.
   O filho passou um brao pelos ombros do velhote.
   - Vamos, pai. J conhece aquela anedota do chiuaua a fazer chichi contra uma boca-de-incndio? Pensamento positivo no  tudo.
   - Um qu a fazer chichi contra o qu? - Era evidente que o av no gostara da comparao. - O estupor  grande, no nego, mas no tenho medo dele. Se eu bater 
num homem e ele no cair, dou a volta para ver o que  que o est a segurar!
   Natalie fechou os olhos enquanto o pai e o av se afastavam. A cada passo, o av resmungava a respeito de O Juiz Decide e de a sua neta mandar o filho para a 
cadeia. O pai de Natalie limitava-se a abanar a cabea, continuando a ampar-lo.
   Natalie suspirou, lanou um olhar implorativo a Zeke e disse:
   - Gostava de poder dizer que ele sofre de Alzheimer.
   Zeke entendeu. Os seus parentes no eram to pitorescos, mas houvera alturas em que os irmos lhe tinham dado motivo para se sentir embaraado. Olhou para trs 
de Natalie, no resistindo a mirar as pernas de Valerie enquanto ela ajudava o pai e o av a subirem os degraus, uma proeza para quem tinha bolas de algodo entre 
os dedos dos ps.
   - A Valerie acabou com o namorado e perdeu o emprego. - Natalie encolheu os ombros. -  de famlia, parece. Quando tudo corre mal, voltamos a correr para a quinta. 
- O seu sorriso foi pouco convincente. Respirou fundo. - Fao questo de pagar o prejuzo da casa e da horta - garantiu-lhe ela. - O Chad est a passar por um mau 
bocado, ter de aceitar o divrcio... e outras coisas. Tem andado a fazer-se difcil. Acho que tem a esperana de fazer qualquer coisa to m que, finalmente, o pai 
lhe d alguma ateno.
   - O pai dele vive longe?
   Ela abanou a cabea.
   - No. Aqui mesmo, em Crystal Falls. S que... anda ocupado.
   "Com a rameira loira?" Zeke era incapaz de pensar que qualquer pai digno desse nome permitisse que uma mulher fosse mais importante do que o seu filho.
   O pescoo de Natalie agitou-se quando ela engoliu.
   - Oia, Sr. Coulter - o seu olhar perdeu-se nos campos que os rodeavam. - Tenho a certeza de que no est interessado na nossa dinmica familiar. Bastar dizer 
que eu sei que o Chad fez os estragos na sua casa e na sua horta. No duvido. - Olhou-o nos olhos. -  s que... bem, actualmente, no estou na melhor situao para 
o compensar. - Apontou para a mesa atrs dela, o que disse a Zeke que a venda fora originada pela necessidade e no por uma simples vontade de vingana. - Gostava 
de lhe dizer que pago no ms que vem, ou no seguinte. - Endireitou os ombros. - Mas a verdade  que no sei muito bem quando  que vou poder dispensar mil dlares. 
Posso pagar em prestaes?
   Zeke entendia que ela devia estar a passar por um perodo difcil. Ouvira o suficiente para saber que o ex-marido no estava a cumprir as suas obrigaes, e criar 
dois filhos sem ajuda no podia ser fcil. Por outro lado, todavia, o filho dela tinha feito estragos na propriedade de Zeke. Ele no queria ser desagradvel e chamar 
a Polcia, mas tambm no podia deixar passar. Quando um rapaz causava prejuzos dispendiosos, tinha de ser chamado  responsabilidade.
   Zeke esfregou o queixo. No queria que aquela partida, se  que lhe podia chamar tal coisa, ficasse registada no cadastro de Chad.
   - E se fizssemos um acordo?
   Os olhos dela encheram-se de desconfiana.
   - Que tipo de acordo?
   Ele quase sorriu. Ela era tentadora, mas ele no ia negociar uma mulher, por mais interessante que a perspectiva pudesse ser.
   - Estava a pensar que talvez o Chad pudesse pagar a dvida com trabalho. Sai mais barato do que se for eu a fazer os consertos. Porque  que ele no vai l ajudar-me?
   - No sei se ser boa ideia.
   Quanto mais pensava naquela soluo, mais ele achava que era uma excelente ideia. Inspirada, at. O rapaz tinha um problema. Um pouco de trabalho rduo talvez 
lhe fizesse bem.
   - Pelas minhas contas, pagando-lhe o ordenado mnimo, ele deve-me... - Zeke fez algumas contas de cabea -... cerca de cento e quarenta horas. Contando com uma 
semana de quarenta horas, ficamos com - fez mais contas - trs semanas e meia.
   Ela parecia aflita.
   - Mas ele tem o campo de frias.
   - Campo de frias?
   - Em Lake of the Woods, na ltima semana de Agosto. Vai para l lodos os anos.
   Zeke alou uma sobrancelha:
   - Mas isso no  caro?
   -  da igreja. So os midos que conseguem o dinheiro com vendas de bolos e a lavar carros. Ele j tem tanta coisa na vida que ficou virada do avesso. No lhe 
posso tirar isto tambm. - Natalie parecia estar a pensar. - Ele no poderia trabalhar durante trs semanas? Eu vou at l e acabo o resto por ele, sem problema.
   Zeke no queria acreditar na oferta. J a vira a olhar para o relgio mais de uma vez. Algures, tinha um turno para fazer. O que  que ela se propunha fazer, 
levantar-se depois de algumas horas de sono e trabalhar o dia inteiro durante meia semana, para saldar a dvida do filho? Nem pensar.
   - O rapaz  que tem de resolver a sua trapalhada. - Para Zeke, parecia bastante simples. Fazes asneira, tens de pagar por ela. - Ele salda a dvida com trabalho 
dele ou eu chamo a Polcia, a escolha  sua.
   - Mas...
   Zeke fora criado pelo pulso de ferro do seu pai. O que estava certo, estava certo. Se ele estivesse no lugar de Chad, teria apanhado uma tareia de cinto e ainda 
teria de trabalhar para pagar a dvida.
   - Vamos esclarecer uma coisa, Sra. Patterson. No estou disposto a ceder mais do que isto.
   - O Chad  muito... - ela calou-se e fitou-o com um olhar suplicante. - Ele passou por muito, Sr. Coulter, coisas que voc no entende. Nesta altura, est muito 
sensvel.
   Sensvel? O rapaz era um gatuno em potencial.
   - A minha oferta  esta.  pegar ou largar.
   - Eu percebo que esteja zangado. Essa  uma das minhas preocupaes. No quero o meu filho preso a um capataz furioso durante trs semanas e meia. Ele precisa 
de ir para o campo de frias. Precisa da interaco com os outros midos e de algum tempo com os orientadores.
   Ele precisava era de um bom pontap no traseiro. Mas Zeke no queria discutir mais.
   - Espero ver o seu filho  porta de minha casa amanh de manh, s oito - disse ele com a sua "voz de patro", o que lhe era bastante fcil depois de lidar com 
o incompetente Randall durante seis meses. - Se ele no aparecer, entrego o assunto s autoridades.
   Zeke sabia que no podia continuar ali, a olhar para aqueles olhos castanhos suplicantes, como tal, deu meia-volta e arrancou. Tinha dado trs passos quando ouviu 
um silvo malvolo. Antes que tivesse tempo para se virar, alguma coisa mordeu-lhe o traseiro. Quando olhou, deu de caras com um ganso frentico, a bater as asas 
e decidido a causar-lhe danos fsicos.
   - Chester! Pra com isso! - ordenou Natalie. - Meu Deus. Sr. Coulter, peo desculpa! A Rosie deve t-lo deixado sair. Tive-o o dia inteiro na capoeira por causa 
da venda. Ele detesta estranhos.
   Tentando manter a sua dignidade, Zeke enxotou o ganso que, entretanto, tentava bicar-lhe o peito. No havia nada mais ruim nem mais eficaz do que um ganso a tentar 
proteger o seu territrio. Nem sequer um Rottweiler era to assustador.
   Zeke fez a nica coisa que qualquer vaqueiro com algum amor  sua pessoa podia fazer.
   Largou a fugir.
   
Captulo Dois
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   Hesitando entre o riso e as lgrimas, Natalie ficou a ver Zeke Coulter correr at casa. Com um corpo esguio e musculado graas a anos de trabalho rduo, possua 
a confiana descontrada que lhe dizia que a indumentria de vaqueiro no era s para fazer figura. Todavia, com um intervalo de alguns passos, olhava por cima do 
ombro para se certificar de que no corria o risco de ser atacado pelo ganso da famlia Westfield.
   Em circunstncias normais, Natalie teria ficado incomodada ao ver Chester bicar um vizinho, mas a atitude indiferente de Coulter ao saber que um rapaz de onze 
anos poderia perder o campo de frias contribua bastante para lhe esfriar a simpatia. Chad fizera uma grande asneira, e merecia sofrer as consequncias, mas faz-lo 
perder algo que ele aguardara com tanta expectativa durante todo o Vero parecia-lhe um castigo demasiado severo.
   Quando a criatura finalmente desistiu da perseguio e voltou para o quintal, Natalie baixou-se para lhe afagar o pescoo.
   - Lindo menino! - Sabia que era uma falta de caridade dizer aquilo, mas foi mais forte do que ela. Chad sofrera tantas contrariedades durante aqueles ltimos 
meses. No era justo sofrer mais uma. Com um risinho, acrescentou: - Assim  que . Puseste-o a andar num instante.
   Chester grasnou e bicou-lhe a mo  espera de uma recompensa.
   - Lamento - murmurou ela. - No sabia que ias ser o meu cavaleiro emplumado.
   Nitidamente orgulhoso do seu feito, Chester abriu as asas e grasnou baixinho. s vezes, Natalie quase era capaz de jurar que aquele ganso tonto era capaz de falar. 
Bateu-lhe no bico com uma unha.
   - Sim, fizeste um belo trabalho - concordou ela. - Talvez o homem mau aprenda a no ser to desagradvel e mando da prxima vez.
   "Prxima vez?" Natalie estremeceu s com a ideia. Se Chad pisasse o risco mais uma vez, Zeke Coulter poderia chamar a Polcia.
   Pelo canto do olho viu Rosie, a sua filha, aproximar-se. O ganso decidiu retirar-se enquanto ela se endireitava e voltava para a filha.
   - Ol, querida. Que tal foi a soneca? - Era a terceira vez naquela semana que Rosie adormecia a ver televiso ao fim da tarde. Normalmente, a rapariga s fazia 
uma sesta se fosse obrigada. A sbita alterao do seu padro de sono preocupava Natalie. Estaria a sua filha mais transtornada com as mudanas do que deixava transparecer? 
- Apagaste durante trs horas.
   - Perdi o Scooby-Doo - queixou-se Rosie.
   - Ui. - Natalie acocorou-se para olhar a sua filha nos olhos. - Talvez volte a passar e o av te deixe ver.
   - Talvez. - Rosie esfregou os seus olhos castanhos e franziu-os para olhar para o campo. - Quem era aquele homem, mam?
   Natalie olhou por cima do ombro. O novo vizinho do seu pai era agora apenas uma mancha azul na distncia.
   -  o Sr. Coulter. Mudou-se para a quinta aqui ao lado.
   - Ele veio ver o que tnhamos para vender?
   Natalie decidiu ignorar a pergunta. Quanto menos Rosie soubesse sobre as asneiras do irmo, melhor.
   - Onde esto os teus sapatos, querida? Se andas descala na relva mula s picada por uma abelha.
   - Esqueci-me deles l dentro. - Rosie mexeu os dedos dos ps e levantou os braos. - Preciso de um abrao antes de a mam ir trabalhar.
   Natalie puxou-a para si.
   - Um grande ou um pequeno?
   - Gigante.
   Natalie fingiu apert-la com todas as foras que tinha, o que fez Rosie rir.
   - Vais ter saudades minhas?
   - Sim. No gosto que te vs embora.
   Natalie preferia no ter de ir. Antes do divrcio, a me dela ficava com as crianas durante a noite, mas tal deixara de ser possvel desde que a casa fora vendida 
e Natalie fora viver com o pai. Naomi Westfield recusava-se a estar na mesma casa com o seu ex-marido, Pete, durante muito tempo.
   Depois de a casa ser vendida, Natalie passara a deixar os filhos em casa da me antes de ir trabalhar, indo busc-los quando o turno terminava, mas no fora por 
muito tempo. O apartamento alugado de Naomi situava-se numa comunidade de adultos e, passada apenas uma semana, os vizinhos tinham comeado a queixar-se da presena 
das crianas.
   - Tenho de ir trabalhar, querida. No podemos comprar um buggy para a tua Barbie sem dinheiro, e eu no posso ganhar dinheiro se no trabalhar. Uma chatice, no 
?
   Rosie concordou.
   Natalie sentou-se nos calcanhares para ajeitar os caracis despenteados da filha. Rosie era to querida, um anjinho de cabelo escuro e olhos amendoados. Sempre 
que ela comeava a pensar no seu casamento como um erro terrvel, bastava-lhe apenas olhar para os seus filhos para saber que todos os desgostos e desiluses tinham 
valido a pena.
   - Vais divertir-te esta noite com a tia Valerie, no vais?
   - No vou, no. Tenho saudades da mam e da av.
   Natalie entendia-a bem. Valerie adorava os seus sobrinhos, e estava a fazer um esforo para substituir a irm durante a noite, mas a sua personalidade estouvada 
e gosto pela pndega estavam muito longe daquilo a que as crianas estavam acostumadas. A av e a me tinham regras e aplicavam-nas. Valerie achava que as regras 
atrofiavam a personalidade das crianas. Em vez de obrigar Chad e Rosie a comerem os legumes, fazia bonecas de batatas cozidas com cabelo de espinafre, ou criava 
paisagens nos pratos dos sobrinhos, usando ervilhas esmagadas como relva, brcolos como rvores, e juliana de cenoura para desenhar vedaes em redor de ovelhas 
de couve-flor.
   Num mundo mais perfeito, Robert estaria a desempenhar um papel mais importante na vida dos filhos para lhes tornar mais fcil aquela transio. Infelizmente, 
ele nunca fora muito virado para a famlia e agora muito menos, demasiado ocupado que estava - a passear pela cidade no seu Corvette vermelho com uma loira sexy 
debaixo do brao - para ter tempo para os filhos.
   - O que  que vais fazer com a tia Valerie esta noite? - perguntou Natalie.
   - Ela vai pintar-me as unhas, e depois vamos maquilhar-nos e experimentar vestidos.
   - Parece divertido.
   - Mas eu gostava que a me pudesse brincar connosco.
   - Oh, querida, eu tambm. - Natalie beijou-lhe a ponta do nariz. - Mas as mes nem sempre podem fazer o que lhes apetece. Eu tenho de ganhar a vida.
   - Eu sei - disse Rosie com uma expresso triste. - Talvez o av ganhe a lotaria amanh  noite.
   Natalie no pde deixar de sorrir. Invariavelmente, o seu pai e o seu av apostavam cinco dlares todas as semanas na loja Cedar Forks, com a esperana de ganhar 
o jackpot. Entre as perdas, passavam horas a discutir como iriam gastar o que ganhassem quando finalmente sassem os seus nmeros. O plano mais popular, para Rosie, 
era o av dela comprar um rancho enorme com casas suficientes para acomodar todo o cl Westfield.
   - Se o teu av ganhasse a lotaria era fantstico - concordou Natalie.
   - Ele e o bisav viviam numa casa e ns noutra. - Entusiasmada tom o tema, Rosie afastou-se, os seus olhos brilhantes como moedas acabadas de cunhar. - E a tia 
Valerie vivia na dela, e a av na dela tambm! - Sorriu de prazer. - E a me j no tinha de cantar para as pessoas no clube.
   Natalie tentou imaginar os seus pais a viver em harmonia como vizinhos. Mas no conseguiu convencer-se. Desde o divrcio, dez anos atrs, Pete e Naomi Westfield 
nem sequer eram capazes de passar o Na lai juntos sem discutirem sobre qualquer coisa.
   - Cantar no clube no  assim to mau - disse ela. E estava a falar a srio. Toda a sua vida desejara ser uma vocalista profissional, e actuar em palco no clube 
era o mais aproximado que alguma vez iria ter. Considerava os outros aspectos de ser dona de um negcio muito mais desagradveis, especialmente a rpida substituio 
dos empregados. Num aperto, podia servir  mesa ou fazer o turno de uma empregada de balco, mas ficar na cozinha era de mais. - Eu adoro cantar.
   Rosie encolheu os ombros.
   - Se o av ganhar a lotaria, eu deixo-te cantar para mim.
   Por cima da cabea da filha, Natalie olhou preocupada para o relgio. A viagem at  cidade demorava meia hora e ela tinha papelada e livros para tratar antes 
de subir ao palco.
   - Oh, meu Deus! - deu um beijo nos dedos rechonchudos da filha ao afast-los do seu pescoo. - Tenho de me pr a andar, minha querida. Estou muito atrasada.
   - Talvez o Frank possa tocar s o piano, como fez daquela vez em que apanhaste a gripe.
   O Blue Parrot estava  beira da falncia. Se Natalie no aparecesse, os clientes habituais poderiam pensar duas vezes antes de l voltar.
   - No, querida. Lamento. No me vou demorar assim tanto.
   - Mas eu vou estar a dormir quando chegares!
   - Seja como for, vou dar-te um beijo de boas-noites.
   - Prometes?
   - Prometo.
   Zeke no era capaz de se recordar da ltima vez em que estivera to furioso. No ptio, procedia ao inventrio dos estragos. A horta estava arruinada, as janelas 
partidas, o rabo doa-lhe graas ao raio do ganso, e, para rematar, a cerveja ficara morta depois de tanto tempo na carrinha. "Campo de frias?" Em que  que aquela 
mulher estava a pensar? O filho dela tinha, isso sim, de aprender uma boa lio.
   Irritado, foi buscar cartes ao barraco para tapar as janelas enquanto no pudesse substituir os vidros. Ao aproximar-se da porta avariada, o mau feitio aumentou 
ainda mais. Como  que um meia-leca daqueles era capaz de fazer tantos estragos? Olhou em redor  procura de algo que ele pudesse ter usado para partir as barras 
da porta. Nada. Por mais que lhe custasse a acreditar, decidiu que Chad devia ter rebentado a porta a pontap.
   Apenas a raiva podia dar tanta fora a um rapaz - uma raiva irracional, assassina. Aquela ideia f-lo acalmar-se um pouco. Talvez devesse estar mais preocupado 
com o rapaz do que com os prejuzos. O que o levaria a fazer uma coisa daquelas? Zeke nunca o tinha visto antes, como tal, a vingana estava posta de parte. Sobrava... 
o qu? Certamente, o rapaz no fizera aquilo apenas para chamar a ateno do pai.
   Enquanto cortava pedaos de carto com a dimenso das janelas, tentou imaginar como seria crescer sem um pai. Era como tentar imaginar viver sem braos. Os seus 
pais tinham sido fantsticos, ambos extremamente dedicados aos filhos. Zeke no conseguia recordar-se de uma nica ocasio, mesmo j adulto, em que o seu pai no 
estivesse presente para o ajudar.
   Nem todos os midos tinham essa sorte. s vezes, no obstante o esforo de ambos os pais, o casamento no aguentava. Quando isso acontecia, no era apenas a horta 
do vizinho que ficava em risco, especialmente quando um rapaz j no sabia em quem acreditar e no percebia por que motivo um dos seus pais parecia ter deixado de 
gostar dele.
   Exactamente s oito horas do dia seguinte, Zeke foi abrir a porta e deu de caras com um rapaz mal-encarado  sua espera no alpendre. Chad usava uma T-shirt Big 
Dog demasiado grande, cales largos que lhe ficavam bem abaixo dos joelhos, e os mesmos Nike encardidos com os atacadores desamarrados. Parecia-se com tantos outros 
que Zeke vira na cidade. S lhe faltava uma argola no nariz e uma tatuagem para estar completamente na moda.
   - A minha me diz que tenho de trabalhar aqui para lhe pagar os estragos - disse ele com uma expresso amuada.
   Zeke assentiu e abriu mais a porta.
   - Entra. J tomaste o pequeno-almoo?
   Chad fungou.
   - Acha que a minha me no me d de comer?
   "Toma, para aprenderes a no tentar ser simptico." Zeke foi para a cozinha.
   - Estou a comer ovos Benedict. Se no queres comer, podes ficar a ver.
   Chad arrastou-se atrs dele.
   - Ovos qu?
   - Ovos Benedict - repetiu Zeke. - Ovos escalfados e presunto sobre pezinhos torrados com molho hollandaise por cima.
   -  voc que cozinha? - perguntou Chad, incrdulo.
   - Claro que sim. - Zeke foi at ao fogo para aumentar o lume. - A criada tirou o ano de folga.
   Chad deixou-se cair numa cadeira com as pernas afastadas.
   - Voc  maricas, ou assim?
   Zeke deitou-lhe um olhar de esguelha.
   - A expresso politicamente correcta  homossexual, e no maricas.
   - E ento... voc  homossexual? - insistiu o rapaz com desdm.
   - As minhas preferncias sexuais no so da tua conta.
   -  isso, no ? Voc  homossexual. Por isso  que vive sozinho nesta casa grande e faz pratos esquisitos.
   - Talvez eu goste de viver sozinho e goste de cozinhar. J te passou isso pela cabea?
   - Pois, claro.
   Zeke recusou-se a deix-lo escapar com tanta facilidade:
   - Nada de cabelos na minha escova de dentes, nada de collants pendurados no chuveiro, nada de esperar para ir  casa de banho, nem discusses por causa dois canais 
de televiso. - Colocou uma tampa sobre a frigideira de Teflon. - De certeza que no queres comer nada? Ainda falta muito tempo para o almoo.
   O rapaz encolheu os ombros, o que Zeke tomou como um sim. Meteu mais duas metades de po na torradeira, foi buscar mais ovos ao frigorfico e voltou para junto 
do fogo. Minutos depois, quando entregou um prato a Chad, disse:
   - Quando acabares de comer, amarra os atacadores. Vamos usar ferramentas elctricas. No quero que tropeces e te magoes.
   - S os tots  que amarram os atacadores.
   - Nesse caso, vais ser um tot enquanto estiveres a trabalhar para mim.
   Chad empurrou os ovos com o garfo.
   - So esquisitos.
   - No comas. Mais fica para mim. - Zeke sentou-se do outro lado thi mesa para apreciar o seu pequeno-almoo. - Queres sumo de laranja?
   Chad encolheu outra vez os ombros e Zeke serviu-lhe um copo. O rapaz emborcou o sumo e depois provou a comida.
   - Blhc - disse ele, mas continuou a comer. - Ns nunca comemos os ovos assim.
   - Ento, como  que os comem?
   - Queimados... mexidos ou estrelados. Se a minha me o convidar para jantar, no aceite.
   Zeke quase sorriu, mas recordou-se da sua horta e conteve-se.
   - Algumas pessoas gostam de cozinhar; outras, no.
   - A minha me gosta. - Metade dos ovos j tinha desaparecido. - Mas pe-se a cantar enquanto cozinha e esquece-se da comida.
   Curioso, Zeke alou uma sobrancelha. Ao ver que o rapaz no avanava mais informao, no resistiu a perguntar:
   - O que  que ela canta?
   - Country, essencialmente. Finge que a esptula ou a colher  um microfone e dana pela cozinha.
   - Ah, ela tem boa voz?
   - O meu av diz que ela podia ter sido a nova Reba1. - Chad puxou pelo cabelo cor de mel escuro, que gritava por um bom corte. - Mas ela conheceu o meu pai, ficou 
grvida de mim, e teve de casar. Ele no gostava que ela cantasse e ela parou durante muito tempo. Agora, j  demasiado velha para chegar ao topo.
   - Demasiado velha? - Zeke imaginava que Natalie Patterson teria cerca de trinta anos. O que no era propriamente ser velha.
   - A minha me diz que as cantoras tm de chegar ao topo muito novas - explicou o rapaz. - Antes que o peito comece a descair e o traseiro a crescer. Ela tem covas 
de celulite nas coxas.
   Aquilo era mais do que Zeke queria ou precisava de saber. Levantou-se da mesa, recolheu os pratos e foi p-los no lava-loia. Enquanto limpava os restos de gema 
de ovo dos pratos e utenslios, imagens das coxas de Natalie Patterson passaram pela sua cabea. Definitivamente, no eram gordas e, se tinham covas, ele no tinha 
reparado.
   - Pronto para comear? - perguntou ele depois de carregar a mquina da loia.
   - Tenho escolha?
   - No.
   Cinco minutos depois, Zeke estava na rua com Chad, a lavar os restos de polpa de tomate das paredes. O rapaz trabalhava  velocidade de um caracol, passando mais 
tempo a limpar o suor da testa do que a esfregar.
   - Isso com genica - disse Zeke enquanto usava o ancinho, recolhendo restos de hortalias. - Deves-me cento e quarenta horas de trabalho a valer. Se te desleixas, 
no conto o tempo.
   Chad deitou-lhe um olhar furioso.
   - Estou a trabalhar.
   - Ests a fazer festas nessa parede. - Zeke atirou um monte de lixo para o carrinho de mo. - Se a tua dvida no estiver saldada quando a escola comear, ponho-te 
a trabalhar aos fins-de-semana e  noite depois da escola. Nada de jogos, nada de midas, acabou-se a diverso. A escolha  tua.
   Chad comeou a esfregar com mais energia. Quando j estavam a trabalhar h quatro horas, Chad disse que era tempo de fazer uma pausa. Sentaram-se  sombra de 
um carvalho no extremo do ptio e beberam praticamente dois litros de ch gelado.
   - Agora a srio, porque  que voc no  casado? - perguntou o rapaz.
   - Porque no quero.
   - Porqu?
   Zeke considerou a pergunta durante um momento. A resposta era que gostava de ser solteiro, mas contentou-se em dizer:
   - Porque sim.
   - Porque sim no  resposta. - Chad apontou com o copo na mo. - Para que  que tem uma horta se no tem mais ningum para comer estas coisas?
   - Gosto de ser o nico a com-las. - Zeke levantou-se. - Acabou-se o jogo das perguntas. Toca a trabalhar.
   Chad regressou  lavagem das paredes enquanto Zeke empilhava lixo no carrinho de mo e fazia inmeras viagens ao monte do adubo vegetal. Quando j tinha quase 
tudo limpo, Chad atirou a escova para o balde e voltou-se para ele com uma expresso revoltada.
   - Porque  que eu tenho de trabalhar cento e quarenta horas? Quando o trabalho estiver acabado, parece-me que a dvida fica paga.
   Zeke apanhou uns quantos tomateiros murchos e ps de milho que brados.
   - Ests a esquecer-te do custo dos estragos. Vidros novos, tinta e madeira no so coisas baratas, filho.
   - Eu no sou seu filho.
   Zeke endireitou-se e exercitou um ombro.
   - Tens razo. Se fosses, tinhas melhores maneiras e mais um pouco de tica no trabalho. - Inclinou a cabea na direco da parede manchada. - Tambm tinhas algum 
respeito pela propriedade alheia. Calculei as tuas horas com o salrio mnimo, o que  mais do que deves valer, e descontei algum tempo. Vai-me custar mil dlares 
ou mais para endireitar isto tudo. Se achas que no estou a ser justo, faz tu as contas, mas no no meu tempo.
   Ainda mal tinha acabado de falar quando viu uma mancha azul na esquina da oficina de cor creme, uma construo metlica que fazia as vezes de garagem, zona de 
trabalho e armazm. Voltou-se e viu Natalie Patterson entrar no seu ptio. Estava completamente diferente, mais parecida com a rapariga bonita e adorvel da casa 
ao lado do que com uma vamp, o cabelo escuro apanhado com uma mola acima da nuca e o rosto oval isento de maquilhagem. Usava calas de ganga desbotadas e uma camisa 
masculina branca, com as mangas enroladas at aos cotovelos. Os saltos de agulha da vspera tinham sido substitudos por sapatilhas encardidas.
   - Ol - disse ela.
   Zeke teve vontade de assobiar e dizer "Uau", mas comps a sua voz com uma indiferena estudada e respondeu:
   - Bom dia.
   Ela olhou em redor, registando o caos.
   - Eu, hmm, pensei que podia vir c dar uma ajuda - O seu sorriso era formal. - Dois pelo preo de um. Assim, o trabalho avana mais depressa.
   E Chad poderia ir para o campo de frias. Zeke cerrou os dentes. No ia desistir assim. O rapaz tinha feito os estragos e seria ele a pag-los.
   - Posso falar consigo? - perguntou-lhe ele.
   Ela fitou-o durante um longo momento antes de assentir. Zeke levou-a at  zona de cascalho onde costumava estacionar,  frente da oficina. Quando Chad j no 
os podia ouvir, virou-se para ela, poisou as mos nas ancas e olhou-a nos olhos.
   - Eu disse-lhe ontem  noite, no me parece uma boa ideia - disse ele em voz baixa.
   Ela pestanejou, conseguindo parecer simultaneamente inocente e sexy.
   - O que  que no  uma boa ideia?
   - Vir c ajudar.
   - Porque no?
   - Porque o rapaz tem de aprender uma lio.
   Duas manchas de cor surgiram sobre as mas do rosto delicadas. Os seus olhos castanhos brilharam de fria. Naquele instante, Zeke convenceu-se de que nunca tinha 
visto uma mulher to bonita.
   - Desculpe? O Chad  meu filho. Desde que voc seja compensado pelo prejuzo, no vejo em que  que a educao dele lhe possa dizer respeito.
   Ela tinha razo, mas Zeke preferiu ignor-la.
   - Foi ele quem vandalizou a minha propriedade. Deve ser ele a trabalhar. Deixei isso bem claro.
   -  verdade, mas voc estava zangado. Esperava que fosse razovel esta manh.
   - Estou a ser perfeitamente razovel.
   - Esto a acontecer vrias coisas na vida do Chad que voc no entende.
   - Entendo que ele j no tem idade para ser apaparicado e desculpado com tanta facilidade.
   - No estou a pedir isso. Apenas lhe peo que me deixe trabalhar tambm e seja justo.
   - Ao fazer eu mesmo as reparaes, estou a dar um desconto nas horas. Isso  justo. No pode negar.
   - O meu filho est a passar uma fase muito difcil.
   - Todos ns passamos por fases difceis. Isso no nos d licena para estragar a propriedade dos outros.
   - Quem  que o vai supervisionar durante trs semanas e meia? Voc no tem um trabalho?
   - Sou dono de uma loja de provises para ranchos. Coordeno os horrios, fao os livros e as encomendas  noite. Estarei aqui para tomar conta dele.
   Ela ficou ainda mais vermelha.
   - Continuo sem perceber em que  que a minha ajuda seria prejudicial. Isto resolvia-se mais depressa.
   - E o Chad podia ir para o campo de frias?
   Os olhos dela brilharam de indignao.
   - Voc est a passar das marcas, Sr. Coulter. No tem nada a ver com o campo de frias do meu filho.
   - A  que se engana. Passei a ter quando ele atirou o primeiro tomate. - Quando ela se preparava para falar de novo, ele levantou uma mo. - J expliquei as 
minhas condies. Se no lhe agradam, podemos sempre deixar que o castigo dele seja resolvido pelo tribunal.  o que voc quer?
   Ao ouvir a ameaa, ela ficou sem cor.
   - Sabe bem que no.
   - Ento, no insista. Ele no morre se pagar a dvida sozinho, e, ao mesmo tempo, aprende uma lio. Se isto no for atalhado j, o que  que ele faz a seguir, 
assalta uma loja de convenincia?
   - No seja absurdo! Ele estava s  procura de ateno.
   Era bvio que ela no tinha muita experincia com rapazes adolescentes. Se Chad continuasse naquele rumo, ela deixaria de conseguir control-lo dentro de poucos 
anos.
   - Misso cumprida. Conseguiu a minha, sem dvida.
   - Oh, quem me dera ter mil dlares. Pagava-lhe to depressa que at o deixava tonto. Se faz tanta questo em educar crianas, arranje algumas suas.
   - Era preciso uma aldeia. Leu esse livro?2
   Com os braos hirtos de cada lado do corpo, ela cerrou os punhos. Zeke ficou com a sensao desagradvel de que devia estar com vontade de lhe assentar um soco.
   - Voc  insuportvel. - Ela deu meia-volta e foi-se embora. Depois de dar alguns passos, virou-se e lanou-lhe um olhar furioso. - Tudo o que ele tinha foi-lhe 
tirado: a casa, a escola, os amigos, at o pai. Ir para o campo de frias era a nica coisa que lhe restava, e agora voc tambm lhe quer tirar isso.
   Natalie estava to furiosa quando chegou a casa que bateu com a porta ao entrar na cozinha. Ainda em camisa de dormir, Valerie estava ao fogo, a encher uma chvena 
de caf com uma cafeteira de alumnio amolgada que servia a famlia Westfield h geraes. Com o cabelo escuro preso no alto da cabea e a tombar para um lado, plpebras 
borradas de rmel, e a boca ainda manchada de vermelho das brincadeiras da vspera, parecia uma prostituta depois de uma noite difcil.
   - O que  que se passa contigo? - perguntou ela com um enorme bocejo.
   Ofegante devido  travessia do campo, Natalie dirigiu-se ao aparador para tirar uma caneca lavada.
   - Aquele homem.
   -Qual homem? - Valerie alou as sobrancelhas. - Se tem menos de quarenta e no  feio, d-me cinco minutos para tomar um duche e livro-te dele.
   - Tu s pensas em sexo?
   Valerie encolheu os ombros e sorriu.
   - Dar umas  bom. Se experimentasses de vez em quando, talvez estivesses menos azeda.
   Natalie encheu uma colher com acar e mexeu o caf com ela.
   - No me fiquei pelo azeda e fui directa para o simplesmente danada. Ele  c um parvalho.
   - Ele, quem?
   - Zeke Coulter. - Natalie foi sentar-se  mesa de madeira, a qual fora pintada de cinzento-claro algures durante a dcada de 1960, perdera a cor com os anos, 
e agora era uma manta de retalhos esfolada, com demos anteriores de tinta a espreitar por todo o lado. O pai delas recusava-se a comprar mveis novos porque aqueles 
ainda estavam em condies de ser usados. Natalie hesitava entre lixar a mesa at ficar na madeira original e serrar-lhe uma das pernas. - Fui ajudar o Chad com 
o trabalho, e ele recusou-se a deixar-me ficar.
   - Porqu? - Com cuidado para no entornar o caf, Valerie sentou-se e cruzou as pernas, revelando um par de coxas esguias e bronzeadas. - Pensei que gostaria 
de ter os consertos acabados mais depressa.
   - Nada disso. Acha que eu estou a apaparicar o Chad. Diz que ele tem de aprender uma lio. Como se tivesse alguma coisa a ver com a forma como educo o meu filho. 
Mas o que  que se passa com os homens? Nunca conheci um que no julgasse que era senhor do universo.
   Animado e sorridente, o av entrou na cozinha naquela altura. A p desde as cinco, j tinha acabado de ler o Portland Oregonian e queria comear a ver televiso.
   - O que  que ests a dizer? A tua carripana deu o berro? - A arrastar os chinelos, foi at ao fogo para voltar a encher a sua chvena de caf. - No vai ser 
barato. Uma pena que o teu pai esteja mal das costas. Podia p-la no elevador e consertava-a num instante. Como  que vieste para casa ontem  noite? O Frank trouxe-te?
   Valerie suspirou, mais parecendo um guaxinim contrariado com as manchas de pintura preta em volta dos olhos.
   - O carro dela est ptimo, av. Estvamos a falar de homens.
   O av resmungou e foi sentar-se  mesa.
   - No sabes falar de outra coisa, rapariga? Acabaste com o Keith h coisa de dias.
   - Kevin - corrigiu ela -, e foi h duas semanas.
   Ele abanou a cabea.
   - Se ele  um banana, porque  que foste viver com ele?
   Natalie bebeu um pouco de caf para esconder o seu sorriso.
   Quase a gritar, Valerie respondeu:
   - Ligue o aparelho! Eu no disse que ele era um banana, disse que tnhamos acabado h duas semanas!
   O av comeou a mexer no aparelho antiquado e encolheu-se quando o aumento do volume fez com que o mesmo guinchasse.
   - Raio de coisa!
   - Precisa de um novo - disse Natalie. -  provvel que a Medicare comparticipe.
   - Esse  que  o problema da gente nova. Tudo tem de ser novinho em folha. Como se as coisas velhas no tivessem valor. Este aparelho era suficientemente bom 
para a vossa av e serve perfeitamente para mim. - Assim que acabou de ajustar o aparelho, voltou um par de olhos interrogativos para Natalie: - Ento, que histria 
 essa com o teu carro?
   - O carro est ptimo. Eu estava s a queixar-me dos homens.
   O av deu-lhe uma palmadinha no brao.
   - No penses nisso, filha. Ests bem melhor sem ele.
   - Ela no estava a queixar-se do Robert. Foi o Zeke Coulter aqui do lado quem a deixou danada. - Valerie agarrou na caneca de caf com as duas mos e sorveu ruidosamente. 
- Ela foi l para ajudar o Chad com os consertos, mas o Coulter mandou-a para casa.
   - Porque  que ele fez isso? - perguntou o pai delas ao entrar na cozinha. - Seria de pensar que gostaria de ter mais ajuda.
   Natalie descreveu a conversa que tivera com Zeke. Quando tinha acabado, Rosie sentou-se  mesa com eles.
   - Ouvidos de criana... - disse Natalie aos adultos enquanto sentava a sua filha sonolenta no colo.
   Nem o av nem o pai perceberam a deixa, seguindo-se um debate animado. O av queria ir  quinta do vizinho e explicar-lhe como  que a vaca tinha comido a couve, 
uma forma antiquada de dizer que lhe apetecia assentar-lhe um pontap no traseiro. O pai rebateu a ideia, repetindo mais uma vez a piada do chiuaua. O av no gostou. 
Antes que Natalie desse por isso, a conversa tornara-se numa discusso.
   - Vocs tm sempre de discutir? - perguntou ela. - Porque ser que ningum nesta famlia  capaz de discutir alguma coisa sem gritar? Esto a enervar a Rosie.
   Os dois homens calaram-se. Em seguida, o pai perguntou:
   - Estamos a enervar-te, Rosebud?
   Rosie afastou a cara do peito da me e disse:
   - No.
   - Ests a ver? Ela percebe a diferena entre gritar e levantar a voz para nos fazermos ouvir.
   Arrancar um bom dia de trabalho de um rapaz contrariado era mais difcil do que Zeke esperava. Chad esfregava as paredes com pouca convico, deixando manchas 
de polpa de tomate atrs de si. A princpio, Zeke chamava-lhe a ateno para os lugares que tinham escapado. Mas ainda no era meio-dia e j decidira deixar passar. 
No havia como o presente para que Chad percebesse que as horas passadas a fazer um trabalho mal feito no seriam contabilizadas no pagamento da dvida.
   Ao meio-dia em ponto, Zeke encostou o ancinho e a forquilha ao barraco e disse-lhe que estava na hora do almoo. Quando o rapaz parou de trabalhar, sugeriu-lhe 
que fossem  cidade e comessem no McDonald's, o que o deixou consideravelmente mais bem-disposto.
   - Precisamos de tinta, barras para arranjar a porta, e tenho de encomendar os vidros para as janelas - explicou ele enquanto se dirigiam para a carrinha. - Podemos 
muito bem comer enquanto tratamos das coisas.
   Durante o caminho at Crystal Falls, Chad manteve-se encostado  porta do passageiro. Para quebrar o silncio, Zeke ligou o rdio. O seu CD preferido, o mais 
recente de Garth Brooks, comeou a tocar, enchendo o habitculo com a sua voz melflua, baladas sobre esperanas e sonhos realizados... e amores perdidos.
   Passados alguns minutos, Chad perguntou-lhe:
   - No tem mais nada para ouvir seno esta merda lamechas?
   - Beijas a tua me com essa boca?
   Chad revirou os olhos.
   - "Beijas a tua me com essa boca?" Voc j disse "merda". Eu ouvi.
   Culpado. Zeke tinha-se picado naquela manh e deixara escapar uma boa dose de improprios, sem parar para pensar que o rapaz estava a ouvir.
   - Eu sou adulto.
   - Pois, e ento? Os adultos podem praguejar, mas os mais novos no? No percebo. O meu av pragueja e o meu pai tambm. Ningum pestaneja sequer. Eu digo uma 
palavra feia e a minha me comporta-se como se estivessem a chover cobras.
   Zeke esteve quase para insistir que era adulto, mas aquela linha de defesa no lhe parecia bem. O rapaz tinha razo. Se os adultos davam um mau exemplo, ningum 
podia censurar um rapaz se fizesse o mesmo.
   - A partir de agora, se eu praguejar, tu tambm podes. Se eu no o fizer, no podes. Que tal?
   Chad parecia desconfiado.
   - Est a gozar, certo?
   - No, estou a falar a srio.
   - Pois. Se eu praguejar, vai logo dizer  minha me.
   Zeke estava decidido a ter cuidado com a linguagem quando o rapaz estivesse por perto, portanto, no havia problema.
   - No vou, no. Achas que tenho cara de queixinhas?
   - Todos os adultos so queixinhas.
   - Eu no fao queixinhas por causa de coisas destas. Ento, temos acordo?
   Chad encolheu os ombros, mas Zeke viu-lhe um sorriso nos cantos da boca.
   - Claro que sim. Aposto dez dlares em como voc pragueja pelo menos uma vez antes de voltarmos.
   - Est apostado.
   Depois de pararem para almoar e de tratarem de tudo o que tinham para fazer, Zeke voltava para casa em ligeiro estado de choque:
   - Ainda me custa a acreditar no dinheiro que me pediram pela merda do vidro.
   O rosto de Chad iluminou-se com um sorriso de orelha a orelha:
   - Tm de ganhar a merda da vida...
   Zeke fez uma careta e tirou a carteira do bolso.
   - Vai mesmo pagar-me?
   - Claro que sim. Uma aposta  uma aposta.
   Chad aceitou a nota de dez dlares. Um brilho maldoso era visvel nos seus olhos enquanto guardava o dinheiro no bolso.
   - Recebo mais uma de dez se voc voltar a praguejar antes de o dia chegar ao fim.
   - Apostado. - Zeke concentrou-se na estrada, convencido de que iria ganhar. Era uma simples questo de estar atento  linguagem.
   s trs da tarde, devia outros dez dlares ao rapaz. Ao abrir a carteira, disse:
   - J te ocorreu que esta situao no  justa? Deves-me mil dlares em reparaes. Porque  que os meus palavres no servem para abater na tua dvida?
   Chad abanou a cabea e estendeu a mo.
   - A minha me no criou nenhum tolo. Assim, estou a pagar a minha dvida e a ganhar algum.
   Zeke no pde deixar de se rir. Estava a comear a gostar daquele rapaz.
   - Se eu descontar na dvida, reduzo o nmero de horas que tens de trabalhar.
   Chad encolheu os ombros.
   - Trabalhar para si no  assim to mau. Pelo menos, no me aborreo.
   - Aborreces-te em casa?
   - Voc j passou o dia quase todo a ver O Juiz Decide?
   - No, no posso dizer que sim.
   - Uma grande seca. O meu av gosta de ver julgamentos e essas merdas. - Chad olhou de lado para Zeke. - Tenho direito a esta. Voc praguejou. O que quer dizer 
que eu tambm posso. Foi o nosso acordo.
   Zeke j comeava a arrepender-se.
   - Que tipo de julgamentos  que o velhote v?
   - Todos. Gosta especialmente de homicdios. Algum que ele no conhece matou outro algum que ele tambm no conhece, e ele no perde pitada.  uma seca. Ele 
fica fascinado com a parte forense. Os padres das manchas de sangue e assim.  um bocado arrepiante.
   - Cada cor, seu paladar, acho eu. - Zeke tirou uma fita mtrica do cinto. - J alguma vez usaste uma serra circular?
   - Voc quer que eu serre tbuas? - Chad deitou um olhar preocupado  madeira. - No me parece.  melhor eu apenas lavar a casa e assim.
   - Quem manda aqui sou eu - disse Zeke com firmeza enquanto lhe entregava uma viseira de proteco. - Se digo que vais cortar tbuas, tu vais cortar tbuas. Podes 
esfregar as paredes depois.
   O rapaz olhou para a serra como se fosse um escorpio.
   - Voc no sabe no que se est a meter. Sou muito desastrado.
   - Quem disse?
   - O meu pai. Diz que eu nasci com dez polegares e dois ps esquerdos.
   Zeke pensou que no havia de gostar de Robert Patterson.
   - Conversa de merda. Se tu s desastrado, eu no dei por isso.
   Chad sorriu e estendeu a mo.
   - So mais dez dlares para mim.
   - No so, no. No apostmos da ltima vez.
   - Uma pena. Esta estava no papo.
   Com dificuldade em acreditar que tinha escorregado de novo, Zeke abanou a cabea.
   - Nunca me tinha apercebido que praguejava tanto. - Alou uma sobrancelha. - Que sirva de lio para ti. Se apanhas o vcio, mais cedo ou mais tarde, espalhas-te 
 frente da tua me.
   Chad concordou, com uma expresso sria.
   - Pois, provavelmente. E ela fica mesmo incomodada,  melhor eu ter cuidado.
   - Chega de conversa. De volta  serra circular. No  preciso ser um cientista espacial para usar uma. Eu mostro-te.
   - No tenho jeito para aprender coisas novas - avisou-o o rapaz. Zeke teve um palpite de que aquela ideia tambm lhe deveria ter sido incutida pelo pai.
   - Ningum  bom em coisa nenhuma no princpio.  preciso prtica.
   - Vou estragar-lhe as tbuas.
   - No vais, no. Elas so compridas. Podes praticar nas pontas. Chad colocou a viseira e revelou-se um bom aluno. Prestando-lhe ajuda quando necessrio, Zeke 
mantinha-se atento, repetindo todos os avisos e precaues que o seu pai em tempos lhe transmitira.
   - Aponta a lmina para o lado maior da linha, seno a tbua fica curta.
   - Qual  o lado maior? - perguntou-lhe Chad. Zeke explicou-lhe e tocou na linha marcada a lpis.
   - Precisas de uma tbua exactamente com este comprimento. Se cortares aqui ou ligeiramente para dentro, perdes um bocado.  sempre melhor cortar pelo lado maior. 
Quase sempre, ficas com uma tbua com o comprimento desejado. Se ficar comprida,  muito mais fcil desbastar um pouco do que comprar mais madeira.
   Chad alinhou a lmina como ele lhe tinha mostrado. A serra guinchou e, a meio da tbua, os dentes ficaram encravados. Zeke agarrou rapidamente na serra.
   - No h problema. S reduziste um pouco a presso no boto.
   - A serra tentou virar-se contra mim - disse o rapaz, abalado.
   - Isso  porque os dentes ficaram presos. Mas saste-te bem. No perdeste o controlo da ferramenta e no deixaste que ela te fugisse. - Zeke ajudou-o a libertar 
a lmina. - Comea de novo. Desta vez, tem cuidado e no largues o boto. Tu s capaz.
   A serra guinchou de novo ao encontrar a madeira. Chad cerrou os dentes, agarrando a ferramenta com todas as suas foras. Assim que acabou de cortar a tbua, sorriu.
   - Consegui!
   - Claro que sim, c'um raio!
   - So mais dez dlares.
   Zeke riu-se.
   - Criei um monstro.
   - Um monstro rico - concordou o rapaz.
   - No apostmos - recordou-lhe Zeke - e no voltamos a apostar at eu perder este hbito.
   - Isso  que  pensamento positivo, quero dizer, se acha que consegue perd-lo.
   - Isto est mau, no est? Sou capaz de me controlar quando h mulheres e crianas por perto, sem problema, mas com outros homens, esqueo-me.
   - No sou um homem.
   - Ests a fazer o trabalho de um homem. Para mim, s um.
   -  capaz de ter razo - disse Chad, endireitando os ombros.
   - Mas no apanhes os meus maus hbitos. A tua me arrancava-me o escalpe com uma faca cega.
   - Ela acha que eu ainda sou uma criana.
   - Isso  tpico.  melhor ires-te habituando.
   - A sua me ainda acha que voc  uma criana?
   - Completamente, e eu gosto. Sempre que a visito, faz-me a minha tarte preferida. No h nada melhor.
   Chad fez uma careta.
   - Se a minha me fizesse uma tarte, eu fugia.
   - Pois, est bem. Quando fores mais velho, ela h-de pensar nalguma coisa especial para fazer quando a fores visitar.
   - Ela faz uns biscoitos muito bons com flocos de aveia. So de chocolate, e  s pr no forno. Gosto mesmo deles, e s demoram trs minutos. At ela  capaz de 
prestar ateno durante esse tempo.
   Zeke riu-se.
   -  melhor que ela no te oia dizer isso. As mulheres so sensveis quando se fala dos seus cozinhados.
   Chad encolheu os ombros:
   - A minha me, no. Ela sabe que  pssima cozinheira.  uma boa me, e uma boa cantora. E  s isso que lhe interessa. Diz que  por isso que inventaram as refeies 
de microondas, os douradinhos e as latas de guisado, para mes como ela.
   Uma boa me e uma boa cantora? Sob um ponto de vista estritamente prtico, aquela mulher tinha de ser boa noutra coisa qualquer se queria ganhar a vida.
   - Qual  a profisso dela? - perguntou Zeke.
   Chad ficou ligeiramente exasperado.
   - Uma tentativa, e a resposta no  "cozinheira".
   - Canta para ganhar a vida?
   O rapaz assentiu com a cabea.
   - No Blue Parrot.  uma espcie de restaurante.
   Zeke nunca o tinha frequentado, mas j ouvira falar bem dele.
   - Ah. Agora percebo porque  que ela finge que a esptula  um microfone. Est a praticar.
   - N. V por mim, ela no precisa de prtica. Adora cantar. - Chad encolheu os ombros. - Por isso  que comprou o clube-restaurante, para poder cantar com um 
pblico a srio.
   - Ela  a dona?
   O rapaz confirmou.
   - Mas, se ela no sabe cozinhar, por que raio  que comprou um restaurante?
   - Voltou a praguejar.
   Zeke pensou no que tinha acabado de dizer:
   - Desculpa. Acho incrvel que uma mulher que no  capaz de estrelar um ovo compre um restaurante.
   - Ela contrata algum. Resulta, quase sempre.
   - Quase sempre?
   - s vezes, o cozinheiro zanga-se e despede-se. Temos sarilho at ela conseguir encontrar outro.
   - O que  que ela faz no entretanto?
   Chad colocou uma nova prancha na bancada.
   - Tem de ser ela a cozinhar at encontrar outra pessoa. Por isso  que o Blue Parrot est quase na falncia.
   Zeke agarrou no esquadro.
   - Deve ser complicado para ela sustentar-vos aos dois se o clube no est a correr bem.
   - O meu pai mandava-lhe dinheiro se ela no estivesse sempre a chag-lo. Mas, assim que ela o v, desata a espumar da boca e pe-no a andar.
   Para Zeke, por mais irritado que um pai ficasse, no deixava de ter a obrigao moral de sustentar os seus filhos.
   - A tua me deve ter motivos para o chagar.
   - Ela finge que est zangada com uma srie de coisas, mas a verdade  que  tudo cimes. O meu pai sempre teve namoradas. Durante muito tempo, parecia que ela 
no se importava, e ento, de repente, divorciou-se dele. Agora, comporta-se como uma bruxa sempre que o v. - Os olhos de Chad ficaram suspeitamente brilhantes 
por trs da viseira, e as suas faces tornaram-se vermelhas. - No percebo o que ela quer. Estava tudo bem durante imenso tempo e ento, zs, passou-se. Est tudo 
diferente, e nunca consigo ver o meu pai.
   A imagem do casamento dos Patterson que comeava a formar-se na mente de Zeke no era agradvel.
   - O teu pai pode ver-te sempre que quiser, Chad. A tua me diz que ele vive aqui na cidade.
   - O que  que voc sabe sobre o assunto? - Chad recuou um passo. - Ele est sempre a viajar, com negcios importantes, e quando est na cidade tem reunies e 
assim. Ele quer ver-me. S que no pode! E a minha me no facilita.
   Zeke levantou uma mo.
   - OK. No te zangues comigo.
   - Ento, no fale mal do meu pai. Nem sequer o conhece.
   -  verdade - concordou ele -, e no queria falar mal dele. Apenas queria dizer que as coisas nem sempre so o que parecem ser  superfcie. Talvez a tua me 
tenha outras razes para estar zangada com o teu pai, razes que no partilhou contigo.
   - Ele  um bom pai, e adora-me! A srio.
   - De certeza que tens razo - disse Zeke com cuidado. - Se tivesse um filho como tu, tinha rnuito orgulho nele.
   Ao ouvir aquilo, Chad ficou arrumado. Pestanejou para afastar as lgrimas e baixou a cabea, dando um pontap num pedao de madeira.
   - Voc s est a dizer isso para eu me sentir melhor.
   Era verdade. Ele queria que o rapaz se sentisse melhor. Mas isso no queria dizer que o elogio no tivesse sido sincero.
   - s um rapaz bem-parecido e s esperto como um alho.
   Chad levantou a cabea. Rastos de lgrimas brilhavam-lhe na cara, abaixo da viseira.
   - No sou inteligente. S consigo ter Bons. O meu pai tinha sempre Muito Bom em todas as disciplinas sem sequer ter de estudar, e tambm era bom em desporto.
   - E tu no s, imagino.
   - Sou uma porcaria.
   - Se calhar, ainda no encontraste o certo.
   - J tentei todos. - Deu mais um pontap na madeira. - No sou muito mau em basebol, mas nem chego aos calcanhares do meu pai.
   Zeke estava mesmo a comear a embirrar com Robert Patterson.
   - Quando eu tinha a tua idade, tambm era pssimo em desporto. S quando comecei a montar e a laar em competio  que descobri o meu lugar. No te metas num 
canto. Continua a tentar coisas novas. Mais cedo ou mais tarde, hs-de encontrar o teu talento, e hs-de ser excelente.
   Chad fez uma careta.
   - Quem  que quer ser bom a montar e a laar? No se recebem convites de universidades com isso.
   - Sim, tens razo - concordou Zeke. - Mas se fores bom numa sela, h muitas fivelas e trofus para ganhar. A minha irm, Bethany, foi campe estadual de corridas 
com barricas durante trs anos seguidos, e teria chegado s finais nacionais se no tivesse sofrido um acidente. Tem mais fivelas de campe do que qualquer pessoa 
que eu conheo, e so fivelas que podes usar toda a tua vida. Uma carta da universidade... - Zeke calou-se e encolheu os ombros. - Bem, olha que um adulto havia 
de fazer uma linda figura se usasse uma dessas camisolas universitrias na cidade.
   - Acho que sim. - Chad olhou para o cinto de Zeke. - Isso  uma fivela do campeonato?
   Zeke virou a fivela prateada e dourada para que o rapaz a visse melhor.
   - Foi a laar, a minha especialidade. V-se logo quem so os homens e quem so os meninos.
   Chad apertou os lbios.
   - Eu costumava montar.
   -  uma pena que tenhas perdido o interesse. Eu tenho alguns cavalos. Podamos montar e usar o lao. Por muito que eu goste dos meus cavalos, no tem muita graa 
quando estamos sozinhos.
   - Eu no perdi o interesse.
   Depois de ter estudado a cara coberta de lgrimas de Chad durante um longo momento, Zeke chegou  concluso de que nunca conhecera um rapaz que precisasse to 
desesperadamente de um amigo.
   - Hmm - contentou-se ele em dizer. - No me vou esquecer disso. No h melhor maneira de descontrair do que lanar uns quantos laos e dar uma volta a cavalo. 
Um homem tem tempo para pensar nas coisas e desanuviar a cabea.
   Chad endireitou os ombros; e disse:
   - Isso mesmo. - Franziu o sobrolho. - Se tem cavalos, onde  que eles esto?
   - Pastos alugados. Os melhores cavalos para laar que alguma vez hs-de ver. - Zeke entregou-lhe a fita mtrica. - J te mostrei como se faz.  a tua vez de marcar 
a tbua.
   Chad assim fez. Zeke debruou-se sobre ele, dando instrues quando necessrio.
   - Muito bem - disse ele quando a tbua j estava marcada. - Que ngulo  que deves usar, esquerdo ou direito?
   Chad estudou a prancha. Por fim disse:
   - No deve fazer diferena. S tenho de cortar o ngulo oposto na outra ponta para conseguir encaixar na esquadria.
   Zeke sorriu e deu-lhe uma palmada no ombro.
   - Exactamente o que eu disse, esperto como um alho. Conheo homens adultos que no conseguem calcular um ngulo nem que a sua vida dependesse disso.
   Enquanto preparava a serra, Chad perguntou-lhe:
   - Ento, quando  que traz os cavalos at c?
   - Assim que as cercas estiverem no seu lugar.
   - E quando  que vai ser?
   - Assim que as acabares.
   
Captulo Trs
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   Naquela tarde, Natalie teve de sair para o trabalho antes do regresso de Chad, como tal, telefonou para casa mais tarde para saber como ele estava. Contava encontr-lo 
irritado quando atendesse o telefone, mas ele saudou-a com um:
   * Ol. O que  que se passa? 
   * Liguei s para saber como estavas. 
   * Estou bem.
   Chad tinha-se mostrado amuado e difcil durante as ltimas semanas. 
   * Meu Deus, ser que me enganei no nmero? 
   * V l, me. No impliques, est bem?
   * Desculpa.  s que sabe to bem ouvir um sorriso na tua voz, para variar.
   O pianista de Natalie, Frank Stephanopolis, tocou o primeiro acorde de uma nova cano. Deviam estar a ensaiar antes que chegassem os clientes para jantar.
   Natalie fechou a mo sobre o telefone porttil e disse:
   * Eu j vou, Frank. - Devolveu a sua ateno  conversa que estava a ter com o filho: - Ento, como  que correu o dia?
   * Bem, acho eu. O Sr. Coulter est a ensinar-me umas coisas.
   * Que tipo de coisas?
   * Coisas, est bem? Nada que tu saibas o que .
   Natalie habituara-se aos ares superiores de Robert. Para ele, todas as mulheres eram deficientes mentais. Mas o tom condescendente na voz do seu filho magoou-a. 
Durante demasiado tempo, o nico ponto de referncia de Chad tinha sido o mau exemplo do pai.
   * S estava curiosa, querido.
   Chad cedeu:
   * Usei uma serra circular, s isso, nada de especial.
   * Uma serra circular? - repetiu ela.
   * Porqu? Achas que no tenho idade, ou assim?
   Seria ele capaz de dizer ou fazer alguma coisa bem?
   * Claro que tens idade,  s que as ferramentas elctricas podem ser muito perigosas. Espero que tenham tido cuidado.
   * Nada disso, serrei os dedos todos de propsito.
   Natalie fechou os olhos por um instante.
   * O Sr. Coulter tratou-te bem?
   * Vamos ser realistas. Que razes  que ele tem para me tratar bem?
   * Se ele est a ser antiptico, eu arranjo uma maneira de lhe pagar.
   * Sim, claro. O que  que vais fazer, tirar do dinheiro dos alfinetes?
   Afinal, ela no tinha marcado o nmero errado. Aquele era sem dvida o seu filho. Natalie ansiava por melhorar o clima entre os dois, mas, de algum modo, por 
mais que se esforasse, apenas o conseguia piorar.
   * J telefonaste ao pai para lhe contar que me meti em sarilhos?
   Ela tinha deixado mensagens nos atendedores de casa e do escritrio de Robert, e tambm no telemvel, mas, at  data, ele no se dera ao trabalho de lhe ligar. 
Provavelmente, estava demasiado ocupado a dar umas cambalhotas com Bonnie Decker - a sua namorada mais recente - para querer complicar a sua vida com problemas parentais.
   * No, ainda no lhe telefonei - mentiu ela. - Desculpa, Chad. No tenho tido tempo.
   * Nunca tens tempo para as coisas que so importantes para mim.
   Natalie queria defender-se. Detestava ficar com as culpas pelas asneiras de Robert. Mas se lhe dissesse a verdade, Chad ficaria a saber o pouco que o seu pai 
se preocupava com ele.
   * Desculpa - disse ela, sentindo-se incomodada e to irritada com o ex-marido que seria capaz de o estrangular. - Sa a correr para o trabalho ontem  noite e 
no parei um segundo at ao fim do meu turno.
   * E hoje?
   * Tive de tratar da roupa e pagar contas.
   * Tens sempre alguma coisa para fazer. Depois, culpas o pai por no nos ajudar. Como  que ele me pode ajudar se no sabe que preciso dele?
   Boa pergunta. E Natalie precisou de todas as suas foras para assumir o papel da vil. "Outra vez." Mas no era ela quem estava em questo.
   * Desculpa, querido. Telefono-lhe amanh, prometo.
   * Pois, claro.
   * Telefono. A srio.  s que s vezes estou to ocupada.
   Silncio demorado. Chad suspirou:
   * No faz mal, acho eu. Eu tambm tentei telefonar-lhe. Ele no me ligou. A av Grace diz que deve estar para fora, a inspeccionar propriedades, ou assim.
   Grace Patterson encontrava-se em negao no que dizia respeito ao seu filho. Robert, o grande negociante, vivia com o pavor de perder uma chamada de negcios, 
e consultava as mensagens de voz onde quer que estivesse. A fria de Natalie cresceu. "O estupor egosta." Talvez tivesse um ataque e morresse durante uma ejaculao. 
Na lpide, ela haveria de mandar gravar as datas do nascimento e da morte dele, juntamente com "Ele veio, e foi-se, e quem se rala com isso?" S que no era bem 
verdade. O filho dela ralava-se.
   Natalie estava grata por Rosie no ter passado muito tempo com o pai, um resultado das constantes horas tardias no escritrio antes do divrcio. "Pois." Na realidade, 
passara todas aquelas noites com a amante. Mas isso era secundrio. Rosie no estabelecera uma ligao forte com o pai, e Natalie rezava para que assim continuasse 
a ser. Chad era outra histria. Sempre procurara a aprovao de Robert, sempre ansiara pela sua ateno.
   * Eu gosto muito de ti, Chad - foi tudo o que lhe ocorreu dizer. - Mais do que alguma vez sabers.
   Durante o silncio que se seguiu, pestanejou para afastar as lgrimas dos olhos, desejando... ela nem sabia o que desejar. Apenas sabia que adorava o filho, e 
que parecia ser incapaz de falar com ele sem esbarrar de cabea com aquela muralha de ressentimento.
   * Eu sei que sim, me - disse ele por fim.
   O corao de Natalie saltou de alegria ao registar a mudana de tom, e ela ficou  espera, talvez ele dissesse que tambm gostava dela. "Tola." Chad via as coisas 
sob a perspectiva de um rapaz. Um dia, quando fosse mais velho, talvez viesse a perceber a porcaria de marido e de pai que Robert tinha sido, mas, por enquanto, 
estava furioso com ela por ter destrudo o seu mundo.
   * Telefono ao teu pai amanh. Prometo.
   * Nunca faas promessas que podes no cumprir.
   * Essa  minha - disse ela, tentando em seguida manter a veia humorstica: - Olha, se o resto falhar, ponho um elstico no dedo para me lembrar.
   * No podes tocar guitarra sem um dedo. Se bem te conheo, esqueces-te do elstico e ficas com gangrena.
   Natalie sabia que s vezes podia ser extremamente esquecida, e rebentou s gargalhadas. Estava contente por ver que o filho, ainda que relutante, decidira participar.
   * Ento, sou capaz de tocar guitarra com os dedos dos ps,  que nem duvides. - Novo silncio. Frank atacava o teclado, produzindo um barulho impaciente com a 
expressa inteno de a distrair. Natalie decidiu ignor-lo. Uma mulher podia ser dona de muitos negcios, mas, pelo menos no caso dela, apenas viria a ter um filho. 
- Ainda bem que no foi muito mau com o Sr. Coulter. Se for de mais, diz-me. Eu encontro uma maneira de tratar da dvida e deixar-te de castigo durante seis meses.
   Chad riu-se de novo, assemelhando-se um pouco mais ao seu menino.
   * Seis meses? E que tal seis semanas?
   * Nada disso! - respondeu ela a rir. - Estragaste completamente a horta do coitado do homem, e a porta do barraco, e as paredes, e as janelas. Tens de cumprir 
um tempo valente antes de pensares na condicional.
   * Acho que  justo. At fiquei chocado quando vi o que tinha feito. No parecia assim tanto quando o fiz. Estava to danado que me devo ter passado, ou assim.
   Natalie sentia-se parcialmente responsvel pela fria dele. Antes de o rapaz ter sado para fazer estragos na quinta do vizinho, tentara telefonar ao pai. Como 
de costume, Robert no atendera o telefone, e Natalie dissera qualquer coisa entre dentes sobre o ex-marido, o que deixara Chad furioso.
   * Talvez, quando ouvir a minha mensagem, o pai pague os estragos.
   Natalie sabia que o filho estava a contar com aquilo.
   * Talvez - disse ela com pouca convico.
   * Tens de usar esse tom? Sempre que falas dele ficas com essa voz, como se ele fosse um falhado, ou assim. Ele  meu pai, est bem? Podes odi-lo se quiseres, 
mas no tentes obrigar-me a fazer o mesmo.
   * Eu no odeio o teu pai, Chad. Tivemos as nossas divergncias, admito, e s vezes fico fula com ele, mas no o odeio.
   * Sim, pois.
   Na realidade, Natalie estava a comear a odi-lo, no por causa das coisas que ele lhe tinha feito, que eram imensas, mas devido a tudo o que no estava a fazer 
pelos filhos. Parecia-lhe extremamente injusto que os filhos de um homem abastado tivessem de estar quase  porta da segurana social.
   Mas o estupor importava-se? Claro que no. Estava a divertir-se  grande, finalmente solteiro, a levar as suas namoradas a restaurantes de quatro estrelas, a 
comprar acessrios vistosos para o Corvette, e a comprar fatos caros. Provavelmente, olhava para o acordo de divrcio e ria-se, trocando cumprimentos com os seus 
amigos, orgulhoso por ter enganado o sistema e ter escapado financeiramente ileso. A maioria dos homens perdia algum dinheiro para as ex-mulheres. Mas, com Robert, 
fora ela quem ficara na penria.
   Natalie ainda no sabia como ele conseguira esconder a maior parte dos seus bens. Desconfiava que devia ter transferido alguns dos fundos para contas no estrangeiro 
e o resto para outras empresas que no seriam facilmente identificveis, apresentando-se diante do juiz quase como um indigente. O advogado de Natalie no fora capaz 
de rebater as declaraes financeiras. O juiz no tivera outra hiptese seno decidir com base no que lhe fora apresentado, e Natalie sara da sala de audincias 
divorciada e empobrecida, ainda a dever dinheiro a Robert pela sua metade do clube-restaurante.
   Para salvar o negcio, a sua nica fonte de rendimento, fora forada a despedir empregados, reduzir os stocks ao mximo, esvaziar o fundo de maneio, e fazer malabarismos 
constantes com o que restara para manter os credores longe da porta. Se deixasse cair uma bola - apenas uma - as dvidas cair-lhe-iam em cima como peas de domin 
e o clube iria  falncia.
   Ela odiava Robert? Sim. Mas era um segredo seu, algo que no partilhava com o seu filho, cujo corao j estava desfeito.
   * Me?
   Natalie pestanejou e voltou  realidade:
   * Desculpa. Disseste alguma coisa, querido?
   * No - respondeu ele em voz baixa. - Tu  que ficaste calada. - Como se percebesse a aflio dela, Chad acrescentou: - No  assim to mau, trabalhar para o 
Sr. Coulter. Se o pai no entrar com o dinheiro, eu sobrevivo. - Natalie engoliu com dificuldade. - Ele at me fez ovos Benedict para o pequeno-almoo. Acho que 
ele  um cozinheiro gourmet. J comeste ovos assim? 
   * Algumas vezes.
   Frank atacou novamente as teclas, e Natalie fez-lhe um aceno apaziguador. Imaginou Zeke Coulter - com as suas feies bem definidas, pele morena, cabelo farto 
e escuro, e msculos trabalhados. No conseguia v lo numa cozinha, s voltas com uma receita fina.
   - Podes ir jogar  bola para outro lado, Rosie? - perguntou Chad aos berros. - Isto  uma cozinha, no um campo de basquetebol. s to chata. - Depois, disse 
para Natalie: - Por acaso, at gosto de trabalhar para ele. No me trata como um mido, ao contrrio de outras pessoas que eu c sei.
   Natalie sorriu. Tinha de ser, pois. O vizinho do lado comunicava melhor com o seu filho do que ela prpria.
   - Talvez, se eu trabalhar com ele at ao comeo da escola, eu me torne suficientemente bom com uma serra para consertar as cercas do av.
   Natalie no tinha muita f no que estava a ouvir. Era preciso uma Lei do Congresso para que o seu filho deitasse o lixo fora. No obstanle, luivia uma clara nota 
de orgulho na voz de Chad, e ela no podia deixar ili ficar contente. Tentara aumentar-lhe a confiana, mas, por algum motivo, a sua opinio no tinha tanta importncia 
como a de Robert. Talvez o rapaz precisasse de um amigo adulto do sexo masculino para lhe dar o que ela no conseguia.
   Depois de se despedir do filho, Natalie batia com a antena do telefone no queixo, enquanto pensava se teria avaliado mal Zeke Coulter. Chad no parecia estar 
a ser maltratado. Pelo contrrio. Parecia animado e orgulhoso. Talvez Zeke fosse muito mais simptico do que ela pensava.
   * Vais namorar com esse telefone toda a noite ou vens ensaiar esta cano? - perguntou-lhe Frank.
   Natalie poisou o aparelho numa mesa, tirou o seu chapu de me imaginrio, e dirigiu-se para o palco.
   * Estou pronta - disse ela enquanto agarrava na guitarra. - Fora!
   
   
   Zeke estava prestes a entregar-se ao consumo de uma cerveja quando ouviu uma srie de pancadinhas. Sorvendo a espuma da cerveja acabada de abrir, percorreu toda 
a casa, pensando se teria ratos. "Bela ideia." Estava a acrescentar ratoeiras  sua lista mental de compras a fazer quando ouviu o rudo outra vez. Voltou-se para 
a porta da cozinha que dava para o alpendre lateral. Um dos irmos dele, talvez? Hank era to imprevisvel como o tempo no Oregon. Tucker e Isaiah quase iguais.
   Quando abriu a porta, quase no reparou na pequena visitante que tinha diante dele. Olhou para baixo e deu com uma das caras mais fofas que alguma vez tinha visto, 
emoldurada por uma trunfa de cabelo preto e encaracolado.
   * Oh! Ol. Julguei que estava a imaginar coisas.
   Etrea na luz crepuscular, a criana aproximou-se.
   * Ol. Peo desculpa por aparecer to tarde, mas era a nica altura em que o podia fazer sem que a tia Valerie desse por isso. Ela subornou o meu bisav para 
a deixar ver Os Animais mais Engraados do Planeta.
    primeira vista, Zeke pensara que a criana devia ter cerca de quatro anos, mas agora que a ouvira falar decidiu que devia ser mais velha.
   Ela estendeu uma mo pequenina.
   * Sou a Rosie Patterson. Vim ajudar a pagar pelo que o Chad fez.
   Sem saber o que fazer, ele aceitou a oferta. Quando j tinha as moedas na palma da mo, contou cinquenta e trs cntimos, os quais nitidamente constituam uma 
fortuna para a sua visitante.
   * Como  que disseste que te chamavas?
   Ela apertou os lbios como uma preceptora em miniatura:
   * Sou a Rosie, irm do Chad. Rosie com um I e um E, e no com Y.
   Zeke reparou que ela parecia uma cpia da me. Fascinado, ficou a olhar para aquela cara perfeita.
   * Ol, Rosie - disse ele, tentando manter uma expresso sria. Todas as crianas daquela idade sabiam soletrar o seu nome?
   Sem esperar por um convite, ela entrou na cozinha.
   * A minha me diz que voc  mau e mesquinho.
   Ele fez um esforo para no se rir. J tinha concludo que no devia estar no topo da tabela de popularidade de Natalie Patterson.
   * Ah, sim?
   * Pois. E eu quero saber porqu. No deve ter muita graa.
   Ora ali estava uma ideia. Enquanto mudava de lugar para se desviar do caminho da rapariga, quase lhe derramou cerveja na cabea encaracolada. Endireitou a caneca 
mesmo a tempo.
   * Eu, hmm...
   Rosie assentiu com a cabea como se ele tivesse acabado de dizer algo de muito profundo enquanto ela lhe invadia a cozinha.
   * Sim, senhor - disse ela. - Um cho de madeira bonito, e est tudo limpo. - Virou-se lentamente, observando os armrios de carvalho com um olhar crtico. - Mas 
precisa de alguma coisa nas paredes.
   Era um sentimento partilhado pela me e pela irm dele. Zeke imaginou que devia ser uma coisa feminina. A nica coisa que pregara numa parede at ali fora um 
calendrio da Les Schwab Tires, e parecia-lhe muito bem.
   * Mudei-me h pouco tempo.
   * Est aqui h quase quatro meses. O meu av tem estado a contar. Ele diz que voc deve ser um emproado, nunca apareceu para nos cumprimentar.
   Tudo o que Zeke conseguiu dizer foi:
   * Tenho estado ocupado.
   Ela bateu o p.
   * Mesmo assim,  importante que o nosso espao tenha um ar acolhedor,  o que a minha me diz.
   * E deve ter razo. Estou a sempre a pensar em comprar coisas para as paredes, mas parece que nunca tenho tempo.
   * Tambm precisa de uns manes para o seu frigorfico. Talvez assim isto no parea to despido.
   Imanes? O frigorfico da me dele estava coberto deles, e s a ideia f-lo estremecer.
   * No gosto de muita tralha.
   * Ento, alguns vasos - sugeriu ela. - Quando eu tiver tempo, tambm lhe posso fazer um desenho. Fica sempre bem ter coisas dos midos nas paredes. A minha me 
diz que faz com que as pessoas se sintam em casa.
   Vasos, tudo bem. Mas dispensava as coisas dos midos. Rosie poisou as mozinhas nas ancas e voltou-se para ele.
   * O meu bisav quer vir c e mostrar-lhe como  que as vacas podem comer as couves.
   Zeke j ouvira aquela expresso e no pde deixar de sorrir.
   * Ui.
   Ela avanou, obrigando-o a recuar um passo. Os pezinhos empoeirados apresentavam unhas pintadas de cor-de-rosa e sandlias vermelhas presas com fita isoladora. 
Ainda com as mos nas ancas, ela olhou-o nos olhos, aquele brilho fazendo-o lembrar-se do fogo que vira nos olhos da me.
   * Temos de ter uma conversa.
   Zeke nunca discutia com uma senhora com borboletas no seu vestido. Antes de fechar a porta, olhou para o exterior para se certificar de que Rosie no trouxera 
squito.
   * Sobre o qu, exactamente, temos de ter uma conversa? - perguntou-lhe ele.
   * Bem, em primeiro lugar, no  muito simptico ser desagradvel com os vizinhos. No quer que a gente goste de si? No h nada pior do que no ter amigos.
   * Isso  verdade, acho eu.
   Com os seus caracis escuros iluminados pela luz fluorescente, ela inclinou a cabea para o lado, para o estudar.
   * Voc tem alguma couve na sua horta?
   * Umas quantas.
   * No quer que as nossas vacas as comam, pois no?
   Zeke estava rendido. Nunca tinha encontrado uma criana to engraada. Sempre que falava, aparecia-lhe uma covinha na bochecha. E ela era to pequenina. O alto 
da cabea mal lhe dava pela coxa, mas ali estava ela, de ombros direitos, queixo projectado, pronta para o enfrentar.
   * No - respondeu ele. - Preferia que as vossas vacas ficassem em casa.
   * Vacas na horta  uma coisa muito m. A Daisy e a Marygold so umas comilonas. Meteram-se nas cebolas do meu av na semana passada e comeram tanto que o leite 
ficou com um sabor esquisito.
   Depois de poisar a caneca de cerveja, Zeke sentou-se numa das cadeiras da cozinha e fez-lhe sinal para que lhe fizesse companhia. Ela no era alta, e sentar-se 
numa cadeira dava algum trabalho, mas l conseguiu, depois de se pr em pontas dos ps. J devidamente sentada, tapou os joelhos encardidos com a sua saia desbotada, 
deu um jeito ao cabelo e disse:
   * Espero que no leve a mal o meu aspecto. Ainda no tomei banho. Antes de me deitar, a minha tia Valerie diz que  um exerccio de futilidade.
   * Pareces-me muito bem - garantiu-lhe ele, e estava a falar a srio.
   Ela cruzou as mos e deitou-lhe um olhar suplicante. De algum modo, fazia-lhe lembrar a sua irm mais nova, Bethany, quando era pequena, olhos grandes e expresso 
inocente. S que no se recordava de ela alguma vez ter falado assim. A rapariga apresentava um incrvel domnio da linguagem.
   - Quantos anos tens, Rosie?
   - Quatro. O meu aniversrio  a 24 de Fevereiro. Neste ms, fao quatro anos e meio.
   - Imagino que no gostam muito de mim em tua casa neste momento.
   Ela apertou os lbios outra vez.
   - No, no muito. A minha me ficou toda contente quando o Chester lhe bicou o traseiro.
   Zeke engoliu mais uma gargalhada.
   - Ah.
   - Quase sempre, a minha me gosta de toda a gente - disse ela com uma expresso sria. - Mas no gosta muito de si porque no est a ser simptico com o meu irmo.
   - No estou?
   - No, e isso tem de ser resolvido antes que o meu bisav deixe as nossas vacas comerem as suas couves todas.
   - Estou a ver.
   Rosie olhou para a mo dele.
   - Esse  o dinheiro todo que eu tenho. Tenho andado a juntar para um buggy para a minha Barbie. - Ela revirou os olhos e soprou uma madeixa. - Acho que ela vai 
ter de continuar a andar a p durante mais algum tempo. Andar a p faz bem ao sistema encardovascular. - Baixou ligeiramente a voz e acrescentou: - E o seu corao, 
caso no saiba.
   Naquela altura, o sistema encardovascular dele corria um srio risco de desenvolver um cogulo. A palma da mo ardia-lhe devido ao contacto com as moedas. Ele 
no podia ficar com o dinheiro que ela estava a poupar para a sua Barbie.
   - Eu sei que  muito dinheiro - prosseguiu ela -, mas talvez no chegue para a tinta. O av diz que vai ganhar a lotaria esta noite, mas diz isso todos os sbados. 
- Encolheu os ombros e debruou-se para sussurrar num tom conspirador: - A tia Valerie diz que ele tem tantas hipteses de ganhar o jackpot como um porco de ganhar 
asas. Se ela tiver razo, ainda vai demorar algum tempo at que ele fica obscenamente rico.
   -  uma pena.
   - Oh, pacincia. - Ela encolheu novamente os ombros. - O av fica contente quando pensa que pode ganhar o primeiro prmio. Com as costas sempre a doer,  uma 
boa distraco. A me diz que no faz mal ter esperana, desde que ele no gaste o dinheiro dos ovos antes de as galinhas os porem.
   Zeke assentiu.
   - Bem pensado.
   - A me  muito inteligente nestas coisas. Foi criada na quinta. - Inclinou-se para coar uma unha do p garrida. - O problema  este: se o av no ganhar esta 
noite, no temos dinheiro para lhe pagar at que o navio da me chegue a bom porto.
   Zeke deu por si a pensar qual seria o QI daquela criana. Era como conversar com um adulto minsculo. Estendeu a mo, tentando devolver-lhe as moedas.
   - J combinei com a tua me, o Chad pode pagar a dvida com trabalho, Rosie. Tu no tens de me pagar nada.
   Ela abanou a cabea, recusando-se a aceitar.
   - O Chad pode trabalhar, como vocs combinaram, s que ele no pode trabalhar tanto tempo como voc quer. Ele tem de ir para o campo de frias. E muito importante. 
A minha me diz que  imprescindvel.
   Portanto, iam voltar a falar do campo de frias. Zeke recostou-se para ouvir. A avaliar pelo brilho determinado nos olhos de Rosie, ele ia ouvi-la at ao fim, 
quer quisesse, quer no.
   - O Chad tem andado muito triste desde o divrcio. O meu pai no o veio ver uma nica vez desde que a escola acabou.
   Zeke ficou siderado.
   - Nem uma visita breve?
   - Nada. E tambm no mandou nenhum dinheiro  minha me, para ns. - Soltou mais um suspiro. -  uma histria muito longa. A me pensa que eu no sei quase nada, 
mas ouvi-a falar com a av quando julgava que eu no estava a escutar.
   Zeke esfregou o queixo.
   - Estou a ver.
   - O meu pai roubou-a.
   - Ah. - Ele estava a tentar descobrir uma forma de impedir aquelas revelaes quando Rosie torceu o nariz e disse:
   - E antes do divrcio? O pai disse  me que a empresa estava com falta de dinheiro e convenceu-a a fazer uma segunda discoteca da casa.
   - Uma segunda qu?
   - Discoteca.  quando um homem do banco nos d imenso dinheiro pelo valor da nossa casa, e depois a casa deixa de ser nossa.
   Zeke decifrou a informao:
   - Uma segunda hipoteca sobre a casa.
   Ela encolheu os ombros.
   - Ou isso, foi o que ele fez. S que no precisava mesmo do dinheiro. S disse aquilo  minha me para que ela no pudesse exigir nada depois do divrcio. - Ela 
levantou as mozinhas. - At ao ltimo cntimo, foi-se tudo, sem mais nem menos, e depois o meu pai escondeu todos os bens para que o juiz no o fizesse pagar pipas 
de massa  minha me.
   Desconfortvel, Zeke mudou de posio na cadeira.
   - Rosie - disse ele -, acho que a tua me no ia gostar que me contasses isto.
   - Ela no se importa. Qualquer um pode ver que ela est nas lonas e que o clube est quase na falncia. - Comeou a mexer na fita isoladora que segurava a correia 
de uma das sandlias. - Por isso  que ela no me pode comprar sapatos novos e o Chad no pde ter lies de natao este ano. Na segunda-feira, ela vai levar-nos 
a uma loja de se segunda-mo para comprar roupas para a escola. Se o av no nos deixasse viver com ele, estvamos SNM. - Deitou-lhe um olhar inquiridor. - Por acaso 
sabe o que isto quer dizer? A tia Valerie est sempre a diz-lo, mas a minha me no me explica o que .
   Zeke podia perceber porqu. Pensando rapidamente, disse:
   - Quer dizer simplesmente na misria.
   - Hmm. - Rosie coou a cara junto  orelha. -  isso mesmo, simplesmente na misria. E o Chad  quem est pior. Quando a bicicleta dele se estragou, a me no 
tinha dinheiro para a mandar arranjar, e andar de bicicleta era a nica coisa divertida que ele tinha para fazer durante todo o Vero. Ele no pode brincar com os 
amigos. Eles vivem na cidade e ns no temos gasolina para as viagens.
   - Isso  uma pena - disse Zeke em voz baixa, e, pela primeira vez, i omeava a perceber a fria de Chad. Natalie no exagerara ao dizer que o rapaz tinha perdido 
tudo.
   -  No campo de frias - prosseguiu Rosie -, o Chad pode estar com os amigos dele da igreja e divertir-se durante uma semana inteira, no  muito se compararmos 
com um Vero inteiro. Temos de mudar de escola este ano porque mudmos de casa, por isso,  muito, muito importante que ele no perca os amigos da igreja. So tudo 
o que ele tem at fazer novos amigos na South Middle School. Alm disso, ele lavou carros e trabalhou em vendas de bolos para juntar o dinheiro. Seria uma pena se 
os outros rapazes fossem e ele no pudesse ir.
   -  Sim, tambm me parece.
   Rosie alou as sobrancelhas.
   - Seja como for, a no ser que queira as nossas vacas nas suas couves, temos de chegar a acordo.
   - Que no restem dvidas, eu no quero as vossas vacas nas minhas couves.
   Ela assentiu como se aquela afirmao fosse mais do que bvia.
   - A minha ideia  esta: a minha me e eu podemos vir ajudar o Chad com o trabalho. Assim, voc fica com tudo pronto mais depressa, e o Chad resolve a dvida antes 
que o campo de frias comece. Tem algum problema com isso?
   Zeke recordou-se da expresso do rapaz ao agarrar na serra circular, todo ele medo e falta de confiana. Sentiu um aperto no corao, seguido de uma dor desagradvel. 
O pai dele podia ser um estupor negligente, mas a me estava presente - assim como a irm mais nova. Zeke sabia o que era lealdade familiar. Os Coulter tinham-na 
inventado.
   - No - acabou ele por dizer. - No tenho nenhum problema.
   - Ento, porque  que mandou a minha me para casa esta manh? Ela estava mesmo, mesmo danada.
   - No sei o que me passou pela cabea.
   Rosie pareceu achar aquela resposta aceitvel.
   - OK. Ento, amanh vimos ajudar. Assim, o Chad no perde o campo de frias, o meu bisav deixa de o detestar, e as nossas vacas no lhe comem as couves.
   - Parece-me um bom negcio para todos - disse Zeke. Depois, no resistiu a perguntar: - Se o teu irmo no pde aprender a nadar nem pde andar de bicicleta, 
o que  que ele tem feito todo o Vero?
   - Leu os livros do Harry Potter duas vezes. Agora, fica deitado na cama, a ouvir o rap da tia Valerie. A me diz que lhe vai apodrecer o crebro, e est sempre 
preocupada. - Suspirou de novo. - O Chad queria que fssemos  Disneyland como o amigo dele, o Tommy, mas a me diz que temos de esperar pelo navio dela.
   Zeke deu por si a fazer um esforo para no sorrir outra vez.
   -  um navio com dinheiro - explicou ela. - Quando a tia Valerie diz que ele se afundou no mar, a me diz-lhe para fechar a matraca. Eu concordo plenamente. Quero 
muito ir  Disneyland para o ano e conhecer o Rato Mickey... o verdadeiro, no uma cpia.
   Zeke recordou-se de Chad dizer que se aborrecia em casa, o que no era de admirar se tinha passado o Vero inteiro a ouvir msica rap. O olhar franco e directo 
de Rosie f-lo sentir-se envergonhado. Ficara furioso com os estragos causados pelo rapaz e sara disparado, decidido a ensinar-lhe uma lio. No deveria ter sido 
necessrio a franqueza de uma menina para o fazer dar um passo atrs e questionar a sua atitude. Por vezes, at quem atirava tomates precisava que lhe dessem algum 
desconto.
   - Pode ficar com o meu dinheiro - continuou Rosie - e eu e a me aparecemos c todos os dias para ajudar o Chad a consertar as coisas. Quando tivermos trabalhado 
o suficiente para pagar tudo, voc pode dizer-nos, e ns paramos.
   Como  que ele podia olhar para aqueles enormes olhos castanhos e argumentar?
   - OK.
   Ela deixou-se escorregar para o cho, uma central elctrica em miniatura que provavelmente nunca se aperceberia da existncia de um telhado de vidro. Estendeu 
a sua mo minscula.
   - Temos de dar um aperto de mo. O meu av diz que nenhum acordo  final sem um.
   Zeke concordou. Quando fazia um negcio e o selava com um aperto de mo, era como se ficasse lavrado em pedra. A mo dela parecia impossivelmente pequena quando 
a envolveu com os seus dedos.
   Depois de selar o acordo, ela recolheu o brao, ajeitou novamente a saia, e brindou-o com um sorriso.
   - Eu sou muito trabalhadora. Vai ver.
   Zeke tentou imagin-la a carregar tbuas maiores do que ela.
   - O que  que fizeste de divertido este Vero, Rosie?
   Ela sorriu de novo, fazendo aparecer a covinha na bochecha.
   - Muita coisa. A tia Valerie pensa sempre em qualquer coisa quando a me est a trabalhar. Mas o Chad no gosta das coisas que fazemos. Diz que so parvas.
   - O que  que vocs fazem?
   Ela franziu o cenho, pensativa.
   - s vezes pintamos as unhas. Outras, jogamos cartas e damas. Quando estas coisas parecem muito chatas, a tia Valerie faz milho caramelizado e rouba o telecomando 
ao meu bisav para podermos ver filmes infantis. Ela ainda gosta deles porque nunca cresceu. Diz que nunca h-de crescer. Ser adulto no tem graa nenhuma, nenhuma 
mesmo.
   Zeke tentou imaginar a sexy Valerie a ver filmes infantis. Talvez, decidiu ele, um corao de ouro puro estivesse escondido atrs de toda aquela maquilhagem e 
gel de cabelo.
   - Ver filmes parece ser divertido.
   - Tudo  bastante divertido com a tia Valerie - assegurou-lhe ela. - No tanto como com a minha me. - Deu meia-volta para fazer novamente o inventrio da cozinha. 
- O meu irmo diz que voc  bom cozinheiro.
   - Eu tento.
   Ela franziu o nariz.
   - A minha me tambm gosta de cozinhar, mas no  muito boa. Tentou fazer-lhe um bolo de boas-vindas. O av disse que devamos ir buscar o mel e fingir que era 
uma panqueca. A me ficou danada e disse que nunca mais voltava a fazer um bolo. At que ficmos contentes, porque nunca so grande coisa. - Voltou-se para a porta. 
- Tenho de ir. A tia Valerie pode reparar que desapareci e comear a ficar aflita.
   - Ui. Espero que no tenhas problemas.
   Ela deitou-lhe um olhar surpreendido por cima do ombro.
   - Com a tia Valerie? Ela no se zanga. S vai querer saber como  a sua casa. Ela acha que voc  giro. O Chad diz que ela vai ter uma grande desiluso porque 
voc  gay.
   As sobrancelhas de Zeke ergueram-se. Antes que pudesse pensar nunca resposta quela revelao, Rosie j estava porta fora, mas parou no alpendre para dizer:
   - Vemo-nos amanh. OK?
   - OK.
   A porta fechou-se e Zeke deixou-se ficar sentado na cozinha silenciosa, a pensar se teria imaginado aquela visita. Ento, abriu a mo e olhou para as moedas. 
Estavam suadas. Ele sorriu e poisou-as na mesa. Um buggy para a Barbie? No estava familiarizado com os acessrios da boneca, mas desejou estar. Se estivesse, teria 
ido  loja mais prxima comprar um carro para a Barbie de Rosie.
   
Captulo Quatro
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   Pouco depois da partida de Rosie, Zeke regressou  cidade e parou no seu armazm de provises para ranchos que tinha comprado ao seu pai. Depois de uma actualizao 
com o gerente do turno da noite e de uma volta para conversar com os empregados, dedicou-se a reabastecer prateleiras at  hora de encerramento, s oito. Depois 
de todos sarem, passou um par de horas no seu escritrio a fazer os livros do dia, trocando turnos de modo a compensar os seus durante as trs semanas seguintes, 
e preparando encomendas para segunda-feira.
   Estava a bocejar quando ligou o alarme e abandonou o edifcio. Ao atravessar o parque de estacionamento escuro e vazio, a caminho da sua carrinha, pensou em Rosie 
Patterson e no acordo que tinha feito com ela. Devia, pelo menos, informar a me a respeito daquela conversa. Tambm lhe devia um pedido de desculpas. Encolheu-se 
ao recordar que lhe tinha dito que ela apaparicava o filho. At parecia que ele era um especialista em crianas. Basicamente, tinha-se precipitado. Chad tinha alguns 
problemas, sem dvida, mas tal no significava que Natalie fora a sua causadora.
   Zeke olhou para o relgio. Ainda no eram onze. O Blue Parrot ficava apenas a alguns quarteires. Ele no estava vestido para um clube-restaurante, mas o que 
tinha para dizer apenas demoraria alguns minutos. Porque no aparecer por l e resolver o assunto? Talvez at pedisse uma bebida. Era capaz de ser mais fcil com 
um shot de bourbon.
   Alguns minutos depois, estava a entrar no Blue Parrot. Estava  espera de encontrar uma espelunca aperaltada com um grill e uma ementa limitada. Em vez disso, 
o lugar era to decente que ele quase deu meia-volta. Calas de ganga e camisa de trabalho no eram, definitivamente, uma indumentria apropriada. Os poucos clientes 
nas mesas cobertas com toalhas brancas estavam bem vestidos, homens de fato, senhoras com vestidos de cocktail, e no havia um bar  vista. Papel de parede azul-escuro 
e candelabros elegantes complementavam os pormenores murais em lato. Em todas as mesas ardia uma vela azul num castial que brilhava como ouro polido. "Bom gosto." 
Sentiu-se como um gorgulho numa saca de farinha.
   E ento viu Natalie, e esqueceu-se da vergonha. Ela era Rosie, mas em verso adulta, de p numa plataforma elevada, com um vestido vermelho de lantejoulas que 
cintilava como uma chama na sala pouco iluminada. Por cima dela, uma estrutura aberta continha amplificadores, altifalantes e projectores, estrategicamente orientados 
para irradiar uma luminosidade dourada enquanto ela actuava. "Reba, chega-te para l." Os sons que lhe saam da garganta eram mel puro. A guitarra assentava-lhe 
na anca como se tivesse sido desenhada para ela, e Natalie movia-se com uma confiana graciosa ao debitar uma balada country sobre uma mulher decidida que nunca 
desistia do seu homem.
   Zeke nunca tinha visto uma mulher mais bonita - ou mais talentosa. J sem conscincia do local onde se encontrava, deixou-se cair numa cadeira. Entre canes, 
Natalie ria-se e conversava com os seus clientes como se fossem velhos amigos, to confortvel no palco como Zeke estaria numa reunio de famlia. Sempre que se 
movia, o vestido rebrilhava, disparando raios de rubi. Os olhos dela intensificavam o efeito, grandes orbes cintilantes na oval delicada daquele rosto. Com as suas 
curvas generosas e porte elegante, olhar para ela tornava-se doloroso.
   - Antes de fazer uma pausa, gostava de cantar uma cano especial - murmurou ela ao microfone. Depois riu-se e sorriu tentadoramente a um cliente que se encontrava 
 sua esquerda. -  um pouco lamechas. Escrevi-a h muitas luas atrs, quando ainda acreditava em finais felizes.
   Graas a Rosie e a Chad, Zeke j dispunha de uma ideia razovel a respeito do que a desiludira. Recostou-se na cadeira para ouvir. Ela baixou a cabea, a sua 
nuvem de caracis negros descendo para a frente e cobrindo-lhe o rosto. O silncio sbito era elctrico, e ele deu por si tenso com a expectativa. Ao ouvir-se o 
primeiro som, ela endireitou-se, revelando um semblante feito para partir o corao de qualquer homem. A partir daquele segundo, foi pura dinamite, a exploso de 
voz e de guitarra to hipnotizante e perfeita que ningum entre o pblico se atreveu sequer a mexer-se. O piano no era mais do que um acompanhamento quase imperceptvel 
e desnecessrio.
   - Porque  que te amo? - cantou ela. - Porque me importo? - Elevou o olhar acima da multido, cantando do corao, aparentemente ignorando os que a escutavam. 
- Quando tudo podia ser perfeito, porque  que, na calada da noite, a minha almofada est coberta de lgrimas? Tnhamos tudo, mas tu deitaste-o fora.
   Uma empregada aproximou-se da mesa de Zeke. Ele dispensou com um gesto a lista de bebidas disponveis.
   - Um Jack com Coca-Cola, por favor.
   - Simples ou duplo?
   Ele tinha de conduzir at casa.
   - Simples.
   Zeke s queria que a empregada se fosse embora para que ele pudesse ouvir a cano de Natalie. Quando finalmente pde voltar a concen-trar-se nas palavras - e 
na mulher que as cantava - a cano estava praticamente no fim. Quando Natalie ergueu o brao na ltima nota, ele sentiu-se quase perdido. O seu corao sofreu um 
ligeiro aperto quando ela curvou a cabea e baixou a mo direita. A sala mergulhou novamente num silncio total.
   Ela ficou ali parada durante um segundo, o seu corpo imvel, a cabea ainda curvada. Ningum aplaudiu at que ela a levantou. Era como se tivesse de os libertar 
do seu feitio antes que pudessem pensar ou sequer mexer-se.
   Em lugar de fazer uma vnia e baixar a cabea para agradecer os aplausos, ela desfez-se da guitarra e debruou-se sobre o ombro do pianista. Juntos, estudaram 
algumas pautas. Em seguida, ela deu-lhe uma palmadinha no brao e deixou o palco, uma chama intensa que prendia o olhar de todos os homens presentes. Ao dirigir-se 
para uma porta  direita da plataforma, hesitou a meio de um passo e olhou directamente para Zeke. Os seus ombros descaram ligeiramente. O pianista comeou a tocar 
qualquer coisa com um som de blues enquanto ela abria caminho por entre as mesas.
   Zeke levantou-se e puxou uma cadeira para ela.
   - Ol, Sr. Coulter - disse ela em voz baixa. - O mundo  pequeno, ou o meu filho voltou a vandalizar a sua propriedade?
   - Mas que raio  que voc est a fazer em Crystal Falls? - perguntou-lhe ele. - Devia estar a tomar Nashville de assalto.
   A pergunta saiu-lhe da boca por vontade prpria. Ela era um fenmeno com uma voz para l de fabulosa e uma presena de palco a condizer. Devia estar a cativar 
milhares, no a entreter uns quantos parolos numa comunidade de rancheiros.
   Ela deixou-se cair, cansada, na cadeira.
   - Lisonjas, Sr. Coulter?
   - Esquea as lisonjas. Com uma voz dessas, voc podia fazer o que quisesse.
   - Receio que os meus dias a correr atrs de arco-ris j tenham acabado.
   O tom de resignao na voz dela no lhe passou despercebido. No havia amargor, apenas simples aceitao. O que lhe pareceu imensamente triste. Se ela tivesse 
feito outras escolhas quando era mais nova, poderia ter o mundo a seus ps. Em vez disso, tinha de batalhar para comprar um par de sapatos decentes para a filha.
   Ela esfregou a nuca e flectiu os ombros.
   - Aquela guitarra pesa uma tonelada quando o turno est a acabar.
   Zeke teve a sensao de que a guitarra era o mais leve dos fardos daquela mulher.
   - Ento, o que  que o traz ao Blue Parrot? No me parece que seja do tipo que frequenta clubes.
   A empregada regressou naquela altura. Zeke aceitou a sua bebida e disse:
   - Traga  senhora o que ela costuma beber, por favor, e ponha na minha conta.
   - gua - disse Natalie com um sorriso trocista que Zeke desconfiou ser ensaiado para manter os admiradores  distncia. - Cobra cinco dlares a este senhor. Ele 
est cheio dele.
   Zeke recostou-se para a observar. Tinha-lhe pisado os calos e ela estava a dar-lhe a entender que no o desculparia to facilmente. Ele prprio era assim e admirava 
aquela caracterstica nela.
   Natalie concentrou a sua ateno na mesa, centrando a vela, alisando a toalha.
   - Falei com o Chad esta noite. Parece que ele gosta de si. - Olhou para ele, agora com mais intensidade. - No fao a mnima ideia porqu, mas eu sou assim. Parece 
que voc estava certo, e eu errada. Esta experincia  boa para ele. Trabalhar consigo hoje aumentou-lhe a confiana. E do que ele precisa neste momento.
   Limpando gotas de condensao com as pontas dos dedos, Zeke girou o copo.
   - Vim aqui pedir desculpa. Aproveite. Sou conhecido por nunca o fazer.
   - Acredito.
   Ele soltou uma gargalhada:
   - Mereci essa.
   - Pois.
   - Peo desculpa por tirar concluses precipitadas e portar-me como um asno.
   Com uma expresso cautelosa, Natalie continuou a observ-lo.
   - Posso perguntar a que se deve tudo isto?
   - A sua filha fez-me uma visita esta noite.
   A expresso dela passou de cautelosa para surpreendida.
   - A Rosie?
   - Voc tem duas filhas?
   - No, graas a Deus. Uma j chega. Porque  que ela foi a sua casa?
   - Foi negociar. - Zeke sorriu ao recordar-se. - Encontro-me actualmente em posse de todas as suas economias, destinadas a um buggy para a Barbie.
   - Oh, no.
   - Oh, sim, e ela sabe negociar. Fiquei sem saber que raio havia de fazer. - Zeke encolheu-se e olhou em redor, com a esperana de que ningum o tivesse ouvido. 
- Peo desculpa pelo meu francs3.
   - No ponha as culpas nos franceses. O apelido de solteira da minha me  Devereaux.
   No admirava que ela tivesse umas pernas fantsticas. As mulheres francesas eram famosas por isso.
   - Muito bem. O meu irlands, ento.
   Os olhos dela comearam a brilhar, aquecendo-o como o haviam feito na tarde anterior.
   - Ah. Est explicada a teimosia.
   Zeke riu-se.
   - Os escoceses  que so teimosos.
   - Com os irlandeses logo atrs, em segundo.
   Ele aceitou com um encolher de ombros.
   - No fui suficientemente teimoso para sair por cima com a sua filha.
   - So poucos os que o conseguem fazer. A minha Rosie  terrvel e demasiado engraada para seu prprio bem.
   -  verdade. Depois de me perguntar porque  que eu era mau e mesquinho, deu-me a saber que o bisav e as vacas dele tm planos si nistros para as minhas couves. 
Sendo um homem esperto que no tem qualquer desejo de ver o seu traseiro vtima de um velhote, aceitei rapi damente os termos dela.
   Os lbios encantadores e altamente beijveis de Natalie apertaram-se.
   - E esses termos so?
   - Voc e a Rosie podem ajudar o Chad a pagar a dvida. No quero ter a responsabilidade de ele perder o campo de frias e ficar com os miolos podres por causa 
do rap da Valerie.
   Ela rebentou s gargalhadas. O som no era to mgico como a voz dela numa cano, mas ficava prximo.
   - A minha filha. Repete tudo o que ouve.
   - E com grande eloquncia, devo acrescentar.
   - Peo desculpa se ela o incomodou. O Chad tem razo, calculo. Ela pode ser uma chaga.
   - Ainda bem que ela apareceu. Devemos acreditar nas crianas. Eli estava a ser mau e mesquinho. Comecei a aperceber-me disso esta tarde, quando fiquei a conhecer 
o seu filho um pouco melhor.
   - Ou seja, est a comear a gostar do Chad tanto quanto ele gosta de si?
   Zeke assentiu.
   - Ele  um rapaz com problemas, mas no  mau. Fiz mal em ser to duro, ameaar meter a Lei ao barulho. - Ele bebeu um pouco para organizar os seus pensamentos. 
- Tambm quero pedir desculpa por sugerir que voc o apaparica. Antes de ele se ir embora hoje, fiquei com vontade de lhe facilitar a vida. - Agarrou numa carteira 
de fsforos, estudou o logtipo do Blue Parrot, e acrescentou: - D para ver o corao dele naqueles olhos, e  um corao desfeito. Mas que raio  que se passa 
com o pai dele?
   Os olhos dela ficaram brilhantes com o que Zeke julgou serem lgrimas.
   - Nada. - O sorriso que lhe passara pelos lbios desapareceu. - Quando se trata de ser pai, o Robert simplesmente no o . No me ocorre outra forma de o dizer.
   - Foi o que me pareceu.
   Ela comeou a brincar com o guardanapo azul que tinha  sua frente.
   - Pareo uma ex-mulher azeda. E to enfadonho ser tpica, mas  mais forte do que eu. - A testa dela enrugou-se, pensativa. - No quero transmitir uma imagem 
negra do Robert. Ele s est... bem, a ser ele mesmo. Os pais dele nunca lhe deram ateno, e ele s sabe ser assim.
   - No arranje desculpas para esse estupor.
   Ela riu-se baixinho, e soprou os cabelos da testa, fazendo-o pensar em Rosie.
   - O Robert no tem desculpa. Eu s queria dizer que a culpa no  realmente dele. Est a ser um pai to bom para o Chad como o dele foi. Demasiadas vezes, tornamo-nos 
nos nossos pais.
   Zeke pensou que havia muita verdade naquela afirmao. Tinham-lhe dito vezes sem conta que era uma fotocpia do pai dele.
   - O seu filho acha que no  bom em coisa nenhuma. Quando consegue fazer alguma coisa sem fazer asneira, fica espantado.
   - O Robert  um pouco crtico.
   Um pouco?
    complicado. - Durante um momento, Zeke pensou que ela iria ficar por ali. - Acho que ele se sente desajustado, por acaso. Disfaa muito bem. Se o conhecer, 
nunca lhe passar pela cabea que tem problemas de auto-estima. O Robert  uma daquelas pessoas que so mais espertas do que todas as outras e melhores em tudo. 
Desporto, estudos, negcios, o que voc quiser. O coitado do Chad nunca est  altura.
   Zeke duvidava que Chad tivesse sido a nica vtima de Robert. Tinha conhecido homens assim e, segundo a sua experincia, ningum que estivesse por perto lhes 
escapava.
   Deu por si a perder-se nos olhos castanhos de Natalie e sentiu algo semelhante a medo. Aquela mulher no era para brincadeiras. A semelhana da filha, ia-lhe 
direita ao corao de uma forma que ele no conseguia entender. No lhe agradava a sensao e, de repente, s lhe apetecia sair dali.
   Ergueu uma anca para tirar as notas do bolso, e atirou uma de vinte para a mesa. Era mais do que suficiente para cobrir a sua bebida e o copo de gua de cinco 
dlares. Esperava que Natalie pagasse a conta e guardasse o resto. A avaliar pelas roupas da filha, ela precisava daquele dinheiro um pouco mais do que ele.
   - J disse o que queria dizer. - "Brilhante, Zeke." - Eu, hmm... - a sua mente ficou em branco - ...tenho de ir.
   Ela levantou-se antes que ele tivesse tempo para empurrar a cadeira para trs.
   - Obrigada por ter passado por c, Sr. Coulter. Agradeo o pedido de desculpa e a sua mudana de opinio. O Chad precisa de um pouco de moderao nesta altura. 
O campo de frias  importante este ano.
   Ele levantou-se, arrumou a cadeira com a biqueira da bota e fincou os polegares no cinto.
   - Agora que j conheo melhor o rapaz, concordo consigo. Ele devia ir. Se os prejuzos no ficarem resolvidos a tempo, dou-lhe uma semana de folga e deixo-o trabalhar 
depois das aulas.
   Ela agarrou na nota de vinte, contornou a mesa e aproximou-se para lha arrumar no bolso da camisa. O cheiro do perfume dela encheu-lhe os sentidos. O calor daquele 
corpo que se movia a escassos centmetros do seu queimava-o como um ferro em brasa.
   - A bebida  por conta da casa.
   Ao recordar-se da fita isoladora nas sandlias de Rosie, Zeke teria preferido que ela aceitasse o dinheiro. Em lugar de fazer alguma coisa, ficou parado como 
um pateta a v-la afastar-se. Ou, para ser mais preciso, a ver o baloiar das ancas dela. Natalie Patterson no era uma mulher magra. O seu corpo era cheio e torneado 
em todos os devidos lugares.
   No apenas uma chama, mas um incndio na mata, decidiu ele, e apenas um tolo se deixaria queimar.
   
   * * *
   
   Na manh seguinte, quando abriu a porta da frente s oito, Zeke deu de caras com o mesmo ajudante macambzio no seu alpendre, a nica diferena sendo que desta 
feita trazia os atacadores amarrados.
   - 'dia - disse Zeke, abrindo completamente a porta.
   Chad no respondeu. Com a boca apertada numa linha estreita, transps a soleira. Zeke estava espantado. Eles tinham-se despedido amigavelmente na vspera.
   - Ento, como  que vo as coisas? - tentou ele.
   - Como sempre. - Metendo as mos nos bolsos, Chad curvou os ombros e comeou a dar pontaps no tapete.
   - Tens fome?
   - Nem por isso.
   - Ainda bem - disse Zeke. - Hoje estou a sentir-me preguioso. S vou comer cereais.
   - Isso quer dizer que no temos de trabalhar? Zeke riu-se.
   - No  uma opo vlida, lamento.
   - As pessoas no deviam ter de trabalhar ao domingo.
   - Frequentas a igreja?
   - J no. Costumvamos ir todos os domingos, mas agora que vivemos aqui no temos dinheiro para o combustvel.
   Zeke sabia como era. Os pais dele tinham passado por alguns apertos quando ele era pequeno.
   - Lamento que as coisas sejam to difceis nesta altura.
   - Porque  que havia de lamentar? No o afecta.
   Chad entrou na cozinha  frente dele, deixou-se cair numa cadeira e ficou a olhar para o cho. "OK", pensou Zeke. "Voltmos  estaca zero." Alimentara a esperana 
tola de tornar-se amigo do rapaz. Enquanto enchia uma tigela com Cheerios e leite, disse:
   - Queres falar sobre isso?
   - Isso, o qu?
   - Seja l o que aconteceu que te deixou to em baixo. Chad sacudiu a cabea para afastar o cabelo dos olhos.
   - De que  que adiantava?
   O prprio Zeke no era dado a grandes conversas.
   - s vezes ajuda.
   - A mim, no.
   Zeke aceitou a resposta com um encolher de ombros.
   - Muito bem. Achei que devia perguntar.
   Chad ficou a olhar pela janela, a sua expresso revelando apenas raiva.
   - Tentei telefonar outra vez ao meu pai ontem  noite - acabou ele por revelar.
   - Ah.
   - S apanho o correio de voz dele em todos os telefones. Acho que est a filtrar as minhas chamadas porque no quer falar comigo.
   Zeke no fazia ideia do que dizer. Os nicos sons eram o tiquetaque do relgio de parede e um estalar ocasional  medida que os cereais absorviam o leite.
   - Talvez esteja muito ocupado nesta altura - sugeriu Zeke.
   Chad engoliu com dificuldade:
   - Talvez.
   Zeke agarrou no aucareiro e polvilhou generosamente os cereais. Gostava de ter mais alguma coisa para lhe dizer. Aquele rapaz estava a sofrer, e a dor poderia 
piorar antes de comear a melhorar. Concentrou-se no acto de comer.
   Entre colheradas, disse:
   - Ontem  noite, a tua irm fez-me uma visita.
   - Ouvi dizer. A tia Valerie diz que ela o convenceu a deix-la e  minha me ajudar a pagar a minha dvida. Voc no precisa de fazer isso. - Chad virou a caixa 
de cereais para olhar sem ver para a lista de ingredientes. - No sou uma criana. No preciso que a minha me me venha safar. - Deitou um olhar furioso a Zeke. 
- Ela no percebe nada de ferramentas elctricas e construo de vedaes. S vai atrapalhar tudo.
   Zeke tinha as suas prprias reservas a respeito do novo acordo, nomeadamente, o facto de passar a ver Natalie com mais frequncia do que desejava, mas absteve-se 
de o dizer.
   - Com as ferramentas elctricas, h uma curva de aprendizagem para toda a gente. - O prprio Chad nunca tocara numa antes do dia anterior. - Tenho a certeza de 
que ela lhe h-de apanhar o jeito.
   - Hello. Ela  uma mulher. O meu pai nunca a deixava fazer nada. Dizia-lhe para ir pintar as unhas e no se meter no caminho dos homens que estavam a trabalhar.
   - Isso era o teu pai, no eu. Cresci num rancho.
   - E o que  que uma coisa tem a ver com a outra?
   - Tudo. Se no fosse a minha me, o meu pai tinha ido ao fundo. No havia nada que ela no soubesse fazer to bem como um homem.
   - A minha me no  assim. Ela s sabe cantar.
   Zeke tinha a certeza de que Chad no estava a fazer justia  me, mas, de momento, deixou passar.
   - Ento, vamos ter quem nos entretenha enquanto trabalhamos.
   Os olhos de Chad arregalaram-se de fria.
   - Talvez eu no queira passar assim tanto tempo com ela. No pensou nessa hiptese?
   "Cuidado, Zeke."
   - Vocs no se do bem?
   Chad cerrou os dentes e os seus olhos escuros brilharam com lgrimas.
   - Odeio-a. O meu pai no me vem ver nem atende as minhas chamadas. A culpa  toda dela.
   Zeke perdeu o apetite e afastou a tigela. Um homem esperto ficaria de boca fechada. Ele no era nenhum pedopsiclogo, e no queria dizer algo que fosse inadequado. 
Por outro lado, no era capaz de apagar da memria o que Rosie lhe revelara na noite anterior.
   - No me parece que estejas a ser justo com a tua me, Chad.
   - O que  que voc sabe disso?
   - Ela no pode ser responsabilizada pelas escolhas que o teu pai est a fazer agora.
   - Ele est a fazer essas escolhas por causa dela. Ela faz-lhe a vida num inferno.
   Perdido por cem, perdido por mil.
   - O teu pai no tem de estar com ela. Ele podia organizar as coisas de maneira a ir buscar-te ao fundo da estrada da tua quinta ou no parque de estacionamento 
de uma loja. Ele tambm tem direito a falar contigo ao telefone vrias vezes por semana sem interferncia.
   - Diga isso  minha me.
   -  de Lei - retorquiu Zeke - e tenho a certeza de que a tua me sabe isso. Depois de um divrcio,  comum haver animosidade entre os pais. Os tribunais protegem 
o direito de visita do pai que no ficou com a custdia. Se a tua me levantar problemas, o teu pai dispe de recursos legais para a fazer parar.
   Chad esfregou a bochecha.
   - Se isso  verdade, ento, porque  que ele no o fez?
   - No sei. Talvez devesses perguntar-lhe.
   - Sim, pois. Tipo, quando? - Um msculo na cara do rapaz contraiu-se quando ele cerrou os dentes. - Como  que posso falar com ele sobre seja l o que for se 
no me atende o telefone?
   Zeke no tinha respostas. Apenas sabia que comeava a detestar Robert Patterson sem sequer alguma vez o ter conhecido. A raiva e o azedume de Chad em relao 
 me apenas queriam dizer sarilhos. Zeke vira os resultados: uma porta slida que aquele rapaz partira com um pontap, consequncia de uma raiva impotente e impossvel 
de conter.
   Em qu ou em quem iria aquela raiva ser descarregada na prxima vez?
   
Captulo Cinco
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   "Duas horas de atraso." Natalie no queria acreditar que se deixara dormir at depois das nove. Pusera o despertador para as sete, com a esperana de estar a 
p e pronta quando Chad sasse de casa, mas o alarme no tinha tocado.
   - No faz mal se nos atrasarmos, mam - disse Rosie. - O Sr. Coulter no se zanga.
   Para o bem de Chad, Natalie assim esperava.
   Curvando-se para apanhar algumas flores de tremoceiro, a rapariga lanou-se num monlogo sobre flores silvestres. Caminhando ao lado da filha, Natalie mal prestava 
ateno ao que ela ia dizendo. Por mais absurdo que fosse, sentia-se nervosa por ir reencontrar Zeke. Quando estavam zangados, ela no tivera qualquer dificuldade 
em ignorar o quanto ele era atraente. Mas as circunstncias haviam-se alterado com a visita ao clube na noite anterior.
   O pedido de desculpa apanhara-a desprevenida, e a compaixo que ele revelara por Chad desarmara-a. Quando dera por isso, estava a falar com ele sobre os defeitos 
de Robert enquanto pai. Normalmente, Natalie era uma pessoa bastante reservada. No tinha por hbito revelar segredos de famlia a um homem que mal conhecia. Ainda 
mais alarmante era o facto incontornvel de ele lhe acelerar a pulsao sempre que olhava para ela.
   "Esquece." Tinha de controlar aqueles sentimentos antes que eles a controlassem a ela. S que, por algum motivo, no era capaz de controlar aquela sensao pueril 
de entusiasmo. Era semelhante ao que sentira quando encontrara Robert pela primeira vez, e o resultado tinha sido fantstico.
   "So precisos dois para danar o tango", pensou ela para consigo. "Estou mais do que segura." Qual era a probabilidade de Zeke Coulter se sentir atrado por ela? 
Depois de aplicar a maquilhagem e de se espremer para dentro de um vestido vistoso que escondia uma multido de pecados, ela podia ficar com bastante bom aspecto 
se a iluminao fosse a adequada. Mas essa no era a verdadeira Natalie. Fora do palco, sem toda aquela maquilhagem e brilhos, era uma mulher muito normal, com um 
QI mediano, um aspecto razovel, uma famlia de malucos, e uma vida catica e enfadonha.
   Puxou a camisa que tinha surripiado do armrio do seu pai. Porque  que no a tinha examinado melhor antes de a vestir? Tinha manchas de gordura na frente. Pior 
ainda, as calas de ganga velha estavam to apertadas na cintura que ela mal conseguia respirar, um desagradvel lembrete dos dez quilos que tinha ganho devido a 
duas gravidezes. Devia estar louca por se preocupar com a impresso que poderia causar no bonito solteiro da quinta do lado. Provavelmente, Zeke Coulter tinha um 
caderninho preto cheio de nmeros de telefone de mulheres lindas. Nem sequer pensaria no aspecto dela, apenas na sua capacidade de trabalho.
   - Ests bem, mam?
   Natalie respirou fundo para se acalmar.
   - Estou, sim, querida. S um pouco cansada desta correria para me arranjar.
   Quando chegaram a casa de Zeke, Natalie abrandou o passo e endireitou o cabelo. Uma pena que no tivesse tido tempo para encontrar um top mais bonito e aplicar 
um pouco de maquilhagem. Contornaram a oficina e encontraram Chad e Zeke, que se preparavam para fazer uma pausa. "Fabuloso." As tropas tinham chegado no fim.
   Zeke tinha um aspecto delicioso com as suas botas Tony Lamas esfoladas, Wranglers desbotadas, e uma camisa de algodo vermelha com as mangas enroladas sobre os 
braos bronzeados e musculados. Desgrenhado pela brisa matinal, o seu cabelo castanho-chocolate cobria-lhe a testa alta em madeixas preguiosas. A luz do sol brincava 
no seu rosto, acentuando a cana do nariz, as mas do rosto bem definidas e o ngulo recto do maxilar.
   Natalie respirou fundo e livrou-se da tenso que sentia, um truque que aprendera anos antes quando sentira pela primeira vez o medo do palco.
   - Bom dia! - disse ela, animada. - Peo desculpa pelo atraso. Liguei o despertador, mas ele no tocou. - Deitou um olhar contrariado ao filho. - Algum esqueceu-se 
de me acordar quando se levantou.
   Chad, que tinha acabado de lavar um pincel, secou as mos num trapo vermelho.
   - Como  que eu podia saber que querias vir comigo?
   - Amanh j sabes - retorquiu ela.
   Obrigou-se a olhar para Zeke. Mesmo do outro lado do ptio, os olhos dele tinham um efeito perturbador. Eram de um azul-celeste lmpido, quase assustadores pelo 
contraste com a pele tisnada. A sua expresso no revelava nada quando o seu olhar assentou no rosto dela, descendo lentamente para registar as ndoas na camisa.
   - Esteve a trabalhar ontem  noite. S estava a contar consigo por volta do meio-dia. - Apontou para um carvalho frondoso na orla do ptio. - amos fazer uma 
pausa. Preparei um pouco de ponche. Fazem-nos companhia?
   Natalie preferia estar ocupada:
   - Oh, eu no...
   - Eu adoro ponche! - cortou Rosie.
   Zeke olhou para Natalie com uma expresso divertida nos olhos.
   - Parece que perdeu.
   Natalie ficou a ver a sua filha atravessar o relvado a correr. Zeke baixou-se para lhe despentear os cabelos quando passou por ele.
   - Como  que a menina est hoje?
   Rosie deu meia-volta e parou, adorvel num par de calas floridas que j lhe estavam curtas e uma camisola cor-de-rosa com coelhos na frente.
   - Estou bem. Infelizmente, no se pode dizer o mesmo a respeito de todos os membros da minha famlia.
   Natalie calculou o que vinha a e vasculhou freneticamente entre os seus pensamentos, em busca de alguma coisa, de qualquer coisa para dizer que pudesse dar outro 
rumo  conversa.
   - A srio? - Zeke sorriu. - Est algum doente?
   - Doente, no - respondeu Rosie. - A tia Valerie acordou com cibras. O av diz que era mais fcil aturar um urso velho e resmungo.
   A expresso de Zeke passou de interrogativa a inexpressiva. Era uma expresso que Natalie j vira na cara de muitos adultos. Parecia que ningum estava preparado 
para lidar com a sua filha precoce.
   - Hmm, tenho pena que ela no esteja a sentir-se bem - acabou ele por dizer.
   Rosie suspirou.
   - Ela costuma melhorar passado um dia, ou assim. J as hemorridas do meu bisav so outra histria.
   "Isso no", pensou Natalie. Mas, antes que a pudesse interromper, Rosie deixou escapar:
   - Ele  muito esquecido e no sabe onde deixa as coisas. Esta manh no conseguia encontrar a pomada.
   Zeke apertou os lbios.
   - A srio?
   Rosie revirou os olhos.
   - Eu e a mam procurmos por todo o lado. O av acha que ele a confundiu com a outra, para a comicho, e a esfregou nas partes...
   - Rosie! - exclamou Natalie.
   A filha deitou-lhe um olhar inocente.
   - O que foi?
   - H coisas que no devemos discutir sem ser em casa, em famlia.
   - Porqu? - Rosie olhou interrogativamente para Zeke, com a cabea inclinada. - O senhor nunca ouviu falar de hemorridas e de comicho nas partes?
   Zeke parecia no saber muito bem como responder.
   - Por acaso, j ouvi.
   - Ests a ver, mam? No faz mal.
   Zeke lanou novo olhar divertido a Natalie. Relutante, ela seguiu-o e aos seus filhos at  sombra do carvalho onde ele colocara um grande jarro de ponche e quatro 
copos. Ele acocorou-se, encostou as costas largas ao tronco rugoso e indicou-lhes que lhe fizessem companhia.
   - Peo desculpa - disse ele. - Ainda no tive tempo para comprar mobilirio de jardim.
   Antes de se baixar, Chad procurou o lugar mais distante de Natalie onde no tivesse de se sentar ao sol. Depois, como se tivesse sido demasiado subtil, franziu 
o sobrolho e recusou-se a olhar para ela. Natalie sentia um aperto no corao sempre que olhava na direco dele. Chad continuava furioso porque pensava que ela 
se esquecera de telefonar ao pai. Ela no lhe podia explicar o que acontecera sem lhe dizer a verdade, que o pai no estava para se incomodar com ele.
   Rosie ajoelhou-se ao lado de Zeke, falando sem parar sobre coisas que Natalie preferia que ela no revelasse. Infelizmente, silenciar Rosie quando ela entrava 
em modo tagarela era praticamente impossvel.
   Antes de o ponche ser servido, Zeke j sabia: que Valerie tinha acabado com o namorado, Kevin, e que no conseguia encontrar emprego; que o av tinha problemas 
nas costas e que Natalie se encontrava numa permanente batalha contra o excesso de peso.
   - Praticamente, a minha me s come iogurte magro e aipo - explicou Rosie. - O meu av tem medo que ela fique doente.
   Enquanto passava um copo de ponche a Natalie, Zeke percorreu-lhe o corpo com os olhos.
   - Parece-me muito bem como est.
   Mas o espelho revelava uma histria diferente a Natalie. Alm disso, para ela, fazer dieta era uma necessidade econmica. O aspecto era um instrumento comercial. 
Trs quilos a mais pareciam dez num vestido justo de lantejoulas, especialmente com iluminao de palco. Ela no ia dar a um bbedo qualquer a oportunidade para 
gritar: "O espectculo no acaba antes de a senhora gorda cantar4."
   Zeke recostou-se contra o carvalho, um brao apoiado no joelho elevado e a outra perna estendida. Aquela posio acentuava-lhe a largura dos ombros. Com a luz 
que passava atravs das folhas da rvore, os plos escuros que lhe cobriam o brao e as costas da mo pendurada brilhavam como seda. Ele tinha dedos compridos e 
largos, os ns calejados como couro. Era a mo de um homem de trabalho, com a palma e a base largas.
   Tirando-lhe as medidas com olhares de esguelha, Natalie decidiu que ele e Robert eram to diferentes com a noite e o dia. Robert tinha o seu cabelo cortado por 
profissionais. As mos tratadas eram macias como as de uma mulher, e ganhara barriga devido a tantas horas sentado atrs de uma secretria. Ningum o confundiria 
com um trabalhador.
   Sobressaltada, apercebeu-se de que ele a apanhara a olhar. Tentou disfarar, mas a atraco magntica dos olhos dele no lho permitiu. Durante um segundo que 
lhe pareceu torturantemente longo, fitaram-se nos olhos. O corao dela parou de bater. Ela no se teria conseguido mexer nem que algum lhe tivesse espetado um 
alfinete.
   Ignorando o que se passava entre eles, Rosie abandonou o seu ponche para correr atrs de uma borboleta monarca. Um momento depois, voltou com as mos fechadas 
junto ao peito.
   - Adivinhe o que eu apanhei, Sr. Coulter!
   Zeke sorriu.
   - Um duende?
   Rosie riu-se.
   - No, tontinho. Os duendes s existem na Irlanda.
   Zeke levantou uma sobrancelha.
   - Como  que sabes isso?
   - A mam leu-me uma histria de duendes. Pode-se aprender muita coisa nos livros.
   - Talvez algum tenha trazido um duende na mala, por engano, quando veio da Irlanda - sugeriu ele.
   Rosie apertou os lbios, um gesto habitual que lhe dera a alcunha de Rosebud5, o qual, com o tempo, fora abreviado para Rosie.
   - Talvez, mas o que eu tenho aqui no  um duende.
   - Hmm - Zeke franziu o sobrolho e fingiu pensar. - Um colibri?
   - No. No sou assim to rpida que os consiga apanhar.
   - Sou pssimo com adivinhas. Vais ter de me mostrar.
   Rosie aproximou-se e afastou as mos. Para consternao de Natalie, um sapo saltou, o seu corpo gordo e coberto de verrugas acertando em cheio na cara de Zeke. 
Ele sacudiu-se com tanta violncia que entornou ponche nas Wranglers.
   - Grande me...cha! - exclamou ele. Com reflexos rapidssimos, apanhou o sapo antes que fugisse.
   Natalie levou uma mo  boca para no se rir.
   - Acha graa? - Ele deitou-lhe um olhar divertido que prometia vingana. Em seguida, devolveu o sapo s mos estendidas de Rosie. - Este pequenito come insectos 
- disse-lhe ele. - Quando acabares de brincar com ele, solta-o no que resta da minha horta.
   Rosie largou a correr para cumprir as ordens que recebera. Chad levantou-se atrs dela, berrando ordens como todos os irmos mais velhos, todas as quais Rosie 
ignorou.
   - A no. Precisa de sombra. Eles vivem na lama, sua tonta.
   - No sou tonta.
   - s, pois.
   - No sou, nada!
   - Nada de chamar nomes, Chad! - gritou Natalie, mas os seus filhos continuaram a trocar insultos como se ela no tivesse falado.
   Rosie atravessou a horta, que agora apresentava mais terra do que plantas,  procura do lugar perfeito para libertar o seu prisioneiro.
   - Os sapos no vivem na lama - explicou ela ao irmo. - S se escondem em buracos na lama durante o dia para fugir ao calor.
   - N, n.
   - Sim, senhor.
   E assim continuou. Zeke ficou a ouvi-los durante um momento.
   - J quase me tinha esquecido - disse ele em voz baixa.
   - De qu?
   - Que os midos adoram implicar. Eu era um de seis. Desde madrugada at  noite, no havia um momento de sossego. No sei como  que os meus pais no so carecas 
de tanto puxarem pelo cabelo.
   Os modos amigveis e informais dele ajudaram Natalie a descontrair. Poisou o copo ao seu lado na relva e cruzou os braos em redor dos joelhos flectidos.
   - Seis filhos? Nem consigo imaginar. O Chad e a Rosie j so o que so. s vezes, tenho vontade de bater com as cabeas dos dois uma na outra.
   - Multiplique por trs e fica com uma ideia do que foi a minha infncia. Quatro irmos e uma irm. Eu sou o segundo mais velho.
   - A minha simpatia vai toda para a sua irm - disse ela com uma gargalhada. - Como  que ela conseguiu sobreviver a cinco irmos?
   - Era a mais nova. Facilitmos-lhe bastante a vida. - Os olhos dele tornaram-se doces com as recordaes. - Mas a Bethany no pensa assim. Essencialmente, era 
o Hank, o mais novo dos rapazes, que a fazia penar. Um contra um, ela aguentava-se bastante bem. Por acaso, acho que lhe fez bem. Tornou-se uma mulher bastante despachada.
   Pela sua expresso, Natalie percebeu que ele gostava muito da irm.
   - E os seus irmos, como so eles?
   Ele franziu a testa, pensativo.
   - Muito parecidos comigo nas feies, e noutros aspectos tambm, acho eu. O Jake e o Hank tm um rancho de gado. Tambm criam e treinam cavalos de competio. 
Os gmeos, Tucker e Isaiah, so veterinrios, especializados em animais de grande porte. Eu tenho o The Works, um armazm de abastecimento para ranchos no lado ocidental 
da cidade.
   O pai de Natalie fora cliente habitual do The Works antes de se magoar nas costas. Agora, arrendava os seus campos de alfalfa aos lavradores vizinhos e vivia 
das rendas e do subsdio que recebia do seguro de invalidez.
   - J l estive. E uma loja simptica.
   Ele encolheu os ombros.
   - D-me um bom nvel de vida, e vender material para ranchos tem tudo a ver comigo. O meu pai  um criador de gado de terceira gerao. H alguma verdade no provrbio 
que diz que uma ma nunca cai longe da rvore, imagino.
   Natalie achou interessante que os cinco rapazes tivessem seguido profisses associadas  do pai.
   - E a sua irm, o que  que ela faz?
   - Para alm de ser uma esposa e uma me fabulosa, abriu recentemente uma escola de equitao para crianas deficientes.
   - Isso  uma ideia fantstica. H alguns anos, vi um documentrio na televiso sobre uma escola assim. Ver a alegria na cara daquelas crianas quando montavam 
pela primeira vez quase me deixou em lgrimas. Dava-lhes uma sensao de liberdade to grande. Espero que a sua irm se d bem.
   - No tem de se preocupar com ela. Casou-se com o Ryan Kendrick.
   Praticamente toda a gente em Crystal Falls j tinha ouvido falar da famlia Kendryck. Eram mais ricos do que Creso.
   - Ah. Nada de preocupaes, pois.
   Zeke sorriu.
   - O Ryan apoia-a imenso. De facto, acho que foi ele quem teve a ideia da escola. Sendo casado com uma paraplgica, sente-se mais prximo das crianas deficientes 
do que a maioria das pessoas.
   - A sua irm  paraplgica?
   - Um acidente numa corrida de cavalos quando tinha dezoito anos. Ensinar crianas a montar  uma forma fantstica de se manter activa. Ela sempre adorou cavalos. 
Foi campe estadual trs anos consecutivos e estava de olho nos nacionais.
   Agora que ele falava nisso, Natalie recordava-se vagamente de ter ouvido dizer que o Kendrick mais novo se tinha casado com uma mulher numa cadeira de rodas.
   - Ento, o Ryan Kendrick  seu cunhado - ela abanou a cabea e riu-se. - Ora, ora, tem amigos muito bem colocados, Sr. Coulter.
   - Zeke - corrigiu-a ele -, e tambm tenho muitos amigos mal co locados. - Os seus dentes brancos brilharam num sorriso rpido.
   Chega de falar de mim. Fale-me dos Westfields.
   Natalie fez um esgar.
   - A Rosie j se encarregou disso. H alguma coisa que voc ainda no saiba?
   Ele inclinou a cabea para trs e riu-se. Era um som quente, rico, que lhe subia do fundo do peito.
   - Ela falou de muita coisa em bastante pouco tempo - admitiu ele.
   Desconfio que no sou a primeira pessoa a dizer-lhe que ela  um doce.
   - Obrigada. E no, no  o primeiro a dizer-me isso. Geralmente, depois de ela ter acabado de dizer qualquer coisa embaraosa. Ela adora falar. S se cala quando 
est a dormir.
   Ele riu-se de novo.
   - O que me espanta  o domnio da linguagem. Custa a acreditar que s tem quatro anos. Engana-se nalgumas palavras, mas  raro.
   Natalie deixou escapar um suspiro sofrido e demorado.
   - s vezes, torna-se difcil. Parece que no consigo impedi-la de repetir tudo o que ouve. Vivo com pnico do que ela vai contar  professora. Comea a pr-primria 
este ano.
   Ele apertou os lbios.
   - Tenho a certeza de que no vai haver problema. Os professores ouvem de tudo. Uma vez, no primeiro ano, descrevi muito graficamente  minha turma o nascimento 
da minha irm. - Os olhos dele riam-se. - Pelo que me lembro, no deixei nada por explicar. A minha professora no desmaiou, mas teve de se sentar.
   - Mas voc no assistiu ao parto, de certeza.
   - Por acaso, assisti. - Ele esfregou a cara ao lado do nariz. - A minha me teve-nos todos em casa com a ajuda de uma parteira. O meu pai tentou fechar-nos e 
manter-nos longe do quarto de dormir, mas o meu irmo mais velho, o Jake, e eu ramos mais escorregadios que enguias. Queramos ver o motivo de tanta agitao.
   Natalie tentou imagin-lo em criana com uma trunfa de cabelo escuro e grandes olhos azuis. De algum modo, a imagem no se tornou clara. Era difcil imaginar 
um homem forte e viril como Zeke, pequeno e inocente.
   Os olhos divertidos dele observavam-na calorosamente.
   - A moral da histria  que no deve preocupar-se tanto com o que a sua filha diz. A maioria das pessoas no fica chocada. Apenas pensam que ela  uma querida 
e deixam-se cativar.
   O assunto da conversa regressou naquele instante, e estava em lgrimas. Chad deixara-se ficar para trs, com uma expresso culpada.
   - O Chad puxou-me o cabelo! - soluou Rosie.
   - No puxei nada!
   O lbio inferior de Rosie estava a tremer. Lgrimas enormes escorriam-lhe pelas bochechas.
   - Puxou, sim, mam. No estou a mentir.
   - Est bem, puxei-lhe o cabelo. Grande coisa. No foi de propsito.
   Natalie deitou um olhar interrogativo ao filho.
   - Como  que lhe puxaste o cabelo sem ser de propsito, Chad?
   A cara do rapaz ficou vermelha de fria.
   - Ficas sempre do lado dela.
   - No se trata de ficar do lado de ningum. S pedi uma explicao. Se foi um acidente, explica-me, e no se fala mais nisso.
   - Agarrei-a pelo ombro - disse Chad, macambzio. - Ela achou que eu lhe ia tirar o estpido do sapo e virou-se para fugir. Eu julguei que s lhe tinha agarrado 
na camisa, mas tambm apanhei algum cabelo.
   Parecia plausvel. Natalie agarrou na filha e puxou-a para si.
   - Pronto, ests a ver? Foi um acidente, querida. O Chad no te queria puxar o cabelo.
   - Mas ainda me di! - gritou Rosie, indignada.
   Natalie deu-lhe um beijo na cabea e uma palmadinha nas costas.
   - Eu sei, mas uma vez que foi um acidente, no tens de te zangar com ele. Ainda te di?
   Rosie fez que no com a cabea, mas continuou a soluar baixinho.
   - Perdi o meu sapo.
   - Que pena. Talvez consigas apanhar outro.
   - Mas eu no quero outro. Eu gostava daquele.
   - Talvez consigas voltar a encontr-lo - sugeriu a me.
   Quando Rosie largou a correr para comear a sua busca, Natalie levantou-se e sorriu ao filho.
   - Querido, era simptico se a ajudasses a procurar.
   - No me chame querido. No sou nenhuma criana.
   Zeke levantou-se para recolher os copos e, seguindo Natalie, foi at casa. A maior parte das manchas de tomate encontrava-se no ptio, por baixo de um alpendre, 
reparou ela com satisfao. No teriam de trabalhar ao sol.
   - J acabmos de limpar a polpa - explicou-lhe Zeke. - Agora, temos de pintar.
   - Estou pronta. Onde est o pincel?
   Passados minutos, todos, incluindo Rosie, tinham um pincel na mo. Chad estava no alto de um escadote, a pintar abaixo do beiral. Natalie sentia-se contente ao 
ver que o seu filho estava a fazer um bom trabalho, usando bastante tinta e voltando atrs para apanhar a que escorria. Queria elogi-lo, mas ele mostrara-se sempre 
to hostil durante as ltimas semanas que ela receava ser mal interpretada.
   Zeke resolveu-lhe o dilema ao dar um passo atrs para examinar a casa.
   - Tens a certeza de que nunca pintaste nada, Chad?
   - Absoluta. O meu pai contrata sempre este tipo de trabalho.
   - Ests a sair-te muito bem - observou Zeke. - Se no soubesse, jurava que eras batido nisto. Isso  qualidade de um pintor do sindicato.
   - Que qualidade  essa? - quis Rosie saber.
   Zeke explicou-lhe o que era o sindicato nacional de pintores:
   - Os membros so pintores profissionais, e costumam receber muito bom dinheiro. Se o Chad quiser,  capaz de pintar to bem como os melhores.
   Chad encolheu os ombros, mas Natalie pde ver que o elogio tinha sido importante. O rapaz endireitou-se no escadote e empenhou-se ainda mais no trabalho.
   - E como  que est o meu trabalho? - perguntou Rosie.
   Zeke no a cobriu de falsos elogios como muitos adultos costumavam fazer com uma criana de quatro anos. Em vez disso, acocorou-se ao lado de Rosie e examinou 
atentamente a rea que ela tinha pintado. A rapariga esperou pelo veredicto com uma expresso compenetrada. Zeke pediu-lhe o pincel para uniformizar alguns escorrimentos. 
Por fim, disse:
   - Nada mau, minha menina. Nada mau, mesmo.
   Era um elogio suficiente para a deixar feliz, mas no to generoso que ensombrasse o trabalho de Chad. "Muito bem." Zeke Coulter tinha um jeito natural para as 
crianas. Era tudo o que Natalie desejava que Robert pudesse ser: firme e exigente, todavia paciente, e sempre pronto a encorajar com um elogio quando as crianas 
faziam alguma coisa bem. Chad parecia estar a desabrochar perante os olhos de Natalie, ganhando mais confiana a cada pincelada.
   Aquilo estava mesmo a fazer-lhe muito bem, apercebeu-se ela. A companhia de Zeke aumentava-lhe a autoconfiana como ela nunca o poderia fazer.
   Com a aproximao do meio-dia, o sol comeou a fazer-se sentir, espalhando um calor sufocante. Natalie dava graas pelo alpendre que cobria o ptio. Mesmo  sombra, 
estava com calor. Com a sede, a boca e a garganta pareciam feitas de algodo, e s lhe apetecia beber um copo de ponche.
   Ela estava a pintar o tubo de queda no extremo do ptio quando Zeke se aproximou, tocando-lhe ao de leve no ombro. Natalie endireitou-se e deitou-lhe um olhar 
interrogativo. Ele poisou uma mo na parede, acima da cabea dela, e inclinou-se.
   - Temos companhia, e no  ningum que eu conhea.
   Natalie no tinha ouvido chegar nenhum carro. Espreitou pela esquina da casa e quase gemeu quando viu a sua ex-sogra, Grace Patter-son, a sair do seu novo Lexus 
prateado.
   - Fantstico.  a me do Robert.
   Zeke alou uma sobrancelha morena.
   - No ser uma das suas maiores amigas, imagino.
   - Muito perspicaz.
   - Ela costuma aparecer?
   - Raramente, graas a Deus. - Natalie suspirou. - Deve haver algum problema.
   Zeke estendeu uma mo para lhe ficar com o pincel.
   - V ver o que ela quer. Eu mantenho as crianas ocupadas.
   Natalie limpou as mos  camisa enquanto atravessava a zona de estacionamento coberta de gravilha. Mesmo com sessenta anos, Grace era uma loira alta, esguia e 
elegante de porte majestoso. Nos primeiros anos do seu casamento, Natalie tremera de nervos na presena dela, sempre com medo de dizer ou fazer algo de errado. Agora, 
limitou-se a preparar-se para o embate.
   - Meu Deus - disse Grace quando viu a roupa dela. - O que  que ests a fazer?
   - A pintar. - Natalie explicou-lhe rapidamente os actos de vandalismo de Chad. - O Sr. Coulter teve a amabilidade de deixar que eu e a Rosie ajudssemos a pagar 
o prejuzo com trabalho, para que o Chad esteja despachado a tempo de ir para o campo de frias.
   Grace assumiu o ar altivo de rainha do gelo que em tempos a fizera tremer.
   - Isto no pode ser. No pode ser de todo. - A mulher abriu a carteira. - Quanto  que deves a este homem?
   - No quero o seu dinheiro, Grace. Agradeo a oferta, mas no.
   - No sejas absurda. s casada com um homem rico e muito importante. No podes andar por aqui a pintar a casa de um desconhecido.
   - O Robert e eu divorcimo-nos, lembra-se?
   - Mas h que manter as aparncias. Trabalhar para pagar a dvida? - Grace estremeceu. - Isso  to classe trabalhadora.
   Natalie apontou para a casa onde tinha crescido.
   - Eu venho das classes trabalhadoras, Grace. Sempre fui assim, sempre hei-de ser.
   Uma expresso de repulsa passou pelo rosto perfeitamente maquilhado da mulher mais velha. Grace nunca gostara dos parentes de Natalie. A sua ligao  famlia 
Westfield sempre fora para ela um motivo de embarao.
   - s a me dos meus netos. Tens de dar o exemplo.
   - Em minha opinio,  exactamente o que estou a fazer. Os meus filhos esto a aprender o que significa assumir a responsabilidade pelos seus actos.
   Grace guardou o livro de cheques na carteira.
   - No vim aqui para discutir contigo, Natalie.
   - Ainda bem. Estou cansada. - Natalie tentou sorrir. - Ento, porque veio?
   -  o Robert.
   S ento Natalie reparou que ela estava a tremer.
   - O que  que ele fez agora? - perguntou resignada.
   Os olhos azul-claros de Grace encheram-se de lgrimas.
   - Tens de fazer alguma coisa, Natalie. O comportamento dele  to escandaloso que as pessoas j comeam a falar.
   Ou seja, as escapadelas de Robert j estavam a fazer levantar algumas sobrancelhas no clube de campo, traduziu Natalie.
   - Lamento saber isso, Grace, mas no posso fazer nada.
   - Volta para ele! Pelo menos, ele tentava ser discreto quando estava casado.
   Natalie pensou nas inmeras noites sem sono, a pensar onde ele estaria, apenas para o ver chegar a casa de madrugada, a cheirar a outra.
   - Receio que no tenha sido suficientemente discreto. Recuso-me a voltar a viver assim.
   Grace apertou a sua carteira Coach contra o peito.
   - Ele no  o primeiro homem a pisar o risco. As mulheres inteligentes aguentam a borrasca.
   A borrasca, como Grace lhe chamava, comeara pouco depois do casamento, e fora constante durante praticamente onze anos.
   - Parece que no sou muito inteligente.
   - Passei por casa dele esta manh, com a esperana de conseguir falar com ele. - Os olhos de Grace assumiram uma expresso calculista quando ela se aproximou 
para acrescentar: - Ele estava com aquela vadia, a Cheryl Steiner.
   Segundo as ltimas informaes de que Natalie dispunha, Robert andava a sair com uma loira chamada Bonnie Decker. No que lhe fizesse diferena. As namoradas 
dele eram muitas, todas elas novas e voluptuosas, com cabelo oxigenado e um QI igual ao valor da temperatura ambiente.
   - Entrei e dei de caras com eles na tua cama - acrescentou Grace, nitidamente  espera de uma reaco violenta.
   A cama em questo era uma herana de famlia dos Patterson, oferecida a Robert pelo pai. Originalmente, pertencera a Helena Grant Patterson, bisav de Robert.
   - A cama no  minha, Grace. Nunca foi.
   - No foi isso que o juiz decidiu.
   Natalie no pde negar. A insistncia de Robert durante o divrcio para que todos os bens fossem divididos em partes iguais por um juiz tivera o resultado que 
ele previra, com Natalie a ficar sem qualquer dinheiro, mas tambm resultara numa diviso catica de objectos, acabando cada um deles por ficar com coisas que no 
eram suas por direito. Tinham acabado por chegar a um acordo extrajudicial, cada parte renunciando a quaisquer bens de famlia da outra, anulando o direito de Robert 
a metade da quinta Westfield, que Natalie herdara da av durante o casamento.
   - No interessa quem  o dono da cama. - Natalie cruzou os braos. - O Robert e eu estamos divorciados. No me importa o que ele faz nem com quem ele o faz.
   - Ele est a envergonhar-te!
   - No, ele est a envergonhar-se a ele prprio. As escolhas dele deixaram de me dizer respeito.
   - Como  que podes dizer isso? Quanto mais no seja, os actos dele reflectem-se nos filhos.
   Natalie abanou a cabea.
   - O Chad e a Rosie no so responsveis pelo comportamento do pai, por mais repreensvel que possa ser.
   Grace enxugou a cara com um leno de papel, tendo o cuidado de no borrar a maquilhagem.
   - Quando os surpreendi, o Robert ficou furioso e mandou-me sair. Disse que deixei de ser bem-vinda se no tiver sido convidada.
   Natalie deixou-se comover com a dor que viu nos olhos da ex-sogra. Ela prpria uma me, entendia o quanto aquilo lhe devia ter custado.
   - Oh, Grace.
   - Eu sou me dele! - exclamou ela. - Depois de tudo o que fiz por ele, como  que pde tratar-me daquela maneira? E  frente daquela vadia? Foi a ltima gota 
para mim, Natalie. Fiquei to danada. Nem te passa pela cabea. Se tivesse uma arma, tinha-lhe dado um tiro, juro.
   Natalie deu-lhe uma palmadinha no ombro.
   - Ento, no est a falar a srio. O Robert  seu filho. Pode estar zangada com ele agora, e com bom motivo, mas isso passa.
   - No - disse ela em voz baixa. - Desta vez, no. - Uma expresso de incredulidade desesperada ensombrou-lhe os olhos. - No sei o que lhe deu.
   H muito que Natalie deixara de tentar entender Robert. Ele podia parecer caloroso e compassivo e maravilhoso quando lhe convinha, mas sob a superfcie era um 
homem oco, egosta e desonesto que vivia pelas suas prprias regras. "S verniz e nada por baixo", era como o pai dela o descrevia, e era uma boa descrio. Infelizmente, 
com dezoito anos, Natalie era demasiado nova e ingnua para o perceber.
   - Telefonei ao meu advogado quando vinha para c - disse Grace. - Vou exclu-lo do meu testamento. Quando eu morrer, vai tudo para o Chad.
   Robert acabaria por pedir desculpa, e a me aceitaria. Era sempre assim.
   - Lamento que esteja to transtornada, Grace, mas isto h-de passar. Vai ver.
   - No desta vez. - Grace endireitou os ombros. - Gostava de dizer ao meu neto que passou a ser meu herdeiro.
   Natalie j a vira usar o dinheiro contra Robert imensas vezes, tendo como objectivo met-lo na linha e faz-lo respeitar a sua vontade. No estava disposta a 
permitir que Chad fosse apanhado no meio daqueles jogos.
   - No - disse ela com firmeza. - Lamento que o Robert a tenha desiludido, Grace, e posso entender a sua necessidade de exprimir o seu desagrado, mas deixe o Chad 
fora disso.
   - Mas  uma notcia fantstica para ele! - Grace sorriu, os lbios ainda a tremer. - Vai ser um homem muito rico.
   - Pode dizer-lho quando for mais velho. Neste momento, ele j tem muito com que se preocupar.
   - Eu nunca lhe diria por que motivo alterei o testamento. Sabes isso.
   - No quero que lhe fale nisso, sequer. J h muita coisa negativa na vida dele.
   Grace acabou por assentir, ainda que relutante:
   - Se eu prometer que no falo sobre o assunto, deixas, pelo menos, que ele me v visitar?
   Um n de raiva formou-se no peito de Natalie. Aos olhos de Grace, Chad era mais importante do que a irm porque era rapaz e, um dia, usaria o nome Patterson.
   - Ento e a Rosie?
   - Oh, ela tambm, claro.
   Nunca na vida Natalie tivera tanta vontade de recusar um pedido. Mas, em boa conscincia, no podia negar a Chad e a Rosie a oportunidade de conviver com a av.
   - Claro que deixo.
   - Quando? - insistiu Grace.
   - Nos prximos tempos vai ser difcil. Vamos estar ocupados aqui at o Chad ir para o campo de frias. Depois, ele s ter alguns dias antes que a escola comece.
   - Em Setembro, ento?
   Natalie apenas podia esperar que a sbita vontade de ser av de Grace passasse entretanto.
   - Claro, Setembro est muito bem.
   - Eu telefono antes para preparar tudo.
   Natalie concordou.
   Grace no era normalmente dada a demonstraes de afecto, mas abraou-a.
   - O meu filho  um tolo - sussurrou ela. - H-de arrepender-se e implorar-te que voltes para ele, ouve-me bem. - Deu uma palmadinha nas costas de Natalie. - Em 
ltima anlise, seria o melhor, sabes? Eles so filhos do Robert. Vocs deviam cri-los juntos.
   Antes disso, o inferno haveria de gelar. Natalie retribuiu o abrao com pouca convico. Muito depois de o Lexus de Grace ter partido, ela mula ali estava, a 
olhar para a estrada. Deu um salto quando a voz profunda de Zeke soou atrs dela:
   * Voc est bem?
   * ptima. - A suar sob o calor abafado do sol, mas estranhamente sentindo frio, esfregou os braos e voltou-se para ele. - A Grace est muito transtornada.
   - Deu para perceber. - Ele passou uma mo grande pelos cabelos, os dedos deixando sulcos entre as madeixas escuras. - S no percebo o que a trouxe aqui.
   - O filho anda a portar-se mal. A nica medida punitiva que ela tem ao seu alcance  exclu-lo do testamento.  um jogo que se repete h j vrios anos. - Natalie 
esfregou os braos novamente. - Desta vez, ela queria ir ainda mais longe e dizer ao neto que passou a ser o seu nico herdeiro. Subir a parada para o Robert, por 
assim dizer, ao tornar a questo oficial.
   - S pode estar a brincar.
   - As tcnicas de maternidade da Grace so um misto de poder e de manipulao. Se o Robert pensar que o filho pode herdar a fortuna que  dele por direito, talvez 
se endireite. Se a mulher aceitar voltar para ele, talvez seja mais discreto. - Natalie suspirou. - Se no fizemos nada para merecer o respeito dos nossos filhos, 
 difcil exercer algum controlo quando eles se tornam adultos.
   - Voltar para ele? - repetiu Zeke.
   - Quando eu era casada com ele, o Robert procurava as suas namoradinhas s escondidas. Agora, no se d ao trabalho. As amigas da Grace comearam a comentar, 
e ela est morta de vergonha.
   O olhar de Zeke tornou-se mais duro.
   - E existe essa possibilidade?
   - Qual?
   - De voc voltar para ele?
   Natalie riu-se amargamente.
   - Absolutamente nenhuma. Porque pergunta?
   Ele fitou-a com um olhar malandro e um sorriso espreitou-lhe ao canto da boca.
   - Apenas curiosidade.
   Natalie sabia reconhecer interesse masculino quando o via. Sentiu um arrepio na coluna - um arrepio pequeno, delicioso, encantador - e, apenas por um instante, 
sentiu-se jovem, bonita e desejvel. O momento no durou muito.
   - No ouvi a conversa de propsito - garantiu-lhe ele. - Fiquei a pintar o resto do tubo de queda e uma parte da conversa veio arrastada pelo vento. - Ele alou 
uma sobrancelha morena, um gesto que ela rapidamente comeava a perceber tratar-se de um hbito. - Acha que ela estava a falar a srio?
   - Quando?
   - Quando disse que lhe dava um tiro.
   Natalie riu-se.
   - s vezes, o Robert tem esse efeito nas pessoas. Aquilo passa-lhe. Como sempre. - Ele assentiu, deixando Natalie a pensar no quanto da conversa ele teria escutado. 
- S lamento que ela tenha vindo aqui. Algum em minha casa deve ter-lhe dito onde eu estava. Nada como lavar roupa suja no jardim dos vizinhos.
   - A roupa no  sua. - Ele fitou-a com um olhar compreensivo. -  uma pena que voc ainda tenha de tratar dela.
   - Hei-de ficar a tratar desta roupa at que os meus filhos sejam maiores, receio bem. O Robert  pai deles.
   Ele franziu os olhos, acentuando os ps de galinha que tinha, os quais, imaginou Natalie, seriam resultado da exposio aos elementos. Rugas profundas flanqueavam-lhe 
os lbios, que luziam como cetim, o superior fino, o inferior cheio mas firme.
   Natalie deu por si a pensar qual seria a sensao se ele a beijasse - sentir aquelas mos grandes e duras percorrerem o seu corpo -, se ele a apertasse com aqueles 
braos fortes. Quando se apercebeu do rumo que os seus pensamentos tinham tomado, deu mentalmente um abano a si mesma.
   J tinha problemas suficientes na sua vida sem ter de os procurar, e Zeke Coulter tinha a palavra "sarilhos" escrita na testa.
   
Captulo Seis
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   Naquela noite, depois de Natalie e os seus filhos terem partido, Zeke encontrou um relgio de pulso de mulher junto  base da parede exterior. Fascinado, segurou-o 
na palma da mo, estudando a pulseira elegante, a pequena fivela, e a forma como o que restava da luz diurna cintilava no mostrador de cristal. Era apenas um Timex 
barato, e, em certos pontos, o dourado comeava a descascar. Nada de especial. Ento, porque  que no conseguia tirar os olhos dele?
   A resposta era simples. No era o relgio que o intrigava, mas sim a sua proprietria. Ela era fascinante, revelando-se como uma sexy sedutora coberta de lantejoulas 
em certas ocasies, to doce e simples como uma tarte de ma noutras. Gostava de observ-la quando ela no sabia que estava a ser observada - o modo como balanava 
enquanto pintava a casa, como se tivesse uma msica a tocar no interior da sua cabea, a forma meiga como lidava com os seus filhos, sempre a sorrir a Rosie, parecendo 
desconcertada e por vezes magoada quando interagia com Chad. Tinha uns olhos cheios de alma, grandes, com pestanas densas, de um tom profundo de castanho semeado 
de mbar. Revelavam todas as suas emoes, enchendo-se de sombras quando ela estava triste, cintilantes quando estava feliz. Sempre que olhava para aqueles olhos, 
ele tinha uma estranha sensao, de pertena, de que aquilo estava certo, como nunca conhecera antes, com ningum.
   Depois de verificar as horas, guardou o relgio no bolso. Eram quase seis. Provavelmente, Natalie estava a despachar-se para ir trabalhar, completamente perdida 
sem o relgio. Se ele voasse, talvez ainda a apanhasse antes de ela sair.
   Ao atravessar o campo, Zeke viu um lavrador idoso deixar a propriedade dos Westfield por um porto das traseiras. Acenou e inspirou fundo, absorvendo o aroma 
pungente da alfalfa quase pronta para o segundo corte. Durante o Vero, reparara que havia mais algum a trabalhar nas terras de Pete Westfield, e partira do princpio 
de que os seus problemas de costas o teriam forcado a arrendar os campos, uma prtica comum quando um homem no podia cuidar das suas colheitas.
   Quando chegou ao extremo do campo, perdeu a coragem e quase voltou para casa. Aquilo era uma estupidez, uma desculpa mal disfarada para ver Natalie outra vez, 
mais nada, e ele prprio no sabia o que sentia a esse respeito. Aquela mulher tinha dois filhos e uma famlia de loucos. Estaria ele mesmo interessado em envolver-se 
com ela?
   Talvez os seus irmos tivessem razo, decidiu, e ele fosse um daqueles homens que levavam tudo demasiado a srio. Muitos da sua idade saam com mulheres que tinham 
filhos, e quase toda a gente tinha um ou dois parentes malucos. Natalie era uma bela mulher, tanto no palco como fora dele; ele sentia-se muito atrado por ela e 
apreciava bastante a sua companhia. Se lhe parecia certo, porque no tentar?
   Quando chegou a casa dos Westfield, foi at s traseiras onde eles estacionavam os carros, calculando que assim seria mais fcil apanhar Natalie quando ela sasse. 
Para sua surpresa, o ptio encontrava-se rodeado de flores, os canteiros to densos que as flores transbordavam para a relva. Zeke pensou que deveria ser ela a responsvel 
por tanta cor. O pai parecia ter problemas de costas, o av estava demasiado fraco para trabalhar no exterior, e Valerie estaria provavelmente demasiado ocupada 
a embonecar-se.
   No instante em que chegava ao raqutico alpendre das traseiras, Zeke ouviu-a comear a cantar algures dentro de casa. Parou e sorriu enquanto ouvia as palavras, 
qualquer coisa do gnero: "E rapei eu as pernas para isto?" Raios, ela tinha uma voz linda. Zeke no queria bater  porta e interromp-la.
   Ao subir os degraus de madeira, reparou que a porta de rede dava acesso  cozinha. Atravs da rede, podia ver Natalie diante de um fogo a gs antiquado. Exactamente 
como Chad descrevera, ela fingia que o garfo de cabo comprido que tinha na mo era um microfone. Com os joelhos ligeiramente flectidos e abrindo o brao livre, atirou-se 
ao refro. Zeke estava to fascinado com o desempenho que se deixou ficar imvel, a olhar para ela. Natalie no precisava de projectores nem de lantejoulas. Era 
pura dinamite sem acessrios.
   Finalmente, ganhou coragem e bateu  porta. Ela deu um salto to repentino que quase espetou o garfo no nariz.
   - Oh! - Natalie levou uma mo ao corao. - Zeke! Roubou-me dez anos de vida.
   - Desculpe. - Ele percorreu-a com os olhos. Tinha mudado para uns cales cor-de-rosa e uma blusa florida desbotada por muitas lavagens, o tecido fino moldando 
discretamente os seios cheios. Tinha o cabelo solto em redor dos ombros estreitos, uma nuvem de caracis cor de bano. - Esqueceu-se do seu relgio. Pensei que talvez 
lhe fizesse falta no trabalho.
   Ela poisou o garfo e atravessou a cozinha, puxando timidamente os cales numa tentativa intil de tapar as pernas. Zeke fixou o olhar no rosto dela, no querendo 
que Natalie se sentisse desconfortvel.
   - Esta noite no vou - disse ela. - Tenho os domingos e as segundas de folga.
   - Ah. - Procurando o relgio no bolso, Zeke deu um passo para o lado enquanto ela abria a porta de rede. - No me disse isso hoje.
   - As nossas noites de mais movimento so de quinta a sbado - explicou ela. - O Frank, o meu pianista, aguenta o forte por mim ao domingo e  segunda, e eu retribuo 
o favor  tera e  quarta. Assim, temos os dois uma folga.
   Zeke poisou o relgio na palma da mo que ela estendera. Ela tinha umas pernas fantsticas - no que ele estivesse a olhar.
   -  bom... ter uma folga, quero eu dizer.
   Ela manteve a porta aberta com o cotovelo esquerdo enquanto colocava o relgio e apertava a fivela.
   - Obrigada por t-lo trazido. Tirei-o quando estava a pintar. Nem acredito que me esqueci dele.
   - No faz mal.
   Ela empurrou a porta de rede para trs.
   - Acabei de fazer ch gelado. No quer entrar e beber um pouco?
   Zeke no pensara em ficar, mas a mulher que estava a convid-lo tentava-o de uma forma que ele no conseguia entender e  qual no queria resistir.
   - Adorava.
   Ao entrar, ela fungou e ficou com uma expresso horrorizada:
   - Oh no. A galinha!
   A porta acertou no traseiro de Zeke enquanto ela corria para o fogo. Natalie agarrou numa pega para tirar a tampa a uma grande panela de ferro fundido. Uma nuvem 
de fumo elevou-se na cozinha. Ela abanou uma mo e tossiu.
   - Raios!
   Algures noutra parte da casa, o av ou o pai, Zeke no percebeu qual, gritou:
   - Nattie, deixaste queimar o jantar outra vez?
   Ela fez uma careta e respondeu:
   - No. S est bem passado. - Enquanto agarrava no garfo e virava a carne, acrescentou: - Apenas estaladio num dos lados, s isso.
   Zeke sorriu e deixou-se cair numa cadeira diante de uma mesa velha e cinzenta, a qual o fez recordar-se de uma outra que existia na cozinha dos seus avs quando 
era pequeno. Olhando de esguelha para o fogo, viu uma tampa saltar numa panela que se encontrava ao lume num dos bicos de trs. Pelo cheiro, ela devia estar a cozer 
batatas.
   - Talvez seja melhor baixar o lume de trs. Acho que a gua das suas batatas est prestes a derramar.
   Ela ajustou o boto, e enxugou as mos na blusa.
   - Ch! - Natalie correu para o frigorfico. - Lamento, mas organizada  algo que eu no sou.
   Zeke achava que ela era adorvel, distrada com a presena dele e nervosa. Quando ela se inclinou para tirar um jarro do frigorfico, ele teve acesso a uma vista 
fantstica do traseiro e da parte de trs das coxas nuas de Natalie. Se ela tinha covinhas de celulite, ele no as conseguia ver. No que tivesse alguma coisa contra 
algumas covinhas aqui e ali.
   - Limo?
   Zeke sobressaltou-se e olhou para ela:
   - Desculpe?
   Ela tinha-o apanhado a olhar. Duas manchas rosadas coraram-lhe as faces.
   - Quer li-mo? - perguntou ela com uma lentido exagerada.
   Ele gostava do seu ch da mesma maneira que das suas mulheres, doce com apenas uma sugesto de acidez.
   - Sim, um pouco de limo era bom.
   Ela tirou uma tigela com gomos de limo de uma prateleira, lavou as mos e depois prendeu um gomo na beira do copo. Foi buscar uma colher a uma gaveta antes de 
avanar direita a ele com o ch. Por um instante, Zeke pensou se iria beber o ch ou levar com ele em cima.
   - Obrigado - disse ele quando Natalie poisou o copo na mesa com um gesto decidido e empurrou o aucareiro na direco dele.
   - De nada. - Ela voltou-se para o fogo para verificar a galinha. Sempre que virava um peito de galinha na panela, puxava os cales para baixo. - Pode ficar 
para jantar? Temos bastante. A Valerie e os midos no esto.
   Zeke preferia o seu peito cheio e tenro.
   - Aonde foram? - perguntou ele enquanto misturava duas colheres bem cheias de acar.
   - A Valerie trabalhou para um advogado que se reformou h pouco tempo e fechou o escritrio. Ela recebeu a indemnizao ontem pelo correio. Levou-os a comer uma 
piza e ao cinema.
   - Foi simptico da parte dela.
   - Sim. Os meus filhos no tm recebido muitos presentes ultimamente. - Ela tapou a galinha, baixou o lume e foi servir-se de um copo de ch. Quando se sentou 
 mesa com ele, disse: - Por mais simptico que seja, todavia, no posso deixar de pensar onde ela ter a cabea. Estudou dois anos para se tornar secretria jurdica, 
o que  fantstico, mas agora est decidida a no fazer mais nada. No h empregos na rea dela nesta altura. Estou sempre  espera que ela aceite outra coisa, secretria 
normal ou recepcionista, mas nem quer ouvir falar nisso. E, entretanto, anda a estoirar dinheiro que no pode estoirar. Para a semana, est falida e sem saber como.
   Zeke tirou o gomo de limo da beira do copo e espremeu-o. Ele j tivera pensamentos idnticos vrias vezes a respeito dos irmos mais novos.
   - Entendo-a muito bem. Est a pensar se ela alguma vez se comportar como um adulto.
   Ela pareceu um pouco sobressaltada. Ento, a sua boca, que ele dava por si com uma vontade cada vez maior de beijar, curvou-se num ligeiro sorriso.
   - Sim. Como  que adivinhou?
   - Um de seis filhos, lembra-se? E eu sou o segundo mais velho. - Tocou na sua tmpora. - Est a ver? Conheo cada um dos meus cabelos brancos.
   - Quais cabelos brancos?
   - Esto c, acredite. A primeira foi a Bethany. Quando teve o acidente, julguei que era o fim do mundo. Depois, foi o Hank. Finalmente, l se endireitou, graas 
a Deus. Agora, os gmeos esto a dar comigo em doido.
   - Tucker e Isaiah, no ?
   - Boa memria.
   - Ento, o que  que esses queridos andam a aprontar para lhe dar cabo dos nervos?
   Zeke riu-se.
   - Esses queridos fazem trinta e trs anos em Dezembro. S so dez meses mais novos do que eu.
   - Meu Deus, coitada da sua me.
   O riso dele transformou-se em gargalhadas.
   - Isso  outra histria. No me distraia. Passei por casa deles na cidade uma noite destas, sem avisar. No foi boa ideia.
   - Ui, ui. - Os olhos dela cintilaram, divertidos. - Deixe-me adivinhar. Uma festa com togas e leo de cozinha, mas sem as togas.
   Zeke sorriu, tentando imagin-la com uma toga. Decidiu que ela ficaria linda com qualquer coisa.
   - No. O Tucker tinha uma senhora em casa.
   - Hmm. - Ela ergueu as sobrancelhas e fez uma covinha na bochecha. - Isso parece-me muito inocente. Tem de haver mais alguma coisa. Seno, ganho a partida.
   Naquele preciso instante, ele pensou que lhe parecia muito boa ideia. Aceitava muito bem ganhar uma partida, especialmente se inclusse uma cantora curvilnea 
com olhos nos quais ele era capaz de se perder.
   - Oh, havia mais.
   - Conte. Eles estavam...? Bem, voc sabe.
   Zeke tocou com a lngua na casca do limo espremido. O doce e o acre fizeram-no olhar para a boca dela.
   - No. O Tucker estava a preparar bebidas no bar e a senhora estava toda pendurada nele, mas no estava a acontecer mais nada.
   - Ento? - Os olhos dela reflectiam um interesse genuno. - Estou quase a morrer. V direito  parte sumarenta.
   - Ela estava a chamar-lhe Isaiah.
   Um longo silncio. Ela ficou a olhar para ele durante um segundo e, ento, arregalou os olhos:
   - Oh, meu Deus! Eles andam a trocar de lugar.
   - No  to pueril?
   - Pueril? E de uma baixeza, e... e completamente imperdovel.
   - Concordo. E agora j sabe porque  que eles esto a dar comigo em doido.
   Ela poisou o copo na mesa e recostou-se. Zeke estava satisfeito por ter conseguido distra-la. Natalie deixara de puxar pelos cales.
   - Coitada dela!
   Ele puxou a polpa do limo com os dentes e manteve-a no interior da bochecha, apreciando a acidez enquanto bebia o ch.
   - Tenho a certeza de que o Tucker no foi to longe. No fundo,  um tipo decente. - Tinha acabado de falar e j estava a encolher os ombros e a acrescentar: - 
Bem, no posso ter a certeza absoluta, claro. Por isso  que ando to preocupado, acho eu. No o denunciei. Como  que se diz a uma mulher que est a aconchegar-se 
com o tipo errado?
   - Oh, Zeke. - O tom dela era pleno de simpatia.
   - Tenho a certeza de que, apesar de errado, o Tucker estava apenas a tentar ajudar o Isaiah. Mas no deixa de me incomodar. - Zeke levantou uma perna para poisar 
o p no outro joelho, mas voltou a baix-la. Pensar nos gmeos deixava-o agitado. - O Isaiah  o srio, agarrado aos livros. Sempre foi, desde mido. Quando o Tucker 
andava pendurado nas cortinas e a escorregar pelo corrimo, o Isaiah estava sentado a um canto, completamente absorto a ler qualquer coisa. Nada mudou. Ele anda 
demasiado ocupado a pensar numa cura para o mais recente vrus da peste suna para manter o contacto com a realidade, resultado: uma meia de cada cor e dois encontros 
na mesma noite.
   O olhar de Natalie tornou-se mais brando.
   - Voc gosta muito deles.
   - Bem, claro que gosto. Eu... - Zeke farejou e levantou-se de um salto, direito ao fogo. - Se vou ficar para jantar, ajudo a prepar-lo. Isto , se voc no 
se importar.
   - De todo. O Chad diz que voc  um cozinheiro gourmet.
   - Gourmet, no propriamente. Apenas gosto de cozinhar.
   Tirou a tampa da panela. Depois de revirar a carne com o garfo, decidiu que nem tudo estava perdido. Felizmente, tinha bons dentes. Desligou o lume, tapou a panela 
e debruou-se para verificar as batatas. Estavam praticamente desfeitas.
   - Como  que estava a pensar servi-las?
   - Pur.
   Boa ideia. Zeke apagou o lume.
   - E que tal se trabalhssemos enquanto conversamos? - Sem esperar por uma resposta, ele lavou as mos e abriu o frigorfico para tirar leite e manteiga. - Onde 
 que tem o aparelho de fazer pur?
   Ela levantou-se e abriu uma gaveta. Zeke agarrou no utenslio, sorriu e disse:
   - Espero que no se importe. No sou capaz de estar quieto numa cozinha.
   Ela sorriu e encolheu os ombros.
   - Faa o favor. Eu sou um desastre  espera de acontecer.
   Enquanto Natalie preparava uma salada, Zeke cortou a galinha em fatias muito finas e preparou um molho Alfredo, despejando-o por cima da galinha e do pur. Estava 
a divertir-se imenso, a falar sem parar, o que era raro nele. A brincar, os irmos diziam que ele era um homem de poucas palavras, mas com Natalie por perto tinha 
muito para dizer. Falaram de jardinagem, de cavalos, dos empregados nos negcios de ambos, da colheita de alfalfa nos campos do pai de Natalie, e diferentes formas 
de preparar um prato de galinha.
   Sabia-lhe bem. Zeke no pensava no que dizia nem como o dizia: apenas deixava correr e apreciava a conversa com ela. Essencialmente, era uma experincia libertadora, 
e, o melhor, ela parecia estar a divertir-se tanto quanto ele.
   Quando o jantar finalmente ficou pronto e todos estavam  volta da mesa, deram as mos e deram graas pela refeio antes de comearem a comer. Zeke tambm gostou 
que o fizessem. Recordava-o da casa dos seus pais.
   - Para variar, cheira-me que temos alguma coisa para comer pela qual podemos realmente dar graas - comentou o av de Natalie.
   Ela lanou um sorriso maroto a Zeke.
   - A minha reputao como cozinheira  lendria.
   - No sabe cozinhar nada - disse o av. - A nica pessoa que eu conheo que no  capaz de cozer um ovo.
   - Sou, sim, senhor! - protestou ela.
   - Ha! O raio dos ovos quase que me partem os dentes. - Para Zeke, o av de Natalie acrescentou: - Ela nunca h-de conquistar um homem atravs do estmago, isso 
 garantido. Tem demasiadas canes na cabea para dar ateno ao fogo.
   - Estamos no novo milnio, av - disse ela. - Os talentos de uma mulher j no tm de se limitar a uma cozinha.
   - Hmmf. No faz mal nenhum ter algum talento na cozinha.
   O pai de Natalie assentiu com a cabea quando provou a comida.
   - Isto  bom.
   Natalie gemeu como se estivesse a ter um orgasmo quando provou:
   - Isto est fabuloso, Zeke.
   O av ia produzindo rudos apreciativos enquanto mastigava. Assim que engoliu, disse:
   - Devias casar com este sujeito, Nattie, filha. O homem sabe cozinhar.
   Normalmente, a simples referncia a casamento deixava Zeke nervoso, mas quando viu Natalie do outro lado da mesa no sentiu nenhuma vontade de fugir.
   - Ainda bem que gostam.
   - Mmm - disse ela. - Como  que conseguiu fazer isto com a minha galinha?
   Zeke piscou-lhe o olho:
   - O bom do Alfredo consegue disfarar o gosto de quase tudo.
   Ela riu-se.
   - Muito obrigada.
   O pai dela limpou os cantos da boca com um guardanapo de papel e deitou-lhe um olhar cheio de significado:
   - Sem ser casar, podias pelo menos pensar em contrat-lo. Aquele cozinheiro que tens l no clube bem precisava de umas lies.
   Natalie olhou interrogativamente para Zeke:
   - Est interessado num emprego?
   Zeke olhou para aqueles olhos lindos e decidiu que estava interessado em muito mais do que isso.
   A refeio terminou demasiado depressa para gosto dele. Para sua surpresa, gostou de falar com os dois homens, os quais tinham passado a sua vida a trabalhar 
numa quinta. Um rancho de gado e uma quinta eram duas empresas bastante diferentes, claro, mas havia semelhanas suficientes para que Zeke tivesse uma conversa inteligente 
com eles sobre uma variedade de tpicos.
   Depois de os dois terem voltado para a sala para ver O Juiz Decide, Zeke ficou a ajudar a arrumar a cozinha. No balco, perto do lava-loia, reparou num caderno. 
A primeira pgina estava cheia de rabiscos. Quando os observou com mais ateno, apercebeu-se de que eram uma msica e respectiva letra.
   - Canes - explicou Natalie com uma gargalhada embaraada. - Tenho um caderno em todas as divises da casa, para tomar nota das ideias quando elas aparecem. 
- Encolheu os ombros. - Assim, no tenho de agarrar numa caneta e escrever em mim mesma.
   - Ah. - Zeke no queria que ela se sentisse pouco  vontade e deixou de olhar para o caderno. - Faz sentido.
   Um sorriso iluminou os olhos dela.
   - O qu? Tomar nota das coisas... ou tomar medidas preventivas para no parecer que fui a um tatuador bbedo?
   - Ambos. Seria uma pena esquecer uma cano que poderia tor-nar-se um sucesso.
   Ela fez uma careta.
   - Improvvel. O meu pai est sempre a ameaar que vai forrar as paredes com as minhas canes. J escrevi centenas e ainda no vendi nenhuma.
   - J tentou?
   - Ainda no. O clube e os midos mantm-me bastante ocupada.
   - Ela deitou-lhe um olhar como quem pede desculpa. - Lamento aquela conversa ao jantar. - Lavou um prato e poisou-o no escorredor.
   - A minha famlia no est a ver se me casa. O meu av no pensou no que estava a dizer.
   - Eu percebi que ele s estava a brincar.
   - Ainda bem. - Entregou-lhe outro prato. - Eu no ando  procura de outro marido. No queria que pensasse... bem, voc sabe... que eu tinha planos a seu respeito, 
ou assim.
   - No se preocupe. - Zeke deitou-lhe um olhar interrogativo.
   - Algum motivo em especial?
   - Para qu?
   - Para no estar  procura de outro marido.
   Ela sorriu e agarrou numa panela para a mergulhar na gua com sabo.
   - O primeiro deixou-me curada para a vida. - A expresso dela tornou-se mais sria e Natalie encolheu os ombros. - Talvez um dia... se encontrar um homem mesmo 
especial. E, quem sabe, talvez no. Gato escaldado e tudo o resto.
   - O Robert magoou-a assim tanto?
   Ela esfregou a panela durante tanto tempo que Zeke quase desistiu de ter uma resposta. Ento, num tom to baixo que quase parecia um sussurro, ela respondeu:
   - Um milhar de vezes.
   O corao de Zeke apertou-se ao sentir a dor que viu nos olhos dela. Ento, quase to de repente, a dor desapareceu e ela fez um sorriso malandro, fazendo aparecer 
uma covinha na bochecha.
   - Ento, e voc?  justo. Alguma mulher malvada partiu-lhe o corao? Tem de haver algum motivo para que um homem como voc ainda ande  solta.
   Zeke riu-se.
   - Sou uma daquelas aves raras que nunca se apaixonaram.
   - Nunca?
   - Bem, talvez uma vez, se contarmos amores adolescentes. Depois de ficar mais velho, nunca encontrei ningum que me parecesse assim to especial. - Zeke guardou 
um copo no armrio e tirou outro do escorredor. - Nunca quis casar. Talvez seja por isso. Algumas pessoas so talhadas para ter uma famlia, outras no.
   - E voc no ?
   - Nunca foi uma prioridade na minha lista. Por ter crescido numa famlia to grande, imagino. Em criana, sentia-me muitas vezes uma sardinha em lata. No tinha 
um quarto s meu, nenhum canto sagrado para onde pudesse fugir para ler ou estar sozinho com os meus pensamentos. Com trs irmos e uma irm mais nova, no podia 
sequer ir dar um passeio sem ter um deles atrs de mim. Quando finalmente fiquei por minha conta, soube-me bem viver sozinho. No queria casar-me e atrapalhar a 
minha vida com crianas. - Ligeiramente chocado, Zeke apercebeu-se de que estava a falar no pretrito. Contornou mentalmente a questo, sem perceber o que lhe teria 
acontecido. Ento, viu aquele par de olhos castanhos e percebeu. - O que no quer dizer que no venha a mudar de ideias. Tem  que ser uma mulher muito especial 
para me convencer.
   Ela assentiu.
   - Solido  o que no lhe falta agora.
   - Pois. - E, sem dvida, parecia-lhe muito menos desejvel do que uma semana atrs. - Nada de rudos de fundo quando me apetece paz e sossego. Ningum com quem 
discutir por causa do telecomando. Nada de filas para ir  casa de banho.
   Ela riu-se. Os pequenos diamantes que tinha nas orelhas cintilaram atravs dos caracis negros e sedosos.
   - Por aqui, temos de tirar uma senha para usar a casa de banho.
   - S tm uma?
   - Nesta casa, nada foi actualizado. Uma casa de banho, nada de mquina de lavar loia, nem sistema de eliminao de lixo. O meu pai no acredita em desperdiar 
dinheiro em frivolidades.
   Zeke duvidava que Pete Westfield tivesse muito dinheiro para desperdiar, ponto final.
   Caram num silncio confortvel, e, antes que Zeke desse por isso, o ltimo prato estava seco e guardado. No tinha mais desculpas para ficar ali.
   - Bem - disse ele com pena -, est na hora de me pr a andar.
   Ela fitou-o com aqueles olhos castanhos que o puxavam para debaixo de gua, no o deixando voltar  superfcie para respirar.
   - Foi divertido. Ainda bem que veio.
   Zeke concordava. Sentia-se to feliz. S queria que ela agarrasse numa colher e comeasse a cantar para ele. Qualquer coisa, para ele no ter de partir. "Doido." 
Deu por si a pensar se seria uma loucura. Tentou imaginar a sua casa vazia, que o esperava para o envolver com o seu silncio. Era o que ele queria. No era? Mas 
quando olhava para os olhos dela, j no tinha assim tanta certeza.
   Ela acompanhou-o  porta e depois saiu com ele para o alpendre. Zeke parou no ltimo degrau e voltou-se. Ela deixou a porta de rede fechar-se atrs de si e estremeceu 
com a brisa nocturna.
   - Uma coisa - disse ela em voz baixa.
   - O que ? - perguntou ele.
   Os grilos cantavam na relva atrs dele. Ouviu uma vaca mugir no enorme celeiro velho que se erguia do outro lado da cerca.
   - Sobre o Tucker - murmurou ela.
   O corao de Zeke quase lhe caiu aos ps. Tinha a esperana de que ela lhe fosse pedir para a beijar. Ideia tola. Natalie no era desse gnero. Era demasiado... 
bom, no sabia muito bem o qu. Tmida, calculou, ainda que no fizesse ideia porqu. Ela podia dobrar o dedo mindinho e ter qualquer homem aos ps.
   - Deixe de pensar no que ele pode ter feito com aquela mulher. A ma nunca cai longe da rvore. Lembra-se? O seu irmo nunca desceria to baixo.
   Zeke sentiu um aperto na garganta.
   - Isso foi um grande elogio para mim.
   - E foi sincero.
   - Voc mal me conhece.
   - No  verdade. J vi como se comporta com os meus filhos.
   Ela esfregou os braos, fazendo-o desejar poder agarr-la num abrao e partilhar o seu calor.
   - Talvez os palcos estejam a perder um grande talento - sugeriu ele.
   Ela abanou a cabea.
   - No h encenao que resista com a Rosie por perto.
   -  verdade. Ela tem um jeito particular para pr de parte as formalidades, no tem?
   Zeke no se sentia nervoso com a perspectiva de beijar uma mulher h anos - mas, afinal, no era muito frequente ter a oportunidade de beijar algum to bonito. 
Tambm existia a incontornvel possibilidade de Natalie no receber bem os seus avanos.
   Para experimentar as guas, afastou-lhe uma madeixa da face, e depois seguiu a curva do queixo delicado com a ponta de um dedo. As pestanas dela estremeceram. 
Ele aproximou-se.
   - Zeke?
   - Sim - sussurrou ele, a sua boca a escassos centmetros da dela.
   - Aquilo que eu disse antes, a respeito de ter sido magoada um milhar de vezes? No estou  procura da milsima primeira.
   Ele levantou-lhe o queixo com um dedo e subiu um degrau.
   - No se preocupe. Eu nunca a magoaria.
   - Mas eu...
   Ele silenciou-a poisando os seus lbios sobre os dela. "Seda quente, hmida." Ela sabia to bem, os lbios to macios e trmulos, as mos hesitantes e incertas 
quando as poisou nos ombros dele. "Meu Deus." Quando os lbios dela se afastaram para lhe permitir a entrada, ele sentiu-se como se tivesse levado um soco no estmago. 
Fechou a outra mo sobre a nuca de Natalie, sentindo aqueles caracis densos. "Natalie." Sem mais, desejava-a - desejava-a como nunca antes desejara algum.
   Ela gemeu baixinho. Zeke sentiu a tenso nervosa abandonar o corpo dela. Podia t-la beijado mais profundamente. Deus sabia o quanto ele o queria. Mas algo lhe 
disse para ir com calma, que um beijo breve, corts, de boa-noite era mais seguro. Depois de ter sentido o sabor dela, precisou de todo o seu autocontrolo para se 
afastar.
   Ela fitou-o com o corao nos olhos, uma expresso to espantada e confusa e assustada que Zeke s queria acalm-la. Estava prestes a faz-lo quando ouviu um 
silvo ominoso atrs de si.
   - Chester, no! - exclamou Natalie.
   "Tarde de mais." O traseiro de Zeke explodiu de dor. Quando ele rodopiou para enfrentar o seu atacante, apenas conseguiu ver uma mancha branca. Saltou do alpendre, 
praguejando. Quando as suas botas entraram em contacto com o solo, j estava a correr, com o ganso em obstinada perseguio.
   - Oh, Zeke. Lamento imenso! - ainda ouviu ele Natalie dizer. 
   Mas ele j ia a meio do campo.
   
   
Captulo Sete
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   Paixo...
   Durante a semana seguinte, Zeke sentiu pela primeira vez o que era apaixonar-se. Um toque acidental de mos. Levantar a cabea, apenas para descobrir os olhos 
de Natalie e esquecer-se do que ia dizer. Sorrir sem qualquer motivo quando estava sozinho. Ficar acordado  noite porque no era capaz de a tirar da cabea. Adorava 
a forma como ela se ria, aquele som percorrendo-o como luz do sol. Adorava a forma como ela franzia o nariz e revirava os olhos cintilantes quando ficava embaraada. 
Adorava as pequenas rugas que lhe cobriam a testa quando ela ficava pensativa. At adorava a chama que lhe surgia no olhar quando estava irritada.
   Solteiro inveterado, Zeke tentara convencer-se de que os seus sentimentos tinham como origem uma forte atraco fsica - um capricho passageiro, nada mais. Mas, 
a cada dia que passava, dava por si mais envolvido, no apenas gostando mais dela, mas tambm dos filhos dela.
   Era fcil gostar de Rosie - um anjo com cabelos de bano e olhos castanhos enormes, uma alegria incontrolvel, e uma covinha que o fazia derreter-se sempre que 
ela sorria. Chad era outra histria, sempre a tentar-lhe a pacincia com as suas flutuaes de humor intempestivas, com os seus sarcasmos e amuos, tudo isto mais 
pronunciado quando a me estava por perto. Zeke oscilava entre a vontade de lhe dar um abano ou um abrao.
   Com o passar dos dias, Zeke descobriu que os problemas de auto-estima do rapaz eram ainda mais graves do que ele pensara a princpio. Num instante, Chad podia 
estar a rebentar de orgulho por ter conseguido fazer alguma coisa, e no seguinte j estava convencido de que iria falhar se Zeke lhe pedia para experimentar algo 
de diferente. Aquela atitude estava to enraizada no rapaz que ele parecia estar a cumprir constantemente a sua prpria profecia, fazendo asneira nas tarefas mais 
fceis simplesmente porque sabia que tal ia acontecer.
   Quando trabalhava com Chad, Zeke dava por si frequentemente a pensar na sua infncia, a tentar lembrar-se de como o seu pai lidara com tais situaes. Infelizmente, 
todavia, no havia comparao entre Zeke em criana e Chad. Zeke convivera com ferramentas e trabalhadores desde pequeno. Chad estava a comear de raiz, no apenas 
completamente inepto na utilizao das ferramentas, mas tambm sem saber os seus nomes e para que serviam. O pobre rapaz nem sequer sabia a diferena entre uma chave 
de fendas normal e uma chave Philips. Como resultado, Zeke dava por si a passar bastante tempo sozinho com Chad, a fazer de professor, enquanto Natalie e Rosie trabalhavam 
noutra coisa.
   Como consequncia, Zeke estava a desenvolver uma forte ligao com trs pessoas em simultneo, deixando-se apaixonar por Natalie no obstante as suas tentativas 
em contrrio, deixando-se cativar pela filha, e desenvolvendo intensos sentimentos paternais por Chad.
   Domingo  noite, uma semana depois de beijar Natalie no alpendre das traseiras, Zeke comeava a sentir-se como se tivesse perdido o p. Depois de se despedir 
de Natalie e das crianas, deixou-se ficar sentado no alpendre lateral a observ-los pensativamente, a sua mente ainda a fugir daquilo que o corao j sabia - que 
ele estava a apaixonar-se, e de cabea. Considerando o facto de que casar e ter uma famlia no fazia parte dos seus planos de vida, no sabia muito bem o que estava 
a sentir. Apenas sabia que queria ter a certeza absoluta do que sentia antes de fazer fosse o que fosse.
   Na manh seguinte, Chad apareceu sozinho em casa dele.
   - A Rosie ainda est a dormir - explicou o rapaz. - A minha me mandou dizer que vem assim que puder.
   - No tem problema - disse ele. - Tens fome? Est-me a apetecer umas torradas.
   Os olhos de Chad iluminaram-se:
   - Polvilhadas com acar e cobertas de xarope de caramelo?
   Zeke riu-se.
   - Pode-se arranjar.
   Alguns minutos depois, quando j estavam a tomar o pequeno-almoo, Zeke recebeu um telefonema da vidraria, dizendo-lhe que os vidros para as portas de correr 
j tinham chegado.
   - Bem, l se vo os planos - disse ele ao rapaz ao desligar o telefone. - Se tenho de ir  cidade esta manh, devia aproveitar a viagem e passar algumas horas 
na loja.
   - Tem trabalho para fazer por l?
   - Estive l ontem  noite e tratei da papelada, mas h sempre mais alguma coisa. - Zeke esfregou a nuca. - Segunda-feira  um dia atarefado com as entregas. Quanto 
mais no seja, tenho coisas para arrumar.
   - Eu podia ajudar.
   Zeke estudou a expresso ansiosa do rapaz, fascinado com a mudana de atitude. Aquele era o mesmo mido de lngua afiada que lhe aparecera  porta numa manh 
de sbado uma semana antes?
   - Agradeo a oferta, Chad, mas  provvel que eu depois tenha de tratar de coisas no escritrio. No me podes dar grande ajuda e aborre-cias-te de morte. - Zeke 
agarrou novamente no telemvel. - Qual  o nmero de tua casa? Posso telefonar  tua me.
   Um momento depois, Natalie atendia a chamada. Quando ouviu aquela voz doce, Zeke imaginou o rosto dela e sorriu.
   - Bom dia? Como estamos hoje?
   Ela riu-se.
   - Estou ptima, s um pouco dorida depois de tanta martelada. J h uns anos que no pregava nada.
   Zeke olhou pela janela das traseiras, para a estrutura da caixa de adubo vegetal que ela e Rosie tinham montado no dia anterior.
   - Ningum diria, vendo o trabalho feito. Nem eu tinha conseguido melhor.
   - Sim, est bem,  um bocadinho difcil fazer asneira com uma caixa para adubo.
   Zeke avanou para o motivo do telefonema. Depois de explicar a situao, disse:
   - Seja como for, se no te fizer diferena, mando o Chad para casa por hoje. A maior parte da tarde j estar perdida quando eu chegar a casa.
   - Por acaso,  perfeito - admitiu ela. - Tenho de ir comprar roupas para a escola para os dois, e prefiro faz-lo no meu dia de folga, para no estar exausta 
antes de comear o meu turno.
   Zeke olhou para Chad, que resolvera comear a encher a mquina de lavar loia. Levantando-se da cadeira, foi para a sala de estar, onde o rapaz no o podia ouvir.
   - Natalie, a respeito das roupas. Eu sei que ests com pouco dinheiro. No me importo de fazer-te um pequeno emprstimo.
   - Oh. - seguiu-se um longo silncio. - E muito simptico da tua parte, mas c me arranjo.
   Zeke no gostava de ver os filhos dela com roupas de segunda-mo, mas no a conhecia assim to bem para insistir no assunto.
   - De certeza? Tenho um bom p-de-meia no banco. A srio, posso dispensar algum dinheiro. Sei que me pagas quando as coisas melhorarem.
   Havia um sorriso na voz dela quando respondeu:
   - Sou uma Westfield. Num aperto, tornamo-nos criativos.
   Zeke no insistiu. No tinha outra escolha.
   Zeke estava a reabastecer prateleiras ao incio da tarde quando ouviu a voz de Rosie no corredor do lado. Subiu para uma caixa de leo fechada para espreitar 
por cima da prateleira e deu por si a olhar para os belos olhos castanhos de Natalie. Quando lhe sorriu, Surgiu-lhe uma covinha na bochecha.
   - Ah, ests a. - Ela poisou uma mo na cabea da filha. - Os midos queriam ver a tua loja. No havia outra hiptese seno traz-los c. Espero que no te importes.
   - De todo. - Zeke piscou o olho a Rosie. - Fiquem onde esto. Vou mostrar-vos as instalaes.
   Minutos mais tarde, depois de levar as suas visitas a conhecer todos os departamentos, Zeke levou-os no elevador at ao primeiro andar.
   - Muito fino - comentou Natalie. - A maioria dos edifcios de dois pisos no tem elevador.
   Quando a porta se abriu para o trio do primeiro andar, Zeke explicou:
   - Mandmos instal-lo para a minha irm, a Bethany, quando ela voltou de Portland e veio trabalhar para c. Ela  paraplgica e no consegue subir escadas.
   - Ela trabalhava para ti?
   - Para o meu irmo Jake, por acaso. - Zeke acompanhou-os at ao escritrio. - E uma longa histria. A loja j mudou de dono algumas vezes. O meu pai comeou o 
negcio, mas teve de o entregar ao Jake por motivos de sade. O Jake esteve c s um ano. Depois, passou para mim. Gostei tanto que comprei o negcio ao meu pai.
   - Oh, olha, mam! - exclamou Rosie. - Tem cavalos nas paredes!
   Natalie comeou a observar as fotografias.
   - So teus? - perguntou ela a Zeke.
   - Sim. - Zeke apontou para a primeira fotografia. - Esse  o Windwalker. O arruivado chama-se Cinnamon. A gua castanha  a Jelly Bean.
   Chad aproximou-se para examinar a galeria de retratos, entre os quais se contavam alguns da famlia de Zeke e tambm de vrios cavalos.
   - So os que voc usa par laar? - perguntou o rapaz.
   - Os melhores do estado. - Zeke despenteou-lhe o cabelo. - Tens de dar um desconto. Adoro-os e, claro, acho que so mais especiais do que realmente so. Mas so 
animais fantsticos.
   - O Zeke diz que um dia destes me vai ensinar a laar com a corda - disse Chad a Natalie.
   - Isso seria ptimo. - Natalie j estava a observar as fotografias da famlia. Quando viu uma de Bethany na sua cadeira de rodas, disse:
   - Deve ser a tua irm.
   - Sim.
   - Ela  linda.
   - Tambm achamos que sim. - Zeke foi ter com ela e apontou para outra fotografia. - O Tucker e o Isaiah, no dia em que inauguraram a clnica - disse ele. - E 
este  o meu pai, com o filho do Jake no hospital, logo depois de ele ter nascido. Aqui,  o Jake e o Hank no rancho deles, o Lazy J. A loira grvida e a ruiva em 
segundo plano so as mulheres deles, Carly e Molly. O beb deve nascer na Primavera.  o primeiro filho do Hank e da Carly.
   - As parecenas so incrveis - disse ela enquanto observava a coleco de fotografias. - Vocs, rapazes, so todos muito parecidos com o vosso pai.
   Zeke assentiu com a cabea. Quando as fotografias acabaram, ele vi-rou-se para os midos:
   - E que tal um refrigerante?
   Rosie deu um salto e bateu palmas. Chad encolheu os ombros, a sua reaco habitual  maioria das propostas. Zeke levou-os para o escritrio. Depois de oferecer 
uma bebida a todos, instalou Natalie atrs da sua secretria e sentou-se num banco.
   - Devamos ir andando - disse ela. - Estamos a roubar-te tempo. Eu s tinha pensado numa paragem rpida para lhes mostrar a loja.
   - Ainda bem que vieram - disse ele, e estava a ser sincero. Tinha-lhe sabido bem, partilhar aquela parte da sua vida com ela. Ao aperceber-se disso, sentiu-se 
ligeiramente alarmado. Por norma, gostava de manter a sua vida social separada da privada. Com Natalie, tudo era diferente.
   Ela bebeu um pouco e olhou para o relgio.
   - Despachem-se - disse ela aos filhos. - Ainda temos um monte de compras para fazer.
   Para o gosto de Zeke, Chad e Rosie beberam os seus refrigerantes a uma velocidade recorde, e, quando deu por si, estava a conduzir as suas visitas ao piso inferior. 
Foi at  rua com eles, sem vontade de se despedir, ainda que fosse v-los de novo na manh seguinte.
   - Divirtam-se nas compras! - gritou ele quando os trs j iam para o carro.
   Natalie virou-se e voltou atrs.
   - Obrigada pela visita guiada.
   - Sempre que quiseres.
   Zeke ficou no passeio at eles partirem. "Sempre que quiseres?" Ele estava bem apanhado. No sabia muito bem o que sentia a esse respeito, e, muito pior, no 
sabia o que fazer.
   Ao fim da tarde, Zeke ainda no tinha chegado h mais de meia hora quando Rosie apareceu  sua porta. A criana trazia vestido o que pareciam ser roupas novinhas 
em folha: uma bonita camisola azul, cales a condizer, e umas sandlias de cabedal.
    - Uau! Vejam s - disse Zeke.
   A rapariga fez uma pirueta no tapete, com os braos esticados para exibir as suas novas roupas de Vero.
    - E tambm tenho montes de roupas para a escola! A mam diz que vou ser a menina mais bonita da turma toda!
    - A tua mam tem toda a razo - concordou ele. S esperava que Natalie no se tivesse colocado num aperto para levar os filhos s compras. - Julguei que iam 
fazer compras em lojas de segunda-mo.
    - E amos. - O rosto de Rosie quase resplandecia. - Mas a mam estava cansada dos brincos dela e vendeu-os numa casa de senhores.
    - De penhores - corrigiu-a Zeke. Recordava-se vagamente de ter visto brincos de diamante a brilhar entre os caracis de Natalie. Entristecia-o pensar que ela 
os vendera para vestir os filhos. - Foi uma sorte para vocs ela ter-se cansado deles. Parece-me que vos saiu a sorte grande.
    - Pois. - Rosie inclinou a cabea morena para o observar, asseme-lhando-se tanto  sua me que Zeke teve vontade de a abraar. - Bom,  melhor ir andando. S 
lhe queria mostrar as minhas roupas.
    - Ainda bem que vieste. Esse conjunto  muito bonito.
   Com o seu sorriso a esmorecer, ficou a ver Rosie afastar-se. Quando viu que ela j tinha chegado a casa, fechou a porta. "Silncio." Zeke sempre gostara de estar 
sozinho, mas agora, de repente, apenas se sentia s. Foi at  cozinha, abriu o frigorfico, e olhou para a comida nas prateleiras, a pensar no que havia de preparar 
para o jantar. Nada lhe parecia interessante.
   Pensou em Natalie na cozinha dos Westfield no domingo anterior, a cantar de garfo em punho. Gostava que ela agora estivesse disponvel para deixar queimar alguns 
peitos de galinha para ele. Melhor ainda, que o convidasse outra vez para jantar. Ele tinha gostado de conhecer o pai e o av dela. Com Valerie e as crianas presentes, 
a conversa  mesa seria certamente mais animada.
   Aquela ideia f-lo fechar a porta do frigorfico com fora. Deixou-se cair numa cadeira e ficou a olhar para a superfcie reluzente do tampo da mesa. "Est na 
altura de pensar, a srio." Ele estava a apaixonar-se, a cair de cabea. Antes que as coisas fossem mais longe, tinha de ter a certeza absoluta de que aquilo era 
mesmo o que ele queria. Mulheres como Natalie no vinham com um perodo de experincia.
   "Problema." Como  que qualquer homem podia ter a certeza absoluta do que sentia por uma mulher no incio de uma relao? Zeke era cauteloso por natureza, sempre 
fora. Pensar em assumir um compromisso a longo prazo com uma mulher era um passo gigantesco para ele, e, antes de o dar, queria ter a certeza de que no estava a 
cometer um grande erro. Para a ter, precisava de passar muito mais tempo com Natalie e com os filhos dela. Tambm tinha de saber se ele e aquela mulher eram sexualmente 
compatveis. Um homem no podia perceber isso apenas com um beijo.
   E esse era o problema, decidiu ele. Para ter a certeza dos seus sentimentos, teria de colocar Natalie em risco. Se ele a pressionasse para levar a relao para 
um nvel mais ntimo, ela poderia esperar mais do que Zeke se sentia inclinado a dar. Em lugar de correr esse risco, talvez fosse melhor nem sequer tentar. Ele no 
a queria magoar. Ela j sofrera vezes de mais.
   Assim sendo, onde  que ele ficava, exactamente? Em lado nenhum. Tinha de ter calma, no restavam dvidas.
   Com a garganta a arder de tanto gritar o nome de Chad, Natalie atravessou o celeiro sombrio. O cheiro poeirento a feno enchia-lhe as narinas. Parou para coar 
o focinho bovino de Marygold antes de trepar a escada raqutica.
   - Chad? - chamou ela. - Ests aqui em cima?
   No teve resposta. Estava a comear a ficar muito preocupada. Depois de voltarem da cidade, Chad fizera um telefonema, Natalie no sabia a quem, e depois sara 
de casa a correr como se tivesse visto o diabo. No o conseguira encontrar desde ento. Olhando para o relgio, viu que tinham passado trs horas desde que ele desaparecera. 
Com o Vero perto do fim, a luz diurna comeava a diminuir por volta das oito horas. s nove j seria noite cerrada.
   Ao descer a escada, ouviu Valerie a cham-la.
   - Estou aqui! - gritou ela, com a esperana de que a irm tivesse notcias de Chad. - Ele j voltou?
   - No. Ainda no. - Valerie apareceu  porta. - No est nos campos?
   - No. - Uma sensao sufocante apoderou-se da garganta de Natalie. - Estou a ficar assustada.
   Valerie assentiu.
   - Alguma coisa o deixou muito perturbado. Ser que telefonou ao Robert?
   -  possvel, se bem que no o imagino a atender o telefone. No atendeu nenhuma das minhas chamadas. Marquei o nmero dele tantas vezes na semana passada que 
lhes perdi a conta.
   Valerie poisou as mos nas ancas e voltou-se para observar os campos em redor.
   - Talvez se tenha quebrado o encanto da sua paixoneta mais recente e ele tenha resolvido dedicar alguns minutos ao filho. Sabes como  o Robert. Salta-pocinhas. 
Estou mesmo a v-lo a papar uma fulana durante uma semana, dar-lhe com os ps e depois divertir-se durante alguns dias a brincar ao Pap do Ano.
   O azedume dominava a voz de Valerie. Ela nunca gostara de Robert. Uma das melhores recordaes de Natalie consistia em ter visto a irm a encostar Robert a uma 
parede, de lima de unhas em riste, ameaando castr-lo se ele voltasse a pisar o risco mais uma vez que fosse. Ele levara a ameaa a srio e deixara de comer por 
fora durante quase dois meses, um recorde para ele.
   Achas que pode estar em casa do Zeke? - perguntou Valerie.
   Natalie tambm j pensara nisso.
    - Tenho a certeza de que ele telefonava.
    - Pode ser que pense que sabemos onde o Chad est.
    - Tambm  verdade, imagino. Talvez eu devesse ligar-lhe.
    - Se o Chad no estiver l, temos de contactar a Polcia, Nattie.
   Natalie sentiu um aperto no corao.
    - A Polcia?
    - H semanas que o Chad  um barril de plvora  espera de explodir. Sabe-se l o que aconteceu. E se ele fugiu de casa?
   O medo deixou Natalie gelada.
    - Nem quero pensar nisso. Sei que ele est confuso e infeliz, mas no pode estar assim to infeliz. Passmos um dia to agradvel na cidade. Depois das compras, 
levei-os a almoar ao Papa's Pizza. At lhe dei dois dlares para os jogos de vdeo. Porque  que ele havia de decidir fugir, de repente, se eu no lhe dei motivos 
para isso?
    - E os midos da idade dele precisam de motivos? - Valerie abanou a cabea. - Uma vez, fugi de casa porque o pai me obrigou a lavar a cara. Ele estava decidido 
a impedir-me de usar maquilhagem antes dos dezasseis anos.
   Natalie recordou-se do incidente, e a sua preocupao aumentou.
    - Se ele por acaso fugiu, acho que devamos chamar a Polcia - insistiu Valerie. - No vs aqueles alertas na televiso? Dizem que  fundamental encontrar a 
criana desaparecida dentro de vinte e quatro horas. Depois disso, as hipteses de que ela regresse em segurana diminuem rapidamente.
    - s um grande consolo - criticou-a Natalie. - Porque  que no comeas a tratar dos preparativos para o funeral?
    - Tu s terrvel. No podes ser to sensvel. No estou a dizer que ele est morto, apenas que  importante no perdermos tempo.
   Alguns minutos depois, Natalie marcava o nmero de Zeke com mos trmulas. Ele atendeu ao terceiro toque:
    - Fala o Zeke.
    - Zeke?  a Natalie.
   O tom dele tornou-se mais suave.
   -Ol.
   Ela engoliu para firmar a voz.
    - O Chad est ai?
    - No. Ainda no o vi. Ele no est em casa?
    - No. Tenho medo que tenha fugido.
    - Fugido? H quanto tempo  que ele desapareceu?
    - Cerca de trs horas. - Natalie pressionou a tmpora, que no parava de latejar, com a ponta de um dedo. - A princpio, pensei que estivesse algures nos campos. 
Mas j procurei em todos e nos edifcios exteriores tambm; no consigo encontr-lo. Oh, Zeke, eu acho que ele fugiu.
   Um longo silncio. Depois:
    - Porque  que haveria de ter fugido?
   Natalie fechou os olhos.
    - No sei. A Valerie acha que ele pode ter falado ao telefone com o Robert. Eu sei que telefonou a algum, e, assim que desligou, saiu de casa a correr. - Fez 
uma pausa para recuperar o flego. - Achas que eu devia telefonar  Polcia?
    - No nos vamos precipitar - disse ele tranquilamente. - Eu pego na minha carrinha e, primeiro, vou procurar na estrada que vai para a cidade. Se ele fugiu, 
h-de estar a p.
   Natalie assentiu, e s depois se apercebeu de que ele no a podia ver.
    - Boa ideia. - Como  que no lhe tinha ocorrido? - Eu posso fazer isso. No te quero incomodar.
    - No  incmodo nenhum, e  melhor se eu for. Se ele est a tentar fugir, reconhece logo o teu Chevy. Ele s andou uma vez na minha Dodge. Pode demorar mais 
tempo a reconhec-la.
   Era verdade.
   - Obrigada, Zeke.
   - No te preocupes - disse ele, a sua voz rouca com o que parecia ser ternura. - Tenho a certeza de que ele est bem, querida. No h muitas maneiras de um rapaz 
se meter em sarilhos por estes lados. To longe de tudo, nem sequer h muito perigo de um tarado qualquer lhe dar boleia.
   Natalie assentiu de novo. Ento, ouviu um estalido e a ligao caiu. Poisou lentamente o auscultador. Depois de contar a conversa  irm, ficou parada  janela 
da cozinha, a olhar para os campos, com a esperana de ver Chad a caminho de casa.
   - Acabei de verificar onde estava a Rosie - disse Valerie, voltando da sala de estar um momento depois. - O av deixou-a ver desenhos animados e ela est completamente 
absorta.
   - Ainda bem. No vale a pena preocup-la.
   - No vale a pena nenhum de ns preocupar-se - disse Valerie animadamente. - Que tal uma boa chvena de ch?
   - No, obrigada - Natalie agarrou-se  borda do lava-loia e inclinou-se, esticando o pescoo para examinar a rea atrs da casa. - Bebe tu.
   - Ento? Anima-te. O Zeke tem toda a razo. O que  que pode acontecer a um mido por aqui?

   Natalie agarrou-se  sua prpria cintura e continuou a olhar pela janela.
   Zeke estava prestes a entrar na sua carrinha para ir procurar Chad quando sentiu um arrepio na coluna. Virou-se para trs, para verificar a oficina e o que conseguia 
ver do ptio.
   - Chad?
   O rapaz no respondeu, mas Zeke no conseguia livrar-se da sensao de que ele devia estar por perto. Para o caso de o seu instinto estar certo, resolveu ir espreitar 
as traseiras. A primeira vista, no descobriu nada. Ento, viu Chad encolhido nas sombras debaixo de um carvalho. O rapaz estava sentado com as costas apoiadas no 
tronco, joelhos puxados contra o peito, a testa poisada nos braos cruzados. Mesmo quela distncia, Zeke pde ver que estava a soluar como quem tem o corao destroado.
   Atravessou lentamente o relvado.
   - Ento, amigo - disse ele em voz baixa. - Estava a preparar-me para ir  tua procura. A tua me acabou de ligar. Est muito preocupada.
   Quando Zeke se baixou, viu os ombros do rapaz a tremer convulsivamente, mas no ouviu qualquei som. Apercebeu-se de que Chad estava embaraado por ter sido apanhado 
a chorar e tentava parar sustendo a respirao. Por experincia prpria, Zeke sabia que nada do que pudesse dizer o faria sentir-se melhor, e, recorrendo ao que 
aprendera com o seu pai, manteve-se calado.
   Chad precisou de alguns minutos para se recompor. Quando finalmente conseguiu falar, a voz saiu-lhe entrecortada pela dor:
   - T-telefonei ao meu p-pai, ele d-disse-me p-para o d-deixar em p-paz.
   Uma dor apoderou-se do peito de Zeke e, dali, subiu-lhe at  garganta.
   - Porque  que ele disse umacoisa dessas?
   A boca de Chad contorceu-se e o queixo tremeu.
   - P-porque eu lhe d-dei nas orelhas e ele n-no gostou.
   - Ui. E porque  que lhe deste nas orelhas?
   O rapaz limpou o nariz na malga da t-shirt.
   - P-porque a minha me t-teve de vender os brincos. Eram d-da av d-dela. D-desde o d-divrcio, ela j v-vendeu p-praticamente t-tu-do, mas nunca os b-brincos, 
p-porque eram especiais. Agora, f-foram-se. Ela empenhou-os p-para n-os comprar roupas p-para a escola. - A voz dele tornou-se esganiada.- O m-mais p-provvel  
que a gente no consiga juntar d-dinheiro p-para os comprar de volta antes que algum lhes d-deite a mo.
   Zeke resistiu  vontade de lhe passar um brao em volta dos ombros. Em vez disso, limitou-se a ficar sentado ao lado dele, deixando-o chorar  vontade. Quando 
os soluos do rapaz comearam a diminuir, disse:
   - Tornarmo-nos adultos  uma grande seca, no ? - Empurrou ligeiramente o rapaz com o cotovelo para poderem partilhar o tronco da rvore como apoio para as costas. 
- Uma das coisas mais difceis  ver os nossos pais fazerem sacrifcios por ns.
   - Eu n-nunca hei-de ver o meu pai fazer um q-que seja. - Zeke no ia cair naquela. Ficou  espera que Chad dissesse mais alguma coisa. - Ele n-no quer saber 
se as s-sandlias da Rosie esto presas com f-fita isoladora. No se importa se eu t-tiver de ir para a escola c-com roupas de segunda-mo. Eu p-podia estar a morrer, 
e ele nem q-queria saber.
   - Ah, ento?
   -  verdade! S a minha me  que gosta m-mesmo de mim. - A cara de Chad contorceu-se de novo. - Tenho sido to mau para ela o Vero inteiro. s vezes, q-quase 
a odiei. No queria acreditar que o meu pai no q-queria saber de mim, e culpava-a de t-tudo. - Enxugou as bochechas e fungou. - Hoje, quando ela empenhou os brincos 
da av Westfield, riu-se e f-fingiu que no tinha importncia. Depois, gastou o dinheiro todo comigo e com a Rosie, p-para que tivssemos roupas bonitas para a escola. 
A Rosie no percebeu o que ela estava a fazer, mas eu percebi.
   Zeke suspirou e esticou uma perna para ficar mais confortvel.
   - Tu s muito mais velho do que a Rosie. Ela ainda  uma criana.
   - Eu sei. No estou a culp-la de nada. - Chad cerrou os dentes. - Culpo o meu p-pai por deixar que isto acontea.
   Zeke absteve-se de comentar. Chad estava a passar por um momento muito doloroso. Era um percurso que ele tinha de fazer  sua maneira e com a rapidez por ele 
escolhida.
   - Eu achava que o meu pai no sabia que as coisas estavam assim to ms connosco - murmurou o rapaz. - Grande parvo, no sou?
   - Parvo, no.  uma concluso bastante razovel quando se trata do nosso pai.
   O rapaz inspirou convulsivamente e deixou sair um suspiro.
   - Pois. Ele  o meu pai. Eu achava que se dissesse que estvamos m-mesmo aflitos sem dinheiro, ele tratava do assunto. Julgava que ele ia dizer: "Claro, Chad. 
Diz  tua me que eu lhe mando um cheque." Mas nada disso. "Ela fez a cama", disse ele, "agora, que se deite nela." - Olhou para Zeke com uma expresso incrdula, 
magoada. - Ele no lhe vai dar um cntimo. Se eu e a Rosie no tivermos o que comer, pacincia. Ele s q-quer saber de se vingar da minha me porque ela o deixou. 
Diz que lhe deu tudo o que o dinheiro podia comprar, mas que no era o suficiente para ela.
   O dinheiro no pode comprar tudo o que uma mulher precisa de um homem, pensou Zeke, mas manteve a sua deciso de no dizer nada. Seguiu-se um longo silncio. 
Chad engoliu em seco antes de continuar:
   - Ele estava com uma mulher quando eu telefonei. Acho que estavam na cama.
   Zeke fez uma careta, desejando que aquela realidade no tivesse sido atirada  cara do rapaz.
   - Ah - disse ele em voz baixa. - O teu pai  um homem divorciado. Talvez estivesse acompanhado.
   - Talvez, no. Estava to ocupado s cambalhotas com ela que nem ouviu metade do que eu disse. - A voz de Chad falhou. - Isso foi o pior: saber, depois deste 
tempo todo, que ele nem estava interessado em falar comigo.
   Zeke fechou os olhos, pensando no seu prprio pai, o qual sempre, sempre o amara incondicionalmente
   - Fez-me doer por dentro. - Chad apertou o punho contra o peito. - Como nada, nada alguma ve; me doeu.
   - Lamento, parceiro. Deve ser terrvel.
   - Eu nunca percebi muito bera como a minha me se sentia quando ele estava com uma namorada cuando ela lhe telefonava. Devia t-la apoiado em todas essas vezes, 
mas io apoiei.
   Zeke suspirou.
   - No te martirizes por isso.
   Chad deitou-lhe um olhar espaitado.
   - Ela estava a sofrer. Eu podia a t-la abraado ou qualquer outra coisa para melhorar as coisas, e limitei-me a no fazer caso.
   - O que ests a sentir agora pela tua me chama-se compaixo - explicou-lhe Zeke -, e a capacidade de a sentir no  algo com que todos nascem. Temos de sofrer 
um pouco ns mesmos para perceber a dor que outra pessoa est a sentir. - Fez uma pausa para o deixar assimilar. - Quando eu era mais novo e aconteciam coisas ms, 
o meu pai costumava dizer que, um dia, eu seria um homem melhor graas a essa experincia. Nunca percebi o que ele queria dizer, at ter mais ou menos a tua idade. 
Resumindo, levar um pontap na boca de vez em quando ensina-nos a no atacar outra pessoa quando ela est cada no cho.
   Chad esfregou a cara e fungou Havia toda uma vida de sabedoria e de arrependimento nos seus olhos cobertos de lgrimas.
   - Quando ouvi aquela mulher a bichanar para o meu pai e a rir-se como se ele estivesse a fazer-lhe ccegas, percebi que aquilo j devia ter acontecido  minha 
me umas cen vezes. Ouvi a mulher dizer ao meu pai para me despachar. Nem tive de esperar muito, foi exactamente o que ele fez. - Ao dizer aquilo, Chad ficou completamente 
imvel e fechou os olhos com fora. - Foi quando ele me disse para o deixar em paz. E depois desligou.
   Zeke no sabia o que dizer.
   - O meu pai  uma pessoa horrvel, no ? - murmurou Chad.
   No era realmente uma pergunta e, mais uma vez, Zeke no sabia muito bem o que responder.
   - Talvez estejas a exagerar um pouco. s vezes, as boas pessoas desviam-se do caminho certo. S6 o tempo poder dizer se o teu pai se desviou de vez.
   - Detesto-o.
   - Isso passa. - Zeke respirou fundo, rezando para que lhe sassem as palavras certas. Nunca na sua vida fora to importante dizer a coisa certa. O seu palmars 
em termos de eloquncia era to lamentvel que lhe metia medo. - Ele  teu pai, com defeitos e tudo.  nisso que tens de pensar. Uma outra parte difcl de crescermos 
 aprendermos a gostar dos nossos pais, apesar de tudx Percebes o que quero dizer?
   - Como a minha me gosta de mim?
   O corao de Zeke quase se partiu ao ver a expresso na cara de Chad.
   - Sim,  exactamente isso. S tens sido mau para ela todo o Vero, ningum diria ao olhar para ela. la deu o litro aqui, ontem, a ajudar a pagar a tua dvida 
para que possas ir para o campo de frias.  um exemplo perfeito de amar algum apesar de tudo.
   - Acho que ela tentou telefonar ao meu pai durante toda a semana passada, mas mentiu-me.
   - Porque  que achas que ela fez isso?
   - Porque no queria que eu soubesse que ele no se importava o suficiente comigo para atender.
   - Ele atendeu quando ligaste esta tarde.
   - Sim, mas, tipo, porqu? Devia estar  espera de um telefonema de negcios e no tem identificador de chamadas no quarto de dormir.
   Zeke estava to inclinado a dicutir aquela hiptese como a discutir o comportamento do pai do rapaz
   -  possvel, acho eu.
   Chad suspirou. Encheu as bochechas de ar, e novas lgrimas surgiram-lhe nos olhos.
   - Eu nunca, nunca fui suficientemente bom para ele. Nem na escola, nem nos desportos, em nada. Eu s queria que ele gostasse de mim, mas ele no gosta.
   Zeke agarrou-o pelo ombro e deu-lhe um ligeiro abano.
   - Tens de tirar essa ideia da cabea. - Por muito que no quisesse criticar o pai de Chad, no podia deixar passar. - s um excelente rapaz. Se algum tem defeitos, 
 o teu pai, no s tu.
   - Ento, porque  que ele no gosta de mim?
   - Talvez goste, mas no sabe como o demonstrar. Demonstrar afecto, ser leal, ajudar os outros quando eles precisam de ns, tudo isso so comportamentos que se 
aprendem, como sentir compaixo. Tu tens sorte. Tens uma me que te est a ensinar todas essas coisas. Talvez o teu pai no tenha tido ningum como ela quando estava 
a crescer.
   Chad franziu o sobrolho, pensativo.
   - Talvez no. O meu av Patterson nunca lhe prestava muita ateno, e a av Grace , tipo, completamente rgida. Se nos esquecemos de pr o guardanapo no colo, 
ela dispara logo, como se fosse um crime ou assim. A minha av Naomi, a me da minha me,  muito mais divertida. Faz bolachas, e jogamos juntos. Se a Rosie a abraa 
com as mos sujas, ela ri-se. A av Grace fica possessa.
   - Ests a ver? A tua me foi criada por pessoas descontradas e calorosas. Isso v-se na forma como ela te trata. Talvez no tenha sido o que aconteceu ao teu 
pai.
   - Acho que no.
   - Eu s sei que o que se passa com o teu pai no  culpa tua - prosseguiu Zeke. - Portanto, no podes pensar que . Se precisas de avaliar o que vales enquanto 
filho, olha para a tua me. Parece-me que ela te acha muito especial.
   Chad olhava sem ver para as traseiras da casa.
   - No fui capaz de a encarar depois de ter falado com o meu pai - murmurou ele.
   - Ah. Por isso  que resolveste ocupar o territrio aqui, debaixo da minha rvore.
   Chad fez um sorriso hesitante, que desapareceu no instante em que surgira.
   - O que  que eu lhe vou dizer? Que lamento ter sido to parvo? Tenho estado impossvel com ela desde que nos mudmos. At lhe parti o juzo porque o clube est 
nas lonas, quando, l no fundo, eu sabia que o meu pai era o responsvel, por lhe ter ficado com metade do dinheiro.
   - Acho que a tua me percebe como te sentes, melhor do que tu imaginas.
   - Ainda assim, no sei o que lhe dizer quando voltar para casa.
   - No digas nada, ento. D-lhe s um grande abrao. Ela h-de perceber.
   - Quem me dera poder comprar-lhe os brincos de volta. Deviam ficar para a Rosie. Agora, um estranho qualquer vai ficar com eles.
   Zeke sorriu:
   - Ora, a est um problema que eu talvez possa ajudar a resolver.
   - Como?
   - Posso fazer-te um emprstimo.
   - Voc fazia isso?
   - Depende. s capaz de honrar a dvida?
   Chad parecia incerto.
   - Ela vendeu-os por muito dinheiro.
   - Quanto?
   - Trezentos e cinquenta.
   - Eu tenho dezasseis hectares de terras sem vedao. Vai ser um trabalho e peras, abrir tantos buracos para os postes. Nunca estaramos despachados com as horas 
que me deves, e eu tenho andado a pensar que podia contratar algum. Se ests disposto a aceitar o trabalho e prometes que no o largas antes de me pagar a dvida, 
empresto-te o dinheiro para os brincos.
   Os olhos de Chad iluminaram-se.
   - A srio?
   Zeke estendeu a mo.
   - Negcio fechado, parceiro.
   O rapaz sorriu de novo e poisou a mo na de Zeke.
   - Voc vai mesmo comprar de volta os brincos da minha me?
   - Prometes fazer o trabalho, no prometes?
   - Prometo.
   - Ento, est feito. Mas no te podes esquecer de que te vai custar muitos fins-de-semana.
   - No faz mal. Gosto de trabalhar para si.
   Zeke despenteou-lhe o cabelo.
   - Tambm gosto de trabalhar contigo.
   Natalie deu um salto quando o telefone tocou. Atravessando a cozinha a correr para o atender, chocou com Valerie com tanta fora que as duas quase caram. Valerie 
praguejou e deu um passo atrs, permitindo-lhe alcanar o telefone primeiro.
   - Estou? - disse ela sem flego.
   - Ol, querida.  o Zeke.
   - Encontraste-o?
   - Sim. E ele no tinha fugido. Estava sentado debaixo do meu carvalho.
   Natalie deixou-se cair numa cadeira, to aliviada que no tinha foras nas pernas.
   - Ele est bem?
   - Um pouco transtornado, mas est bem. Deve estar a chegar a. Tens de ouvir o que te vou dizer. Est bem?
   - Estou a ouvir.
   - O Chad teve uma conversa desagradvel com o pai. Ficou muito perturbado e precisava de algum tempo sozinho para perceber o que estava a sentir. No te zangues 
com ele por te ter assustado. OK?
   Ela queria torcer o pescoo do filho por lhe ter pregado um susto daqueles.
   - Est bem.
   - Prometes? Acho que vais gostar quando vires onde ele est agora.
   Natalie apertou o telefone com fora.
   - E onde ?
   - Do lado da mam dele.
   Natalie tinha acabado de desligar quando a porta das traseiras se abriu e Chad entrou. O corao parou-lhe quando viu a cara dele. Tinha os olhos vermelhos e 
inchados de chorar.
   - Me? - piou ele.
   Ela levantou-se e abriu os braos. Pela primeira vez em seis meses, Chad corria ao seu encontro para receber um abrao. Natalie apertou-o com fora. Sentia uma 
dor to grande no peito que no conseguiu falar. Limitou-se a baloiar para a frente e para trs, desejando de todo o corao ter feito melhores escolhas na sua 
juventude e ter poupado aquele desgosto ao filho. Mas, se assim fosse, aquele no seria o seu Chad, pensou ela. Robert ajudara a gerar aquele rapaz. Quando pensava 
naqueles termos, Natalie sabia que, com erros ou sem eles, no mudaria nada se voltasse atrs.
   - Adoro-te - conseguiu ela dizer.
   Os braos de Chad apertaram-se convulsivamente  volta dela.
   - Eu tambm te adoro, me. - Apertou a cara com tanta fora contra o ombro da me que a magoou. - Obrigado pelas roupas.
   Pelas roupas? Intrigada, Natalie endireitou-lhe os cabelos e deu-lhe uma palmadinha nas costas.
   - De nada, querido. Foi um prazer compr-las. E o que me compete fazer. Sou tua me. Lembras-te?
   Ele assentiu. Em seguida, endireitou-se e deu um passo atrs, enxugando a cara com uma expresso sria. Quando olhou para ela, Natalie teve uma sensao estranha. 
Os olhos que a fitavam j no eram os de um rapazinho.
   - Vou comprar os teus brincos de volta - disse ele.
   - O qu?
   Chad assentiu com a cabea.
   - Foi o que tu ouviste. Vou compr-los de volta para ti.
   Natalie no insistiu, sem saber como ele pensava conseguir faz-lo.
   - OK. T-los de volta vai deixar-me muito feliz.
   Chad torceu o pescoo para limpar o nariz na T-shirt.
   -  como se j estivesse feito.
   Dito isto, olhou para a tia e saiu da cozinha. Valerie encolheu os ombros e alou as sobrancelhas:
   - Quem era aquele?
   A prpria Natalie no sabia muito bem. Olhou para o telefone. Aps um longo momento, sorriu tremulamente e, com passos pouco seguros, foi sentar-se  mesa.
   - O Chad no pode comprar aqueles brincos - disse Valerie em voz baixa. - Porque  que agiste como se ele pudesse?
   Natalie enterrou a cara nas mos. "Zeke." Respirou fundo, ainda a tremer.
   - Porque ele pode.
   Valerie sentou-se tambm.
   - Coulter?
   Natalie levantou a cabea e assentiu, com um n to grande na garganta que mal conseguia falar:
   - Sim.  a nica explicao. O Chad no estava a falar por falar. Ele acredita firmemente que vai pr aqueles brincos nas minhas mos.
   Valerie concordou e ficou a olhar para o vazio por instantes. Em seguida, sorriu. O seu olhar era travesso quando voltou a olhar para a irm.
   - OK, est na altura de sermos sinceras uma com a outra. Vou estar a meter-me no teu caminho se der uma das valentes com aquele vaqueiro?
   Natalie estava demasiado preocupada com o filho para assimilar imediatamente a pergunta. Quando o fez, quase repreendeu a irm por ser to grosseira. Mas ento, 
pela segunda vez num nmero igual de minutos, olhou para os olhos de algum e viu que j no estava a lidar com uma criana.
   Recostou-se na cadeira, olhou Valerie nos olhos, e disse:
   - Metes-te com ele, minha amiga, e s uma mulher morta.

Captulo Oito
   
   
   
   
   
   
   
   
   Fiel  sua palavra, Zeke adiou o trabalho em casa na manh seguinte para levar Chad  loja de penhores em Crystal Falls. Zeke nunca entrara numa loja daquelas 
na sua vida e, erradamente, pensava que podiam comprar de volta os brincos de Natalie, sem qualquer problema.
   - Lamento - disse a senhora idosa, dona da loja. - Sou obrigada a guardar os brincos durante trinta dias. Posso ficar com o seu nome e nmero de telefone. Se 
a Sra. Patterson no os tiver reclamado entretanto, aviso-o.
   - No est a perceber. - Zeke poisou uma mo no ombro de Chad. - Este  o filho dela. Ele gostava de comprar de volta os brincos da me.
   A mulher sorriu ao rapaz com uma expresso triste.
   - Lamento, querido. Sem a autorizao da tua me, no posso deixar. - Abriu a gaveta de um arquivo, procurou durante uns instantes, e retirou um contrato de uma 
pgina. - Se leres as letras pequenas, vs que sou obrigada a reter os brincos.
   Chad olhou para a folha de papel.
   - A minha me no se importa se eu os comprar. Vamos lev-los para casa para lhos dar.
   
   * No  como se fssemos uns desconhecidos - interveio Zeke.
   A mulher suspirou.
   * Se ao menos tivesses o recibo - disse ela. - No me custava tanto contornar as regras se tivesse a certeza de que tu s quem dizes ser.
   * Acha que eu estou a mentir? - perguntou-lhe Chad, incrdulo.
   * No, no acho. - A mulher sorriu. - Tenho a certeza de que no ests, querido. E acho um amor quereres recuperar as jias da tua me. Ontem, percebi que ela 
ficou desfeita por ter de se separar daqueles diamantes.
   A expresso de Chad iluminou-se.
   * Tenho uma ideia. Porque  que no telefona para o nmero que ela deixou? Pea para falar com a Valerie.  a minha tia. Ela diz-lhe que eu sou eu.
   A senhora riu-se e abanou a cabea. Depois, olhou para Chad; a sua expresso tornou-se mais branda, e, hesitante, agarrou no telefone.
   Minutos mais tarde, Chad tinha os brincos da me no bolso. Quando saram da loja, Zeke disse-lhe:
   * Faas o que fizeres, no percas esses lindinhos.
   Chad sorriu de orelha a orelha.
   * No perco, no. - Quando j estavam na carrinha, o rapaz vi-rou-se no banco para dizer: - Quando chegarmos a casa, acho que gostava de falar com a minha me 
sobre umas coisas quando lhe der os brincos. Importa-se que eu s v trabalhar uma hora depois?
   Zeke tinha a sensao de que a conversa que Chad tinha em mente poderia demorar muito mais do que uma hora. Tambm acreditava que era uma conversa entre me e 
filho que j devia ter acontecido h muito tempo.
   * Demora o tempo que precisares.
   Zeke tinha acabado de instalar os novos vidros nas portas de correr quando a sombra de algum se projectou sobre ele. Acocorado para acertar a guia da porta, 
endireitou-se e deu com Natalie de p atrs dele. l inha os olhos inchados e a ponta do nariz rosada. Atravs dos caracis negros, ele pde ver o brilho dos brincos 
de diamante.
   * Ol - disse ele.
   * Ol. - Ela parecia estar a falar com uma mola de roupa no nariz. - Eu, hmm, vim  frente dos midos para te agradecer, Zeke.
   O brilho que ela tinha nos olhos deixou-o desconfortvel. Natalie estava a fit-lo como se ele tivesse acabado de pendurar a Lua no cu.
   * Agradecer-me o qu?
   Ela sorriu e tocou num brinco.
   * Sabes muito bem o qu. O Chad no os poderia ter recuperado sem a tua ajuda.
   Quando Zeke se levantou, uma das suas rtulas estalou, um duro lembrete de que era demasiado velho para deixar que as hormonas pensassem por ele.
   * No me agradeas. O Chad  que se endividou para os recuperar, e vai ter de trabalhar muitas horas para me pagar.
   * Mesmo assim. - Ela encolheu os ombros e mordeu o lbio inferior. Zeke teve a sensao desagradvel de que ela estava prestes a chorar. - Emprestaste-lhe o dinheiro. 
Foi muita generosidade da tua parte.
   * No tem problema. Ele  um bom rapaz. Acredito que vai pagar-me o que deve.
   Ela assentiu.
   * Ele  um bom rapaz. - Mordeu de novo o lbio e, desta vez, no havia engano possvel: tinha os olhos cheios de lgrimas. - Muito obrigada seja l pelo que for 
que lhe disseste ontem.
   * No disse nada de especial.
   Ela revirou os olhos e uma covinha apareceu-lhe na bochecha.
   *  to bom ter o meu filho de volta. Falar contigo ajudou-o a lidar com o que sente a respeito do pai. Ele est desiludido com o Robert, mas no parece ter ficado 
desfeito por causa disso.
   Zeke levantou uma mo.
   * No ds crdito a quem no o merece. Tu  que o criaste, no fui eu. - Para seu grande desagrado, sentiu um n a formar-se na base da garganta. - Tu  que lhe 
deste um exemplo que podia seguir.
   Os olhos dela arregalaram-se.
   * Eu? Mas...
   Zeke interrompeu-a:
   * Eu no mereo o crdito de coisa nenhuma.
   Uma lgrima isolada venceu as pestanas inferiores e rolou pela face de Natalie.
   Ento, apanhando-o completamente de surpresa, ela deu um passo em frente, ps-se em pontas dos ps, e abraou-lhe o pescoo com fora, encostando todo o seu corpo 
ao dele.
   * Obrigada, seja como for, Zeke. Muito obrigada.
   Instintivamente, ele passou um brao em redor do corpo dela.
   * De nada - disse ele roucamente. - Mas eu no fiz nada de especial.
   * Fizeste o suficiente. Exactamente o suficiente - murmurou ela.
   Natalie beijou-lhe a face, obviamente com a inteno de atacar e retirar. Zeke tinha a inteno de a deixar fazer isso mesmo. S que, de algum modo, virou a cabea 
no ltimo instante e apanhou-lhe a boca com a sua. Ela estremeceu e arquejou com a surpresa. Mas, ento, os seus lbios afastaram-se numa rendio trmula. Ele inclinou 
a cabea para assumir o controlo, campainhas de alarme disparando numa parte distante da sua mente, demasiado distante para fazer com que ele a largasse. "Natalie." 
Ela tentou respirar, deixando-o a ele momentaneamente sem ar. Mas ela expirou num mpeto doce e entrecortado que lhe electrizou os pulmes do mesmo modo que toda 
a sua presena lhe electrizava o corpo.
   Como se os seus ossos se tivessem subitamente derretido, ela colou-se a ele e as suas mos esguias agarraram-lhe a camisa. Tinha a boca quente de ter estado a 
chorar, o seu sabor to doce e inebriante que at doa. Ele fechou a mo que ainda tinha livre sobre a nuca dela para conseguir um beijo mais profundo. Natalie gemeu, 
o som um grito mudo de prazer no vazio da sua garganta que o deixou ainda mais excitado.
   Zeke desejava-a como nunca antes desejara nada, precisava dela como nunca precisara de ningum. No era uma deciso. Nem sequer um pensamento. Ele apenas sabia 
que tinha de a ter, a sensao crescendo numa vaga de urgncia que lhe toldava a viso com tons de vermelho.
   Ela gemeu de novo, subindo para as botas dele para o beijar com tal abandono que Zeke perdeu o controlo. "To doce. Meu Deus." Ele no queria acreditar. Durante 
toda a sua vida sempre se orgulhara de ser cauteloso e nunca perder o autodomnio. Agora, de repente, no tinha qualquer controlo, e ser cauteloso nem lhe passava 
pela cabea. Deliciou-se com aquela boca. Introduziu uma mo sob a camisa dela para lhe sentir a pele, que era quente, acetinada, puramente feminina. Gemeu contra 
a garganta dela, passou-lhe um brao por baixo das ndegas, e virou-se para a encostar  parede da casa.
   Com uma respirao rpida e superficial, os seus dentes mordiscando-lhe famintamente os lbios, Natalie percorreu-lhe o corpo com as mos, tocando-lhe nos ombros, 
aprendendo a forma dos seus braos, cada toque das pontas dos dedos dela transmitindo uma necessidade frentica igual  dele. Mantendo-a no ar com a presso das 
suas ancas, ele envolveu-lhe os seios com as mos, irritado com as duas camadas de tecido que os cobriam, mas to excitado que no conseguia pensar numa soluo 
para aquele problema. Ela gemeu quando lhe passou os polegares pelos mamilos, a sua plvis pressionando a dele a cada passagem dos dedos.
   - O que  que ests a fazer, mam?
   Zeke deu um salto como se tivesse levado uma descarga com um aguilho de gado. Ele e Natalie afastaram-se como dois adolescentes apanhados em flagrante.
   * Rosie! - exclamou ela sem flego. - Assustaste-me.
   A criana fez uma careta.
   * Vocs estavam aos beijos?
   Natalie puxou pelo cabelo e endireitou a camisa.
   * Ns, hmm... - riu-se nervosamente. - Meu Deus, claro que no.
   "No." Zeke queria ver como  que ela pensava escapar daquela.
   Rosie olhou para ele, desconfiada.
   * Ento, o que  que estavam a fazer?
   * O Sr. Coulter estava a ajudar-me com o brinco - respondeu Natalie rapidamente. - O fecho soltou-se e eu no conseguia fech-lo sem um espelho.
   * Oh. - Rosie ainda parecia pouco convencida. - Pois, para mim, parecia que estavam aos beijos.
   Zeke virou-se, simulando um grande interesse pela porta de correr enquanto puxava pela braguilha para reposicionar uma certa parte da sua anatomia. "Raios." Ele 
tinha perdido o juzo. Era a nica explicao.
   Zeke passou o resto do dia com vontade de dar pontaps em si mesmo. De todos os disparates que alguma vez tinha feito, apanhar Natalie de surpresa quando ela 
lhe beijara a cara fora um dos maiores. Agora, era incapaz de olhar para ela sem se recordar da sensao fabulosa de ter aquele corpo generoso encostado ao seu. 
E sempre que olhava para ele, ela ficava com as bochechas rosadas, um indicador garantido de que tambm estava a pensar no mesmo, o que apenas o deixava com o corao 
a bater mais depressa e a alimentar ideias que no devia ter.
   O que mais incomodava Zeke era a noo de que nada mudara desde a noite anterior, quando tomara a deciso de que seria melhor pr um fim quela loucura antes 
sequer de ela comear. Ele ainda no tinha a certeza absoluta de que os seus sentimentos por ela eram do tipo duradouro, nem de que continuaria a gostar da companhia 
dos filhos dela.
   E, no obstante o que acontecera entre eles naquela manh, ainda no sabia se seriam sexualmente compatveis. Um arranque fantstico no era garantia de um final 
satisfatrio.
   Como tal, ele estava exactamente no mesmo lugar onde estava antes, convencido de que era melhor acalmar. Nada de beijos trridos, isso era garantido. Se Rosie 
no os tivesse interrompido, Zeke no sabia se teria tido a presena de esprito ou o autocontrolo necessrio para parar.
   Natalie no era o gnero de mulher que se entregava a um homem sem que o seu corao estivesse includo. Ele queria colocar-se numa posio em que se sentisse 
obrigado a ficar numa relao que no o satisfazia?
   A sua resposta no era apenas um "no", era um "nunca".
   "Acalmar." Zeke descobriu que era mais fcil dizer do que fazer. Todas as manhs, Natalie aparecia em sua casa para trabalhar, com um aspecto que dava vontade 
de comer, com as suas calas de ganga justas e desbotadas e as camisas velhas do pai, o cabelo deliciosamente ondulado agitando-se em todas as direces. Ele via-a 
baloiar as ancas ao som de uma msica que s ela podia ouvir, at ficar com a certeza de que ia dar em doido.  noite, tinha de tomar duches frios para conseguir 
adormecer. Depois, levantar-se no dia seguinte para passar de novo pela mesma tortura.
   Resumindo, no obstante a sua deciso de resistir  sua apetitosa vizinha, Zeke dava por si cada vez mais perdido a cada dia que passava, incapaz de negar a atraco 
que sentia por ela. Natalie era tudo o que ele sempre desejara encontrar sem se aperceber conscientemente do que queria procurar. "Natalie."
   Ansiava por ouvi-la cantar de novo, e travava uma batalha diria para no passar pelo Blue Parrot depois de acabar de tratar da papelada na loja. s vezes, em 
ocasies inesperadas, seria capaz de jurar que lhe sentira o perfume quando ela nem sequer estava por perto. At comeara a sonhar com ela - sonhos apaixonados, 
escaldantes que o faziam acordar de repente e correr para o chuveiro.
   Num passado no muito distante, Zeke gozara com o seu irmo Hank quando ele cara de cabea por Carly. Agora, dizia as mesmas palavras para consigo: "Ests feito, 
Romeu."
   Desesperado, procurou a pessoa cujo conselho prezava acima de qualquer outro. Harv Coulter estava a apanhar tomates na horta quando Zeke apareceu. Sem se aperceber 
da importncia da visita do seu filho, pediu-lhe que lhe fosse buscar um cesto.
   * Nunca vi tanto tomate junto - queixou-se Harv quando Zeke regressou da garagem. - Vou ter de ajudar a tua me a enlat-los durante uma semana.
   Zeke tinha uma cura garantida para uma boa colheita de tomates - um rapazinho espevitado com um pssimo pai -, mas absteve-se de o dizer.
   * Pai, preciso de lhe fazer uma pergunta.
   * Fora.
   * Quando se casou com a me, o pai... - Zeke calou-se e puxou pela orelha. - O que eu quero dizer ... teve alguma oportunidade de experimentar antes de se atirar 
de cabea?
   Ocupado a transferir para o cesto os tomates que tinha no recipiente que improvisara com a fralda da camisa, Harv voltou os seus olhos azuis para o filho.
   * Ests a insultar a tua me, filho?
   * Claro que no, pai.
   * Ests a pensar que ela era o tipo de mulher que deixa um homem provar o leite sem comprar a vaca?
   * No, senhor.
   * Ento, no me faas uma pergunta to parva.
   Agora que pensava nisso, Zeke viu que a pergunta era realmente parva. A sua me era o mais aproximado de um anjo que uma mulher com seis filhos alguma vez poderia 
ser.
   Harv suspirou e abanou a cabea.
   * A tua me frequentava a igreja e tinha valores que no estava disposta a pr em causa por mim. Para estar com ela, tive de lhe colocar um anel no dedo e jurar 
que era para sempre.
   * No teve dvidas? - perguntou Zeke incredulamente.
   * Dvidas sobre o qu?
   Zeke cerrou os dentes e comeou a ajudar a apanhar os tomates.
   * Cuidado com eles - avisou Harv. Depois, disse: - Sempre foste o meu filho srio. Desde pequeno, andas  volta de uma coisa at quase abrires um buraco no cho 
antes de tomar uma deciso.
   Zeke no pde deixar de sorrir. Por pouco agradvel que fosse, a descrio era perfeita.
   * Au.
   * Bem,  verdade. Queres sempre ter a certeza.
   * E isso  assim to errado?
   * Errado, no, propriamente. S que algumas das melhores coisas da vida no trazem garantia. Vais perd-las todas s porque tens medo de arriscar?
   Zeke colocou mais um tomate no cesto.
   * Quando se apaixonou pela me, como  que soube que era para durar?
   * No sabia. S sabia que no era capaz de virar costas. O amor no  uma deciso, filho. Apanha-te em cheio no meio dos olhos e no h nada a decidir. Certo 
ou errado, com dvidas ou sem elas, ests enterrado at aos joelhos em cimento prestes a secar. - Deitou um olhar inlerrogativo ao filho. - Se s capaz de virar 
costas a essa mulher, agarra no chapu e faz-te  estrada. Ela no  a tal.
   * E se virar costas for praticamente impossvel?
   Harv sorriu e piscou-lhe um olho.
   Ento, levanta a cabea e faz alguma coisa antes que outro homem lhe deite a mo.
   Naquela noite, Zeke no resistiu  vontade de passar pelo Blue Parrot depois de acabar de preencher os livros na loja. At se tinha preparado: camisa branca de 
vaqueiro e casaco desportivo. Quando entrou no clube pouco depois das nove, Natalie estava no palco, como da ltima vez que ele ali estivera. Naquela noite, tinha 
um vestido azul-escuro cintilante com uma racha na saia justa que lhe subia ate meio da coxa.
   Como antes, era pura dinamite sob os projectores. Sorriu quando o viu, o seu olhar fixando-o do outro lado da sala. Estava a cantar Up!, um xito de Shania Twain. 
Ele deixou-se cair numa cadeira, completamente cativado e quase nem reparando nas pessoas que o rodeavam. Quando uma empregada passou pela mesa, pediu-lhe um Jack 
Daniels com Coca-Cola. Em seguida, recostou-se para apreciar o espectculo, entregan-do-se a pensamentos pecaminosos que envolviam lenis de seda e fazer amor com 
Natalie Patterson at ela perder as foras.
   Quando a cano terminou, ela disse algumas palavras ao pianista e voltou para o centro do palco. A cano seguinte, Forever and Always, era mais um xito de 
Shania, a letra revelando um profundo desejo de ficar nos braos do seu amante para sempre e nunca o deixar partir. Enquanto cantava, nunca desviou os olhos de Zeke, 
deixando-o com a sensao de que cada uma daquelas palavras lhe era exclusivamente dirigida.
   Minutos depois, tendo informado o seu pblico de que estava na altura de uma pequena pausa, ela abriu caminho por entre as mesas, direita a ele, o baloiar das 
suas ancas o auge dos sonhos molhados de qualquer homem. Caracis de bano que lhe caam at aos ombros, olhos convidativos, um sorriso que lhe fazia o corao bater 
contra as costelas como se fosse um punho cerrado. Ele adorava a forma como a boca dela se elevava nos cantos, a forma como a cara brilhava de felicidade ao v-lo.
   Levantou-se para lhe puxar uma cadeira.
   * Ol - disse ela, com uma voz gutural mas suave, fazendo-o pensar no ronronar de um gato. - O que te traz c?
   * Tu.
   O perfume leve e floral que ela usava envolveu-o quando Natalie se sentou. Ela fitou-o por cima do seu ombro nu e elegantemente definido, estudando-lhe o rosto.
   * Eu?
   Ela era to bonita que Zeke ficou sem saber o que dizer. Mal conseguia respirar, ali sentado diante dela.
   * Queria ver-te - disse ele, sentindo-se imediatamente um imbecil. - E ouvir-te cantar outra vez - acrescentou rapidamente. - s um talento incrvel, Natalie. 
Falei a srio quando disse que devias estar em Nashville.
   Os olhos dela reflectiam a luz da vela que se encontrava entre eles.
   * Se os desejos fossem cavalos, os pobres sabiam montar.
   Era o mais aproximado que ele a ouvira admitir que a sua vida no era exactamente como queria.
   * O que aconteceu, querida? Muitas cantoras tm famlia. O que te impediu?
   Ela sorriu.
   * Uma escolha errada. - Os seus olhos assumiram uma expresso distante. - s vezes,  o suficiente, uma escolha errada. - Virou as mos para cima, estudando as 
palmas. - Sinto-me culpada por dizer isto. Tenho uns filhos maravilhosos, e adoro-os de todo o corao.
   Zeke bufou e debruou-se sobre a mesa.
   * Importas-te de deixar de ser me durante dois segundos e falar comigo a srio? E claro que adoras os teus filhos. Nem  preciso dizer. S quero saber o que 
aconteceu.
   * Quando acabei o liceu, entrei num concurso de cantores na feira. O Robert estava no pblico. Ele deve ter pensado que uma vaqueira de dezoito anos com ritmo 
era uma boa variante. - Fez um gesto vago com a mo. - Ele era encantador. Eu era ingnua. Que mais h para dizer? Fiquei grvida. O meu pai sacou da caadeira e 
apontou-a s partes baixas do Robert. Infelizmente para mim, ele gosta muito dos seus testculos. Quando dei por mim, estava casada com um homem que pensava que 
actuar num palco era rasca e imprprio para uma mulher com o meu estatuto social.
   * Vai dizer isso  Wynonna6.
   * Os Patterson no apreciam a Wynonna. - Ela sorriu com pouca convico. - So muito nariz empinado, obcecados com as aparncias e com o seu lugar na sociedade.
   * Em Crystal Falls? No sabia que tnhamos uma sociedade.
   Ela riu-se, apenas para voltar a ficar sria.
   * Peixe grado num lago pequeno. O Robert casou abaixo da sua posio. - Ela esfregou o nariz e fez um sorriso que no lhe aqueceu os olhos. - Aqui a pobretanas 
tinha de andar na linha para ser digna do nome Patterson. Demorei alguns anos a melhorar as minhas defesas.
   * E depois compraste o clube?
   Ela assentiu e olhou em redor.
   * S tenho isto arrendado. Precisava de capital para comear e dinheiro suficiente para a remodelao. - Lanou-lhe um olhar travesso. - Criei vitelos e porcos 
na quinta e vendi-os, uma ocupao do mais grosseiro que deixou os meus sogros com falta de ar. Precisei de cinco anos para juntar o dinheiro necessrio.
   * O Robert no to deu? - Zeke fez um esgar. - Nem perguntei. Nariz empinado. At consigo imaginar.
   * Ameaou-me com o divrcio quando lhe disse que ia abrir o clube.
   * O que respondeste?
   Os olhos dela brilharam:
   * Que ia ter muitas saudades dele.
   Zeke resfolegou e quase se engasgou com a bebida.
   * Boa.
   * Eu no precisava de mais - prosseguiu ela. - Finalmente, podia cantar para um pblico, o que eu achava que tinha nascido para fazer. Ou isso, ou escrever canes. 
- Estendeu o brao e deu um gole na bebida dele. - Tenho msica na minha cabea. Nunca desaparece. Melodias e pequenas coisas que podem dar em canes se eu as juntar 
e limar as arestas.
   Zeke teve pena dela. Aquilo no era um capricho. Natalie dera-lhe o nome certo: era o que ela nascera para fazer.
   * Aquela cano que cantaste da ltima vez que aqui estive. Era linda.
   * Sonhos Desfeitos?
   Zeke assentiu. At ento, no conseguira recordar-se do nome.
   * Tu tens um dom. Desperdi-lo  um crime. - Fez girar o copo, observando o brilho do gelo a boiar na Coca-Cola. - Com msica, palavras e voz, tens o poder de 
tocar as pessoas de uma forma que a maioria dos outros nunca poder, Natalie.  mais do que uma necessidade tua. E uma responsabilidade.
   Os olhos dela ficaram ameaadoramente brilhantes, e Natalie pestanejou.
   * Onde estavas tu h doze anos? Eu estou com trinta. E demasiado tarde para mim.
   * Tretas. No s demasiado velha. - Zeke passou uma mo pelo cabelo. - Raios. Olho para ti e s vejo beleza. Ainda s capaz, querida. S tens de acreditar em 
ti mesma.
   * Sempre acreditei em mim. - Ela deitou-lhe um olhar que o desafiava a censur-la por isso. - No que respeita  msica, pelo menos, sei que tenho qualquer coisa 
de especial. J o sabia aos cinco anos, e era um vulco dentro de mim  medida que ia crescendo. O meu pai apoiou-me.
   A minha me sempre o faz, tambm. Mas eu no escolhi um marido que quisesse ficar do meu lado.
   Naquele momento, Zeke saltou com ambos os ps para o tal cimento que lhe dava pelos joelhos. Ao contemplar aquele rosto doce, o desejo naqueles olhos lindos, 
teria sido incapaz de virar costas nem que a sua vida dependesse disso. Ela era a tal. Sentia-o nos ossos.
   Era muito assustador. Mas quando aquele arrepio de aviso lhe subiu pela coluna, resolveu ignor-lo. Quando fosse mais velho, no queria olhar para trs, pensar 
naquela noite e dar pontaps em si mesmo por ter cometido o maior erro de todos ao correr na direco errada.
   * Estou a apaixonar-me por ti - disse ele com a voz rouca. - Acho que devias saber.
   Ela ficou branca.
   * O qu?
   * Ouviste bem. Estou a apaixonar-me por ti. No  o que eu queria. Aconteceu. Estou apavorado, no te vou mentir. Mas tambm no vou fugir.
   Ela riu-se, num tom quase histrico.
   * Mas tu s um solteiro convicto. Uma sardinha em lata que gosta de casas de banho vazias. Lembras-te?
   * Pois, deixei de ser. - Zeke bebeu o que restava da sua bebida e bateu com o copo vazio na mesa.
   * E para que fiquemos entendidos, no estou  procura de nada de curta durao. Se retribures os meus sentimentos, no tomes essa deciso de nimo leve, porque 
eu no te vou facilitar a vida. No acredito em desistir dos nossos sonhos. Deus d s pessoas um talento como o teu por algum motivo. - Levantou-se. - Nem que tenha 
de te empurrar constantemente, no hei-de permitir que desperdices o teu.
   Se Zeke Coulter fosse um vaqueiro de rodeios, Natalie ter-se-ia rido das suas juras de amor e voltado para casa a sorrir perante o absurdo da situao. Mas ele 
era firme como uma rocha, um homem que parecia saber manter a sua palavra e que nunca falava por falar.
   Ele no era o nico a sentir-se apavorado. Natalie estava a tremer de to enervada quando ligou o alarme e saiu do clube. No conseguia ser como Valerie, aproveitando 
o prazer onde quer que o encontrasse e depois saindo airosamente para ir pintar as unhas dos ps. E qualquer coisa mais sria do que isso deixava-a aterrada. Tinha 
experimentado a histria do "para sempre", e no tinha resultado. No era capaz de passar outra vez por tamanho desgosto.
   J no interior do seu Chevy a cair aos pedaos, deixou-se ficar sentada com as portas trancadas, sentindo-se claustrofbica e olhando para o vazio enquanto tentava 
lidar com uma verdade incontornvel. S a ideia de ter sexo com Zeke Coulter deixava-a apavorada.
   As mos tremiam-lhe quando introduziu a chave na ignio. A vida corria-lhe bem. Ela adorava a sua famlia. A noite, podia vestir uma T-shirt enorme, esquecer-se 
de lavar os dentes, e fazer amor com a almofada at adormecer. Havia coisas piores.
   * Ests com um aspecto medonho - disse Valerie quando Natalie entrou pela porta das traseiras meia hora depois.
   * Obrigada. Sinto-me ainda pior.
   Valerie sentou-se numa cadeira e puxou as pernas para cima. A sua camisa de dormir revelava um par de pernas invejavelmente firmes desde os tornozelos at s 
coxas, o que fez com que Natalie cerrasse os dentes. Atirou a carteira para a mesa e foi at ao lava-loia beber um copo de gua.
   A vida no era justa. Valerie comia piza e enchia-se de pipocas com manteiga quando ia ao cinema. E engordava por isso? Claro que no. Natalie era capaz de ganhar 
dois quilos s por cheirar a comida.
   * Bem - disse Valerie ligeiramente irritada -, estou a ver que ests muito bem-disposta.
   * Estou com a menopausa vinte anos antes do tempo e tenho uma arma comigo. No me aborreas. - Natalie engoliu a gua, poisou o copo na bancada e voltou-se para 
a irm. - s to infantil. Quando tiveres uma ruga, uma ruga que seja, talvez ento eu consiga falar contigo.
   * Olha que merda. - Valerie puxou a camisa de dormir para cima e tirou um mao de Marlboro das cuecas. - Isso tresanda a problemas com homens.
   Natalie nunca tinha visto a irm fumar. Deu por si a pensar onde ela guardaria o isqueiro. Valerie esclareceu a dvida ao pescar ainda mais fundo nas cuecas, 
sacando de um Bic vermelho. Tirou um cigarro do mao, acendeu-o e expeliu uma baforada de fumo.
   * Muito mau hbito.
   *  o meu substituto para o sexo - disse Valerie com um sorriso travesso. - Devias experimentar. Sabe Deus que precisas de alguma coisa que te descontraia.
   * No fumes perto dos midos.
   Valerie arregalou os olhos.
   * J o fiz, porventura? No me chateies. Estou deprimida, est bem? Ando a enviar respostas a anncios e currculos todos os dias e ningum me diz nada.
   * Porque  que no experimentas outras coisas para alm de lugares de secretria?
   * Porque  que no experimentas outras coisas para alm de cantar?
   Natalie estava demasiado cansada para discutir com a irm. Levantou a mo, acenou e disse:
   * Boa noite. Quero l saber se ficas com os pulmes todos pretos.
   * Que bicho  que te mordeu?
   Natalie dirigiu-se para a porta. Quando l chegou, virou-se para trs.
   * Tens noo de que podes ter as mamas penduradas e as coxas cheias de pele de casca de laranja daqui a cinco anos? Se tiveres um filho ou dois entretanto,  
garantido.
   Valerie tirou o cigarro da boca sem ter fumado.
   * O qu?
   * Agora, pensas que vais ser nova e linda para sempre - disse-lhe a irm. - Mas no  assim que funciona. Todas as mulheres tm dez, talvez quinze anos em que 
so novas e lindas.  o que lhes foi atribudo, ponto final. Um dia, tens dezoito anos e o mundo  teu. No dia seguinte, ests com trinta, e o nova e linda no  
mais do que uma recordao. - Natalie suspirou. - A princpio, no te apercebes. Mentes a ti prpria quando te vs ao espelho, reparando apenas no teu lado melhor. 
Enfias-te num par de calas velhas que esto demasiado justas e achas que ainda ests muito bem. Ento, num triste dia em que ests a limpar o teu carro, olhas para 
o retrovisor quando o sol te est a bater na cara, e vs uma srie de pequenas linhas  volta dos olhos e nos cantos da boca.  um choque. J no s nova. Achas 
que tem soluo, corres a comprar um hidratante e uma base para esconder as rugas. Mas sabes que mais? No serve de nada.
   * Mas que merda. E que tal se me animasses?
   Natalie sentia os olhos a arder com as lgrimas.
   * O Zeke disse que estava a apaixonar-se por mim.
   Valerie engasgou-se enquanto fumava. Com as lgrimas a escorrerem-lhe pela cara, sacudiu a cinza para a palma da mo. Quando recuperou, levantou-se e foi buscar 
uma lata vazia ao caixote da reciclagem por baixo do lava-loia, para lhe servir de cinzeiro.
   Quando j estava novamente sentada, disse:
   *  O Zeke Coulter est a apaixonar-se por ti e isso  uma m notcia?
   Natalie apoiou uma mo na ombreira da porta para descalar os sapatos. Gemeu e agitou os dedos dos ps.
   * Meu Deus, detesto saltos altos. Devem ter sido inventados por um homem.
   Valerie puxou mais um pouco de fumo enquanto Natalie voltava para a mesa.
   * Vamos castr-los todos. Bem, talvez devssemos poupar uma dzia. Afinal, uma mulher tem de se divertir.
   Natalie riu-se enquanto se deixava cair numa cadeira, demasiado cansada para se sentir mal. Deixou a cabea cair para trs e olhou para o tecto. Uma teia de aranha 
baloiava com a aragem.
   * Sinto-me bem com as coisas como elas esto. Posso vestir uma camisa de noite velha e ningum me diz nada.
   * No sentes falta do sexo?
   * Claro que sim. S que no sinto a falta de todos os problemas que vinham atrs dele. Talvez compre um vibrador. Um aparelho no pode desgraar-te a vida. Certo?
   * Nem todos os homens so como o Robert.
   * Talvez no. Sinceramente, quero l saber. - Natalie endireitou a cabea e olhou para a irm. - Afinal, podes ficar com ele. Eu no sou capaz de fazer isto.
   Valerie levantou uma mo.
   * Nem pensar. Achas que tenho "tola" escrito na testa? No lhe toco nem com uma vassoura.
   * Eu tambm no. - Natalie estendeu um brao. - D-me um cigarro.
   * Tu no fumas.
   * Talvez comece.
   * Prejudica-te a voz.
   * Um cigarro no me faz mal  voz. Alm disso, para que  que eu a estou a poupar? Nunca hei-de chegar a lado nenhum. Essa  outra coisa com que tens de viver 
depois dos trinta, teres perdido a tua oportunidade.
   Valerie ficou a pensar durante um momento, e acabou por tirar o mao de tabaco das cuecas. Atirou-o para cima da mesa e disse:
   * Se te queres passar, devamos faz-lo como deve ser. Tens algo que se beba por aqui?
   Natalie olhou em redor.
   * Acho que no. - Ento, a sua expresso iluminou-se. - O av. Ele tem garrafas de vinho barato debaixo da cama. Quando andava  procura da pomada dele, encontrei 
l duas garrafas cheias.
   * Boa! - Valerie sorriu. - Eu era capaz de entrar e sair enquanto ele canta o God Bless Amrica. Est surdo como uma porta.
   * Aposto que no eras capaz.
   * Era, pois.
   * Quero ver isso.
   Minutos mais tarde, Natalie estava a fazer algo que nunca fizera: embebedar-se com a sua irm mais nova. Talvez fosse apenas do vinho, ou talvez fosse apenas 
um encontro de mentes aps vinte e cinco anos, mas, de repente, Valerie parecia estar a dizer algo que fazia sentido:
   * Sabes qual  o problema? - perguntou ela.
   Natalie abanou a cabea.
   * Queres demasiado. - Valerie acendeu outro cigarro e deitou fora o fumo. - O aspecto de uma mulher no passa de preliminares. Um tipo repara em ti. Se gosta 
do que v quando ests vestida, descontrai, querida. Assim que ele abre a braguilha,  como se estivesse cego.
   Natalie engasgou-se com o vinho tinto e riu-se at ficar sem foras. Quando finalmente recuperou a voz, disse:
   * Somos parentes?
   * Receio bem que sim.
   * Sou uma seca, no sou? Sou to chata.
   * No diria que s chata. Mas ests sempre, mas sempre, to preocupada. Como esta coisa de estares a ficar velha. Eu acho que ests ptima.
   * Sem roupas, nem pensar. - Natalie bebeu um grande gole de vinho. - Os meus faris j no so o que eram. - Valerie riu-se. - No tem graa. No fazes ideia 
da sensao de olhar para baixo e ver que os teus mamilos esto a fazer o mesmo. E tenho uma pele de casca de laranja medonha no interior das coxas. Fao flexes 
todas as manhs at no sentir os joelhos, mas no adianta.
   * Como se algum tipo fosse reparar nisso. Se nessa altura ele ainda est a pensar,  porque no fizeste os teus trabalhos de casa, menina.
   Natalie ficou sria, pensando em Zeke.
   * Ele  to agoniantemente perfeito. J olhaste para ele?
   * Podes crer que sim. - Valerie abanou uma mo diante da cara. - Uma brasa. Fico excitada s de olhar para ele.
   Natalie assentiu.
   * Ele podia ter qualquer mulher. Porqu eu? Tenho a barriga pendurada e estrias nas ancas. Quando penso em tirar a roupa diante dele, s me apetece morrer.
   Valerie levantou-se de repente, trocou o cigarro de mo, e puxou a camisa de dormir para cima, revelando uma anca esguia.
   * Estrias. - Puxou as cuecas um pouco para baixo. - Ests a v-las? Fiquei com elas porque cresci muito depressa. Bolas, Nattie, acorda. Preocupas-te de mais.
   * Tenho a minha vida. Tenho uma famlia maravilhosa e dois filhos fantsticos. Porqu estragar tudo com um homem que me vai partir o corao?
   * Porque s uma Westfield, e as probabilidades so fortes. Ele  lindo, no nego. Mas tu tambm no ests nada mal. J no tens vinte e cinco anos, e depois? 
Montes e montes de homens gostam de mulheres com experincia.
   * Nesse caso, estou fora.
   * O que  que queres dizer com isso? Estiveste casada durante quase onze anos.
   * E de vez em quando, quando o Robert precisava de uma folga, honrava-me com a sua ateno. No tnhamos sexo muitas vezes e, quando tnhamos, ele no se esforava 
muito. Guardava o melhor para as namoradas.
   Os olhos de Valerie ficaram rasos de lgrimas.
   * Oh, Natalie.
   * Eu no tinha o que era preciso para o fazer feliz - disse Natalie com a voz rouca. - As coisas s correram bem entre ns durante cerca de um ms. Depois, ele 
comeou a chegar tarde a casa. Eu j estava grvida de seis meses do Chad quando percebi o que estava a acontecer.
   Valerie sentou-se novamente.
   * Estava capaz de matar esse estupor por te ter feito isso.
   * Eu fi-lo a mim mesma. Engravidei e casei-me com ele, no casei?
   * Eras uma mida, apanhada por um predador de trinta e um anos. Como  que te podes culpar? - Valerie revirou os olhos. - Dois meses mais cedo e ele tinha de 
cumprir pena por violao de menores.
   Natalie fechou os olhos.
   * Eu amava-o - acabou ela por murmurar. - Amava-o tanto. Mesmo antes de o Chad nascer, deu-me para ir procur-lo quando a noite j ia avanada, metia-me no meu 
carro e andava pela cidade,  procura do dele. A maior parte das vezes, sem sucesso. Mas houve alturas em que ele estava no escritrio. Estvamos no fim de Janeiro 
e as noites eram muito frias. Fiquei ali sentada s escuras, gelada, a chorar porque sabia que ele estava l dentro com outra mulher. - Natalie engoliu e suspirou. 
- No h dor igual, Valerie. Faz-te em pedaos por dentro e rouba-te o flego. No quero voltar a sentir o mesmo por causa seja de quem for.
   * Eu sei. Mas tenta ser racional. Nenhuma mulher teria sido capaz de manter o Robert em casa. Ele  como um vrus  procura de um hospedeiro, e qualquer corpo 
quente serve.
   * Talvez. Mas saber isso no me ajuda. Afectou-me. J no o amo. Por acaso, quase que o odeio. Mas agora tenho um lugar que est morto dentro de mim. No quero 
voltar a amar. Nem sequer sei se seria capaz.
   * Se isso  verdade - disse Valerie -, ento, tens de ser franca com o Zeke. E no devias deixar para depois.
   
Captulo Nove
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   Bateram ao de leve  porta da cozinha de Zeke. Ele virou-se na cama, olhou para o relgio, viu que j passava das duas da manh e, resmungando, levantou-se. Depois 
de encontrar as calas de ganga, tratou de as vestir, saltando de um p para o outro enquanto atravessava a casa escura aos tombos, a pensar quem poderia ter resolvido 
aparecer quela hora da noite.
   Quando abriu a porta, deu de caras com Natalie. Iluminada pelo luar, ela era, sem sombra de qualquer dvida, a coisa mais bonita que ele alguma vez vira. Ainda 
usava o vestido azul-escuro com a racha que lhe subia at  anca. Por um instante, ele pensou se estaria a sonhar. Mas ento a brisa nocturna atingiu-o no peito 
nu.
   Pestanejou para se desembaraar dos restos de sono e reprimiu um bocejo.
   * Ol.
   * Eu, hmm.... - ela engoliu em seco e desviou os olhos do seu tronco nu, fixando-os nos dele. - Espero no te ter acordado.
   * N - mentiu ele. Quando uma viso em tons de azul lhe aparecia  porta, nenhum homem no seu juzo perfeito queria dormir. - Estava... quase a adormecer.
   Ela fez aparecer aquela incrvel covinha na bochecha e meteu-lhe uma garrafa debaixo do nariz.
   * Trouxe de beber. Tens alguns minutos?
   Zeke passou uma mo pela cara.
   * Claro que sim. Entra.
   Ela poisou um p delicado na soleira de metal. Zeke olhou para a escurido.
   * No vieste pelos campos?
   * Sim, claro.
   * Sem sapatos?
   * Aquilo no eram sapatos; eram aparelhos de tortura. - Natalie entrou na cozinha, roando-se nele sem querer e deixando-o tonto com o seu perfume quando se desviou 
para a deixar passar. - Sou uma rapariga da quinta, lembras-te? Passei metade da minha vida descala.
   Estava explicado, pensou ele. No que Zeke se importasse com ps nus. Ao ver o baloiar das ancas dela, decidiu que se todo aquele corpo estivesse nu seria ainda 
melhor. Fechou a porta e voltou-se para a ver na cozinha iluminada pelo luar, tentando distinguir-lhe as feies. Finalmente, acordou o suficiente para acender o 
interruptor, o que o fez franzir os olhos perante a sbita claridade.
   * O que  que te traz c - olhou novamente para o relgio - a estas horas, querida? Passa-se alguma coisa?
   * No exactamente. - Ela foi at ao lava-loia e comeou a abrir armrios. - Copos? Ah. - Lanou-lhe um olhar ligeiramente desfocado. - Encontrei-os. - Tirou 
dois copos de sumo, abriu a garrafa de vinho, que j no estava intacta, e encheu generosamente os dois. - Vim falar contigo, Zeke. - Virou-se para lhe entregar 
um copo. - O que disseste esta noite no clube, fiquei muito preocupada. No pareces ser do gnero que aprecia casca de laranja.
   * No?
   * No. O que constitui um problema inultrapassvel.
   Zeke no estava a perceber.
   * Por acaso, gosto de casca de laranja.
   * Da minha no havias de gostar.
   Ele assentiu como se estivesse a perceber. S que, obviamente, no estava. Comeava a desconfiar que ela se encontrava um pouco embriagada.
   * Mas tu gostas muito de casca de laranja?
   Ela fez uma careta.
   * Valha-me Deus, no. Mas no posso livrar-me dela, pronto. - Ela deu um grande gole, como se o lcool da bebida lhe pudesse dar foras. - Podia fazer uma operao, 
imagino, mas, e depois?
   * Porque  que tenho a sensao de que no estamos a falar de doces?
   Ela deitou-lhe um olhar intrigado.
   * Doces? Onde  que foste buscar essa?
   * Casca de laranja. Achei que... - Zeke olhou-a com o cenho franzido. - Afinal, de que  que estamos a falar?
   Os olhos dela ficaram ameaadoramente brilhantes:
   * Do meu corpo.
   E isso era um problema? Zeke sentou-se lentamente. "Territrio perigoso." Tinha ouvido h pouco tempo na rdio uma locutora e uma psicloga num talk show a respeito 
dos sentimentos negativos que as mulheres desenvolviam em relao ao seu corpo. Numa sociedade que defendia a juventude e a magreza como ideais femininos, sendo 
as cirurgias plsticas desnecessrias quase uma epidemia, muitas mulheres sentiam-se inferiores e, muitas vezes, feias se no fossem um tamanho 30 perfeito com um 
par de bales em lugar de seios.
   * O que  que tem o teu corpo? - perguntou ele.
   *  uma desgraa.
   * Uma desgraa? - Zeke olhou para baixo. Nunca tinha visto lantejoulas com um brilho to provocador. Natalie no era uma mulher magra, mas era firme, e cada curva 
generosa do seu corpo parecia-lhe mesmo muito bem. - Em que aspecto?
   * Queres que te faa uma lista? Para comear, nunca tive uma figura perfeita, e agora j tive dois filhos. Fao dieta e exerccio, mas  uma batalha constante 
para parecer razovel. J no sou uma menina.
   * Ainda bem. Eu tambm j no estou a rasgar o dente.
   * Os homens aguentam-se melhor do que as mulheres.
   Zeke cruzou os braos.
   * Eu acho que s linda.
   Ela bufou.
   * Nunca me viste nua.
   Um assunto que podia ser resolvido em muito pouco tempo.
   * Esse vestido no esconde muita coisa.
   Ela riu-se sem vontade.
   * Ah, podes crer que esconde. Achas que entrei numa loja e s tive de escolher e pagar? Nada disso. Antes, experimentei dzias de vestidos que revelavam todos 
os defeitos e que me ficavam mesmo muito mal. Todos os vestidos que tenho foram escolhidos cuidadosamente para me favorecer.
   Zeke olhou novamente para o vestido, levando o seu tempo. Francamente, no conseguia imaginar como  que alguma coisa lhe podia ficar mesmo muito mal.
   * Ento, e que defeitos  que esse esconde?
   * Neste momento, o mais problemtico  a pele de casca de laranja que me comeou a aparecer no interior das coxas. - Um tom rosado de embarao comeou a subir-lhe 
pela cara. Natalie bebeu mais um pouco de vinho. Depois, poisou o copo na bancada. - Resumindo, no sou bonita do pescoo para baixo. Passvel, talvez. Porque  
que achas que o meu ex-marido tinha tantos casos?
   * Porque  um palerma?
   * Isso tambm. Mas essencialmente porque no estava satisfeito com o que tinha em casa. - Ela suspirou e sorriu com pouca convico.
   * Tu s um homem fabuloso, Zeke, e eu sinto-me muito atrada por ti.
   * Parecia prometedor. - E eu gostava, gostava mesmo...
   Parecendo distrada, ela calou-se, e Zeke reparou que Natalie estava novamente a olhar para o peito dele. Pensou em ir ao quarto buscar a camisa, mas rejeitou 
tal ideia quase com a mesma rapidez com que a tivera. Precisava de todas as vantagens que pudesse encontrar.
   * Estavas a dizer?
   Corada de vergonha, ela desviou o olhar para um armrio, simulando grande interesse pelo puxador de lato.
   * Que gostava de estar pronta para as curvas, mas s a ideia deixa-me morta de medo.
   Aquilo no soava muito bem. Na realidade, tresandava a uma despedida.
   * Natalie, eu...
   Ela levantou uma mo:
   * Aquilo que eu sinto, e aquilo que tu dizes sentir por mim, no nos pode levar a lado nenhum.
   * E porque no?
   * Porque no. Ouve-me at ao fim, pode ser?
   * Estou a ouvir.
   Ela comeou a brincar nervosamente com um brinco.
   * No vou dizer que estou terrivelmente satisfeita com a minha vida, nem que por vezes no gostasse de ter mais. Mas estou relativamente satisfeita. Tenho uma 
famlia fantstica e dois filhos maravilhosos. Se conseguir endireitar o clube, fico com um negcio que adoro. - Encolheu os ombros. - Porqu estragar tudo com outro 
homem? Especialmente, com algum como tu.
   * Algum como eu? Qual  o problema?
   * Nenhum. E a questo  exactamente essa. Eu ser passvel e tu seres fabuloso no  uma boa mistura. - Abanou a cabea. - Todos os meus instintos me dizem para 
no ir por esse caminho. - Respirou fundo, trmula. - Eu amava o Robert e casei-me com ele. Teria feito tudo para salvar o meu casamento. S que nada era suficiente. 
Percebes? - Apoiou uma mo sobre o corao. -Aconteceu qualquer coisa comigo. Fiquei vazia por dentro. No consigo voltar a amar um homem da mesma maneira.
   * Querida, s uma mulher linda. No sei qual era o problema do Robert, mas de certeza que no tinha nada a ver contigo. - Zeke levantou-se e aproximou-se lentamente 
dela. - Se eu tivesse algum como tu  minha espera em casa, seria o homem mais feliz do mundo.
   * Palavras - murmurou ela. - Apenas palavras. Agradeo que as digas.  muito lisonjeador. Mas elas no podem consertar o que se partiu dentro de mim. - Engoliu 
convulsivamente. - Achava que te devia uma explicao. No  nada de pessoal contra ti. Eu apenas no consigo voltar a passar pelo mesmo.
   Zeke parou a alguns passos dela.
   * Apetecia-me enfiar os dentes do Robert Patterson pelo traseiro dele acima por te ter feito isto. - Os olhos dela arregalaram-se, preocupados. - Olha bem para 
ti, a mulher mais bonita que eu alguma vez vi, e ests convencida de que vou descobrir os defeitos que pensas ter.  de loucos.
   A boca dela tremeu e elevou-se num dos cantos.
   * Sim, pois.  muito simptico da tua parte dizeres isso...
   * Simptico, um raio. Eu sou um tipo directo, Natalie. No digo tretas apenas para que os outros se sintam bem. Sabes o que pensei a primeira vez que te ouvi 
cantar? Pensei: "Reba, chega-te para l." Tu s pura dinamite em palco. Nunca, e quero mesmo dizer nunca, vi algum que conseguisse fazer com que o seu pblico deixasse 
de respirar com a expectativa. E, ento, tu explodiste, agarraste todos pelo pescoo. Dei-xaste-me de rastos, e no era o nico a sentir-me assim. Todos os homens 
na sala estavam de lngua de fora.
   * Eu sei que sei cantar, Zeke. Mas isso no...
   * Sabes cantar, sim, mas  preciso muito mais do que isso para criar magia.  preciso ter tudo: uma voz fabulosa, um corpo fantstico, uma cara to bonita que 
deixa os homens com o corao partido. - Ele estendeu um brao e tocou-lhe na face. - Os teus olhos, o teu sorriso, a forma como te moves, tudo em ti  extraordinrio. 
Eu no queria acreditar que um talento to incrvel estava ali num palco no meio de parte nenhuma, com uma guitarra barata e um pianista razovel como nico acompanhamento. 
Tu s um fenmeno, Natalie. Tens um dom que  quase, e repito, quase, to belo como tu.
   * Obrigada - murmurou ela.
   * No me agradeas! - exclamou ele, a frustrao dando-lhe um dom duro. - No estou a lisonjear-te. Estou a falar de factos. Devias ter o mundo na mo, querida. 
E no existe um nico motivo no mundo para que ainda no o venhas a conseguir.
   Ela esfregou os braos como se estivesse com frio.
   * Sim, est bem, no tenho assim tanta certeza.
   * Mas eu tenho. Sabes o que  que te impede?
   * No. O que ?
   * Tens pouca ambio. Em vez de sares para o mundo e arrasar, ds-te por satisfeita por seres dona de um clube onde podes cantar para meia dzia de campnios 
que no seriam capazes de reconhecer um talento genuno nem que ele lhes mordesse o traseiro. Deus abenoou-te com um dom extraordinrio e ests a deit-lo fora.
   Ela corou.
   * Tenho dois filhos, caso no tenhas reparado. So mais importantes do que um sonho tolo.
   * Um sonho tolo? Jesus. E porque  que tens de escolher entre o teu talento e os teus filhos? Leva-os contigo at ao topo. Pra de te esconder atrs da mediocridade 
e arrasa um palco onde isso possa fazer alguma diferena.
   Os olhos dela assumiram uma expresso magoada.
   * No fazes ideia do que seria preciso sequer para tentar. Tinha de me fazer  estrada e dar espectculos num milhar de cidades diferentes para eventualmente 
ter uma oportunidade. Estaria fora de casa pelo menos um ms de cada vez. No podemos arrastar midos atrs de ns se eles andam na escola, e ser uma artista de 
Vero no d em nada. Em primeiro lugar, sou me, cantora em segundo. No vou sacrificar os meus filhos para ir atrs de um sonho.
   Zeke sorriu.
   * Se eles tivessem um pai decente, no poderias ausentar-te durante um ms sem os prejudicar?
   * Eles no tm um pai decente.
   * Resolve o problema. Eu estou a candidatar-me.
   Ela revirou os olhos.
   * Vou-me embora. Conheces-me h quanto tempo... trs semanas?
   * Sou um Coulter.
   * E o que  que isso tem a ver?
   * Tudo. Sou filho do meu pai. Entrego o meu corao apenas a uma mulher. Levei quase trinta e quatro anos para te encontrar, mas agora que te encontrei, est 
feito.
   * Agora, tenho de ir. Desvimo-nos do assunto. Vim c para ser honesta contigo. No me ests a ouvir. Tenho de ir.
   * Mas eu estou a ouvir. Na realidade, passei a ltima semana exactamente onde tu ests agora, com medo dos meus sentimentos, com vontade de que eles desaparecessem. 
- Ela lanou-lhe um olhar inquiridor. - Achas que eu decidi apaixonar-me por ti? - perguntou-lhe ele. - Pensa bem. O solteiro convicto, lembras-te? Apaixonar-me 
por uma mulher com dois filhos era uma perspectiva bastante assustadora, e tentei o melhor que pude ignorar o que estava a sentir.
   * Tentaste?
   * Claro que sim. Gosto de silncio. Gosto de espao. Gosto de ser solteiro. - Zeke fez uma pausa e apertou a cana do nariz. Nunca tivera jeito com as palavras, 
e tinha uma sensao terrvel de que estava a dizer tudo o que no devia. - Pelo menos, achava que gostava. A Rosie nunca pra de falar. E o Chad tem imensos problemas. 
Uma parte de mim s quer fugir na direco oposta.
   Ela sacudiu o cabelo.
   * Ento, foge. Ningum te impede.
   * No consigo. - Zeke baixou a mo. - Simplesmente, no sou capaz. Tu s a tal. Eu adorava esta casa quando a comprei. Agora, parece-me enorme e vazia. Quando 
olho para o frigorfico, deteste v-lo to nu. Ele precisa dos desenhos da Rosie para parecer bem. Sempre adorei cozinhar, e agora no gosto porque no tenho ningum 
para comer comigo. S me apetecia estar em tua casa, contigo a cantar para mim de garfo em punho enquanto deixas queimar a galinha.
   * Eu no deixei queimar a galinha. Apenas ficou mais castanho num dos lados.
   Ele riu-se e deu mais um passo na direco dela.
   * Vou para a loja  noite, e quando estou completamente absorto na papelada, sabes o que  que me acontece?
   Ela abraou a prpria cintura, uma postura defensiva que no passou despercebida a Zeke.
   * No, o que ?
   * Sinto o teu cheiro. O teu perfume, o aroma do teu cabelo e da tua pele.  como se estivesses ali comigo, s que no te vejo. - Ele viu as lgrimas comearem 
a juntar-se nos olhos dela e soube que no estava a falar em vo. - Acordo suado, a escaldar, depois de sonhar contigo e tenho de tomar um duche frio. J nem consigo 
contar as vezes que passei pelo teu clube  noite a caminho de casa, com vontade de entrar, a precisar de entrar para te ver nem que fosse por um segundo.
   * Porque  que no entraste?
   * Porque no queria sentir o que sinto, porque me deixava apavorado. Apaixonar-me e tornar-me um pai instantneo no fazia parte dos meus planos.
   * Ento, ests com sorte; estou aqui para acabar com isto antes sequer que comece.
   * Ah, pois, mas eu agora j no estou apavorado. - Zeke deu mais um passo. - No posso virar costas e ignorar o que est a acontecer. Estou apaixonado por ti. 
No foi uma deciso, no o posso mudar. Est feito.
   Os olhos dela pareciam cansados.
   * Podes ao menos sentar-te  mesa enquanto falamos sobre isto? Eu sentia-me mais segura.
   * Ests perfeitamente segura, e no, no posso sentar-me. Gosto de manter contacto visual quando estou a discutir uma coisa to importante.
   * Ns tnhamos contacto visual. - Zeke teve a sensao de que o contacto visual no era o que a preocupava. - Eu, hmm... - ela tentou contorn-lo. - Eu devia 
ir-me embora.
   Zeke levantou uma mo e agarrou-lhe no pulso.
   * Ah, no, nem penses.
   Natalie deitou-lhe um olhar espantado.
   Ele agarrou-a com mais firmeza e f-la virar-se para o encarar.
   * Achas mesmo que eu vou deixar que a melhor coisa que alguma vez me aconteceu saia da minha vida porque o Robert Patterson  uma besta? Ests muito enganada.
   * Eu no posso passar por isto outra vez. No posso.
   * Podes, sim. Arrisca-te. Juro que no te arrependes.
   O olhar dela tornou-se mais brando. Zeke soube ento que ela estava apaixonada por ele, exactamente como ele estava por ela, e, pela primeira vez desde que ela 
falara na casca de laranja, sentiu que estava a pisar terreno firme.
   * Fica comigo. Existe algo de especial entre ns, Natalie. Alguma vez te sentiste assim, mesmo com o Robert?
   * No - admitiu ela, mas, ao dizer aquela palavra, o medo era visvel nos seus olhos. - Com ningum. Por isso  que me mete tanto medo. Desta vez, a parada  
mais alta. Sobrevivi ao meu casamento. Consegui sair do outro lado do tnel. No sei se sou capaz de passar pelo mesmo de novo. Quando olho para ti, no penso no 
que estou a sentir agora. Penso que posso acabar por gostar de ti e, depois, ter de ver-te ir embora.
   Ainda agarrando-lhe no pulso, Zeke puxou-a lentamente para si.
   * Acreditas mesmo que eu te dizia tudo o que disse se pensasse que havia a mnima hiptese de eu alguma vez me ir embora? No vou, querida. Nunca.
   Ele podia v-la a vacilar. Era o sinal para parar de falar, o que, de qualquer modo, nunca fora o seu forte. Passou um brao em volta da cintura dela, puxou-a 
para si, e beijou-a com todo o desejo que sentia. Durante um instante, ela continuou hirta, empurrando-lhe os ombros com as mos. Mas deixou escapar um soluo na 
boca de Zeke, prendeu os braos  volta do pescoo dele, elevou-se nas pontas de ps, e retribuiu-lhe o beijo. Zeke apertou-a com mais fora e foi mais fundo, saboreando 
os recantos ocultos daquela boca e reclamando-os como seus. Era to doce quanto ele se recordava.
   Quando a deixou tomar ar, Natalie fitou-o com olhos desfocados. Ele podia ver-lhe a pulsao a latejar na base do pescoo. O ar entre eles estava elctrico.
   * Tenho tanto medo, Zeke - murmurou ela sem flego.
   * No tenhas. Nunca te hei-de partir o corao, querida. Juro. - Cobriu-lhe as faces com beijos, fechou-lhe as plpebras com os lbios, empenhando-se totalmente 
e tentando transmitir com o seu toque o quanto a amava. - Confia em mim - sussurrou ele. - Por favor, Nattie? Esquece a cautela e corre o maior risco da tua vida. 
Prometo que nunca te hs-de arrepender.
   Os lbios dela ficaram frouxos, abrindo-se para ele. Timidamente, Natalie passou a ponta da lngua pelo lbio inferior dele. Ento, com um tremor, toda a resistncia 
que ainda lhe restava abandonou-a. Beijou-o com mais ardor, desta vez puxando-lhe o cabelo e subindo-lhe para os ps para reduzir a diferena de alturas. A boca 
dela era quente, e doce, e faminta. "Seda hmida." Zeke desceu uma mo desde o pescoo dela at  anca. O contraste entre a superfcie spera do vestido e a mulher 
que se encontrava por baixo acendeu-lhe o desejo. Procurou mais abaixo, encontrou a racha da saia e introduziu os dedos na abertura para lhe acariciar a coxa. A 
respirao dela alterou-se. Ento, Natalie gemeu, um rugido surdo de urgncia feminina que o inflamou ainda mais.
   * J passou tanto tempo - murmurou ela contra a boca dele, o seu hlito com o sabor do vinho e com um outro, que Zeke descobriu ser exclusivamente dela. - Meu 
Deus, h tanto tempo, Zeke.
   Ele no estava preparado para o que aconteceu a seguir. Com um grito abafado, quase inaudvel, ela agarrou-se ao pescoo dele, elevou-se, e rodeou-lhe a cintura 
com as pernas, cruzando os tornozelos para no escorregar. Apanhado de surpresa e em desequilbrio, ele deu um passo atrs. Natalie parecia ausente. Capturou-lhe 
a boca com a sua, explorando-a com a sua lngua gil e veloz, e depois mordiscando-lhe febrilmente os lbios. Tudo o que era pensamento lcido desapareceu na cabea 
dele.
   "Meu Deus."
   * Toca-me - ordenou ela.
   Numa parte enevoada do seu crebro, um nico pensamento, isolado, surgiu  superfcie. "Aqui, no." A cozinha no era um lugar prprio para fazer amor com uma 
mulher. Mas nunca na sua vida ele fora beijado assim - nsia e fome fazendo convergir a pulsao de ambos num ritmo nico, latejante. Ela libertou uma mo para comprimir 
a palma contra o ombro dele, cravando-lhe depois as pontas dos dedos.
   * Por favor - murmurou ela.
   * No quarto - conseguiu ele dizer. - Quero que isto seja perfeito para ti.
   Com a respirao ofegante, ela encostou a testa  dele:
   * Esquece o perfeito - disse ela sem flego. - Se ficar l perto, j fico contente.
   Zeke segurou-a nos braos e atravessou a casa s escuras, saboreando-a a cada passo. Ainda estava no corredor quando teve de parar. Recorrendo  parede para apoiar 
as costas de Natalie, baixou a cabea para lhe passar os dentes pelo arco da garganta.
   * Ah, Natalie - sussurrou ele.
   Ela gemeu e procurou-lhe a orelha com a boca, usando lbios, lngua e dentes para o torturar. O som da respirao acelerada dela f-lo avanar mais alguns passos. 
 porta do quarto de dormir, encostou-a  ombreira, inclinou a cabea para conseguir um beijo mais profundo, quase sem se lembrar de que tinha de respirar.
   * ltima oportunidade - murmurou ele. - Se no tens a certeza, deixo-te voltar para casa. Podemos falar depois, quando no tiveres bebido...
   Ela elevou-se ainda mais para o calar com a sua boca faminta. Zeke aceitou a resposta e levou-a para a cama. Queria pois-la com cuidado no colcho, mas ela soltou 
as pernas das ancas dele para se deixar cair, o crculo dos seus braos em redor do seu pescoo puxando-o para cima dela. No instante seguinte, Zeke sentiu a mo 
dela na sua barriga. A descarga elctrica percorreu-o at aos ps.
   * Calma - murmurou ele, agarrando-lhe no pulso. - Onde  o fogo?
   Ela estremeceu debaixo dele.
   * Dentro de mim.
   Aquela resposta foi o suficiente para ele perder o controlo. Inquieto para a despir, procurou o fecho de correr do vestido, mas no o conseguiu encontrar. Ela 
deu-lhe uma ajuda, soerguendo as ancas para puxar a saia para cima.
   * E elstico - sussurrou ela sem flego. - Sai pela cabea.
   Ele ajoelhou-se, agarrou-a pelos ombros, sentou-a, e desembaraou-a do vestido com um nico puxo. Sob a luz da Lua que entrava pela janela, a pele dela brilhava 
como prolas, plida e perfeita. O suti era preto, com meias copas de renda e fecho frontal. Ele nunca tinha visto nada to sexy. Quando abriu o fecho, os seios 
cheios e pesados tombaram-lhe nas mos, os mamilos grandes e escuros como cobre na sombra que os envolvia.
   * So descados - murmurou ela.
   * O qu? - Zeke sentou-se nos calcanhares para proceder  devida apreciao. - Tu s perfeita - disse ele com absoluta convico. Ela ainda lhe parecia mais bonita 
porque parecia no ter noo disso mesmo. Empurrou-a com cuidado para as almofadas e debruou-se para lhe percorrer a linha do esterno com a ponta da lngua. - s 
simplesmente perfeita, Natalie.
   * Mas...
   * Nada de discusses. Aqui, o especialista sou eu, e a minha opinio  que interessa.
   Ela estremeceu e mergulhou os dedos esguios no cabelo dele.
   * Oh, Zeke. Tenho medo.
   * Sentir o que estamos a sentir mete medo a qualquer um.
   Ela riu-se. Ento, ficou sria, o seu olhar luminoso, enorme, colando-se ao dele:
   * Vamos esquecer tudo o que seja complicado. S esta noite. Pode ser? Nada de expectativas. Amanh, sabes como , fingimos que nunca aconteceu.
   * Nem sonhes. Eu tenho expectativas. Amanh de manh quando acordares, quero ser a primeira coisa em que vais pensar: que s minha, que vais ser minha para sempre. 
- Zeke roou os dentes pela parte inferior do queixo dela e comeou a mordiscar a depresso sensvel imediatamente abaixo da orelha. - Uma vez contigo nunca seria 
suficiente para mim. E, se eu fizer bem a minha parte, tambm no h-de ser para ti.
   Dito isto, Zeke dedicou-se  tarefa de fazer daquela a experincia mais fabulosa da vida dela, dedicando uma ateno constante a cada pormenor durante os preliminares. 
Beijou-lhe o interior sensvel do brao, subindo desde o cotovelo antes de descer, agora mordiscando, pelo lado do corpo, fazendo uma paragem para provocar a curva 
do seio a meio do caminho. Dali, seguiu at ao umbigo e comeou a puxar-lhe as cuecas para baixo com os lbios, saboreando a pele acetinada do baixo-ventre. Pouco 
depois, ela estava mais tensa do que a corda de um arco, com a coluna arqueada, respirao ofegante e superficial, cada linha do seu corpo implorando por libertao.
   Para a manter distrada, Zeke reclamou-lhe a boca com a sua enquanto estendia um brao para abrir a gaveta da mesa-de-cabeceira. Quando a sua mo encontrou o 
vazio, imobilizou-se por um instante. Ento, ficou gelado ao perceber o que se passava.
   * Grande merda.
   Ela inteiriou-se e pestanejou, desnorteada.
   * O que foi?
   * A minha mesa-de-cabeceira.
   * O que  que tem?
   * Vendi-a quando mudei de casa! Merda!
   Natalie no conseguia perceber o que  que a mesa-de-cabeceira tinha de to importante. Quando ele se afastou para se sentar na beira da cama, ela tentou sentar-se, 
com a cabea a girar devido ao vinho que bebera, o corpo a latejar de desejo por satisfazer. Tinha sido to perfeito. Estava com vontade de lhe bater. No tinha 
um orgasmo h trs anos, e ele tinha parado por causa de uma estpida mesa-de-cabeceira?
   * Merda - disse ele outra vez. - Isto  fantstico. Fantstico. - Virou-se para olhar para ela. - Era l que eu guardava os preservativos. Estamos SNM.
   SNM? Finalmente, o crebro de Natalie voltou ao lugar. Puxou o lenol amarrotado para se tapar.
   * No tens preservativos?
   * Eu tinha-os no raio da mesa-de-cabeceira.
   Ela sentou-se sobre os calcanhares e tentou controlar a respirao.
   * No esvaziaste as gavetas antes de a venderes?
   * Sim.
   Afinal, ainda havia esperana.
   * Onde  que os puseste?
   * No lixo. Eram velhos. Tive medo de que estivessem estragados. Achei que podia comprar outros se surgisse uma ocasio em que precisasse deles.
   Ela engoliu com dificuldade.
   * Sem proteco. - Ela riu-se um pouco histericamente. - Vives aqui desde Maio e nunca precisaste de um preservativo?
   * Achas graa?
   Natalie no achava graa nenhuma. Mas era revelador.
   * No, no acho graa. Mas custa-me a acreditar que no estiveste com ningum desde que te mudaste para c.
   * Por quem me tomas?
   A expresso indignada na cara dele quase a fez rir outra vez, e, naquele momento, todos os seus receios desapareceram. Ele era, sem qualquer esforo, o homem 
mais bonito, mais maravilhoso que ela alguma vez conhecera, e comeava a acreditar que seria o mais fiel, o mais srio, talvez at mesmo sem voltar a olhar para 
outra mulher.
   * No ando a saltar de cama em cama. - A voz dele era rouca de frustrao, e de paixo no consumada.
   Natalie sentiu o ardor de lgrimas nos olhos.
   * Oh, Zeke.
   * O que foi?
   * No tens preservativos? Nunca me disseram nada to bonito.
   "Bonito?" Ele no percebeu. Que raio, no podia fazer amor com
   ela. Apetecia-lhe partir alguma coisa. Ela quase lhe virara as costas naquela noite. Agora, ele tinha estragado tudo, e talvez nunca mais voltasse a ter outra 
oportunidade.
   Desde que se tornara adulto, sentira o apelo da carne mais vezes do que aquelas que queria contar, mas nunca sentira aquele gnero de necessidade - uma dor terrvel, 
no meio das pernas, espalhando-se at  barriga.
   Ela esticou os lenis,  procura da sua roupa, o que o deixou devastado, ainda que no tivesse outra cama para lhe oferecer se ela decidisse ficar. Quando ela 
encontrou o suti, sentou-se do outro lado do colcho e presenteou-o com a viso encantadora das suas costas enquanto o vestia. Quando se levantou, puxou as cuecas 
para cima e agarrou no vestido. Zeke s queria chorar.
   * Voltas? - perguntou-lhe ele. - Da prxima, juro, no te vais arrepender.
   Depois de passar o vestido por cima da cabea, ela contorceu-se para puxar o tecido elstico sobre as ancas. Ao observ-la, Zeke quase leve um orgasmo nas suas 
Wranglers. Voltando-se para olhar para ele, Natalie passou uma mo pelos cabelos desgrenhados e abanou a cabea.
   * Claro que volto. - Deitou-lhe um olhar atrevido. - Ainda no estamos conversados.
   O alvio retirou um pouco da tenso dos ombros de Zeke. Ele levantou-se, fechou as calas de ganga, e foi atrs dela.
   * Quando?
   Ela riu-se.
   * Quando conseguirmos ter algum tempo s para ns. Dois filhos, lembras-te? Um ligeiro problema.
   Mesmo no escuro, o vestido dela brilhava. J na cozinha, Natalie voltou-se e olhou para ele. - Tenho folga na noite de domingo. Que tal?
   * Domingo? - Zeke fez rapidamente as contas. - So cinco dias de espera.
   Ela sorriu:
   * Eu aguento.
   Ele no sabia se conseguia.
   * Amanh  noite.
   Ela abanou a cabea.
   * Estou praticamente com dois empregos a tempo inteiro, aqui durante o dia e no clube  noite. No posso mesmo ficar acordada at to tarde como hoje e perder 
uma noite de sono.
   Zeke j vira sombras de cansao por baixo dos olhos dela mais do que uma vez.
   * Podes ficar a dormir at mais tarde amanh. No  preciso que estejas c cedo.
   * Mas foi esse o nosso acordo. Agora, para alm do prejuzo na quinta, o Chad deve-te os brincos. No posso ficar a dormir e aparecer mais tarde. Achavas bem?
   Zeke agarrou-lhe no rosto com as duas mos e beijou-a de novo. Passados segundos, estavam ambos sem flego.
   * Acho. - Afastou a cara e viu que Natalie tinha fechado os olhos e estava a sorrir. - Amanh  noite?
   Ela abriu lentamente as plpebras.
   * Posso dormir quantas horas?
   * As que precisares.
   Ela riu-se e ps-se em pontas dos ps para saborear aquela boca mais uma vez.
   * Estamos a partir do princpio de que eu vou conseguir dormir. Da maneira como me sinto agora, sou bem capaz de ficar acordada toda a noite, a olhar para o tecto.
   Quando Zeke acordou na manh seguinte, sentia-se elctrico. "Natalie." O nome dela era como uma cano na sua cabea. Queria ver a cara dela. Precisava de saber 
que a noite anterior no tinha sido uma partida da sua imaginao. "Problema." No tinha um nico motivo para atravessar o campo e procur-la s seis e meia da manh, 
e, de qualquer modo, no tinha coragem para o fazer. Ela precisava de descansar.
   Decidiu antes tomar um duche, e depois foi para a cozinha fazer caf. A garrafa de vinho ainda estava no balco. Zeke agarrou no copo de sumo que ela tinha usado 
e sorriu. Ela tinha mesmo estado ali, e quase tinham feito amor. Fora a experincia mais frustrante da sua vida - e a mais fabulosa.
   Franziu o sobrolho enquanto despejava o caf modo na mquina. "Sem preservativos." Nunca se sentira to parvo. Zeke Coulter, o tipo que planeava tudo at ao 
mais nfimo pormenor.
   Bem, tinha de se certificar de que para a prxima estaria preparado. Partindo do princpio, claro, de que haveria uma prxima. Ela estava um pouco embriagada 
na noite anterior. Quando acordasse, talvez agradecesse  sua boa estrela por no ter acontecido nada.
   Aquela ideia deixou-o com dificuldades em respirar. Natalie tinha pavor de ser magoada de novo. Ele tinha-o visto nos olhos dela, ouvira-o na sua voz. "Apenas 
palavras", dissera ela. Como  que ela poderia saber que Zeke nunca as dissera a mais ningum?
   A luz amarelo-limo do sol brincava no rosto de Natalie. Apreciando o calor, ela apertou a almofada por baixo da bochecha e ficou a ouvir os pssaros a cantar 
do outro lado da janela aberta. "Acorda. Acorda!" pareciam eles dizer. "Est uma manh linda!" Concordando completamente, ela sorriu com uma expresso sonhadora, 
pensando em Zeke, como a voz rouca dele lhe percorria o corpo quando lhe sussurrava ao ouvido, na sensao das mos grandes e calejadas contra a sua pele, nos braos 
to rijos quando ele a apertava contra si. Ele era to maravilhoso - um vaqueiro, alto, moreno e sexy que podia ter qualquer mulher que quisesse.
   E tinha-a escolhido a ela.
   Quase rebentava s gargalhadas sempre que se lembrava do episdio dos preservativos. Que querido. Zeke ficara sentado na beira da cama, a bufar como uma baleia, 
cada msculo do seu corpo tenso de frustrao.
   At quele momento, ela ainda tinha reservas. Uma mulher no podia sobreviver ao que ela passara com Robert e confiar noutro homem sem pr em dvida a sua sanidade 
mental. E se o que Zeke dizia no passasse de uma srie de mentiras? Mas saber que ele no estivera com ningum desde que mudara de casa, descobrir que os preservativos 
tinham ficado tanto tempo na mesa-de-cabeceira que ele os deitara fora, e ver a expresso indignada dele quando perguntara "Por quem me tomas?", acalmara os seus 
receios.
   Bem, nem todos, decidiu ela enquanto se sentava na borda da cama. Robert deixara a sua marca, e ela teria sempre medo, bem l no fundo. Mas o medo j no era 
assim to forte que a deixasse em pnico. Comeava a confiar em Zeke de um modo que nunca julgara possvel.
   Natalie esticou os braos para se espreguiar, sentindo-se muito bem, ainda que mal tivesse dormido. "Esta noite." Foi percorrida por um delicioso arrepio de 
excitao perante aquela perspectiva.
   Uma pancada leve na porta f-la virar a cabea.
   * Sim?
   Valerie abriu a porta e a sua cabea apareceu na frincha.
   * Ento? - perguntou ela, ensonada. - Como  que correu?
   * Como correu o qu?
   Valerie entrou no quarto e fechou a porta atrs dela.
   * A tua conversa com o Zeke.
   * Ah, isso. - Natalie sorriu. - Ele fez-me mudar de ideias.
   * Ele o qu?
   * Fez-me mudar de ideias. Afinal, vou arriscar.
   Os olhos castanhos de Valerie arregalaram-se com curiosidade.
   * Ests a gozar.
   * No. - Natalie reproduziu por alto a sua conversa com ele. - Depois, beijou-me e, quando dei por mim, estvamos na cama.
   Valerie deixou-se cair no colcho.
   * A srio?
   Natalie riu-se perante a expresso chocada da irm e contou-lhe a melhor parte, que Zeke no tinha proteco em casa.
   * Foi horrvel. Mas maravilhoso tambm. Ele no esteve com ningum desde que veio para c, e sabe-se l h quanto tempo antes disso.
   * Uau - disse Valerie em voz baixa, os seus olhos assumindo uma expresso sonhadora. - Um tipo assim  raro.
   To feliz que mal se conseguia conter, Natalie abraou os seus prprios joelhos.
   * Estou a apaixonar-me por ele, Ree-Ree.
   * No me chamavas isso h anos.
   * No chamava, pois no? - Natalie inclinou a cabea para observar a sua irm. - No te rias. Isto parece mesmo lamechas, mas sinto que as coisas mudaram entre 
ns ontem  noite; que, de repente, tu cresceste ou assim, e j no s a minha mana mais nova, mas sim uma amiga.
   Valerie riu-se, mas o seu tom no era de troa.
   * H j algum tempo que sou uma adulta, minha querida irm. S que tu nunca te abriste comigo como ontem  noite. Ainda bem que o fizeste. De repente, tu pareces 
quase humana.
   * Muito obrigada.
   * Bem,  verdade. Sempre foste to irritantemente perfeita. Linda, talentosa, inteligente.  excepo do Robert, no me consigo lembrar de uma vez em que tenhas 
feito uma asneira das grandes. No tem sido fcil seguir as tuas pisadas.
   * Nunca percebi que te sentias assim.
   * Pois, tipo, desde sempre. Quando era pequena, costumava cantar no celeiro, onde ningum me podia ouvir. Queria tanto ser como tu. A me e o pai tinham tanto 
orgulho em ti, e eu nunca senti que tambm tivessem esse orgulho por minha causa. Eu era razovel em tudo: na escola, nas artes, a cantar. No brilhava em nada, 
e ainda no brilho.
   Natalie mordeu o lbio inferior. Depois, abraou-a com todas as suas foras.
   * Mas tu brilhas - sussurrou ela energicamente. - s maravilhosa, e divertida e bondosa. Os meus filhos adoram-te, e no admira. s capaz de me fazer rir quando 
mais ningum consegue.
   Valerie retribuiu-lhe o abrao.
   * Isso  bom, acho eu, pr os outros a rir. Mas no  propriamente um grande talento.
   Natalie recostou-se na cadeira.
   * V o outro lado. Para alm de cantar, eu sou boa em qu?
   Valerie franziu o sobrolho, pensativa. Depois, sorriu.
   * Nada de especial.
   * Exactamente. Tu safas-te bem num monte de coisas. Ser muito, muito boa numa nica coisa, ser obcecada como eu tem os seus contras. Sou esquecida e desorganizada. 
Esqueo-me do que ia dizer e fao asneira nas coisas mais simples porque tenho a msica na cabea e no me concentro no que estou a fazer. Tu s uma boa cozinheira. 
Eu no. No deixas as roupas brancas cor-de-rosa. Eu deixo. Lembras-te de verificar o leo do carro. Quando chega o dia da mudana da hora, tu no te esqueces de 
acertar os relgios todos. Eu passo semanas a acrescentar ou a subtrair uma hora porque nunca me lembro de acertar o meu relgio.
   Valerie riu-se:
   * Pois .
   Ficaram caladas por um momento, apenas a sorrir. Ento, Valerie disse:
   * Agora que fundmos uma sociedade de admirao mtua, voltemos ao Zeke. Ests mesmo a apaixonar-te, no ests?
   * Sim. - Natalie abraou novamente os joelhos e estremeceu de prazer. - Sou louca, no?
   * Louca, no. - Valerie deu-lhe um soco no ombro. - Assim  que . Fico to feliz por ti, Nattie. Se algum merece encontrar um tipo fantstico, esse algum s 
tu.
   Natalie sentiu um ardor nos olhos, o que parecia estar a acontecer bastante desde que conhecera Zele.
   * Obrigada.  to estranho, como isto aconteceu. No ? Divorcio-me, fico na falncia, e volto para casa do pai com os meus dois filhos. A minha vida parece estar 
a desmoronar-se. Ento, ele compra a quinta aqui do lado. O Chad vandaliza-lhe a casa, obrigando-o a vir c e resolver a questo comigo. Se isso no tivesse acontecido, 
eu talvez nunca o conhecesse.  quase como se estivesse destinado. Percebes?
   * Por acaso, acredito nisso. Algumas pessoas esto destinadas a ficar juntas. Percebe-se na forma como olham uma para a outra.
   * Quem  que tu conheces que seja assim?
   * A me e o pai. - Natalie o.hou incredulamente para a irm durante um momento. Em seguida, rebentou s gargalhadas. - Mas  verdade - insistiu Valerie. - Eles 
aitida gostam um do outro. S que no se suportam.
   Natalie deixou-se cair para trs sobre as almofadas, rindo tanto que ficou sem foras.
   * Uma atraco fatal - disse ela sem flego - que nunca chegou  fase letal?
   * Mais ou menos. - Valerie lanou um olhar descoroado  irm. - Diz-me uma vez, uma que seja, nos dez anos desde que eles se separaram, em que qualquer um deles 
tenha sequer olhado para outra pessoa.
   Natalie ficou sria, sentindo-se subitamente triste.
   * Tens razo. A me  to bonita. Bastava-lhe estalar os dedos e tinha os homens a fazer fila, mas nunca sai com ningum.
   * E o pai est casado com o raio da televiso e com as dores de costas. J nem tem vida prpria. Acabou no dia em que ela se foi embora.
   * Meu Deus. - Natalie sentou-se. - Tens toda a razo. Eles ainda se amam.
   Rosie entrou no quarto naquela altura. Natalie abriu os braos. A criana saltou para o colo dela, rindo-se e contorcendo-se. Valerie fixou os olhos da irm por 
cima da cabea da sobrinha.
   * Feitos um para o outro - disse ela ao levantar-se. - Aposto vinte contigo em como eles ainda voltam um para o outro.
   * Seria preciso um milagre. - Natalie imitou o som de um peru enquanto mordiscava o pescoo da filha. Entre sons, disse  irm: - Eles brigam como gatos numa 
saca de batatas.
   * Exactamente o que eu estou a dizer. As pessoas no se atiram ao pescoo umas das outras sempre que se encontram se no existirem emoes muito fortes entre 
elas. Eles no embirram apenas um com o outro. Eles detestam-se. Tem de haver um motivo.
   Zeke j ia na sua terceira caneca de caf quando viu Natalie sair pela porta das traseiras da casa dos Westfield, carregando um saco de lixo. Ainda que estivesse 
longe, identificou-a pela forma como andava - um sexy baloiar inconsciente que Valerie no tinha. Quase rosnou de frustrao quando ela saiu do alpendre e desapareceu 
atrs dos arbustos. Olhou para o relgio, viu que ainda no eram oito horas, e estranhou o facto de ela se ter levantado to cedo. Que raio, ela devia passar a manh 
a dormir.
   Quando saiu do ptio, na direco dos caixotes de lixo, Natalie ficou novamente visvel. Ele encostou-se aos degraus, nunca tirando os olhos dela. Tinha vestido 
qualquer coisa cor-de-rosa - uma espcie de camisa de noite, decidiu ele, porque as pernas pareciam estar nuas. quela distncia, Zeke era incapaz de perceber qualquer 
pormenor, com grande pena sua. Mas quando a viso falhava, a imaginao tomava as rdeas. Mentalmente, viu as barrigas das pernas bem torneadas, a curva esguia dos 
tornozelos, e a forma como a camisa de dormir deveria subir quando ela se curvava. Desejou que ela estivesse ali com ele. Poder passar as mos pela maciez daquele 
corpo, enterrar a cara naquele cabelo.
   "Falta pouco", prometeu ele a si mesmo. Agora que se decidira, queria Natalie na sua cama todas as noites. Com dois filhos pelo meio, tal implicava casamento, 
quanto mais cedo, melhor. Afinal, era sua responsabilidade dar um bom exemplo aos filhos dela, especialmente a Chad, que dentro em pouco seria um saco de hormonas 
com pernas. Zeke queria que ele respeitasse as raparigas, e ensinar tal coisa exigia mais do que palavras.
   No muito depois de Natalie ter entrado em casa, Chad apareceu. Quando o rapaz j atravessava o campo, Zeke levantou um brao e ace-nou-lhe. Chad reparou no movimento 
e retribuiu.
   * 'dia - disse Zeke quando o rapaz j o podia ouvir. - Vamos ter um dia bem quente.
   * J est a aquecer - gritou Chad em resposta.
   Quando o rapaz chegou ao alpendre, Zeke levantou-se.
   * J tomaste o pequeno-almoo?
   * Cereais e torradas.
   Zeke fez girar a caneca na mo e despejou as borras.
   * Nesse caso, podemos comear a trabalhar.
   * O que vamos fazer hoje?
   Zeke levou-o at  oficina.
   * Construir cercas.
   * Tem a madeira precisa?
   * Tenho, pois - respondeu ele enquanto abria as portas da oficina. Deitou um olhar ao rapaz. - Comprei-a h uns meses. J tinha acabado algumas baias e um curral 
se no tivessem chovido tomates e pedras por aqui.
   Chad corou.
   Agora, estou bastante arrependido.
   Zeke riu-se e despenteou-lhe o cabelo.
   Eu sei que sim. Caso contrrio, no te dizia isto.
   Uma hora depois, Zeke e Chad estavam a abrir o quarto buraco para os postes quando Natalie e Rosie apareceram. Enxugando o suor da testa com a manga da camisa, 
Zeke virou-se para as cumprimentar. Queria perguntar a Natalie por que motivo chegara to cedo, mas no teve hipteses para sequer dizer bom-dia. Chester tinha seguido 
as duas senhoras. Quando o ganso viu Zeke, passou imediatamente para modo de ataque, levantando as asas e esticando o pescoo.
   * Chester! - gritou Natalie.
   * Menino feio! - guinchou Rosie.
   Zeke no estava disposto a ser corrido da sua prpria propriedade por um ganso pateta com maus modos. Desta vez, em lugar de fugir, levantou os braos, berrou, 
e enfrentou a investida do animal. Acostumado a vtimas que largavam a correr, tornou-se bvio que Chester no sabia como reagir. Com um grasnido de pnico, a ave 
enorme inclinou as asas para a direita, deu meia-volta e fugiu, grasnando a cada passo que dava. Zeke continuou atrs dele at Chester estar fora da sua propriedade.
   *  para aprenderes - gritou Zeke, abrandando o passo e voltando para casa. Ao longe, conseguia ver Natalie com as mos unidas diante da boca e a gritar qualquer 
coisa, mas estava demasiado distante para perceber as palavras. Rosie comeou a agitar os braos e a saltar.
   * Mas o que  que elas esto para ali a gritar? - pensou ele em voz alta.
   Um instante depois, Chester assentava-lhe uma bicada no rabo, dando-lhe uma resposta inesperada e dolorosa.
   * Au! - Desatando a correr instintivamente para que o ganso no o apanhasse de novo, Zeke berrou: - Seu grandessssimo estupor, filho de uma... au!
   Zeke ganhou velocidade. Quando j se encontrava a uns bons trs metros do ganso vingativo, voltou-se para o enfrentar de novo, agitando os braos e gritando para 
assustar a criatura. Chester grasnou freneticamente e fugiu, com Zeke mais uma vez atrs dele.
   Natalie comeou a rir. Os filhos deitavam-lhe olhares espantados, o que a fazia ria ainda mais. Dez minutos depois, ela tinha as lgrimas a correr-lhe pela cara 
e estava agarrada ao estmago. Sempre que Zeke desistia da perseguio, Chester voltava atrs e tentava bic-lo. Em toda a sua vida, Natalie no se recordava de 
ter assistido a algo to divertido. At as crianas comearam a rir.
   * Durante quanto tempo  que o Sr. Coulter vai correr atrs do Chester, mam? - perguntou Rosie.
   * At que ele deixe de tentar bic-lo, imagino.
   Meia hora depois, Zeke voltou para casa com muito menos energia e entusiasmo do que quando partira. Chester vinha atrs dele, a grasnar contrariado, mas j desistira 
de o bicar.
   * Acho que chegmos a um acordo - disse Zeke quando chegou. - Raio de criatura teimosa. - Enxugou o suor da testa e sorriu a Natalie. - Tens um sentido de humor 
muito estranho.
   Natalie assentiu e enxugou as lgrimas da cara.
   * Desculpa - conseguiu ela dizer. - Mas era to cmico. A partir de agora, passo a chamar-te "Danas com Gansos".
   Os olhos azuis dele semicerraram-se ameaadoramente:
   * Vais pagar por essa.
   O tom da voz dele f-la estremecer por dentro.
   * Promessas, promessas.
   Ele percorreu-a lentamente com o olhar.
   * Sou um homem de palavra. E tu?
   O desejo fervilhava no peito de Natalie.
   * No ters de esperar muito para descobrir. - Olhou para os filhos. Zeke seguiu-lhe o olhar. Ento, bateu palmas: - Mos  obra - disse ele, o seu tom subitamente 
brusco.
   Chester deixou-se ficar  sombra da oficina, grasnando baixinho, mais parecendo um velho a resmungar entre dentes. Natalie foi coar-lhe a cabea.
   * Coitadinho. Ficaste de rastos.
   * O coitadinho quase me levava um naco do traseiro.
   Duas horas mais tarde, quando os quatro pararam de trabalhar para fazer uma pausa, Natalie sentou-se com Zeke  sombra do edifcio, com as costas apoiadas contra 
as chapas de metal. Depois de esvaziar um copo de ch gelado, ele poisou aqueles olhos incrivelmente azuis nela, a sua expresso pensativa, a boca sria.
   * No ficaste a dormir.
   * Quase no dormi. Consegui adormecer por volta das cinco, mas ainda s tinham passado alguns minutos e o Lothario comeou a cantar.
   * Lothario? O galo que eu oio todas as manhs? - Zeke riu-se ao ouvir aquele nome. Mas depois ficou srio. - No descansaste.
   * No.
   Zeke estudou-lhe o rosto. As sombras tinham aparecido de novo sob os olhos. No podia, em boa conscincia, insistir para que ela perdesse mais horas de sono naquela 
noite.
   * Domingo - murmurou ele. - Posso esperar.
   Os olhos dela brilharam com pura travessura.
   * Nem pensar, meu amigo. No vou passar outra noite a olhar para o tecto. Ocorrem-me formas mais produtivas de gastar o meu tempo.
   

   * 
   Captulo Dez
   
   
   
   
   
   
   
   
   Ao fim da tarde, Natalie saiu para ir trabalhar meia hora mais cedo, o que no foi fcil, uma vez que s tinha meia hora para se aprontar depois de sair de casa 
de Zeke. Tomou o duche mais rpido da Histria, apanhou o cabelo no alto da cabea, maquilhou-se, meteu-se dentro de um vestido e saiu de casa a correr, atirando 
beijos aos filhos a caminho da porta.
   Quando chegou  cidade, a sua primeira paragem foi uma loja de convenincia. Assim que se despachou, escondeu o que comprara por baixo do banco do carro e seguiu 
directa para a nova casa de Robert, em Eagle Butte, o bairro chique de Crystal Falls. Cerrou os dentes quando entrou no caminho de acesso, o qual rodeava uma elaborada 
fonte de pedra, um elemento decorativo de acordo com a imponente casa, com o seu prtico frontal com colunas, portas enormes e janelas de vitral. Mais parecia uma 
manso. Devia-lhe ter custado uns largos milhares. Como  que ele conseguia dormir  noite, vivendo em tamanha opulncia quando os seus filhos passavam privaes?
   Cada vez mais furiosa, Natalie estacionou o seu velho Chevy no meio do caminho, desligou o motor, e deixou-se ficar sentada, a respirar fundo para acalmar. No 
estava ali para discutir com Robert por causa de dinheiro. Desde o incidente com os brincos, decidira ser superior, as suas preocupaes estando agora mais centradas 
em Chad e na forma como a tenso entre ela e Robert estava a afect-lo. Robert que ficasse com a sua fortuna. Francamente, ela j no se importava.
   Zeke era o grande responsvel pela sua mudana de atitude. Am-lo e saber que ele a amava libertara-a do passado. Naquela noite, quando fizesse amor com ele, 
no queria nada que a prendesse ao passado. Precisava de comear de novo, sem queixas nem rancores a pesarem-lhe no corao. Com Zeke a apoi-la, poderia cuidar 
dos seus filhos sem a ajuda de Robert. Se o clube fosse ao fundo, pacincia; ela procuraria um emprego. Chad e Rosie poderiam no ter o melhor durante cerca de um 
ano, mas no lhes faltaria o essencial, e saberiam que eram amados, no apenas pela me, mas, esperava ela, tambm por um pai.
   Era essa a razo da visita de Natalie naquele dia - conversar com Robert sobre a sua incapacidade em telefonar ou visitar os prprios filhos. O seu objectivo 
era uma espcie de trgua. Para encorajar Robert a exercer o seu direito de visita e a manter o contacto com os filhos, estava disposta a abrir mo da penso de 
alimentos, passada, presente e futura. Acabavam-se os comentrios custicos, as ameaas de recorrer a meios legais quando falava com ele ao telefone. No podia obrigar 
o ex-marido a ser um pai responsvel e presente, mas podia pelo menos encoraj-lo a esforar-se. Um simples telefonema ocasional deixaria Chad mais contente. Mesmo 
que no o sentisse, Robert podia dispensar dez minutos por semana para fazer o papel do pai preocupado e interessado.
   Natalie saiu do carro com determinao. Os saltos dos sapatos ressoaram nas lajes de pedra quando comeou a subir os degraus curvos e amplos. Quando estava diante 
das portas trabalhadas, ouviu acordes longnquos de Chopin vindos do interior - a Berceuse, se ela no estava enganada. A doura melanclica e italianizada da pea 
quase a fez estremecer. Nas raras ocasies em que Robert se dignara a ter sexo com ela, tivera sempre Chopin a tocar na aparelhagem.
   Cinco anos antes, Natalie teria tremido, sentindo-se agoniada por saber que ele estava ali dentro com outra mulher. Agora, apenas se sentia feliz por ser Cheryl 
ou Bonnie quem tinha de o aturar. Tocou  campainha e depois bateu algumas vezes com a aldraba de lato para jogar pelo seguro.
   Ficou  espera que Robert aparecesse durante quase trs minutos. Sabia que ele estava em casa. Nunca teria deixado a aparelhagem ligada ao sair de casa: era muito 
esquisito nesse tipo de coisas. Alm disso, ela tambm telefonara para o escritrio a caminho da cidade, e a secretria dissera-lhe que ele ia passar a tarde a trabalhar 
em casa.
   "A trabalhar, pois." Desde quando saltar para cima de uma loira era trabalho? Impaciente, Natalie agarrou na maaneta da porta. Estava decidida a falar com Robert, 
quer ele quisesse, quer no. Ele podia perfeitamente prescindir de alguns minutos de brincadeira para falar com ela sobre o bem-estar emocional do filho de ambos.
   Para seu alvio, a porta no estava trancada. Cada vez mais nervosa e determinada, Natalie no reparou no magnfico trio quando entrou.
   - Robert? - chamou ela. -  a Natalie, podemos conversar durante alguns minutos?
   No teve resposta. Podia ter dado meia-volta, mas a msica a tocar na aparelhagem deu-lhe coragem. O seu ex-marido estava algures naquela casa. Ela estava disposta 
a apostar o que restava do Blue Parrot nessa certeza.
   - Robert! - chamou ela de novo, fazendo por usar um tom melodioso para que ele no tentasse evitar a conversa. - Isto no demora, prometo. S quero falar contigo 
sobre o Chad por um instante.
   A casa era enorme. Se as paredes interiores fossem insonorizadas, talvez ele no a pudesse ouvir. Ganhando coragem, Natalie decidiu verificar o rs-do-cho antes 
de sair. O que  que ele podia fazer, mandar prend-la por invaso de propriedade? Nem Robert seria to mesquinho, e aquela conversa j devia ter acontecido h muito 
tempo.
   Sempre  espera de surpreender uma cena escaldante quando entrava em cada diviso, Natalie percorreu rapidamente o piso trreo, chamando regularmente o nome do 
ex-marido. Quanto mais via da casa, mais indignada se sentia. Robert no era apenas egosta; ele no sabia o que era ter conscincia. S em mobilirio, gastara uma 
fortuna. O lugar era to vistoso que roava o mau gosto. Ele tinha-se excedido. Sem dvida, Grace s podia detestar aquilo. "Nouveau riche", diria ela com desdm.
   Quando entrou no escritrio, viu alguns papis sobre o tampo de uma enorme secretria de cerejeira. J nem sequer se sentindo minimamente curiosa a respeito dos 
negcios de Robert, apenas os olhou de relance. Todavia, a zona atapetada ao lado da secretria chamou-lhe a ateno. Dois copos de vinho parcialmente vazios encontravam-se 
sobre a mesa de caf de vidro, mais um indcio de que Robert estivera ali h pouco tempo.
   Quando o seu olhar poisou nos copos, Natalie estacou. Os cristais da sua av Devereaux? De repente, estava furiosa. Tinha procurado aqueles copos por todo o lado, 
convencida de que teriam sido colocados numa caixa qualquer pelos homens que Robert contratara para fazer a mudana, e que estariam esquecidos algures no armazm. 
Perguntara a Robert inmeras vezes se os tinha visto, e ele respondera que no. O estupor. Aqueles cristais eram uma herana de famlia dos Devereaux, de meados 
do sculo XVIII, importados de Bayel. O padro delicado de flor-de-lis dos copos de p alto era inconfundvel.
   Natalie contornou o sof de cabedal para agarrar num dos copos. Como  que ele se atrevia a servir vinho a uma vadia de meia-tigela nos cristais insubstituveis 
da sua av? Fez girar o vinho, cheirou-o e teve pena que Robert no estivesse ali, para lho poder atirar  cara. Furiosa, perguntou-se onde guardaria ele o resto 
do servio. No lhe faltava a vontade de embrulhar os copos em panos de loia e lev-los com ela. Caso contrrio, talvez nunca mais voltasse a v-los.
   E porque no? Os copos eram dela. Mais tarde, deveriam ficar para Rosie. Se continuassem na posse de Robert, talvez se partissem. Com aquela deciso tomada, Natalie 
agarrou nos dois copos e foi para a cozinha. Depois de despejar o vinho no lava-loia, passou-os por gua, secou-os, e comeou a abrir gavetas,  procura de panos 
lavados. "Bingo. " Encontrou vrios sacos de papel por baixo dos panos. Um deles serviria perfeitamente para o que ela queria.
   To danada que nem se importou com a possibilidade de Robert aparecer e surpreend-la, comeou a procurar o resto do servio. Finalmente, encontrou os outros 
seis copos atrs do bar. Recolhendo-os cuidadosamente nos braos, voltou  cozinha, embrulhou cada um num pano e guardou-os no saco antes de sair com o seu saque. 
Se Robert estava escondido no piso superior com a sua favorita do ms, havia de aprender a lio. Para a prxima, talvez ela lhe levasse as pratas.
   Quando voltou ao trio, era capaz de jurar que tinha ouvido o trinco da porta. O seu corao comeou a bater mais depressa. "Apanhada com a boca na botija. " 
Rodopiou com o saco de papel apertado contra o peito, pronta para o confronto. "Nada. " Olhou para o alto das escadas. Se ele estava ali em cima, a fingir que no 
a ouvia, desta vez, a piada ia sair-lhe cara.
   Sentindo-se como uma vulgar ladra, Natalie abandonou rapidamente a casa.
   Exactamente s nove e meia daquela noite, Zeke entrou no Blue Parrot. Natalie estava a meio de uma cano, e o claro dos projectores quase no lhe permitia ver 
para alm da mancha iluminada que a rodeava. As mesas do fundo, envoltas em sombras, eram particularmente difceis de discernir. No obstante, ela sentiu o ar alterar-se 
quando Zeke entrou, quase como se uma descarga elctrica tivesse entrado com ele.
   Ela continuou a cantar como se nada fosse, mas o seu corao disparou. Esforando-se para o encontrar, seguiu-o com os olhos enquanto ele procurava uma mesa. 
Ele tinha aquele caminhar lento e balanado de um homem que passara anos numa sela, os taces das botas arrastando-se ligeiramente no cho a cada passo. Vestia mais 
uma vez o casaco desportivo, desta feita sobre uma camisa azul-escura. A aba do chapu de vaqueiro cor de chocolate deixava-lhe a cara em sombra, no permitindo 
que Natalie lhe visse as feies. No que ela precisasse de o fazer. De algum modo, em to curto espao de tempo, cada plano e ngulo do seu rosto haviam-se-lhe 
gravado na memria.
   Ele sentou-se numa das mesas do fundo, como fizera das outras vezes. Depois de se instalar numa cadeira, Zeke cruzou as pernas e tirou o chapu. Passando os dedos 
pelo cabelo escuro, poisou o chapu no joelho flectido. Todos os movimentos dele eram deliciosamente masculinos. Para Natalie, era o homem mais bonito que ali estava.
   Quando ele se apercebeu de que ela o tinha visto, a sua boca firme assumiu um sorriso vagaroso, de esguelha. Levou dois dedos  madeixa negra que lhe cobria a 
testa alta, a continncia simulada servindo como um cumprimento silencioso.
   Ainda no era chegada a altura de Natalie fazer uma pausa. Tinha mais canes para cantar antes de poder ir ter com ele. "Agonia. " Queria estar sentada diante 
dele. Queria ouvir o timbre rouco e profundo daquela voz. Queria ver os olhos dele iluminarem-se com riso ou brilharem, provocadores.
   Para que o tempo passasse mais depressa, cantou como se ele fosse o nico na sala - canes sobre amor e sobre o "para sempre", o seu corao em cada palavra. 
Na noite anterior, acreditara tolamente ser capaz de ignorar o que sentia por ele, e quisera desesperadamente faz-lo. Uma loucura. Tinha estado toda a vida  espera 
dele. E ele tinha razo: aquela magia que existia entre eles era muito especial. Ele no podia virar-lhe as costas, e ela tambm no.
   Quando terminou a ltima cano, Natalie fez uma vnia pronunciada, largou a guitarra, e desceu os degraus do palco. Zeke levantou-se quando ela se aproximou 
da mesa.
   -  Ol, vaqueiro - disse ela com um sorriso feliz.
   -  Ol. - Ele inclinou-se para lhe puxar uma cadeira. - J te disse hoje que s a criatura mais fabulosa que alguma vez vi?
   - Sim, mas no seja por isso.
   Ele sorriu e voltou a sentar-se. A empregada chegou com a bebida dele. Natalie olhou para ela:
   - Quando voltares, podes trazer-me uma gua, Becky?
   - Com certeza.
   A loira esguia deitou um olhar curioso a Zeke antes de se afastar. Natalie ficou a olhar para ela e sorriu.
   - Os meus empregados j comearam a bichanar a seu respeito, Sr. Coulter. Quando entro no bar ou na cozinha, todos se calam de repente.
   - H um bar aqui?
   Ela apontou para uma porta fechada  esquerda da entrada principal.
   - Por ali. Eu quis que a sala de jantar fosse separada, e mandei levantar uma parede quando arrendei isto. Assim, o ambiente aqui  mais. Ele olhou para a porta, 
pensativo. Ento, a sua expresso aligeirou e ele sorriu.
   - Desculpa. Estavas a dizer?
   - Que os meus empregados j repararam em ti.
   - Ui.
   - Esta  a tua terceira visita, e eu venho sempre sentar-me contigo durante o intervalo. Eles sabem que se passa alguma coisa.
   Ele alou uma sobrancelha.
   - Isso incomoda-te?
   - Estou aqui, no estou?
   Ele riu-se.
   - Pois ests. Mas detesto ser motivo de falatrio. Tambm tenho empregados. Percebo a importncia de manter a tua vida privada como tal, privada.
   Natalie suspirou e olhou em redor. Eram mais as mesas vazias do que as ocupadas, e ela passara um mau bocado ao princpio da noite, tentando fazer malabarismos 
com o dinheiro para pagar as entregas do dia seguinte.
   - Da maneira que as coisas esto, talvez o clube no continue aberto durante muito mais tempo. Eles que falem.
   - Est assim to mau, querida?
   Natalie comeou a brincar com a orla da toalha.
   - Olha para a assistncia e diz-me tu. - Deixou o tecido escorregar dos dedos e endireitou os ombros. - Mas j chega desta conversa. E uma noite especial. No 
quero estrag-la a queixar-me do negcio e de problemas de dinheiro.
   Os olhos dele brilharam, escaldantes.
   - E uma noite especial - concordou Zeke. - E eu tambm no a quero estragar.
   - Ser que sinto um "mas" no fim dessa frase?
   Ele apertou a boca. Em seguida, voltou a olhar para a assistncia.
   - Os negcios antes do prazer, como diz o ditado. Se o clube est assim to mal, tens de agir depressa.
   - E fao o qu? J reduzi a ementa. Estou a funcionar com o mnimo de empregados. Ando a comprar mistelas baratas e a encher as garrafas de marcas boas para que 
os clientes pensem que esto a beber alguma coisa de jeito.
   Ele olhou para o seu copo:
   - Isto no  Jack Daniels?
   Natalie levou um dedo aos lbios.
   - No contes a ningum. Venho c uma vez por semana para fazer a troca. Nem os empregados sabem. - Mudou nervosamente de posio na cadeira. - Acho que  ilegal. 
No quero ficar sem a minha licena.
   Zeke provou a bebida. Os seus olhos azuis tinham uma expresso divertida.
   - Sua aldrabona.
   -  a necessidade. Mesmo assim, mal consigo pagar aos fornecedores. Neste negcio, no d para viver de crdito. Ou pagas logo, ou vais ao fundo.
   - Isso  mau.
   - Mas  assim. Fazes ideia do nmero de bares e de restaurantes que vo  falncia nesta cidade num s ano? Os grossistas no se aguentavam se permitissem pagamentos 
a crdito.
   - J pensaste em fazer algumas mudanas para aumentar a clientela?
   - Que gnero de mudanas?
   - Se eu estiver a meter-me onde no sou chamado, avisa. Est bem?
   - Mau. Isso no me soa nada bem.
   Ele no sorriu.
   - Corrige-me se estou enganado, mas este clube parece ter o carimbo dos Patterson escarrapachado.
   - O qu dos Patterson?
   - Carimbo - repetiu ele. - Tem classe: jantar formal, decorao de bom gosto, e uma artista de primeira toda aperaltada, com um vestido de noite ou de cocktail. 
Os lugares habituais de country-western tm um ambiente descontrado, e o mais provvel  que os artistas usem calas de ganga, botas e uma camisa de vaqueiro.
   - Ou seja?
   - Talvez, apenas talvez, tenhas feito um compromisso quando abriste este lugar, tentando agradar ao teu marido e aos teus sogros.
   Natalie olhou novamente para a sala. Era verdade, apercebeu-se ela, ainda que nunca tivesse pensado nisso.
    - O pianista, por exemplo - prosseguiu Zeke. - O piano est muito bem, no me interpretes mal, mas aquelas coisas finas que ele toca durante os intervalos no 
tm nada a ver com o que tu cantas. Afinal, o que  que ele est a tocar agora?
   Natalie escutou por um instante.
    -  a Serenata ao Luar, de Beethoven.
   Ele assentiu.
    - Pois, de certeza que no  o Boot Scootin' Boogie.
   A expresso dele fez com que Natalie se risse.
    - Admito que apontei para um ambiente com mais classe para acalmar o Robert e a me dele. Na altura, parecia um bom plano: um clube exclusivo de country-western, 
um lugar onde os apreciadores pudessem encontrar boa msica e uma boa refeio.
    - Ainda queres acalmar o Robert?
    - No. Porqu?
   Ele tirou o chapu do joelho, poisou-o na mesa e chegou-se para a frente. Aquela expresso sria, pragmtica, ficava-lhe bem, decidiu Natalie. A testa ligeiramente 
franzida, os olhos atentos e fixos nos dela. No admirava que tivesse acabado de comprar uma casa encantadora e tivesse dinheiro para emprestar ao filho da vizinha. 
Ficou com a sensao de que ele devia ser uma fera nas vendas.
    - Acho que tens aqui uma ideia fabulosa: um espectculo excelente, bom jantar, ambiente de classe. Mas... e se baixasses um pouco o nvel e oferecesses qualquer 
coisa mais mediana?
    - Ento, o clube passava a ser vulgar. Eu no tinha nada de especial para oferecer.
    - No estou a dizer que o transformes num clube vulgar. Mantm-no suficientemente chique para atrair yuppies que gostem de country-western, mas suficientemente 
informal e razovel nos preos para agradar tambm s classes trabalhadoras. Zs-ninguns que querem fazer boa figura para as suas damas, mas que no tm dinheiro 
para filet mignon uma vez por ms.
   - No pares - disse ela.
   Ele poisou os braos cruzados na mesa.
   - O Z vulgar no pode vir c regularmente, e se resolve ser extravagante no jantar, depois vai a outro stio para se divertir, a um lugar onde possa dar ao p 
numa pista de dana e tambm dar uns apertos.
   Natalie olhou mais uma vez em redor.
   - Falta de espao?
   - No  falta de espao, mas  demasiado janota. Para agradar s massas, devias deitar abaixo aquela parede para que os clientes que esto no bar tambm possam 
apreciar o espectculo. Ser que so cidados de segunda classe porque preferem uma cerveja e um pouco de fumo no ambiente? Podes instalar um bom sistema de filtragem 
se ainda no o tens. Oferece algumas entradas baratas na ementa. Faz concursos de karaoke alguns dias por semana. Puxa as mesas para trs, para ficares com espao 
para uma pista de dana. No transformes este lugar numa tasca. No faltam em Crystal Falls. Tens de tornar isto num espao mais simptico, um lugar onde pessoas 
de todos os nveis possam divertir-se. Acho que ficavas  cunha todas as noites da semana.
   Natalie sentiu um arrepio de entusiasmo. Voltou-se na cadeira para poder observar melhor a sala.
   - Sabes que mais? Talvez resulte. O karaoke  bastante divertido. Nunca pensei nisso. H muita gente que anda de bar em bar, s para poder cantar diante de um 
pblico.
   - Isso mesmo. E tu podes oferecer-lhes um espao de primeira para o fazerem. As pessoas adoram fazer figuras tristes. - Ela riu-se de novo. Parecia-lhe que era 
o seu caso quando Zeke estava por perto. - O karaoke algumas noites por semana dava-te mais tempo entre actuaes para tratares das encomendas e da papelada. At 
talvez tivesses algum tempo para compor canes novas.
   Ela lanou-lhe um olhar duvidoso.
   - Como se algum as quisesse comprar.
    - Alguma vez as tentaste vender?
   Ela sentiu a cara a escaldar sob o olhar atento dele.
    - Bem, no. Nem sequer sei muito bem como comear.
    - Comeando - disse ele simplesmente.
   Natalie riu-se de novo. Ele fazia-a sentir-se como se fosse capaz de fazer praticamente tudo.
    - Entradas mais baratas? Eu sou pssima a preparar ementas.
    - Eu posso ajudar. E no mudes de assunto. Quero que escolhas a tua cano preferida de todas as que j compuseste e que ma entregues, sem perguntas. s capaz 
de o fazer?
    - Porqu?
    - Isso  uma pergunta. Limita-te a faz-lo, e concentra-te neste clube antes que ele v ao fundo.
   Natalie mordeu o lbio inferior.
    - No tenho dinheiro para mandar aquela parede abaixo, Zeke. E uma pequena fortuna.
    - N. D-me um p-de-cabra e um martelo e eu livro-me dela num instante. Construste-a quando arrendaste este espao, certo? No me parece que seja uma parede 
portante.
    - Tens andado a estudar o meu clube, a pensar em alteraes estruturais?
   Ele esfregou o queixo com um ar embaraado.
    - Isto no est propriamente a dar. Sou testemunha de que a responsabilidade no  do espectculo oferecido. O homem de negcios que existe em mim no pode deixar 
de se interrogar porqu, e quando comeo a pensar assim, penso em formas de resolver o problema.
    - Eu sa-me bem at que o Robert me levou metade do capital.
    - Ofendi-te.
    - No! - protestou ela. - De todo.  s que... bem, parece ser um problema de espao, para comear. Como  que eu posso manter todas as mesas e conseguir espao 
para uma pista de dana? E tenho de respeitar a legislao de incndios. Tenho um limite de capacidade de duzentas pessoas aqui, cinquenta no bar.
   Ele contou rapidamente os presentes:
   - Querida, neste momento, tens vinte pessoas aqui dentro.
   - J tivemos mais movimento. H muita gente que se vai embora depois de jantar.
   - Exactamente o que eu quero dizer.  o que se faz num restaurante, comer. E no queres ficar  mesa durante toda a noite depois de acabares de comer, por muito 
que te estejas a divertir.
   Ele tinha razo, ela sabia que sim. S que as sugestes de Zeke custavam dinheiro, dinheiro que ela no tinha.
   - No precisas de uma pista de dana grande - especulou ele. - Podes perder algumas mesas, mas no muitas. Aproxima-as. Se ests preocupada com o excesso de clientes, 
cobra um consumo mnimo, talvez cinco dlares por pessoa. Quase todos podem pagar isso. Ganhas dinheiro assim que entrarem e, assim, as pessoas no pensam logo em 
sair. A maior parte das receitas dos clubes vem das bebidas. Certo?
   - Sim. - Natalie olhava dubiamente para a parede.
   - No  nada de mais - garantiu-lhe ele. - Posso aplicar um remate para disfarar onde ela estava, encontrar uma forma de tratar do cho, e est feito. Tens dinheiro 
suficiente para um pouco de publicidade para chamar clientes novos e alugar equipamento de karaoke?
   Natalie sentiu-se desanimar ao recordar-se do caos em que estavam os seus livros.
   - No, no tenho.
   - Quanto achas que seria preciso? Eu tenho algum dinheiro de parle.
   - Nem penses, Zeke. Nem quero ouvir falar disso.
   - Porque no? Tenho o dinheiro parado no banco. Podes pagar mo com juros. Que tal?
   - Qual seria a taxa?
    - Um cinto de ligas e um par de collants uma vez por ms.
   Ela rebentou s gargalhadas.
    - Tu s terrvel.
    - Estou  mais acalorado que um adolescente na noite do baile de finalistas, isso sim. - Zeke ergueu uma sobrancelha. - Mais nada. Apenas o cinto de ligas e 
os collants. Saltos altos, claro.
   Natalie viu-lhe o brilho nos olhos e percebeu que ele estava a provoc-la.
    - Gostas mesmo de cintos de ligas?
    - Nem por isso, mas estamos a acertar um negcio. Tu s uma mulher teimosa.
    - Agradeo a oferta, Zeke, mas eu no ia sentir-me bem.
    - Antes no te sentires bem do que ires  falncia.
   Natalie abanou a cabea.
    - No quero comprometer o que temos com um emprstimo. - Tentou sorrir. - Ia sentir-me como uma manteda.
    - Por mim, tudo bem. - Os olhos dele escaldavam. - Assim, tenho um interesse, at conseguir convencer-te com um anel e umas quantas promessas.
   Natalie ficou de boca aberta.
   Ele sorriu e ergueu o copo num pretenso brinde. Piscou-lhe o olho e disse:
    - Fecha a boca, querida. As moscas ainda podem entrar.
   Natalie estava quase tonta, tais eram os nervos quando atravessou o campo at casa de Zeke naquela mesma noite. Ainda tinha a roupa de trabalho, o vestido preto 
que usava quando o conhecera e as mesmas sandlias de salto alto. No era fcil caminhar assim. Quando os saltos no se afundavam na terra, Natalie caa num buraco. 
Pensou em continuar descala, mas no queria aparecer  porta dele com os ps sujos. "Nada sexy." Era extremamente importante estar no seu melhor naquela noite.
   Quando chegou ao caminho de acesso  casa, parou para ajeitar o cabelo, que ela soltara antes de sair de casa. Em seguida, alisou o vestido. Sentiu um aperto 
no estmago, borboletas no fundo da garganta. De repente, j no tinha a certeza se aquela seria uma boa ideia. Talvez ainda pudesse voltar para casa, telefonar-lhe 
e dizer que mudara de ideias.
   - O que  que trazes a? - A voz dele surgiu inesperadamente das sombras e f-la dar um salto. - Desculpa - disse ele. Ela ouviu as botas no cascalho, o som tornando-se 
mais forte  medida que ele se aproximava. - No te queria assustar.
   O corao de Natalie saltava-lhe no peito como uma r em cimento quente.
   - O que  que fazes aqui fora?
   - Espero por ti. - Ele abandonou as sombras, surgindo sob o luar, mais alto e com ombros mais largos do que ela recordava. O cabelo escuro parecia coberto de 
geada com a luz prateada, e os olhos brilhavam como estanho polido. - Fazes ideia de quanto dura um minuto quando tens de esperar duas horas por algum'
   Uma parte da tenso abandonou o corpo de Natalie.
   - Desculpa. Vim logo que pude.
   - Estiveste quinze minutos em tua casa. J comeava a pensar que tinhas mudado de ideias.
   Ela passou os dedos pelo cabelo.
   - Retoques de ltima hora. No queria parecer desleixada.
   - Preocupas-te demasiado.
   A irm dela tinha-lhe dito exactamente o mesmo na noite anterior, o que deixou Natalie a pensar se ambcs teriam razo. Ela preocupava-se muito, em particular 
com o seu aspecto. Talvez se devesse ao facto de aparecer num palco cinco noites por semana, com gente a observ-la sob todos os ngulos.
   - Eu quero-te, seja l como for. - Zeke aproximou-se tanto que ela sentiu o calor que o seu corpo libertava. - O que tens na mo?
   Ela olhou para o saco que trouxera da loja de convenincia. Sorriu e entregou-lho.
   - Um presente para ti.
   - Um presente? - Ele abriu o saco, inclinou-o na direco da luz e franziu os olhos para ver o contedo. Depois, atirou a cabea para trs e desatou s gargalhadas.
   - Uma caixa inteira?
   - Para que tenhas bastantes  mo.
   Ele lanou-lhe um daqueles sorrisos de fazer parar o corao.
   - Temos duas.
   - Duas qu?
   - Caixas. Eu tambm fui  cidade.
   Foi a vez de Natalie se rir. Ele passou-lhe um brao forte em redor da cintura e levou-a at aos degraus da cozinha.
   - No queremos repeties da noite passada. Agora, estamos bem equipados. - Baixou a cabea para lhe mordiscar o lado do pescoo, e depois o ombro. - A propsito, 
lembro-me deste vestido.
   - Ah, sim?
   - Sim. - Ele no a largou enquanto subiam os degraus e inclinou-se para lhe abrir a porta. - Era o que tinhas quando te vi pela primeira vez. Estavas to bonita 
que quase engoli a lngua, e depois, juro pela minha vida, j nem lembrava do motivo que me levara ali.
   - Hmm.
   -  verdade, juro. O que me salvou foi ver um resto de polpa de tomate na biqueira da bota. No eras o que eu estava  espera de encontrar quando dobrei a esquina 
da tua casa. Apeteceu-me tocar-te - inclinou a cabea para lhe beijar o decote - ali mesmo.
   Um calor lquido acumulou-se na barriga dela. As pernas vacilaram-lhe um pouco quando entrou na cozinha  frente de Zeke. Ele largou o saco na mesa, agarrou-a 
pelo cotovelo e f-la voltar-se, puxando-a para os seus braos, a boca quente e esfomeada no lhe dando tempo sequer para manifestar a sua surpresa.
   Ela estava  espera de sentir-se tensa durante os primeiros minutos depois de chegar; imaginara que haviam de fazer um pouco de conversa antes de chegarem quela 
fase. "No." O brao dele parecia uma viga de ao  volta dela, a mo grande aberta contra as suas costas, puxando-a firmemente para ele. Nada de preliminares. Nenhuma 
oportunidade para se sentir nervosa. Ele limitara-se a assumir o controlo.
   Beijou-a como se nunca mais quisesse parar. Um calor escaldante. As mos percorriam o vestido, deixando-lhe as terminaes nervosas em chamas. A lngua provocava-lhe 
os lbios, fazendo-a estremecer at s pontas dos ps. Quando ele a apertou com mais fora e colou o corpo dela ao seu, Natalie sentiu-se como se fosse derreter-se 
ali mesmo. Ele procurou mais fundo com a sua lngua na boca dela, tambm ele a tremer, o desejo tornado evidente em cada linha tensa do seu corpo.
   Zeke afastou-se to de repente que ela se sobressaltou. Agarrando-lhe no rosto com as duas mos, passou os lbios por uma das faces e fechou-lhe as plpebras 
com beijos.
   - s to bonita. - A voz dele tornara-se rouca com a necessidade. Passou-lhe as mos pelo cabelo e baixou a cabea para lhe roar o pescoo com os lbios at 
ao ponto onde as clavculas se encontravam, descendo depois at aos seios, imediatamente acima do corpete do vestido. - To bonita.
   A respirao dele tornara-se mais rpida, estremecendo-lhe no peito, quente e hmida contra a pele. Passou-lhe um brao por baixo das ndegas, levantou-a como 
se no pesasse mais do que uma criana, puxou-a para si, plvis contra plvis, e procurou-lhe a boca to febrilmente que ela pensou que a ia possuir ali mesmo.
   E ela estava pronta. Mais do que pronta. Nunca sentira uma nsia assim em toda a sua vida. O desejo que sentia era mais do que uma febre. Era uma necessidade 
primeva que lhe queimava as entranhas. Passou as mos pelo cabelo dele, puxou-lhe a cabea para baixo para obter um contacto ainda mais intenso entre as duas bocas, 
absorvendo o calor que emanava dele, pulsando como ondas de choque.
   Ele afastou os lbios dos dela. Com uma velocidade estonteante, estava a mover-se. Quando deu por si, Natalie estava sentada na bancada da cozinha, Zeke de p 
entre as suas pernas afastadas. Respirando rapidamente e sussurrando palavras que no faziam sentido, ele cobriu-lhe o rosto e o cabelo com beijos, as mos acariciando-lhe 
as coxas nuas ao de leve, o seu corpo quase lhe tocando. Natalie pestanejou, regressou  realidade, e apercebeu-se de que ele estava a tentar ir mais devagar.
   Perdeu-se naqueles olhos azuis fabulosos. "Zeke." Ele era tudo para ela naquele momento. Sim, ela precisava dele. Mas amava-o ainda mais por querer abrandar e 
tornar aquele momento especial. Seguindo-lhe o exemplo, prendeu-lhe a cara morena entre as suas mos e cobriu-a de beijos, ao de leve, acalmando-o.
   - Nunca quis ningum tanto como te quero agora - murmurou ele sem flego. - Mas quero que isto seja perfeito, algo de que nunca te esquecers.
   No poderia ter dito nada que lhe tivesse soado melhor. Natalie estava acostumada a um homem que apenas pensava no seu prprio prazer. Podia sentir a nsia que 
percorria aquele corpo, o limite que ele tentava no atravessar, o que lhe dizia mais do que ele alguma vez poderia imaginar.
   - Que tal uma bebida? - perguntou-lhe ele de repente.
   - Claro - conseguiu ela dizer com os lbios inchados por tantos beijos.
   Mal acabara de responder e ele j lhe tinha passado um brao por baixo dos joelhos, o outro por trs das costas, e puxara-a para si. Ela queria que Zeke a levasse 
directamente para a cama, mas ele levou-a antes para a sala de estar, poisou-a num banco e perguntou:
   - O que deseja?
   A imaginao pregou-lhe uma partida. Sexo em cima do bar parecia-lhe fantstico naquele momento.
   - Surpreende-me - respondeu ela, recorrendo ao tom rouco e convidativo que aperfeioara no clube.
   Ele lanou-lhe um olhar demorado, pleno de significado, e preparou-lhe um sloe gin7 com gua tnica.
   - Porque  que escolheste o sloe gin? - no resistiu ela a perguntar.
   Ele sorriu.
   - Dizem que  bom para te deixar no ponto.
   Ela endireitou-se no banco do bar, cruzou as pernas, apenas para as descruzar logo a seguir, uma vez que no conseguiu suportar a presso numa certa rea do corpo.
   - Se isto  para me deixar no ponto, o que foi aquilo na cozinha?
   - Apenas para quebrar o gelo, querida. O prato principal ainda est para vir.
   Qual gelo? Ela nunca desejara ningum como o desejava a ele -j. Envolveu com a mo o copo que ele lhe entregou, mudou novamente de posio no banco do bar, poisou 
os ps no cho e lanou-lhe o seu sorriso mais sedutor. Comportando-se como se estivesse em palco, foi at  porta que dava para o hall, baloiando as ancas o mais 
provocantemente que sabia. Quando chegou ao seu destino, voltou-se, ergueu o copo, e brindou-o com um sorriso que, esperava ela, lhe enviasse uma mensagem inequvoca.
   - J estou pronta para o prato principal, Zeke.
   Quando se virou para o corredor, ele atravessou a sala com a velocidade de um atleta olmpico.
   - Eu queria que isto fosse romntico.
   Mais romntico, e ela violava-o. Estendeu o brao livre, agarrou-o pela camisa e levou-o at ao quarto de dormir, as bebidas de ambos deixando salpicos pelo cho. 
Natalie no queria saber. O tapete no era dela. E, naquele momento, no se teria importado se fosse.
   
   Puxou-o para a cama, poisou o copo no cho onde o raio da mesa-de-cabeceira deveria estar, voltou-se, agarrou no copo dele e depositou-o ao lado do outro. Com 
dedos tensos, comeou a desabotoar-lhe a camisa e a desapertar a fivela do cinto. Quando j o tinha satisfatoriamente descomposto, apoiou ambas as mos naquele peito 
amplo e empurrou-o com todas as suas foras. Ele aterrou no colcho com uma exclamao de surpresa que a fez sorrir. Natalie puxou a saia para cima e avanou, prendendo-lhe 
as ancas com as suas coxas.
   - E que tal uns preliminares? - perguntou ele ofegante.
   - Isso foi a noite de ontem. - Ela debruou-se e comeou a cobrir-Ihe a cara e o peito nu com beijos. - Quero-te. Agora. No tenho sexo h trs anos, e nunca 
foi nada de especial.
   Zeke deixou-se ficar imvel por um instante, desfrutando a sensao daqueles lbios quentes e hmidos que lhe percorriam a pele. O cabelo dela fazia-lhe ccegas 
no peito - madeixas sedosas ainda quentes devido ao contacto com o corpo dela e que o cobriam de descargas elctricas. As pontas dos dedos dela encontraram os seus 
ombros, puxando-lhe a camisa para trs, inflamando-o com uma necessidade que ele no era capaz de ignorar,  qual no podia resistir. Sem pensar, Zeke levantou-se, 
agarrou-a pela cintura e f-la virar-se para ficar por cima. Quando parou para olhar para os seus olhos castanhos, que brilhavam sob o luar que entrava pela janela, 
teve a certeza de que aquele era o amor da sua vida.
   Estendeu os braos lentamente e agarrou nas alas do vestido, fazendo-as deslizar sobre os ombros macios. Natalie arqueou as costas e levou uma mo ao fecho de 
correr, com os seus olhos fixos nos dele. Ele sorriu, puxou o vestido at ficar abaixo das ancas dela, e debruou-se para lhe beijar os seios. Ela tremeu quando 
ele mordiscou ao de leve a renda do suti.
   Natalie deu por si a desejar que os seus mamilos estivessem nus.
   - Amo-te - murmurou ele.
   Olhando-o nos olhos, ela acreditou. Ele fazia-a sentir-se como se fosse o centro do universo, mais importante, at, do que o prprio respirar. Nunca imaginara 
um homem a olh-la daquela maneira, nunca sequer pensara que seria possvel.
   - Oh, Zeke.
   - Amo-te - disse ele de novo, a sua voz rouca pela emoo. - No sei como, mas sei que aconteceu.
   Natalie sabia. Passara-se o mesmo com ela: am-lo fora algo que se introduzira sob a sua pele. No sabia exactamente quando. Naquele primeiro dia, em que ele 
aparecera no seu ptio, pernas afastadas e mos nas ancas, olhos brilhantes de fria? Ou depois, quando tinham ficado cara a cara junto  casa dele? Ou talvez tivesse 
sido quando Chad fora ter com ela, com os brincos da av Westfield na palma da mo, os olhos cintilantes de orgulho porque conseguira compr-los de volta, com os 
cumprimentos de Zeke Coulter.
   - Oh, Zeke, tambm te amo. Amo-te tanto.
   Ele percorreu-lhe as costelas com as mos e desapertou-lhe o suti com desenvoltura. Natalie sentiu-se exposta, o elstico e a renda saltando para os lados, apenas 
para serem substitudos pelas mos quentes e firmes dele. Zeke prendeu-lhe suavemente os mamilos entre os polegares e os indicadores. Um aperto e ela ofegou, quase 
se levantando da cama, totalmente perdida naquela sensao. Ele elevava-se como uma parede acima dele, a sua virilidade encerrada em ganga, o peito como brasas contra 
a sua pele nua, a aspereza do toque devastando-lhe as terminaes nervosas.
   - Zeke! - gemeu ela sem flego. - Beija-me a. Por favor.
   Zeke no queria que aquilo acabasse antes sequer de ter comeado. Queria que ela alcanasse alturas que nunca antes conhecera. Em lugar de lhe tomar os seios 
com a boca, poisou beijos em redor de cada uma das aurolas, exultando ao ver que os mamilos ficavam duros como pedras. Enquanto ela se movia debaixo dele, febril 
de desejo recusado, ele titilou as pontas latejantes com a lngua e mudou de posio, deitando-se ao lado dela. Usando uma mo, as pontas dos dedos leves como penas, 
desenhou uma linha entre o umbigo e a plvis dela.
   Prendendo o polegar por baixo do elstico das cuecas, puxou-as at aos joelhos juntamente com o vestido, com um nico movimento. Ela ergueu as ancas para o ajudar 
e, num repente, quase todas as suas roupas estavam no cho. Apenas faltava o suti, ainda preso debaixo dela, aberto como dois parnteses, puxando o olhar dele para 
os seios generosos de Natalie.
   Ele no conseguiu resistir queles mamilos escuros e erectos, que imploravam a sua ateno. Enrolou a lngua  volta de um deles e atormentou levemente o outro 
com os dedos, tirando prazer dos gemidos dela, que estremecia a cada nova sensao. Natalie comeou a mover as ancas num convite inconfundvel. Ele recebeu as suas 
investidas com uma mo, mergulhando um dedo no calor hmido e escorregadio. Ela arquejou e imobilizou-se, a sua boca aberta em expectativa. Zeke afagou-a ao de leve, 
observando-lhe o rosto enquanto ela se aproximava do clmax.
   Natalie agarrou-lhe o pescoo com um brao trmulo e puxou-o para ela.
   - Quero-te dentro de mim.
   Ele j no conseguia resistir mais. Saltou da cama, desembaraou-se da roupa com a maior rapidez que era humanamente possvel, e foi  casa de banho, onde deixara 
os preservativos que tinha comprado. Depois de tratar do assunto, voltou para a cama. Deixou-se cair sobre Natalie com os braos esticados e colocou-se entre as 
coxas dela.
   Ao entrar lentamente, quase perdeu o controlo. Ela estava to hmida e quente e pronta. "Meu Deus." Sabia to bem. Uma tenso sbita apoderou-se do seu baixo-ventre, 
irradiando dor em todas as direces, deixando-lhe o corpo hirto. Ele queria conter-se, fazer com que durasse, mas era infernal. Sentindo-se envolvido por aquela 
maciez quente e hmida, os msculos dela contraindo-se  volta dele, no foi capaz de controlar a nsia do seu corpo.
   Com rpidas investidas das ancas, mergulhou nela. Ela aprendeu-lhe o ritmo num instante e foi ao seu encontro, investida atrs de investida, as suas pernas presas 
nas coxas dele. Mais depressa e mais fundo. Zeke sentiu o corpo dela agitar-se ligeiramente, e, ento, as paredes internas de Natalie entraram em espasmos. Ele perdeu 
a cabea, o seu baixo-ventre explodindo em sensaes. Ela soluou e agarrou-se a ele, ofegando descontroladamente. Chegaram juntos ao auge, uma concluso frentica, 
desesperada que os deixou a ambos esgotados.
   Depois, Zeke deixou-se cair sobre ela, tentando controlar o seu peso para no a esmagar.
   - Oh, Zeke - disse ela tremulamente.
   Ele rolou para um lado e agarrou-a nos seus braos, beijando-lhe o cabelo, acariciando-lhe a pele hmida.
   - Foi lindo - murmurou ela.
   Ele baixou o queixo para a mirar.
   - Lindo, qual qu! Foi fabuloso, querida.
   Natalie riu-se debilmente e poisou uma mo pequena sobre o corao desgovernado dele. Zeke afundou a cara no cabelo dela, sentindo-se saciado e absolutamente 
satisfeito.
   - D-me cinco, e recomeamos.
   - Cinco minutos? - perguntou-lhe ela, incrdula.
   - Algum problema?
   Ela mordeu-lhe a parte inferior do queixo e virou-se para o encarar, os seus seios como ferros de marcar gado onde lhe tocavam no peito. Agarrando-lhe no queixo, 
Natalie sorriu beatificamente.
   - Estou to feliz, Zeke. No quero que este momento acabe.
   Ele beijou-lhe a ponta do nariz.
   - O momento pode passar, mas o sentimento nunca.
   Deixaram-se ficar, membros entrelaados, coraes  procura de um
   ritmo mais regular. Ele ouviu o estmago dela rosnar e abriu um olho.
   - Querida, ests com fome?
   - Costumo comer um iogurte quando chego a casa. Mas esta noite, no.
   - Jantaste no clube?
   - Deus me livre. Ficava uma pipa se fizesse isso todas as noites.
   Ele deu-lhe uma palmada no traseiro.
   - Toca a levantar.
   - Pensava que amos fazer amor outra vez.
   - Alimentao primeiro, diverso depois. Trabalhaste o dia inteiro e ainda fizeste um turno esta noite. No quero que fiques doente.
   Zeke emprestou-lhe uma camisa e depois levou-a para a cozinha. Quando ela se ofereceu para ajudar enquanto ele ia buscar ao frigorfico os ingredientes necessrios 
para uma omeleta, Zeke entregou-lhe uma colher de madeira, deu-lhe um beijo e disse:
   - Canta para mim.
   - Isso no  ajuda nenhuma.
   - No quero partir os dentes quando comer estes ovos.
   Ela suspirou, exasperada.
   - No sou uma cozinheira assim to m. O meu av estava s a gozar contigo quando disse aquilo.
   Zeke no estava convencido.
   - Canta Forever and Always - pediu ele.
   Ela bateu com a colher no queixo, e apareceu-lhe uma covinha na bochecha.
   - Ia sentir-me pateta.
   Zeke comeou ele prprio a entoar a letra. Ela ganhou coragem e, assim que comeou a cantar, a Natureza fez o resto. Enquanto ela fazia o que nascera para fazer, 
Zeke ocupou-se do fogo.
   Ela estava to adorvel, vestindo apenas a camisa dele, com o cabelo solto e os lbios inchados pelo amor, que ele quase apagou o fogo para a levar de novo para 
a cama. Resistiu  vontade, querendo que ela comesse alguma coisa primeiro.
   Mais tarde, depois de ela ter comido a omeleta, voltaram para o quarto de dormir. Para Zeke, a segunda vez foi ainda melhor do que a primeira. Conseguiu ir mais 
devagar, saboreando cada centmetro apetitoso dela e levando-a ao clmax vrias vezes antes de ele prprio l chegar.
   Depois, dormiram durante algum tempo, nos braos um do outro. Ele despertou, saiu da cama, vestiu-se, acordou-a com cuidado, ajudou-a a vestir-se e levou-a a 
casa. Quando j estavam  porta, deu-lhe um beijo de boa-noite, um beijo longo, demorado, pleno de promessa.
   - Oh, Zeke, no quero entrar.
   Com um brao  volta dela, colou-lhe a outra mo ao traseiro e f-la baloiar com ele.
   - Eu sei - murmurou ele. - No te quero largar. Mas  quase dia. No queremos que os midos te vejam entrar s escondidas.
   Ela agarrou-se ao pescoo dele.
   - E uma parvoce, imagino. Mas sinto que vamos ter apenas esta noite, que vai acontecer qualquer coisa para estragar tudo.
   Zeke apertou-a com mais fora.
   - Nem sonhes. Vamos ter um milho de noites como esta. E uma promessa. - Beijou-lhe a testa, libertou-a e deu um passo atrs. - Vai! - disse ele em voz baixa. 
- Quero ver-te entrar e fechar a porta.
   Ela subiu os degraus. Depois de abrir a porta, voltou-se para o ver uma ltima vez, o corao brilhando-lhe nos olhos. Com um sorriso atrevido, disse-lhe:
   - No te esqueas de ver o que est no saco que eu te dei antes de o deitares fora.
   - O que  que tem, para alm dos preservativos?
   Ela riu-se.
   - Eis a questo.
   - Deste-me uma das tuas canes? Julguei que te tinhas esquecido.
   - Quando se trata da minha msica, tenho uma memria fantstica.
   Ele sorriu.
   - Mal posso esperar.
    - Se no gostares - acrescentou ela -, no faz mal. No sou sensvel.
   - Oh, eu vou gostar - garantiu-lhe ele. Natalie percorreu-o lentamente com os olhos.
   - At amanh, vaqueiro. Ainda temos muito que conversar. Zeke estava a contar com isso.

Captulo Onze
   
   
   
   
   
   
   
   
   Na manh seguinte, o sono de Natalie foi interrompido por uma srie de pancadas frenticas na porta do seu quarto. Ela levantou-se de repente, pestanejou desorientada, 
e num instante estava desperta, a pensar que havia algum problema com os seus filhos.
   - Entre!
   A porta abriu-se. Com o quimono de esguelha, o cinto mal apertado, Valerie entrou.
   - A Polcia - coaxou ela, esbugalhada. - Esto  porta, a perguntar por ti.
   - Quem?
   - A Polcia. Meu Deus, Nattie, o que  que tu fizeste?
   - No fiz nada. - Natalie agarrou no roupo, passou os dedos pelo cabelo e desceu as escadas com Valerie logo atrs. - No sejas tola.
   - Eles esto carrancudos - murmurou a irm. - Passa-se alguma coisa de grave.
   Quando Natalie entrou na sala de estar, viu dois agentes da Polcia do lado de fora da porta aberta. Valerie no exagerara. Os dois encontravam-se no alpendre, 
mais parecendo dois suportes de livros azuis, sem retribuir o sorriso quando ela se aproximou. Natalie endireitou os ombros, tentando parecer inocente, o que lhe 
pareceu o mais absurdo de toda aquela situao. Ela no tinha feito nada. Certo? Ento, ocorreu-lhe uma ideia terrvel. Se Robert tinha descoberto a falta dos copos, 
saberia de certeza quem os tinha levado. E se ele apresentasse queixa?
   - Bom dia, senhores agentes. A minha irm disse que queriam falar comigo?
   Um deles apresentou-lhe o distintivo.
   - A senhora  Natalie Patterson?
   - Sim.
   - Ex-mulher de Robert Patterson?
   - Sim. - Natalie no gostou da forma como os dois homens olhavam para ela, como se tivesse cometido algum crime medonho. - Esqueci-me de pagar alguma multa de 
estacionamento ou qualquer coisa do gnero?
   - Algo muito mais grave do que isso, minha senhora - respondeu o agente mais alto e magro. - Prepare-se para ms notcias. O Sr. Patterson foi encontrado morto 
na sua garagem por volta da meia-noite. A senhora pode vestir-se e acompanhar-nos  esquadra? Gostvamos de lhe fazer algumas perguntas.
   O sangue fugiu da cabea de Natalie, deixando-a a ver pontos brilhantes a danar diante dos seus olhos. Ouviu Valerie gritar horrorizada atrs dela.
   - O qu? - Sentindo-se sem foras devido ao choque, Natalie levantou uma mo. - Importa-se de... - engoliu em seco e tentou respirar. - O que  que disse?
   - O Sr. Patterson foi encontrado morto na sua garagem ontem  noite - repetiu o agente mais novo e mais entroncado.
   - Oh, meu Deus - murmurou Natalie. - Oh, meu Deus. - Voltou-se e viu Chad atrs de Valerie  porta.
   - Me? - disse o rapaz com a voz trmula.
   Natalie lanou um olhar furioso aos agentes.
   - Vo ter de esperar alguns minutes. O meu filho precisa de mim.
   - Me? - repetiu Chad. - O pai morreu? Como  que pode ter morrido?
   Natalie correu a abraar o filho. Por cima da cabea dele, olhou para a irm.
   - Telefona  me. Diz-lhe que eu preciso que ela venha para c o mais depressa possvel. - Enquanto Valerie dava meia-volta, Natalie comeou a embalar o seu filho 
soluante. - Pronto, querido. Eu estou aqui. Est tudo bem.
   A partir daquele momento, sentiu-se como se estivesse presa num nevoeiro. Nada parecia real. No conseguia convencer o seu crebro a funcionar convenientemente. 
Aquilo no podia estar a acontecer.
   Zeke tinha acabado de servir-se de uma segunda chvena de caf quando o seu telefone soou. Atendeu-o ao terceiro toque. Do outro lado da linha, ouviu uma voz 
feminina, histrica. Por um instante, pensou que era Natalie. Depois, percebeu que era a irm dela.
   - Valerie, mais devagar. No consigo perceber nada do que ests a dizer.
   A respirao dela era to ofegante to aguda, que quase lhe rebentou o tmpano:
   - O Robert... est... morto. A Poleia est c em casa, e vo levar a Nattie.
   - O qu?
   - Acho que algum matou o estupor - sussurrou Valerie. - Meu Deus, algum o matou,  garantido, eles pensam que foi a Natalie.
   Zeke desligou o telefone e saiu de casa a correr. Momentos depois, ao chegar ao ptio dos Westfield, viu que de facto um carro da Polcia se encontrava estacionado 
no acesso Contornou a casa e entrou pela porta da cozinha.
   - Sem um advogado, ela no responde a pergunta nenhuma - berrava o av de Natalie. - Ouviste, Nattie? No dizes uma palavra sem teres um advogado presente.
   - Sr. Westfield - disse calmamente uma voz masculina desconhecida -, a Sra. Patterson no necessita de um advogado presente. Apenas queremos fazer-lhe algumas 
perguntas.
   - Isso  o que eles dizem sempre! - exclamou o av. - Depois,  s ver as acusaes, Nattie. Boca fechada.
   Zeke seguiu as vozes at  sala de estar. Natalie encontrava-se junto  porta, apertando Chad contra ela. O seu cabelo negro despenteado caa como um vu sobre 
um dos ombros do rapaz. O seu rosto estava plido, os olhos enormes e ausentes. Se viu Zeke, no deu qualquer sinal de o ter feito.
   Valerie foi imediatamente ter com ele. Quando Zeke se apercebeu do quanto ela estava a tremer, passou-lhe um brao reconfortante pela cintura. Valerie agarrou-lhe 
na outra mo com tanta fora que lhe cravou as unhas.
   - O Robert est mesmo morto - murmurou ela. - Eles no nos dizem nada. Mas isto no est com bom aspecto.
   Zeke concordou. E o av das duas apenas estava a piorar a situao. Zeke largou Valerie e entrou na sala. Olhando fixamente para Pete, agarrou no av de Natalie 
pelo cotovelo.
   - No  preciso ficar assim, Charlie - disse-lhe ele. - Venha para a cozinha. Tomamos um caf. Que tal?
   Rosie apareceu nas escadas naquela altura. A criana estacou quando viu os dois agentes. Lanou um olhar interrogativo  me. Zeke entregou Charlie ao filho, 
passou os braos por cima do corrimo da escada e agarrou em Rosie.
   - Ol, linda! - disse ele enquanto a poisava sobre a sua anca e seguia os dois homens at  cozinha. Para abafar a voz de Charlie, que no parava de proferir 
as suas previses agoirentas a respeito do futuro
   de Natalie caso ela no arranjasse um advogado, Zeke quase gritou:
   - Como  que est a minha menina preferida hoje?
   - Estou bem - respondeu ela, olhando por cima do ombro.
   - Porque  que aqueles polcias esto c em casa?
   A criana era demasiado inteligente para seu prprio bem.
   - Acho que querem falar um bocadinho com a tua me - respondeu-lhe Zeke.
   - Sobre o qu? - insistiu Rosie. - Ela foi contra a Lei?
   - No, claro que no. No fao ideia de qual ser o assunto - mentiu ele.
   Queria ficar com Natalie, mas algum tinha de olhar pela filha dela, e parecia que ele era o nico algum disponvel. Abriu o frigorfico e tirou um jarro de 
leite. Depois, sentou a rapariga na bancada enquanto lhe enchia um copo.
   - O que  que costumas comer ao pequeno-almoo, pequena?
   - Cereais.
   Zeke deixou-a beber um pouco de leite enquanto passava revista aos armrios.
   - Eles querem falar com a mam sobre o qu? - perguntou ela de novo.
   - Bem, no tenho a certeza. - Zeke encheu uma pequena tigela com flocos aucarados. - Quando a tua me voltar, aposto que nos explica.
   - Aonde  que ela vai?
   Zeke fez o seu melhor para lhe sorrir.
   - Acho que vai dar uma volta de carro com eles.
   - No carro da Polcia?
   - Sim.
   Os olhos de Rosie brilharam com interesse.
   - Tambm quero ir.
   Zeke voltou para junto dela e alisou-lhe o cabelo negro.
   - Acho que no foste convidada, querida. - Inclinou-se para ficar ao nvel dos olhos dela. - J alguma vez fizeste um piquenique de manh?
   - No.
   - No? - Zeke poisou-a no cho, entregou-lhe a tigela e apontou para o alpendre. - No sabes o que ests a perder. Um piquenique matinal  mais divertido do que 
um barril cheio de macacos.
   - Mas no serve apenas para eu comer?
   - Claro que no. Podemos fazer um monte de coisas fantsticas.
   As palavras dele revelaram-se profticas. Ainda mal tinha poisado o traseiro nos degraus quando ouviu Chester soltar um grasnido de guerra. Os olhos de Rosie 
arregalaram-se de horror. Zeke levantou-se de um salto. Ouviu gritos masculinos vindos do ptio da frente, confirmando os seus piores receios.
   - Chester, no! - gritou Rosie.
   Zeke sabia por experincia prpria que gritos reprovadores no acalmariam o ganso nem um pouco. Tinha acabado de chegar  esquina da frente quando um agente saltou 
por cima da balaustrada do alpendre, uma mancha de penas brancas levantando voo atrs dele.
   Com uma velocidade incrvel, o agente correu para o seu carro. Grande problema. Parou por um instante para abrir a porta, dando a Chester a oportunidade para 
o bicar no traseiro. Zeke encolheu-se. O agente saltou, os seus sapatos pretos lustrosos elevando-se quase meio metro.
   - Au! - berrou ele. - Raio do bicho!
   O agente tirou o chapu e virou-se para enxotar o ganso. Chester no era criatura para se deixar intimidar por algo to insubstancial como um chapu. A ave silvou, 
esticou o pescoo, e atacou o alvo mais prximo, que por acaso era a braguilha das calas do agente. O pobre homem dobrou-se pelos joelhos como se tivesse levado 
um pontap, as mos unidas entre as pernas, a cara enterrada na relva. Por sorte, Chester distraiu-se momentaneamente com o chapu que entretanto rolara pelo relvado.
   Zeke entrou em aco para proteger o agente cado antes que o ganso resolvesse voltar a atacar. Infelizmente, antes que conseguisse alcanar o bicho, o outro 
agente apareceu a correr, em auxlio do seu parceiro. Tinha a mo poisada na arma e uma expresso assassina no olhar.
   - No o mate - pediu Zeke. -  um animal de estimao da famlia.
   - De estimao, uma ova. Ele atacou o meu parceiro! - berrou o agente entroncado.
   - Eu apanho-o - prometeu Zeke, e tentou fazer isso mesmo, abrindo os braos e entrando novamente na personagem de "Danas com Gansos". Correu em crculos atrs 
do ganso ptio fora durante pelo menos cinco minutos antes de finalmente conseguir lev-lo para o celeiro.
   Zeke estava no jardim com Rosie h pelo menos meia hora quando um Honda azul surgiu no acesso de cascalho, contornando o carro da Polcia para estacionar atrs 
da casa. Uma mulher de cabelo negro saiu do carro. Tinha uma saia justa de cabedal preto que lhe dava bastante acima dos joelhos, um top vermelho de malha que revelava 
curvas capazes de deixar um homem de boca  banda, e os seus saltos altos pretos davam um novo significado  palavra estilete. Zeke no precisava de apresentaes 
para saber que aquela era a me de Natalie. Tinha o mesmo baloiar sexy das ancas quando caminhava, a mesma forma de vestir, e um rosto praticamente idntico, apenas 
mais velho.
   Quando ela entrou no ptio, Rosie soltou uma gargalhada de prazer e correu para ela.
   - Av! - gritou ela. - No ests a arranjar cabelos hoje?
   - No, tirei o dia todo de folga para estar contigo! - Naomi Westfield colocou a carteira preta ao ombro para receber a criana nos seus braos. - Como  que 
est a minha linda?
   - J estive melhor - respondeu ela com aquele tom to adulto que surpreendera Zeke quando a conhecera. - Os polcias esto c para falar com a mam e o Chad est 
a chorar. Acho que aconteceu alguma coisa muito desagradvel. - Proteger a criana, pois. Ela parecia saber quase tanto como Zeke a respeito do que estava a acontecer 
no interior da casa. - E depois, como se no bastasse, o Chester bicou um dos polcias no traseiro e, a seguir, num lugar muito pior.
   Os olhos castanhos e muito pintados de Naomi arregalaram-se.
   - Oh, no. E o polcia est bem?
   - Ainda anda de uma maneira esquisita, mas acho que vai ficar bem. - Rosie suspirou teatralmente. - Mas o Chester quase o apanhava. Mais um pouco e o outro polcia 
matava-o.
   - Meu Deus! No passa de um ganso tolo.
   - O Sr. Coulter salvou-o - prosseguiu Rosie. - E agora estamos a fazer um piquenique matinal. - Torceu o nariz. - Acho que ele no quer que eu oia o que aqueles 
polcias esto a dizer  mam.
   Naomi lanou um olhar preocupado a Zeke. Ele calculou que deveria estar a meio da casa dos cinquenta, mas mesmo vista de perto ainda era muito bonita, com feies 
perfeitas, um belo par de olhos castanhos e o corpo de uma mulher muito mais nova.
   Levantando a neta e poisando-a sobre uma anca, ela conseguiu atravessar o relvado irregular com uma elegncia inacreditvel. Zeke teria partido o pescoo em terreno 
plano se tentasse andar com aqueles saltos.
   - Sr. Coulter. - Equilibrando a neta e a carteira, ela estendeu uma mo magra. - Tenho a certeza de que j percebeu, sou Naomi Westfield, me da Natalie.
   Ele apertou os dedos delicados.
   - Um prazer conhec-la, Sra. Westfield. Lamento que seja nestas circunstncias.
   - Por favor, chame-me Naomi. - Ela beijou os caracis da neta e entregou-a a Zeke. - Tenho de ir l dentro, querida. Ficas aqui e terminas o teu piquenique matinal, 
est bem?
   - Os cereais j acabaram - protestou Rosie. - Porque  que no posso entrar?
   Zeke fez-lhe ccegas nas costelas.
   - Prometeste que me apresentavas a Daisy e a Marygold.
   - Oh, esqueci-me. - Rosie esperneou para descer para o cho. Depois, agarrou no dedo indicador dele para o levar at ao celeiro. - J voltamos, av! - disse ela.
   - No tenhas pressa - respondeu Naomi. - E, por favor, no deixes sair o Chester.
   Zeke nunca vivera um dia to longo. Depois da chegada de Naomi, Natalie tinha ido vestir-se e sara com os agentes. Aps a sua partida, Naomi dera um Benadryl 
a Chad e levara-o para a cama. Passada uma hora, o rapaz adormecera de cansao.
   Quando Naomi regressou ao rs-do-cho, Zeke estava sentado  mesa, com Rosie num joelho. O pai e o av da criana estavam igualmente sentados, diante dele, o 
par debruado sobre as respectivas canecas de caf, os seus rostos deformados pela preocupao.
   - A Valerie ficou com o Chad. - Naomi parou no centro da sala e poisou as mos nas ancas. Virou-se para Pete e Charlie e acrescentou: - Mas que parelha!
   - No comeces a implicar - rosnou Pete.
   - Era melhor que eu te deixasse para a sentado, com esse ar de morte requentada? Vai-te lavar e fazer a barba, pelo amor de Deus. At daqui te sinto o cheiro, 
e estou com o vento a favor.
   Os olhos azuis de Pete brilharam de fria.
   - No venhas a minha casa dar-me ordens, mulher.
   - Tecnicamente, a casa  da Natalie - disparou ela. - A tua me deixou-a a ela, caso no te lembres. E se no queres que te dem ordens, v se fazes alguma coisa 
de produtivo.
   - Por favor! - Pete levantou-se da cadeira com uma agilidade incrvel para um homem com problemas de costas. - A nossa filha est...
   - A divertir-se bastante - interrompeu-o Naomi, laando um olhar na direco da neta. - No  todos os dias que ela pode ir passear num carro da Polcia. - Sorriu 
docemente e agitou a mo coberta de jias na direco da porta. - Toca a andar, Pete. Vai-te arranjar enquanto eu te preparo o pequeno-almoo. - O olhar dela tornou-se 
mais brando quando olhou para Charlie. Contornou a mesa e deu-lhe um abrao. - Ol, pai. Meu Deus, gosto de o ver.
   Charlie torceu-se na cadeira para lhe retribuir o abrao.
   - Como  que est a minha menina preferida? - perguntou-lhe
   ele.
   - Gorda e atrevida - respondeu ela com uma gargalhada.
   - Quanto  parte da atrevida, dou-te razo. Tens sempre de o picar, no tens?
   Naomi deu-lhe uma palmadinha no ombro.
   - Claro! Se fosse simptica, ele julgava que eu estava doente. - Passou-lhe as unhas de acrlico vermelho pela barba por fazer. - V rapar isso da cara, seu texugo 
velho, para eu poder dar-lhe um beijo como deve ser. Tem o pequeno-almoo  espera quando se despachar.
   Ele suspirou resignadamente e levantou-se.
   - O que  que nos vais fazer?
   -  uma surpresa. - Naomi despenteou o cabelo de Rosie quando passou por ela. - Est na altura de te vestires, querida. Toca a andar. O pequeno-almoo est quase 
pronto.
   - Eu j comi! - protestou Rosie.
   Naomi sorriu enquanto colocava um avental.
   - Oh, mas que pena! Vou fazer panquecas do coelhinho da Pscoa. No queres nenhuma?
   Rosie saltou do joelho de Zeke num instante e correu para o seu quarto. O sorriso de Naomi esmoreceu assim que a criana saiu da cozinha. Lanou um olhar preocupado 
a Zeke.
   - O Robert matou-se ou mataram-no - disse ela sem qualquer prembulo. - Encontraram-no na garagem, morto no seu 'Vette. Tinha sido asfixiado.
   - Como  que soube?
   - Telefonei  Grace Patterson quando vinha para c. Eles apareceram-lhe  porta s trs da manh e fizeram-lhe imensas perguntas. Com quem  que o Robert andava. 
Quem era a namorada mais recente. Se ele tinha inimigos. Se ele e a Natalie ainda tinham problemas.
   - Ou seja, acreditam que houve jogo sujo?
   -  o que parece. - Naomi tirou uma tigela de uma prateleira e comeou a juntar os ingredientes para as panquecas. Depois de medir o fermento, sacudiu as mos 
e voltou-se para olhar para ele. - Voc tem alguma coisa com a minha filha?
   Zeke no viu qualquer motivo para negar:
   - Sim.
   - Ama-a?
   Ele assentiu com a cabea.
   Naomi foi directa ao assunto:
   - Eu acho que ela vai precisar de um advogado. De quanto dinheiro  que voc pode dispor? Eu s tenho dois mil. Se um advogado d um peido, vai-se tudo.
   Momentos depois, Zeke estava ao telefone com o seu cunhado, Ryan Kendrick, a perguntar se ele conhecia algum bom advogado. Ryan deu-lhe o nome de dois, recomendando 
ambos.
   Quando Natalie chegou  esquadra, estava  espera de ser levada para uma sala cinzenta mobilada apenas com uma mesa e cadeiras. Era o que acontecia nos filmes. 
Em vez disso, um detective simptico e mais velho chamado Monroe convidou-a para um caf no seu gabinete, onde lhe ofereceu uma cadeira confortvel. A secretria 
dele era de metal cinzento, o mais aproximado que ela encontrou relativamente s suas expectativas.
   - Posso oferecer-lhe alguma coisa? Caf? Um bolo?
   Natalie estava demasiado transtornada para ingerir qualquer coisa slida.
   - Caf, por favor. Simples.
   O detective foi-lhe buscar um copo de esferovite fumegante. Em seguida, sentou-se  secretria e inclinou a cadeira para trs, a sua cabea grisalha ligeiramente 
inclinada para um lado enquanto a observava. Ela sentiu-se como um escaravelho ao qual ele estivesse prestes a arrancar as patas.
   - O que aconteceu ao Robert? - perguntou ela com voz trmula. - Os agentes que me trouxeram no me disseram grande coisa, apenas que foi encontrado na garagem.
   O detective Monroe assentiu.
   Natalie ficou  espera. Vendo que ele no dizia nada, insistiu:
   - Como  que ele morreu? Caiu, teve um ataque cardaco, o que foi?
   - Foi asfixiado.
   Durante um momento, Natalie nem percebeu o que aquilo queria dizer. Ento, fez-se luz:
   - Asfixiado? - repetiu ela estupidamente. - Como  que isso aconteceu?
   - Ele foi encontrado no interior da sua viatura. O motor tinha sido deixado a trabalhar. Os fumos do escape mataram-no.
   Na mente de Natalie surgiu uma imagem de Robert debruado sobre o volante, a sua cara com um tom pastoso. Sentiu-se tonta. Agoniada. Poisou o caf no canto da 
secretria do detective.
   - Vomitar. Vou vomitar - foi tudo o que ela conseguiu dizer.
   Ele estava de p num instante, empurrando-lhe um cesto de papis para debaixo do nariz mesmo a tempo.
   - Oh, meu Deus - disse ela, estendendo freneticamente um brao.
   - Qualquer coisa.... para... limpar... a.... boca.
   Ele entregou-lhe alguns lenos de papel. Tremendo violentamente e fazendo por engolir, Natalie gemeu e tentou desculpar-se. O detective deu-lhe uma palmadinha 
no ombro.
   - No se preocupe com isso. O cesto  forrado. Fcil de limpar.
   Natalie continuava to envergonhada que s queria rastejar para um
   buraco e esconder-se.
   - Peo imensa desculpa.  um choque to grande. O Robert, morto. No consigo acreditar. No consigo.
   O detective voltou para a sua cadeira.
   - Fique com o cesto. s vezes, as pessoas reagem assim.
   Natalie assentiu e tentou fazer com que a mo parasse de tremer, para poder limpar a boca. O gosto que tinha na boca era to desagradvel que o estmago protestou 
de novo. Ficou parada durante um momento com a cabea acima do cesto de papis, demasiado fraca para sequer tentar procurar uma casa de banho onde pudesse ter alguma 
privacidade.
   - Peo desculpa - disse ela de novo. - D-me s... um minuto.
   - Passaram-se vrios at que ela tivesse recuperado o suficiente para conseguir falar.
   - Eu estava a dormir profundamente quando a Polcia chegou - explicou ela. "E a ter um sonho fabuloso." - Quando dei por mim, estavam a dizer-me que o Robert 
estava morto.  um pesadelo. O meu filho est de rastos.
   - Lamento que as notcias tenham transtornado a sua famlia. Considerando que a senhor e o Sr. Patterson estavam divorciados, pensmos... - remexeu nalguns papis 
e suspirou. - Acho que ningum parou para pensar que a senhora podia no receber muito bem a notcia.
   Natalie encostou-se. Queria Zeke. Precisava tanto dele que doa.
   - O Robert , era o pai dos meus filhos - disse ela. - No foi o meu filho que pediu o divrcio, fui eu.
   - Entendido.
   - O Chad estava na sala quando me informaram da morte. Os agentes limitaram-se a... largar a bomba mesmo  frente dele. Claro que estou perturbada. O senhor no 
estaria?
   O detective Monroe passou uma mo pela cabea quase careca.
   - Ainda estava apaixonada pelo seu marido, Sra. Patterson?
   - Ex-marido - corrigiu-o ela -, e no. No estava apaixonada por ele. Detestava-o. - Mal tinha acabado de falar e j se tinha arrependido. Se a Polcia tinha 
motivos para acreditar que ele tinha sido assassinado, declaraes como aquela podiam valer-lhe a cadeia. - O que no quer dizer que desejasse que lhe acontecesse 
uma coisa dessas. - Natalie imaginou novamente o seu ex-marido loiro inclinado sobre o volante do Corvette e levou as mos  barriga. - Ele s tinha quarenta e trs 
anos - disse ela quase num sussurro. Ento, ocorreu-lhe um pensamento ainda mais terrvel. - Oh, meu Deus. A me dele. Ela j sabe?
   - A Sra. Grace Patterson foi notificada, sim.
   Os olhos dela encheram-se de lgrimas. Parecia-lhe to frio e impessoal.
   - Notificada?
   - Pouco depois de o corpo ter sido descoberto, dois agentes passaram por casa dela para lhe fazer algumas perguntas.
   Natalie imaginou Grace a passar pela mesma experincia que ela acabara de passar.
   - Perguntas? Ela  me dele, pelo amor de Deus. O Robert era o seu nico filho, tudo o que lhe restava da famlia. O que  que se passa com vocs?
   Aparentando no ter ouvido a pergunta, Monroe afagou o queixo.
   - Sabe se o seu ex-marido tinha algum inimigo, Sra. Patterson?
   O corao de Natalie disparou. "Eu", quase respondeu ela. O cansao tinha-a deixado gelada. Olhou estupidamente para o detective.
   - Devo depreender dessa pergunta que o senhor pensa que ele foi assassinado? - Vendo que ele no lhe respondia, insistiu: - Como  que sabe que ele no se suicidou? 
 uma forma comum de as pessoas se suicidarem, no ?
   -  interessante que fale nisso. Acredito que quem matou o seu ex-marido se deu a bastante trabalho para fazer com que parecesse um suicdio.
   Oops. Natalie pensou no seu av e decidiu que talvez fizesse bem se seguisse o seu conselho e mantivesse a boca fechada.
   Como se lhe adivinhasse os pensamentos, Monroe sorriu amargamente.
   - Eu fao as perguntas, se no se importa. A senhora apenas tem de responder.
   O ar no gabinete pareceu ficar subitamente mais pesado. Natalie respirou fundo, mas os seus pulmes no se revelaram muito cooperantes.
   - Sou suspeita?
   O detective fitou-a com uma expresso solene.
   - Se as minhas suspeitas se confirmarem, e se de facto tiver havido inteno criminosa, todos os que conheciam o seu ex-marido so suspeitos. - Alou uma sobrancelha, 
inquiridor. - Tem motivos para pensar que o Sr. Patterson poder-se-ia ter suicidado? Ele estava deprimido, tinha problemas financeiros, tinha sido rejeitado por 
uma amante?
   - Que eu saiba, no - respondeu Natalie. - O Robert no era do tipo de ficar deprimido. - "Era demasiado superficial." - E se tinha problemas financeiros, a me 
t-lo-ia ajudado. Ela tem muito dinheiro.
   - Nesse caso, voltemos  minha pergunta inicial. Ele tinha inimigos?
   - Claro que tinha inimigos. No temos todos?
   - Algum que pudesse querer v-lo morto?
   - No. - Natalie esfregou a testa dorida. - Talvez. Imagino que sim. No vivo com ele h mais de um ano, detective Monroe.
   - Limite-se a responder  pergunta.
   - O Robert era muito... ambicioso. - Ganancioso seria uma melhor descrio, mas ela estava a ficar cada vez mais cautelosa. - s vezes, fazia das suas nos negcios, 
o que no lhe conseguiu muitos amigos. Tambm era... - passou uma mo pelo cabelo. - Como  que posso dizer isto? Inconstante nas suas relaes pessoais?
   - Inconstante. Com as mulheres, quer a senhora dizer?
   Natalie assentiu.
   - Montes de namoradas. Era muito educado e encantador. Todas as mulheres com quem ele saa julgavam que eram a nica, a tal, at aparecer alguma novidade que 
lhe chamava a ateno. Ele no ficava muito tempo em nenhuma relao, e traio era um conceito que lhe era desconhecido. Escusado ser dizer que, muitas vezes, 
as mulheres em questo ficavam bastante zangadas quando ele as largava.
   - Foi por isso que a senhora se divorciou, porque ele andava a engan-la?
   - Foi uma parte, sim, uma grande parte. Alm disso, era um pssimo pai. Acabei por me fartar e pedi o divrcio.
   - Odiava-o o suficiente para o matar?
   Natalie tentou fechar as mos sobre os braos da cadeira, mas descobriu que estava a tremer tanto que os dedos no lhe obedeciam.
   - Nunca odiei ningum ao ponto de querer assassin-lo, detective Monroe. Divorciar-me do Robert foi o suficiente. Ele saiu da minha vida. Porque  que havia de 
o matar?
   - Nenhuma discusso?
   - Claro que houve discusses.
   - Sobre?
   - Ele no se preocupava com os nossos filhos, no telefonava, no os visitava. Recusava-se a pagar a penso de alimentos. Eu estava furiosa com ele quase constantemente. 
O que no quer dizer que o quisesse ver morto.
   O detective escreveu qualquer coisa no seu bloco de apontamentos.
   - Sabe o nome de alguma das mulheres com quem o seu marido esteve envolvido?
   Natalie sentiu como se lhe estivessem a espetar um picador de gelo na cara e pressionou a tmpora com a ponta de um dedo.
   - A Bonnie Decker era a ltima namorada, mas a me dele disse-me recentemente que ele a tinha largado e arranjado outra. Uma rapariga chamada Cheryl, acho eu.
   - Uma rapariga? Que idade tm essas mulheres?
   - Vinte e poucos, imagino. Apenas vi a Bonnie ao longe uma vez, mas parecia nova. As amigas do Robert so... eram sempre novas.
   O detective tomou mais notas. Em seguida olhou para ela, o seu olhar cortante como uma lmina.
   - Quando . que viu Robert Patterson pela ltima vez?
   - H meses. No nos entendamos. O que nem  preciso dizer, imagino, ou no nos tnhamos divorciado. Certo?
   O detective assentiu.
   - Onde esteve ontem  tarde entre as cinco e as oito?
   "Em casa do Robert sem ter sido convidada e a recuperar os meus copos de vinho." Natalie sentiu uma ameaa de riso histrico formar-se no fundo da sua garganta. 
Percorrera todo o piso trreo da casa de Robert, abrindo armrios e louceiros,  procura dos seus copos. Estaria Robert na garagem j naquela altura, a morrer asfixiado? 
"Meu Deus, meu Deus." Isso explicava o facto de a aparelhagem estar ligada.
   Os tremores do seu corpo transformaram-se em espasmos que ela no conseguia controlar. Recordou-se de ter ouvido um trinco de porta quando se preparava para sair. 
O assassino estaria dentro de casa com ela?
   - Sra. Patterson, no  uma pergunta difcil. Onde esteve ontem entre as cinco e as oito?
   Suportou o olhar penetrante do detective durante vrios segundos, interminveis.
   - Lamento. Antes de dizer seja o que for, gostava de ter o meu advogado presente.
   Monroe fungou e atirou a caneta para cima da secretria. O gesto revelava a sua impacincia. Poisou os braos cruzados no mata-borro, o qual se encontrava coberto 
de pequenos apontamentos.
   - A questo  esta, Sra. Patterson. Pensamos que o seu ex-marido foi drogado e levado para a garagem pelo seu assassino. - Olhou descaradamente para o corpo dela. 
- No me parece que a senhora tenha o arcaboio necessrio para o fazer. - Apertou a boca. - Nem o estmago, j agora.
   Natalie no sentia os lbios.
   - Drogado, disse? O que o leva a pensar tal coisa?
   - Concluses preliminares do mdico legista. Juntamente com nveis elevados de lcool no fluxo sanguneo, existem provas de que o Sr. Patterson tinha ingerido 
um sedativo forte antes de morrer. O contedo do estmago confirma-o. No encontrmos frascos de sedativos nem comprimidos para dormir em casa que indicassem que 
ele poderia ter tomado a substncia voluntariamente.
   - O Robert no costumava tomar comprimidos.
   O detective observava-a atentamente quando disse:
   - Mais uma coisa estranha: o lcool que o Sr. Patterson consumiu pouco antes da sua morte foi vinho. Uma marca bastante cara, a avaliar pela garrafa que estava 
no lixo e uma outra parcialmente consumida que encontrmos na biblioteca. S que no havia copos usados. Acreditamos que o assassino deve ter limpado os vestgios 
e guardado os copos. - Ele coou a cabea. - Estranho, no acha? O Sr. Patterson no era leve. Inclino-me automaticamente para a hiptese de ter sido um homem a 
mat-lo. Teria sido difcil para uma mulher transportar algum to grande para a garagem e coloc-lo no interior do carro. Por outro lado... - calou-se, agarrou 
na caneta e bateu com ela no mata-borro. - Seria mais natural que um homem se limitasse a limpar os copos para eliminar as suas impresses digitais. Uma mulher, 
provavelmente, lavava os copos, secava-os e guardava-os.
   Os copos no tinham sido lavados e guardados. Ela tinha-os em cima da sua cmoda num saco de papel.
   O detective abandonou a sua cadeira, contornou a secretria e agarrou Natalie pelo cotovelo para a ajudar a levantar-se.
   - Por falar nisso, precisamos das suas impresses digitais antes de a deixarmos ir. S demora alguns minutos.
   Com as pernas fracas devido ao medo que sentia, Natalie pensou que ia cair. Com um sorriso, disse:
   - Impresses digitais? Com certeza.
   Zeke foi buscar Natalie. Quando ela saiu da esquadra, hesitou no passeio, o seu rosto to branco que os olhos pareciam dois grandes borres escuros. Zeke saiu 
da sua carrinha, contornou o pra-choques dianteiro e chamou-a. Ela olhou para ele. Em seguida, comeou a avanar como um autmato. Ele foi ter com ela ao passeio.
   - Como  que correu?
   Em lugar de responder, Natalie passou-lhe os braos  volta da cintura e encostou a cara ao peito dele.
   - Abraa-me - disse Natalie, a sua voz to abafada que ele quase no a ouviu. - Abraa-me apenas.
   Zeke assim fez, o seu olhar percorrendo as janelas da esquadra enquanto poisava a face no cabelo dela.
   - Ests bem?
   - No. Estou metida num grande sarilho.
   Ele levou-a at  carrinha, ajudou-a a entrar e apressou-se a ocupar o seu lugar atrs do volante.
   - Querida - disse ele num tom sensato -, ningum no seu juzo perfeito pode acreditar que mataste o Robert.
   Ela lanou-lhe um olhar apavorado.
   - Pode, sim. Tu no sabes.
   - Ento, conta-me.
   Zeke ligou o motor, meteu a primeira, e mergulhou no trnsito com a inteno de a levar a casa. Ainda no tinha chegado  entrada da auto-estrada quando ela acabou 
de lhe contar a sua histria desconexa, sobre a visita  casa de Robert no dia anterior, onde estivera  procura dos copos de vinho da sua av Devereaux.
   - Grande merda, Natalie. As tuas impresses digitais vo estar por todo o lado.
   Ela assentiu e gemeu.
   - Pior ainda. Roubei as provas.
   - Jesus.
   Zeke voltou para trs, sem se importar com a hiptese de ser multado.
   - Aonde vais?
   - Ao escritrio do advogado. Precisas de aconselhamento legal.
   - Mas tenho de estar com os meus filhos.
   - Para garantir que vais estar com eles durante os prximos vinte anos, precisas de um advogado, e j.
   Quando deu por si, Natalie estava sentada diante de outra secretria, desta feita de mogno, a ser interrogada por um advogado que poderia ter passado pelo seu 
av com culos e um fato elegante. Sterling Johnson no lhe perguntou uma nica vez "Voc fez o qu?". Era obviamente um especialista em direito criminal. Nada do 
que Natalie lhe disse pareceu choc-lo.
   Quando ela acabou de falar, Johnson cruzou as mos e lanou-lhe um olhar penetrante. Zeke apertou-lhe a mo com fora, tentando confort-la, mas naquela altura 
era praticamente impossvel.
   - Eles vo encontrar as suas impresses digitais na casa toda - disse o advogado. Zeke tinha-lhe pago quinhentos dlares para o ouvir dizer aquilo? - Aqui tem 
o meu conselho - prosseguiu Johnson.
   - Acho que devamos telefonar ao detective Monroe, voltar  esquadra, e contar tudo o que se passou. Tecnicamente, voc no cometeu nenhum crime. Excepto o roubo 
dos cristais, claro, e mesmo isso  compreensvel, uma vez que eles eram seus. Este  um caso clssico de estar no lugar certo na pior altura possvel. Acontece. 
Acho que o Monroe h-de apreciar a sua honestidade, e se voc avanar com esta informao talvez ele concentre a sua ateno noutros aspectos.
   Natalie no estava assim to convencida. Sterling Johnson nunca estivera sentado  frente de um detective desconfiado a perguntar-lhe se odiava a sua mulher ao 
ponto de a matar.
   - Eu acho que ele tem razo, querida - disse Zeke em voz baixa, apertando-lhe novamente a mo. - Vamos falar com o Monroe. Tens um motivo plausvel para teres 
ido a casa do Robert ontem. Tudo o que fizeste depois de tocar  porta faz sentido para mim. - Fez uma pausa.
   - Bem, mais ou menos.
   Natalie deitou-lhe um olhar receoso.
   Ele puxou pela orelha, com uma expresso envergonhada.
   - Tens de admitir, foi uma tolice teres entrado sem ser convidada.
   - Levantou uma mo. - Todavia,  compreensvel. E, uma vez l dentro, percebo porque levaste os copos. Se faz sentido para mim, tambm deve fazer para o Monroe.
   O caixote de lixo do gabinete do detective Monroe tinha sido esvaziado desde a ltima visita de Natalie. Era o nico melhoramento. O detective encontrava-se sentado 
com os cotovelos apoiados no mata-borro, o queixo assente nas mos cruzadas enquanto escutava Sterling Johnson, que lhe contava a histria de Natalie. De vez em 
quando, as suas sobrancelhas moviam-se, e ele olhava para Natalie com estranheza, fazendo-a sentir-se como uma louca que no devia andar  solta pelas ruas.
   Quando Johnson acabou de falar, o detective Monroe suspirou e passou uma mo pelos olhos.
   - Ainda bem que veio. Acabmos de encontrar uma correspondncia entre as suas impresses digitais e cerca de outras cinquenta que encontrmos na casa.
   O estmago de Natalie caiu-lhe praticamente at aos tornozelos.
   - Sim, pois, tive de procurar durante algum tempo para encontrar os cristais da minha av.
   - No ouviu nada enquanto procurava? - Ele folheou alguns papis, leu qualquer coisa durante um momento, e disse: - A cozinha fica ao lado da garagem. Est a 
dizer-me que esteve diante do lava-loia, lavou os dois copos de vinho, embrulhou o conjunto em panos de loia, e nunca ouviu o som do motor de um automvel?
   - No.
   - Conhece o som do motor de um Corvette em ponto-morto?
   - No.
   - Est mesmo  espera que eu acredite que entrou numa casa enquanto um homicdio estava a decorrer, revistou todas as dependncias do rs-do-cho, e no viu nada 
de estranho?
   Natalie engoliu em seco.
   - Eu, hmm... j ouviu dizer que a verdade  mais estranha do que a fico?
   Monroe praguejou entre dentes e inclinou a cadeira para trs. Folheou novamente as suas notas.
   - No havia papis na secretria.
   Natalie endireitou as costas:
   - Tenho a certeza de que havia papis na secretria do Robert.
   - Observou-os com ateno?
   - No. Porque haveria de o fazer? No estava ali para bisbilhotar.
   - Mas abriu tudo o que era armrio naquela casa.
   - Isso foi depois de ter visto os copos da minha av Devereaux e ler percebido que o Robert tinha mentido. - Natalie respirou fundo.
   Mas aconteceu uma coisa estranha.
   - O qu? - perguntou-lhe Monroe, os seus olhos brilhando com interesse.
   Natalie contou-lhe que ouvira o trinco de uma porta quando estava a preparar-se para sair.
   - Na altura pensei que o Robert poderia estar escondido l em cima, a tentar evitar-me. Agora... - a voz falhou-lhe. - Agora, no sei se no estaria algum escondido 
num armrio ou qualquer coisa do gnero.
   Monroe pediu licena e saiu por um instante. Durante a sua ausncia, Sterling Johnson deu uma palmadinha no ombro de Natalie e disse-lhe:
   - Voc est safa - garantiu ele. - Ele acredita em si. D para ver.
   - A srio?
   O advogado assentiu.
   - Quem  que se lembrava de inventar uma histria como essa?
   Quando Monroe regressou, disse-lhe:
   - Vamos mandar um carro a sua casa para recolher os copos de vinho.
   Natalie deitou-lhe um olhar preocupado:
   - Porque  que precisa deles?
   - Para serem examinados. Impresses digitais e vestgios de provas.
   Parecia razovel. No obstante, Natalie disse:
   - Espero que as pessoas do seu laboratrio tenham muito cuidado com eles. Aqueles copos so do sculo XVIII, vindos de Bayel, uma aldeia em Basse Champagne, nas 
margens do Aube.
   O detective empurrou os culos para cima.
   - Para mim, no so mais do que provas num caso de homicdio.
   
Captulo Doze
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   Antes de levar Natalie a casa, Zeke parou num restaurante para ela comer qualquer coisa. Eram quase cinco da tarde e ela tinha passado o dia em jejum., Sabia 
que ela estaria demasiado transtornada para pensar em comida quando chegasse a casa, a tentar consolar os filhos e lidar com a sua famlia de loucos.
   - Eu no tenho fome - insistiu ela quando Zeke abriu uma ementa e lha colocou nas mos. - Talvez um copo de leite.
   - Come - ordenou-lhe ele. - Eles servem o pequeno-almoo durante todo o dia. Que tal uns ovos escalfados e torradas?
   Ela mirou-o por cima da ementa.
   - Ovos escalfados quando sou suspeita de homicdio?
   - O Monroe apenas te interrogou, querida. Isso no quer dizer que sejas uma suspeita. - Zeke estendeu o brao sobre a mesa para poisar uma mo sobre as dela. 
As sombras de cansao sob os olhos de Natalie preocupavam-no. - Tens de te acalmar. Se ficares doente, no serve de nada.
   - E o que  que serve? Deixei impresses digitais por tudo o que era lado. No ouvi o carro a trabalhar na garagem. - O pnico apoderou-se dos seus olhos. - Se 
fosse o Monroe, pensava que eu era culpada.
   - Eu sei que ests assustada, mas tenta ver as coisas sob o ponto de vista dele. Em primeiro lugar, no tens a fora necessria para levar um homem adulto para 
a garagem e met-lo num carro.
   - Conseguia faz-lo, se a minha adrenalina estivesse elevada - insistiu ela.
   - Mas um homem fazia-o com muito mais facilidade - argumentou Zeke. - Em segundo lugar, o facto de teres deixado impresses digitais na casa toda aponta para 
a tua inocncia. Claramente, no estavas preocupada com a eliminao de provas. Quantos assassinos pensas tu que ele ter encontrado que no fizeram qualquer tentativa 
de apagar o seu rasto?
   Os ombros dela descontraram-se ligeiramente.
   - Fazes-me bem. Sabias?
   - S estou a apontar o que  bvio. O Monroe tem de tomar as provas em considerao quando est a trabalhar num caso. No discuto. Mas tambm tem de seguir o 
seu instinto. Obviamente, tu no s uma tola. Se tivesses matado o Robert, terias roubado um conjunto de copos de cristal enquanto o fazias? No faz sentido que 
cometesses um homicdio a sangue frio e depois entrasses em modo consumista antes de te ires embora.
   Ela suspirou.
   - Tens razo. O caso que poderiam ter contra mim no se aguenta muito bem quando visto dessa maneira.
   - Claro que no se aguenta, e se eles forem assim to tolos que pensem que sim, o Johnson acaba com tudo em trs tempos no tribunal.
   - No tribunal?
   Zeke apertou-lhe a mo.
   - Querida, nunca chegar a tanto. Onde est o teu motivo? As mulheres no matam homens por falta de pagamento de uma penso de alimentos. Seria o mesmo que matar 
a galinha dos ovos de ouro. No tinhas motivo plausvel.
   - E quem tinha? - perguntou ela em voz baixa.
   - Boa pergunta, e provavelmente devamos faz-la a ns mesmos. - Zeke estudou a ementa durante uns instantes. - Talvez pudssemos fazer uma lista de pessoas que 
tinham motivos para querer ver o Robert morto.
   - S de pensar nisso fico exausta. H tanta gente que podia guardar-lhe algum rancor. - Ela poisou a sua ementa. - A minha me, por exemplo.
   Naomi Westfield tinha uma expresso assassina nos olhos quando olhara para Pete naquela manh, mas Zeke no a imaginava como uma potencial homicida.
   - N. Porque  que ela haveria de o querer ver morto?
   - A minha me detestava-o. Nem consigo contar as vezes em que ela disse que queria mat-lo.
   - Isso  uma maneira de dizer.
   - No conheces a minha me. O Robert magoou-me muito. A minha me  muito protectora quando se trata das filhas e dos netos dela. E temos a Valerie. Uma vez, 
ela empurrou o Robert contra uma parede e apontou-lhe uma lima de unhas s partes baixas.
   Registando mentalmente que nunca deveria dar motivos  me nem  irm dela para se zangarem com ele, Zeke poisou um cotovelo na mesa e apoiou o queixo na mo.
   - Tanto quanto sei, as partes dele estavam intactas.
   - Percebes o que eu quero dizer.
   Ele assentiu:
   - Apenas me parece que nenhuma delas tem uma natureza violenta.
   - A mim tambm no. Mas elas tinham motivos para odiar o meu ex-marido. E o meu pai tambm. Ele ameaou o Robert com uma caadeira quando eu fiquei grvida do 
Chad, e ele nunca lhe perdoou por se ter "aproveitado da sua menina", como ele dizia. At o meu av se pegou uma vez com o Robert. E isto  sem contar com todas 
as pessoas que ele enrolou nos seus negcios. Nem com todas as mulheres com quem ele se portou mal. At a me dele o ameaou da ltima vez que falei com ela. Eu 
era capaz de escrever uma lista de pelo menos vinte pessoas que poderiam querer v-lo morto.
   Zeke poisou a sua ementa em cima da de Natalie.
   - Tens razo. Acho que h muita gente que podamos pr nessa lista.
   Natalie estremeceu.
   - E uma delas passou  aco.
   Zeke olhou-a nos olhos:
   - Algum palpite?
   - Se no fosse a questo da fora fsica, a minha primeira suspeita seria a Bonnie Decker, a ltima namorada do Robert. Nunca a conheci, mas, se conheo o Robert, 
ele deve t-la feito acreditar que era o amor da vida dele. Provavelmente ficou de rastos quando ele lhe deu com os ps. E o que costuma acontecer com quase todas. 
- Ela desenrolou o guardanapo que protegia os talheres. - Nem consigo contar as vezes em que uma rapariga histrica telefonou para minha casa, s vezes para falar 
com ele, outras para falar comigo, para me implorar.
   - Implorar? O qu?
   - Que eu o deixasse ir... que deixasse de ser irrazovel e lhe desse o divrcio. - Ela comeou a esfregar a tmpora como se lhe doesse. - O Robert no era muito 
original. Contava a mesma histria que os homens adlteros contam h sculos, que estava casado com uma bruxa sem corao, que era muito infeliz, e no conseguia 
que ela lhe desse o divrcio. Algumas das raparigas ficavam desesperadas quando ele as largava, to desesperadas que comeavam a segui-lo, ou telefonavam para minha 
casa a qualquer hora, ou at mentiam, dizendo que estavam grvidas para que ele voltasse para elas. Quem sabe se uma delas no se passou completamente e o matou?
   At quele momento, Zeke nunca compreendera realmente tudo o que ela passara durante o seu casamento. Apertou-lhe os dedos, desejando poder recuar no tempo e 
reescrever a histria da vida de Natalie. S que, assim, ela talvez no estivesse ali agora com ele.
   - Que idade tem essa Bonnie Decker? - perguntou ele.
   - Imagino que vinte e poucos.
   - O Robert no tinha mais de quarenta?
   - Sim, mas isso nunca o impediu. Lembras-te quando eu te disse que ele tinha um complexo de inferioridade? Um dos motivos pelos quais eu acho que ele preferia 
as mais novas era porque elas so fceis de impressionar. O Robert gostava de se armar em importante, e precisava da adorao desmiolada que s uma mulher nova sem 
muita experincia  capaz de sentir.
   Zeke conhecera homens assim e tinha pouco, ou nenhum, respeito por eles. Passou o polegar pelos ns dos dedos dela, apercebendo-se vagamente da fragilidade daquela 
mulher.
   - Ouviste o que acabaste de dizer?
   Ela lanou-lhe um olhar interrogativo.
   - Que o Robert gostava de se armar em importante?
   - E precisava de ser adorado. Tu no deves ter demorado muito tempo a perceber que o teu prncipe era, na realidade, um sapo. Nunca te ocorreu que o motivo pelo 
qual ele tinha casos uns atrs dos outros no se devia a qualquer defeito fsico teu, mas sim porque tu j no o adoravas incondicionalmente?
   Ela enrugou ligeiramente a testa.
   - No. Nos primeiros anos, eu ainda julgava que o amava, e ele j tinha casos nessa altura.
   - Ah, mas o amor  diferente da adorao, Natalie. Podemos amar algum no obstante os seus defeitos. Em lugar de amor, talvez o Robert realmente precisasse que 
tu o fizesses sentir-se como um deus, e, uma vez passada a novidade, tu deixaste de o fazer. Pensa nisso. Ele saltava de uma rapariga para a seguinte. No ser possvel 
que fugisse sempre porque as suas amantes comeavam a ver as rachas no verniz?
   Uma expresso confusa, incrdula, invadiu os olhos grandes e escuros de Natalie. Ento, como se uma mo invisvel lhe tivesse passado pela cara, alterando-lhe 
a expresso, a boca dela descontraiu-se, os lbios curvando-se num sorriso trmulo.
   - Talvez - concordou ela. - Provavelmente. Havia muitas rachas naquele verniz. Eu no demorei muito para comear a v-las.
   - Exactamente, e, de repente, ele perdeu o interesse. Num instante, amava-te, ou pelo menos pensava que te amava, e no seguinte j estava com outra. Nem consigo 
imaginar como isso te deve ter magoado. Se tu deixasses subitamente de me amar amanh, eu dava em doido a tentar perceber porqu, e partia automaticamente do princpio 
de que seria alguma coisa que eu tinha feito, ou no fizera. Percebo o mal que deve ter feito  tua cabea.
   - Sobrevivi - disse ela frouxamente. - Tinha a minha famlia para me apoiar, e os meus filhos para amar. Se tivesse de ultrapassar tudo sozinha, sabe Deus o que 
teria feito. s vezes, sentia uma raiva to grande. - Passou a ponta da lngua pelo lbio inferior. - Uma raiva irracional que me levava a fazer coisas que nunca 
faria. Uma vez, cortei-lhe as cuecas de seda todas com uma tesoura de unhas.
   - E fizeste muito bem.
   Ela sorriu.
   - Sim, pois. Eu estava passada. Quando me lembro, quando me lembro das minhas emoes naquela altura, no me custa imaginar uma das namoradas dele a perder completamente 
o juzo.
   - Pode ter sido uma amante abandonada, mas estou mais inclinado a procurar um homem.
   - A aparelhagem estava a tocar Chopin - murmurou ela. Zeke no percebeu a relevncia daquele facto at que ela acrescentou: - O Robert gostava de Chopin quando 
fazamos sexo. A primeira coisa que me passou pela cabea quando toquei  porta e ouvi a msica foi que ele estava l em cima com a namorada. Mas quando entrei no 
havia ningum, nem o Robert, nem a namorada, ningum. Na altura, pensei que ele estava escondido algures, a fingir que no me tinha ouvido. S agora percebo que 
no era nada disso. - Ela debruou-se sobre a mesa. - Portanto, porque  que a aparelhagem estava a tocar Chopin?
   Zeke apercebeu-se de que estava a agarrar-lhe a mo com demasiada fora e obrigou-se a descontrair os dedos.
   - Ests a dizer que ele s ouvia Chopin quando fazia sexo?
   - Tanto quanto sei, sim. Por isso  que dou sempre por mim a pensar que o assassino  uma mulher. - Ela rodou o pulso para prender os dedos nos dele. - E se a 
Bonnie, ou uma das outras, foi l a casa para confrontar o Robert e o apanhou com a Cheryl, a nova namorada? Talvez tivesse havido uma cena. O Robert podia ter pedido 
 Cheryl para sair durante um bocado para ele acalmar a Bonnie. Talvez, depois de ela sair, a Bonnie tenha perdido a cabea e matou-o.
   Zeke abanou a cabea.
   - Algum meteu um sedativo no vinho dele. E preciso ter tudo planeado para fazer uma coisa dessas.
   - Talvez a Bonnie ou uma das outras tenha ido l, decidida a mat-lo. Podia ter provocado uma cena de propsito para que a Cheryl se fosse embora.
   - Referiste alguma dessas hipteses ao Monroe?
   - No. Tive medo de comear a apontar o dedo. E o que fazem os culpados.
   Zeke riu-se apesar de o tema em questo no ser divertido.
   - Tens de deixar de te preocupar com esse gnero de coisas e dar ao homem toda a informao que puderes. A primeira vista, o tipo de msica que estava a tocar 
no parece importante, mas, se  verdade que o Robert apenas ouvia Chopin quando fazia sexo, pode ser extremamente importante.
   A empregada chegou para receber o pedido. Zeke decidiu-se por dois ovos escalfados e torradas. Natalie pediu uma omeleta de trs ovos. Corou quando Zeke olhou 
admirado para ela.
   - Estou a sentir-me um pouco melhor.
   - Ainda bem. Tens de comer.
   - Amanh no almoo para compensar.
   - S por cima do meu cadver.
   - No digas isso. Fico toda arrepiada.
   Comeara a anoitecer quando Zeke estacionou a carrinha Dodge no acesso  casa. Natalie deixou-se ficar sentada, encostada  porta, o seu rosto ainda plido, os 
olhos ainda assombrados. Depois de desligar o motor e tirar o cinto de segurana, Zeke voltou-se e poisou-lhe uma mo no ombro.
   - Ficas bem?
   Um pequeno msculo sob o olho dela contraiu-se.
   - Sim. S gostava...
   - O qu? - quis ele saber.
   - S gostava que pudesses entrar comigo.
   Zeke passou-lhe as pontas dos dedos pela blusa, consciente do quanto os ossos dela lhe pareciam pequenos e delicados por baixo do tecido de algodo.
   - Eu tambm gostava, querida.
   Natalie ergueu o brao e poisou a mo sobre a dele. Nenhum deles tinha de dizer mais nada. Os filhos dela tinham perdido o pai. Chad, especialmente, iria precisar 
de toda a ateno da me naquela noite, e possivelmente durante vrios dias.
   - Se houver alguma coisa que eu possa fazer, s tens de telefonar.
   Ela desapertou o cinto de segurana e agarrou no manpulo da porta, os seus movimentos vacilantes. Quando abriu a porta, voltou-se para olhar para ele. Ento, 
sem qualquer aviso, lanou-se nos seus braos, a tenso no seu corpo transmitindo um desespero que o fez sofrer por ela.
   - Tudo h-de correr bem - sussurrou Zeke contra o cabelo dela. - Tudo. Vais ver.
   Ela assentiu, os seus braos ainda  volta do pescoo dele.
   - Gostava de poder escapar-me depois de os midos terem adormecido, mas eles podem acordar e precisar de mim.
   Zeke passou-lhe lentamente a mo pela coluna.
   - Talvez te faa eu uma visita surpresa. O que te parece?
   - Fabuloso - murmurou ela.
   - Qual  a tua janela? No quero surpreender a pessoa errada.
   Ela respondeu  pergunta, recostou-se e sorriu.
   - Trepas pelo tubo de queda e entras pela janela? Ainda partes o pescoo.
   Zeke acariciou-lhe o rosto com o polegar.
   - No te preocupes. Tornei-me especialista em janelas de primeiro andar quando era adolescente.
   - Entravas  socapa na casa de alguma namorada?
   Ele sorriu e beijou-lhe a ponta do nariz.
   - No. Escapulia-me da minha.
   Ela riu-se.
   -  isso o que me espera quando o Chad se tornar um adolescente?
   - Provavelmente, mas no te preocupes. Eu hei-de saber o que ele vai fazer antes ainda de ele pensar nisso e apanho-o.
   A boca dela curvou-se num sorriso deliciado.
   - Diz isso outra vez.
   - O qu?
   - Que ainda estars comigo quando o Chad se tornar um adolescente.
   Ele baixou a cabea para a beijar, um beijo doce, demorado, destitudo de paixo, todavia, pleno de promessa.
   - Podes contar com isso, Nattie.
   Quando Natalie entrou em casa alguns minutos depois, a sua me estava na cozinha, a preparar o jantar. O cheiro a cebola refogada e carne frita pairava no ar. 
Naomi livrara-se dos saltos altos, usava um avental desbotado por cima da roupa e tinha o cabelo apanhado num rabo-de-cavalo. A cena era to reminiscente de dias 
passados que Natalie encostou a cabea  porta por um momento, recordaes da sua infncia e de tempos mais felizes percorrendo-a como uma carcia. O linleo mosqueado 
gasto, a mesa cinzenta, os armrios brancos, a feia bancada de tampo verde - com o passar dos anos, aquela cozinha nunca mudara. Natalie era incapaz de contar as 
vezes em que, quando criana, entrara na cozinha e encontrara a sua me a cozinhar descala, usando apenas um avental idntico quele que tinha agora.
   - J chegaste! - exclamou Naomi quando viu a sua filha. Limpou as mos e atravessou a cozinha apressadamente para dar um grande abrao a Natalie. - Estava to 
preocupada! Como  que correu?
   Natalie retribuiu-lhe o abrao.
   - Correu.  o que eu posso dizer.
   - A Polcia esteve c. Pediram para ir l acima e levar qualquer coisa do teu quarto. O Charlie armou uma grande confuso e no os deixou entrar em casa se no 
tivessem um mandado de busca.
   - Oh, no. E eles tinham?
   - Sim. No demoraram muito tempo l em cima. Saram com um saco de papel cheio de coisas.
   Natalie deu um passo atrs para olhar a me nos olhos.
   - No faz mal, me. Eu sabia que eles vinham buscar o saco.
   - O que  tinha l dentro?
   - Os copos de cristal da av Devereaux.
   - O qu? Pensei que se tinham perdido durante a mudana.
   Com a maior brevidade que lhe foi possvel, Natalie contou  me a sua visita a casa de Robert no dia anterior. Enquanto falava, o rosto de Naomi perdeu a cor.
   - Oh, valha-me Deus. Estavas em casa na altura do crime?
   - Eles estimam a hora da morte entre as cinco e as oito. Eu passei por l a caminho do clube, por volta das seis e meia.
   - Oh, meu Deus.
   Natalie poisou a carteira em cima do frigorfico, um velho Frigidaire amarelecido pelo tempo que o seu pai nunca desistia de reparar.
   - Por isso  que cheguei to tarde. O Zeke disse-me para falar com um advogado, um homem chamado Sterling Johnson que parece um cadver sentado numa cadeira. 
Ele insistiu para que eu voltasse  esquadra e contasse tudo. - Natalie continuou a contar o resto da histria. - Para o melhor ou para o pior, agora, o detective 
Monroe sabe de tudo.
   - Ele no formalizou nenhuma acusao. E um bom sinal.
   - Sim. Agora,  o jogo do esperar para ver.
   Naomi fez uma festa na cara da filha.
   - Telefonei para o clube. O Frank diz que se aguenta esta noite sem ti e que no tens de te preocupar.
   O clube. Natalie no pensara nele durante todo o dia. Num instante, recordou-se de todos os seus problemas de dinheiro. Suspirou e massajou a nuca.
   - Onde esto os midos?
   - A Rosie est a ver um filme que a Valerie alugou para ela. O Chad est l em cima.
   - Como  que eles esto?
   - A Rosie est ptima. Quando lhe contei a notcia, foi quase como se estivssemos a falar de um desconhecido.
   - E o Chad?
   - No est a reagir to bem. Dei-lhe um Benadryl esta manh, e ele dormiu vrias horas. Agora, est deitado na cama, a olhar para o tecto.
   - Obrigada por ter vindo, me. Fiquei menos preocupada por saber que estava aqui com eles. - Natalie deu uma palmadinha no ombro da me. -  melhor eu ir ver 
como ele est.
   - Quando o jantar estiver pronto, eu preparo-lhe um prato e levo-lho l acima.
   - Isso era fantstico. - J  porta, Natalie voltou-se para trs. - E como vo as coisas entre si e o pai?
   Naomi revirou os olhos.
   - Nem perguntes.
   Depois de dar um abrao a Rosie e depois de lhe contar como fora o passeio no carro da Polcia, Natalie subiu ao quarto de Chad, um dos dois quartos mais pequenos 
que se situavam nos extremos do primeiro andar. Ambos tinham sido utilizados para arrumao antes de ela voltar para casa com os filhos. Agora, todas as caixas tinham 
sido transferidas para um anexo exterior. Natalie fizera os possveis com uma quantidade limitada de dinheiro para personalizar os quartos dos filhos, mas ainda 
pareciam bastante despidos quando comparados com aqueles que tinham quando viviam com o pai.
   Quando Natalie abriu a porta, Chad no se mexeu. Deixou-se ficar a olhar fixamente para o tecto inclinado como se no a tivesse ouvido. A cama de casal estava 
por fazer, a colcha, o cobertor e o lenol amarrotados por baixo dele. Natalie fechou silenciosamente a porta atrs de si.
   - Ol, rapago. J cheguei.
   Chad no se mexeu. Natalie aproximou-se lentamente da cama, as suas sapatilhas rangendo no soalho de madeira. Quando se sentou na beira do colcho, Chad fechou 
os olhos. Estava deitado com os braos ao lado do corpo, as mos cerradas em punhos. Quando ela lhe tocou, o seu corpo ficou rgido.
   - Oh, querido.
   Chad engoliu convulsivamente.
   - Achava que, se calhar... no voltavas. Que eles te tinham metido na cadeia, ou assim.
   Natalie afastou-lhe o cabelo cor de mel da testa e debruou-se para o beijar.
   - Porque  que eles haviam de me meter na cadeia? Eu no fiz nada de mal.
   Chad abriu os olhos. Natalie teve vontade de chorar ao ver tanta dor.
   - Fiquei com medo. Eles no te vo meter na cadeia, pois no, me? Eu e a Rosie ficvamos completamente sozinhos.
   Natalie endireitou-se. O seu primeiro impulso foi o de fingir que os receios do filho eram infundados. Mas no era bem assim e ela no lhe ia mentir.
   - Acontea o que acontecer, Chad, tu e a Rosie nunca ficaro sozinhos. - Inclinou a cabea para ouvir os sons que vinham do andar de baixo. - Ests a ouvir?
   Chad escutou durante um segundo. Naomi estava a discutir com Pete por causa de qualquer coisa, ele estava a resmungar em resposta. Entre frases, ouviam-se tambm 
as vozes de Valerie e de Charlie.
   -  a tua famlia - disse Natalie em voz baixa. - So todos um pouco malucos... no nego. Mas sabes que mais? - Chad abanou a cabea. - Eles so como o papel 
de parede velho que estava aqui. Lembras-te quando eu, no incio do Vero, o arranquei e lixei as paredes, para tentar tir-lo todo? - Chad assentiu. - Acabei por 
ter de aplicar uma camada de reboco por cima antes de pintar o quarto. O raio da coisa no saa, por mais que eu tentasse. Aquelas pessoas que esto l em baixo 
so assim, presas a ti com tanta cola que nunca conseguirs livrar-te delas. A famlia  assim, pessoas que estaro sempre presentes, sejam quais forem as circunstncias.
   - O pai est mesmo morto, no est?
   Natalie sentiu um aperto no corao.
   - Receio bem que sim.
   - E foi algum que o matou?
   - A Polcia acha que sim.
   - Porque  que algum havia de querer fazer isso, me?
   Natalie recordou-se da sua conversa com Zeke no restaurante e olhou para o soalho gasto.
   - Apenas posso fazer suposies, Chad - disse ela francamente. - No sei.
   - Era preciso que algum detestasse mesmo muito o pai para o matar.
   - Sim. - Ningum podia viver como Robert sem fazer alguns inimigos perigosos. - Mas  melhor no pensarmos nisso.
   A cara de Chad contorceu-se e o rapaz virou-se para a esconder contra a almofada. Numa voz abafada, disse:
   - Eu queria que ele se orgulhasse de mim. Agora, mesmo que eu venha a ser muito bom nalgum desporto e assim, ele nunca h-de saber.
   Natalie deitou-se ao lado do filho e puxou-o para si. Ele resistiu durante um momento, mas depois passou os braos em volta do pescoo dela e agarrou-se quase 
desesperadamente.
   - Eu j tenho muito orgulho em ti - murmurou ela. - No sou o teu pai, e sei que no  a mesma coisa. Mas tenho muito orgulho em ti, Chad. Sempre tive, e sempre 
hei-de ter. Nunca te esqueas disso.
   Natalie sentia-se completamente esgotada quando Chad finalmente adormeceu e ela levou para baixo o prato vazio do jantar. Encontrou a sua famlia reunida na cozinha. 
Naomi tinha feito bolachas e Valerie estava a ajudar Rosie a decor-las. Pete e Charlie surripiavam-nas quase com a mesma rapidez com que Rosie as decorava.
   Natalie sorriu e encostou-se  ombreira da porta, o seu corao dilatado com amor e gratido, mais do que ela alguma vez seria capaz de exprimir em palavras. 
O que ela dissera ao filho era verdade: aquelas pessoas estavam longe de ser perfeitas, mas eram como papel de parede velho. At os pais dela estavam a fazer o seu 
melhor para tolerar a presena um do outro.
   - Esta  a av - disse Rosie, franzindo a cara enquanto empurrava o mbolo da seringa de pasteleiro. - Vou faz-la muito bonita.
   Pete deitou um olhar de esguelha a Naomi.
   - Nesse caso,  melhor faz-la com uma saia curta e preta e uma camisola justa.
   - Ri-te de inveja - disse Naomi. Em seguida, ergueu as sobrancelhas, sorriu e disse  neta: - Isso mesmo, Rosebud. Nada de roupas de av para mim. Quando fizeres 
o av, pe-no num macaco cheio de buracos e com bigodes grisalhos.
   Natalie olhou para o seu pai, que estava barbeado de fresco e invulgarmente bem vestido, com uma camisa lavada de riscas e umas Wrangler de ganga preta. Foi com 
algum choque que descobriu que o seu pai ainda era um homem bonito quando se arranjava. A pensar no motivo que o teria levado a cuidar da aparncia, olhou para Valerie, 
que lhe piscou o olho conspirativamente.
   - Porque  que vocs no vo at l fora e resolvem os vossos problemas? Fico muito cansado s de vos ouvir - disse Charlie.
   - Nem pensar. Ainda o magoava. - Naomi abriu um armrio. Natalie teve quase a certeza de que a sua me se esticava mais do que o necessrio para mostrar as pernas 
ao tirar um copo da prateleira mais alta. - Vou beber um pouco de tinto. Algum quer?
   - No podes beber vinho, Naomi - disse Pete. - Tens de levar o carro para casa.
   - Vou passar c a noite. Ainda no o tinha dito?
   As sobrancelhas de Pete elevaram-se de imediato.
   - Tu vais o qu?
   Com uma covinha na bochecha e um sorriso maroto, Naomi respondeu-lhe:
   - Ouviste muito bem. Tirei a semana para pode ficar c a ajudar a Natalie.
   Pete parecia ter acabado de engolir um cubo de gelo.
   - No te lembraste de perguntar ao homem da casa se eras bem-vinda?
   - Sou bem-vinda aqui em casa, Charlie? - perguntou ela ao ex-sogro.
   - Por mim, podes ficar - respondeu ele. - Mas calma com o meu vinho. O raio das raparigas j o atacaram esta semana. S tenho essa garrafa.
   A cara de Pete tinha ficado praticamente to vermelha como o vinho. Levantou-se da cadeira e saiu, batendo a porta da cozinha com tanta fora que as paredes estremeceram. 
Natalie estava habituada s discusses dos seus pais, como tal, no deu importncia. O que a deixava espantada era o facto de o pai ter acabado de atravessar a cozinha 
sem se curvar nem levar uma mo s costas.
   Naomi passou uma unha envernizada de vermelho pela borda de um copo.
   - Isto est um nojo. H quanto tempo  que no usam estes copos de vinho? - Aproximou-se do lava-loia e abriu a torneira. - Garanto, esta coisa tem uns dez anos 
de porcaria em cima.
   Valerie levantou os olhos da bolacha que Rosie estava a decorar.
   - A Nattie e eu usmos copos de sumo para beber vinho anteontem  noite. Porque  que havamos de lavar esses se no os usamos?
   - Este lugar precisa de uma boa limpeza - resmungou Naomi. - No posso acreditar que aquele homem vive nestas condies.
   L fora, Pete gritou:
   - Se no gostas, podes sempre ir-te embora.
   Naomi riu-se e respondeu:
   - Obrigada, mas vou limpar um canto para mim e arriscar.
   Pete resmoneou ininteligivelmente, um sinal garantido de que estava a praguejar entre dentes para que Rosie no o ouvisse. Natalie atravessou a cozinha para ir 
buscar outro copo.
   - J agora, lave este tambm, me. Eu fao-lhe companhia. Vocs os dois no so capazes de passar uma noite sem serem desagradveis? No preciso de mais tenso 
agora, e os midos tambm no.
   O sorriso de Naomi desapareceu:
   - Desculpa. Tens razo. M altura. Vou pedir-lhe desculpa.
   - No te ds a tanto trabalho - berrou Pete atravs da porta, resmoneando logo em seguida.
   - Se queres trocar insultos comigo, seu peido velho e acabado, volta para aqui e f-lo cara a cara - retorquiu Naomi.
   Natalie tirou o copo molhado das mos da me.
   - Uma ideia melhor. A me vai l para fora. Assim, vocs os dois podem discutir  vontade sem nos sujeitarem s vossas infantilidades.
   Naomi voltou a agarrar no copo e encheu-o de vinho.
   - Com uma boca dessas, minha menina, podes lavar o teu copo.
   Deixando um rasto de Obsession da Calvin Klein atrs de si, Naomi saiu da cozinha, para ir ter com o ex-marido ao alpendre. Passados segundos, ela e Pete discutiam 
acaloradamente. Natalie deitou um olhar desesperado  irm.
   O av delas abanou a cabea:
   - Mas que disparate to grande. Porque  que ele no pede desculpa, d-lhe um beijo e no se fala mais nisso?
   Natalie e Valerie olharam para o av e perguntaram em simultneo:
   - Pede desculpa porqu?
   - Por ser um idiota ciumento. Aquela mulher nunca olhou para outro homem. Ele perdia completamente a cabea por pensar que ela olhava, e devia ter admitido que 
estava enganado h dez anos. Teimoso,  o que ele . O raio do orgulho dos Westfield h-de acabar com ele.
   As sobrancelhas de Valerie subiram-lhe quase at aos cabelos:
   - O pai achava que a me tinha alguma coisa com outro sujeito?
   O av olhou contrariado para Rosie.
   - Pior do que isso. Meteu na cabea que ela andava a danar o tango do banco de trs todas as noites depois de sair do cabeleireiro.
   Rosie levantou os olhos da bolacha que estava a decorar.
   - O que  o tango do banco de trs?
   O pescoo de Charlie ficou vermelho.
   - No faas caso, Rosebud.
   Natalie deixou-se cair numa cadeira e bebeu um grande gole de vinho.
   - Ento, foi isso.
   - No admira que tudo estivesse bem num dia e acabado no dia seguinte - disse Valerie. - Como  que o pai pde pensar isso da me?
   - Tem um monstro verde agarrado s costas. No pensou, ponto final. Ela tinha acabado o curso de cabeleireira e comeado a trabalhar, a ganhar o seu dinheiro 
pela primeira vez no casamento dos dois. Ela descontrolou-se um bocado a princpio, a comprar roupas bonitas para si e a arranjar-se. Comeou a chegar tarde a casa 
porque tinha senhoras que apareciam para arranjar o cabelo ou as unhas depois de sair do trabalho. O vosso pai meteu na cabea que ela andava a engan-lo. - Charlie 
olhou para a porta das traseiras. - Agora, ele  demasiado orgulhoso e teimoso para admitir que estava enganado, e ela no lhe perdoa e d-lhe na cabea sempre que 
o v. Do que eles precisavam era que lhes dessem com a cabea de um na do outro.
   Natalie escutou as vozes dos seus pais durante um momento e bebeu mais um pouco de vinho. "Esta noite, no", apeteceu-lhe gritar. Como se eles lhe dessem ouvidos! 
Estavam to embrenhados na discusso que Natalie duvidava ser capaz de lhes chamar a ateno se disparasse uma caadeira. Tinha o estmago feito num n. A cada palavra 
desagradvel que eles proferiam, os seus nervos aumentavam.
   Por fim, quando j no aguentava mais, avanou para a porta de trs, abriu-a e gritou:
   - J chega!
   Sentados lado a lado nos degraus, Pete e Naomi viraram a cabea e olharam para ela, silenciados pela fria no tom da filha.
   - Nem mais uma palavra - disse Natalie. - Se tm to pouca considerao por mim depois do dia que passei, ento, pelo menos, tenham alguma considerao pelo vosso 
neto. Ele precisa de uns avs fortes e unidos neste momento. Acham que ele no percebeu que eu posso ser presa?
   - Ento, querida - disse Pete -, isto  s conversa. No  a srio.
   - Pois, mas eu j estou farta! - exclamou ela. - Os meus filhos perderam o pai hoje, caso se tenham esquecido.
   A luz da cozinha iluminava os rostos de Pete e Naomi. Ambos pareciam envergonhados. Natalie no se apercebera de que a filha estava ao seu lado at a ouvir dizer:
   - A av nunca danou o tango do banco de trs com ningum, av. O av devia pedir desculpa, dar-lhe um beijo e fazer as pazes. O bisav diz que o orgulho h-de 
acabar consigo. Eu no quero que o av morra.
   Os pais de Natalie declararam uma trgua temporria durante o resto do sero, mas nenhum deles pediu desculpa. Pete foi-se deitar. Charlie retirou-se para a sua 
poltrona na sala de estar, ressonando enquanto alegadamente via a CNN. Naomi ficou na cozinha, fingindo, por causa de Rosie, que a discusso com o ex-marido nunca 
acontecera.
   Depois de deitar a filha uma hora mais tarde, Natalie sentia-se como se a sua coluna se tivesse transformado em gelatina. Sentou-se numa cadeira da cozinha, to 
exausta que s a ideia de voltar a subir a escada a deixava deprimida.
   - Onde  que vai dormir esta noite, me? - perguntou ela, ensonada.
   Naomi olhou para o tecto.
   - Com a minha neta preferida. Ela  to pequena, a cama d perfeitamente para as duas. - Afastou o cabelo da testa da filha. - Querida, lamento que tenhas tido 
um dia to mau. Parece que um comboio te passou por cima. E eu e o teu pai ainda piormos as coisas com uma discusso. No sei o que me d quando estou perto daquele 
homem.
   Valerie inclinou a sua cadeira para trs:
   - A me ainda  louca por ele. Esse  que  o problema. Quando est perto dele, o seu crebro tira uma folga.
   Naomi inchou como um sapo numa folha de nenfar.
   - No sou louca por ele.
   - Desista. - Valerie bebeu um pouco de vinho. - A Nattie e eu sabemos que est a mentir, que nunca deixou de gostar dele. S no sabamos porque  a me o tinha 
deixado, at esta noite.
   - O Charlie no sabe manter a boca fechada.
   Natalie bocejou e levou a mo  boca.
   - Ns no somos crianas, me. Qual  o problema? No consegue falar connosco francamente sobre o nosso prprio pai?
   Naomi olhou desconfortavelmente por cima do ombro:
   - Ele pode ouvir-me.
   - Ele foi para a cama - retorquiu Valerie. - E eu acho que merecemos uma explicao. A nossa famlia ficou destruda. A me e o pai costumavam ser to... bem, 
o casal perfeito, e, de repente, a me deixou-o. No percebi na altura, e no percebo agora. Como  que pde deitar fora tantos anos de casamento por causa de um 
mal-entendido pateta?
   Naomi ficou rosada de indignao.
   - Ele disse coisas horrveis, chamou-me nomes medonhos. Nunca estive com mais ningum, nem sequer me passou pela cabea. S tive um homem em toda a minha vida.
   - Que azar...
   - Valerie Lynn! - Naomi olhou para Natalie. - De onde  que ela veio?
   Valerie puxou o cabelo para trs:
   - Est a ver esta tromba? Sou igualzinha a si.
   - Estava a referi-me a essa tua boca.
   - Ento, e a sua? - Valerie lanou outro olhar a Natalie. - Ouviste-a desancar o pai esta noite. Ela tem ou no tem uma boca igual ou pior do que a minha?
   Natalie abafou um novo bocejo.
   - Receio bem que sim, me. No a quero ofender, mas a me no  propriamente uma pessoa contida.
   Naomi comeou a brincar com o aucareiro. Depois de lamber alguns grnulos da ponta do dedo hmido, bateu as suas longas pestanas e a famosa covinha apareceu-lhe 
na bochecha.
   - Ora essa, no fao a mnima ideia do que vocs esto a falar.
   - Por favooor - resmungou Valerie. -  uma causa perdida, Nattie. Eles que sejam infelizes para o resto da vida. - Bebeu mais vinho. - A me  que fica a perder. 
Ele  um pateta, e depois? Foi um bom marido, fiel e respeitador durante, o qu, vinte e dois anos? No posso acreditar que o deixou porque ele parou de pensar. 
Ele no merecia que lhe desculpasse uma asneira?
   Os olhos de Naomi encheram-se de lgrimas.
   - Uma asneira, sim. Uma dzia at, se queres saber. Mas ele ainda no me pediu desculpa por todas as coisas que me disse. E, lamento, minha Menina Sabichona, 
depois de vinte e dois anos em que sempre lhe fui fiel, eu no merecia ouvir aquilo!
   Naomi levantou-se num repente. Valerie endireitou a cadeira to subitamente que as pernas da mesma bateram com fora no cho de linleo, fazendo imenso barulho. 
Pete berrou:
   - Pouco barulho a em baixo! Raio de mulheres, a embebedarem-se e a fazer uma algazarra destas. Porque  que no se vo deitar?
   - Me, desculpe - tentou Valerie.
   Naomi agitou a mo como se estivesse a apagar um quadro de ardsia.
   - Fica do lado dele. A ver se eu me importo. Nunca lhe hei-de desculpar o que ele me disse at que ele se ponha de joelhos e me implore. E, mesmo assim, ainda 
vou ter de pensar!
   


   Captulo Treze
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   Natalie pensou que ia adormecer assim que a sua cabea tocasse na almofada, mas, em vez disso, seguiu o exemplo de Chad e ficou a olhar para o tecto, a cabea 
num turbilho devido aos problemas no clube, o peito a doer-lhe com a tristeza que sentia pelo filho. Considerando o comportamento dos pais dela, com podia censurar 
Chad por ter pavor de se ver sem pais? L bem no fundo, ela sabia que os seus pais estariam sempre presentes para ajudar os netos, acontecesse o que acontecesse. 
Mas a estrada at  idade adulta poderia ser difcil para Chad e Rosie se Pete e Naomi continuassem a comportar-se daquela forma.
   E se ela fosse parar  priso? No sentia muito medo por si. Havia de sobreviver. Mas os seus filhos precisavam dela. Como  que podia adormecer quando o futuro 
deles se encontrava nas mos do detective Monroe e do seu instinto policial?
   Um baque fez com que Natalie se sentasse na cama. A princpio, pensou que um dos filhos teria cado da cama, e ficou  espera de ouvir um choro abafado. Mas depois 
ouviu outro rudo que a fez olhar para a janela. Viu a silhueta negra de um homem entrar pelo seu quarto adentro. Durante um momento terrvel, pensou que era um 
ladro. Ento, recordou-se do vizinho especialista em janelas do primeiro andar, e o seu corao encheu-se de alegria.
   - Zeke? - perguntou ela em voz baixa.
   Seguiu-se uma gargalhada rouca, to tnue que ela mal a ouviu.
   - Estavas  espera de mais algum? Do carteiro, talvez?
   Natalie ficou to contente ao v-lo que se limitou a abrir os braos. Ele atravessou o quarto em pontas dos ps, descalo, poisou um joelho no colcho e apertou-a 
contra o peito. Os seus braos fecharam-se em redor dela, msculos e tendes ganhando uma firmeza implacvel que a fez sentir-se indescritivelmente segura. Uma daquelas 
mos grandes e calejadas pelo trabalho abriu-se contra as suas costas, a ponta do polegar tocando na omoplata, o dedo mnimo bastante abaixo da ltima costela. Quando 
se mexeu, levou-a com ele, parecendo no fazer o mnimo esforo para a levantar.
   Ela encostou a cara ao pescoo dele, adorando o cheiro, uma mistura mscula de ganga, couro, perfume amadeirado e um outro odor subjacente que era exclusivamente 
masculino, um ligeiro almiscarado que lhe dava vontade de derreter e ser absorvida por ele.
   - Oh, Zeke, no esperava que viesses.
   Os lbios sedosos dele percorreram-lhe a orelha.
   - Claro que vim. No havia nada que me pudesse impedir.
   Vinda de outra pessoa, aquela afirmao poderia ter parecido insignificante, mas Natalie sentiu que ele estava a ser totalmente sincero. Ela precisava dele, portanto, 
ele estava ali. Era uma coisa simples - todavia to bonita que a deixou com lgrimas nos olhos. Robert nunca a apoiara, e, com o passar dos anos, ela passara a acreditar 
que nenhum outro homem alguma vez o faria. Agora, sbita e inexplicavelmente, tinha Zeke.
   - Esta foi a noite mais comprida de sempre - murmurou ele.
   - No consigo acreditar que trepaste por aquele tubo de queda.
   A boca quente dele fez-lhe coisas incrveis na depresso sensvel abaixo da orelha.
   - Tubo de queda, pois. Nunca aguentaria o meu peso.
   - Ento, como  que subiste?
   -  segredo.
   Ele deixou-se cair sobre as almofadas com ela ainda nos seus braos. Uma mo grande instalou-se sobre a sua cabea, e Zeke aplicou presso at que a face de Natalie 
encontrou o seu ombro. Depois, ele puxou os cobertores para a tapar.
   - Amo-te. Passei a noite toda a tentar recordar se me tinha lembrado de to dizer hoje.
   - Diz outra vez - murmurou ela.
   Ele passou os lbios pelo cabelo dela.
   - Amo-te, Nattie. Amo-te tanto que at di.
   Ele sabia to bem, to grande e slido e durvel. Natalie passou os dedos pelo cabelo dele, adorando a textura ligeiramente spera dos fios. Na nuca, pequenos 
tufos fizeram-lhe ccegas nas pontas dos dedos. Fez deslizar o polegar pelo pescoo, percorrendo os msculos que lhe envolviam a garganta. Quente ao toque, a pele 
dele f-la pensar em seda.
   Natalie suspirou e fechou os olhos, satisfeita apenas por estar ali, deixando que ele a abraasse.
   - Como  que ests a aguentar-te? - perguntou ele por fim.
   - Bem, acho eu. Apenas me sinto tensa e preocupada.
   - Preocupada com o qu?
   - Quanto tempo tens?
   Sentiu a boca dele curvar-se num sorriso:
   - Para sempre.
   Gostou do que ouviu. "Para sempre." Era uma grande ajuda saber que nunca mais voltaria a encarar a vida sozinha.
   - Para comear, estou preocupada com o clube.  superfcie, parece secundrio, eu sei. Mas  o que me paga as contas. O negcio no se aguenta se eu no estiver 
l, mas no estou a ver como  que posso deixar os meus filhos amanh  noite.
   Ele brincou com uma madeixa que lhe repousava sobre a tmpora.
   - Talvez pudssemos aproveitar esta altura.
   - Como?
   - Fechar as portas durante algumas noites enquanto eu deito abaixo o raio daquela parede. Posso pedir aos meus irmos para me ajudarem. Comear a fazer publicidade. 
Alugar uma mquina de karaoke. Quando puderes voltar, o clube j sofreu uma plstica e o tempo que passaste em casa no ter sido desperdiado. Seja como for, terias 
de fechar durante a remodelao.
   - Fazias isso?
   - D-me luz verde e  como se j estivesse feito.
   - Mas, o dinheiro.
   - No vs por a. Falamos dos aspectos financeiros depois. Passo por c amanh de manh para me dares as chaves.
   Para Natalie, foi incrivelmente fcil aninhar-se ainda mais nos braos dele e no pensar mais no assunto. Ele afagou-lhe o cabelo, o seu toque retirando-lhe a 
tenso dos msculos e fazendo-a sentir-se deliciosamente langorosa.
   - Como  que correram as coisas com os midos esta noite?
   - Foi horrvel. O Chad estava muito perturbado. E os meus pais portaram-se como um par de idiotas.
   - Como assim?
   Natalie descreveu-lhe o que acontecera na cozinha.
   - E uma estupidez to grande. Como  que duas pessoas que se amam tanto so capazes de deitar tudo fora por causa de um mal-entendido? No admira que o Chad se 
sinta to inseguro.
   - Inseguro? - repetiu ele.
   Natalie contou-lhe a conversa que tivera com o filho.
   - Garanti-lhe que ele e a Rosie nunca ficariam sozinhos, independentemente do que me possa acontecer, mas entendo por que motivo ele ficou preocupado. Os meus 
pais no so propriamente um exemplo da inabalvel devoo do amor.
   - Eu falo com ele - murmurou Zeke.
   - Sobre o qu?
   - Sobre nunca ficar sozinho. Vou casar com a me dele. Ele no tem de se preocupar com isso.
   Natalie inteiriou-se. Por muito que quisesse passar o resto da vida com aquele homem, no sabia se seria uma boa ocasio para abordar o assunto com Chad.
   - Oh, Zeke, ele acabou de perder o pai. Talvez devssemos manter a nossa relao em segredo durante algum tempo.
   - Confia em mim - disse ele com uma voz rouca. - No o vou transtornar. No te preocupes com isso. Est bem?
   Se qualquer outro homem lhe tivesse dito aquilo, Natalie talvez tivesse argumentado. Mas Zeke tinha imenso jeito para as crianas. Parecia entender Chad de uma 
maneira que ela no entendia. Se algum era capaz de falar com o seu filho sobre o futuro sem o perturbar, esse algum era aquele homem.
   Natalie levantou a cabea.
   - O senhor vai-me desculpar, mas no me lembro de ter sido pedida em casamento.
   - No posso.
   No era a resposta que ela esperava ouvir.
   - O qu?
   - No posso pedir. Ainda no. Primeiro, tenho de pedir a tua mo ao teu filho.
   - O qu?
   - Ele tem precedncia em relao ao teu pai - respondeu ele num tom casual. - Tenho de lhe pedir a tua mo. Se aceitar, estamos bem.
   - Isso  arcaico. Os homens j no pedem a mo das mulheres.
   - Este homem pede.
   - Mas, e se o Chad disser no?
   - Ento, estamos tramados.
   - O qu?
   Ele riu-se e beijou-lhe a tmpora.
   - Ele no vai dizer que no. E  importante que ele sinta que tem voto na matria. Confia em mim. Pode ser?
   Ela confiava nele. Nunca pensara ser capaz de voltar a confiar totalmente em algum. Procurou a boca dele com a sua. Partilharam um beijo suave, incrivelmente 
meigo, que lhe acalmou os nervos como um blsamo. Ela soergue-se no colcho. Ainda que estivesse exausta, sabia que ele no subira ao telhado de uma casa de dois 
pisos para dormir uma sesta na cama dela.
   Quando o beijou de novo, desta vez mais profundamente, ele agarrou-lhe numa madeixa de cabelo e disse:
   - Esta noite, no, querida. Di-me a cabea.
   Natalie quase sufocou de riso e deu-lhe um soco no ombro. O peito dele agitou-se numa gargalhada silenciosa.
   Natalie no podia adormecer com mais de um metro e oitenta de vaqueiro apetitoso deitado na sua colcha. Depois de trs anos sem fazer amor, seria um desperdcio 
imperdovel.
   - Quero-te - sussurrou ela.
   Apertou os braos  volta do pescoo dele e beijou-o de novo. Quando se afastou para recuperar o flego, perguntou-lhe:
   - J mudaste de ideias?
   - No. Passaste um dia para esquecer. No tenho expectativas. Apenas quero estar contigo. - Graas ao luar, Natalie viu nos olhos dele um sorriso que no se reflectia 
na boca. Ele passou-lhe os dedos ao de leve pela cara. - Uma novidade para te distrair. Estive a ver a tua cano e simplesmente adorei-a. - Trauteou em voz baixa 
uma parte da melodia e murmurou algumas palavras. - A letra  fabulosa.
   Natalie inclinou a cabea para trs, surpreendida.
   - Tu sabes ler pautas de msica?
   - O qu? Julgas que s nica pessoa na Terra que percebe de msica? Eu no sei escrever letras nem criar melodias, mas sei tocar uma rabeca. E muito bem, modstia 
 parte. No casamento da minha irm lethany toquei a msica toda.
   - Isso  o mximo. Temos de improvisar um dia destes.
   - Est combinado - prometeu-lhe ele. - Ainda que seja provvel que estejas demasiado ocupada e me deixes pendurado. A cano  mesmo fabulosa, Nattie. Fica no 
ouvido. Sei que sou capaz de a vender se encontrar um agente para a mostrar.
   - E como  que vais encontrar um agente?
   - Da mesma maneira que todos os autores e actores o fazem. Existem publicaes prprias, com listas de agentes. Se a nossa biblioteca local no der em nada, vou 
procurar um na Internet.
   - Vai ser difcil  encontrar um que queira ouvir o meu trabalho.
   Ble sorriu e beijou-lhe a ponta do nariz.
   -  canja. Qualquer agente que no agarrar esta oportunidade no sabe distinguir ouro puro quando o v.
   - Oh, Zeke.
   Saber que ele acreditava nela o suficiente para lhe procurar um agente deixava-a muito emocionada, e, em sua opinio, era demasiado romntico para ser explicado 
por palavras, dando-lhe ainda mais vontade ile fazer amor com ele. Quando tentou transmitir-lhe isso mesmo mm um beijo, ele afastou-a.
   Porta-te bem. Estou aqui apenas para te abraar, lembras-te?
   Por muito que Natalie apreciasse a ideia, queria mais, precisava de mais. Ultimamente, tinha dificuldade em adormecer. Ele podia resolver iv.se problema. Passou 
a ponta da lngua pelo lbio inferior dele e pressionou as ancas contra o volume que se adivinhava por baixo da braguilha.
   Por favor. Estou to tensa. Podias ajudar-me a descontrair.
   Ele susteve a respirao quando ela lhe mordeu o queixo, lambendo-o em seguida.
   Tens a certeza? A srio, no vim c  espera de...
   - Chiu. - Natalie saboreou a boca dele novamente, desejando-o como nunca antes desejara ningum. - Por favor?
   Zeke no precisava de muito para ser convencido. Resignou-se com a ideia de que estaria a fazer mais do que ajud-la a descontrair. Ia am-la at a deixar inerte, 
incapaz de raciocinar. Tinha acabado de mudar de posio para melhor saborear a boca dela quando Natalie lhe encostou uma mo ao ombro. Ele afastou a cabea e lanou-lhe 
um olhar interrogativo.
   - Trouxeste proteco?
   - Achas que sou o qu? Idiota?
   Ela sorriu, o seu rosto doce como o de um anjo sob a luz do luar.
   - Julgava que s tinhas vindo abraar-me.
   Zeke limitou-se a sorrir e abraou-a de novo.
   Depois de fazer amor com Natalie at a deixar sem foras, Zeke vestiu as cuecas e voltou para a cama. Ainda faltavam algumas horas para o amanhecer. Ele queria 
passar todos os minutos que ainda tinha abraado a ela. Voltaria para casa antes que os midos acordassem, prometeu ele a si mesmo.
   Foi a ltima coisa em que pensou. Quando deu por si, uma ligeira pancada na porta despertou-o, fazendo-o descobrir que j era pleno dia.
   - Mam?
   Zeke saltou para fora da cama, agarrando na camisa em caminho. Antes que tivesse tempo de chegar  janela, a porta abriu-se. Ele atirou-se para o cho, esticando 
os braos para amortecer a queda. Aproximando-se da cama, voltou-se de barriga para cima.
   - Mam? - choramingou Rosie. - Tive um pesadelo.
   Zeke quase podia sentir a confuso de Natalie. Teria certamente sentido a cama abanar quando ele saltara. Ouviu-a sentar-se e endireitar os cobertores. Ainda 
bem que ela no tinha despido a camisa de dormir, pensou Zeke. Pelo menos, estava vestida.
   - Oh, querida. - Zeke ouviu o som de uma palmada no colcho e imaginou Natalie a indicar o lugar ao lado dela. - Vem c. A me d-te miminhos.
   Zeke encolheu-se. Era bvio que ela estava convencida de que ele j no estava ali. "Merda." Como  que ele se metia naquelas embrulhadas? Devia simplesmente 
ter deixado que Rosie o visse e inventado um motivo plausvel para a sua presena. Agora, era demasiado tarde. Se ela o descobrisse, o que  que ia dizer, que tinha 
ido limpar o p debaixo da cama de Natalie?
   Enquanto Natalie e Rosie se aninhavam debaixo dos cobertores, Zeke tentava vestir a camisa, o que no era fcil para quem estava deitado ao comprido no cho. 
Mas motivao no lhe faltava. Em circunstncia alguma queria que aquela menina o encontrasse meio despido no quarto da me dela.
   - O que foi aquilo? - sussurrou Rosie.
   Zeke ficou paralisado, um brao parcialmente enfiado numa manga.
   - O qu? - perguntou Natalie.
   - Ouvi um barulho.
   O colcho rangeu e, passado um instante, o pequeno rosto de Rosie apareceu poucos centmetros acima do nariz de Zeke. Os olhos dela arregalaram-se de surpresa.
   - Ol. Porque  que est no cho da mam?
   Zeke respondeu a primeira coisa que lhe veio  cabea:
   - Estava a tentar apanhar um rato.
   Rosie ajoelhou-se num instante e debruou-se ainda mais na beira do colcho.
   - Um rato?
   - Um rato - confirmou ele. - A tua me telefonou-me a pedir ajuda. O rato meteu-se debaixo da cama e ela no sabia o que fazer.
   Os grandes olhos castanhos de Rosie assumiram uma expresso especulativa. No pela primeira vez, Zeke pensou que ela era demasiado esperta para seu prprio bem 
- e dele tambm.
   - No h telefone aqui - observou ela.
   A cara de Natalie apareceu ao lado da cara da filha. Com os olhos arregalados pela consternao, disse:
   - Telemvel. Eu usei o meu telemvel. Rosie olhou para a me.
   - Onde  que ele est?
   - Onde est o qu? - perguntou Natalie.
   - O teu telemvel.
   - Algures. - Natalie levantou os cobertores. - Para variar, no sei onde o meti.
   Zeke sentou-se.
   - Porque  que no tem a camisa vestida? - perguntou-lhe Rosie. Porque ele era um perfeito idiota.
   - Ia apanhar o rato com ela.
   - Como?
   - Atirava-a para cima dele... como se fosse uma rede.
   - E apanhou-o?
   - No. Ele fugiu.
   - Para onde foi?
   - Meteu-se no armrio - respondeu Zeke quase sem pensar. Rosie saltou para fora da cama. Zeke levantou-se, acabou de abotoar a camisa e olhou desesperadamente 
em redor  procura das suas botas. Ento, recordou-se de que as tinha descalado para conseguir melhor apoio no telhado. Voltou-se para Natalie e disse:
   - Se voltares a ver o rato, no hesites em telefonar-me. Os olhos dela danaram com riso.
   - No tenhas dvidas. Obrigada por teres vindo, Zeke. Eu sei que  um disparate, mas tenho pavor de ratos.
   Zeke virou-se para a janela, e estacou. No podia sair por ali, no sem despertar a desconfiana de Rosie. Assim sendo, saiu pela porta do quarto, desceu a velha 
escada em pontas dos ps, atravessou a sala de estar e entrou na cozinha.
   Naomi e Valerie estavam sentadas  mesa, a tomar o caf da manh. Assim que o viram, os seus olhares de espanto dirigiram-se para os ps descalos dele.
   - 'dia - disse Zeke, fazendo o possvel para agir como se a sua presena na cozinha delas fosse perfeitamente normal.
   Natalie puxou a camisa de dormir para baixo. Naomi j tinha vestido as roupas que usara no dia anterior. Alou uma sobrancelha.
   - Bom dia - disse ela. - O que o traz por c to... - consultou o relgio -... cedo?
   - Um rato.
   - Um rato? - repetiu Valerie.
   - Debaixo da cama da Natalie. - Zeke sentia-se um perfeito imbecil. Comeou a sentir calor no pescoo. - A Rosie est agora mesmo a procur-lo no roupeiro. O 
malandro  rpido.
   Naomi sorriu.
   - Caf? - ofereceu ela, levantando a sua chvena.
   Zeke passou uma mo pelo cabelo e quase gemeu. Estava completamente despenteado.
   - No, obrigado.  melhor eu ir andando.
   Com a dignidade que lhe era possvel, atravessou a cozinha. Quando chegou  porta, Valerie disse:
   - Isso  perigoso, sabe?
   - O qu?
   - Apanhar ratos sem sapatos. Eles mordem.
   Uma vez no exterior, apenas encontrou uma das botas. Tinha deixado as duas ao lado da escada das traseiras. Intrigado, voltou-se lentamente, percorrendo o ptio 
com os olhos. Do outro lado da sebe, viu Chester. As suas suspeitas estavam confirmadas. O raio do ganso tinha confiscado uma das suas Tony Lamas.
   - At logo! - disse uma voz feminina.
   Zeke virou-se e viu Natalie debruada na janela do quarto. Estava to bonita com o cabelo desgrenhado e a camisa de dormir a escorregar num dos ombros que a travessia 
embaraosa da cozinha quase lhe pareceu ter valido a pena.
   Zeke sorriu e abanou a cabea.
   - O caf est pronto. A tua me e a tua irm j se levantaram.
   Ela fez uma careta e levou os dedos  boca para abafar uma gargalhada.
   - Desculpa.
   Zeke bateu com um dedo no relgio.
   - Para a prxima, ligo o alarme.
   - Boa ideia. - Ela respirou fundo, inspirando o ar matinal aquecido pelo sol. Em seguida, sorriu e disse:
   - Desde que haja uma prxima.
   Zeke assentiu com a cabea.
   - Sei de fonte segura que os ratos so criaturas de hbitos. De certeza que ele volta. Quando voltar, estarei  espera dele.
   Rosie apareceu  janela, o seu pequeno rosto mal se vendo acima do parapeito.
   - Adeus, Sr. Coulter!
   Zeke acenou-lhe e foi buscar a outra bota, consciente, a cada passo que dava, que deixava um grande pedao do seu corao atrs de si.
   Natalie tinha acabado de colocar o pequeno-almoo dos filhos na mesa quando o telefone tocou, ouvindo-se no mesmo instante algum a bater  porta das traseiras. 
Naomi tinha ido  cidade buscar o imprescindvel para a sua estadia na quinta, Pete estava no celeiro a ordenhar as vacas, Charlie estava a dormitar, e Valerie tinha 
ido tomar um duche. Natalie correu a abrir a porta, viu o rosto de Zeke, e largou a correr sem o cumprimentar, esperando que ele entrasse de moto prprio.
   Agarrando no telefone, disse sem flego:
   - Estou?
   - Gostava de falar com a Sra. Patterson, por favor.
   Natalie reconheceu a voz do detective Monroe e lanou um olhar de pnico a Zeke quando ele entrava na cozinha.
   -  a prpria.
   - Bom dia, Sra. Patterson. Fala o detective Monroe. Temos novas informaes sobre os negcios do seu marido. Gostava que viesse c esta manh para responder a 
mais algumas perguntas.
   Natalie tentou respirar mais devagar.
   - Eu, hmm... com certeza, detective. No h problema. Mas eu no estava a par dos negcios do meu ex-marido. No sei o que lhe poderei dizer.
   - Tenho quase a certeza de que nos poder esclarecer - insistiu o detective.
   Natalie olhou para o relgio:
   - Tinha alguma hora especfica em mente?
   - Onze?
   - Com certeza - concordou ela. - s onze est ptimo.
   - Sra. Patterson?
   Algo no tom do detective deixou-a com os braos cobertos de pele ile galinha.
   - Sim?
   - Ser melhor trazer o seu advogado.
   Natalie estava a tremer quando desligou o telefone. Olhou para os filhos e depois procurou o olhar de Zeke.
   - Era o Monroe. Tem mais perguntas para me fazer.
   - Sobre o qu?
   Natalie foi para a sala de estar para que Chad no a ouvisse. Voltando se para Zeke, respondeu em voz baixa:
   - Qualquer coisa relacionada com os negcios do Robert. No gostei do tom dele, especialmente no fim. Disse-me para levar o meu advogado.
   Zeke franziu o sobrolho.
   - O que  que tu lhe podes dizer sobre os negcios do Robert?
   Era uma pergunta  qual ela no podia responder.
   - S sei que se passa alguma coisa.
   Zeke olhou para o relgio.
   - Posso ir contigo.
   - No  preciso. O Sterling Johnson estar presente. Eu fico bem.
   - Tens a certeza? Vim buscar as chaves do clube. Dois dos meus irmos vo l ter comigo e dar uma olhadela  tua parede. Mas posso adiar.
   Natalie conseguiu sorrir.
   - Nem penses nisso. Mo-de-obra gratuita? Era louca se no aproveitasse. Vou buscar as chaves.
   Quando Natalie se encontrou com Monroe s onze horas, sentia-se um pouco mais segura do que no dia anterior. Para comear, tivera tempo para se vestir bem, arranjara 
o cabelo e usava maquilhagem. Sentada ao lado de Sterling Johnson diante da secretria metlica do detective, tentou parecer descontrada e sem motivos para estar 
preocupada.
   Naquela manh, Monroe no perdeu tempo com conversa de circunstncia. No ofereceu caf. No sorriu. Empurrou uma folha de papel na direco de Natalie.
   - Esqueceu-se de falar nisto quando conversmos ontem.
   Natalie mal tivera tempo para olhar para o papel e Sterling Johnson j o tinha agarrado. O velho advogado colocou os culos no nariz e estudou rapidamente o documento. 
S ento o entregou a ela.
   - Tinha conhecimento disto? - perguntou-lhe ele.
   Natalie comeou a ler. A princpio, o jargo jurdico no fez qualquer sentido. Ento, apercebeu-se de que se tratava de um contrato de promessa de compra e venda. 
Robert trabalhava no ramo de desenvolvimento de terrenos e era frequente adquirir ou vender grandes parcelas, como tal, no viu nada de estranho. Ento, o seu olhar 
poisou no endereo da propriedade.
   - Old Mill Road? - murmurou ela incredulamente. Olhou para o detective. - Deve haver algum engano. Isto  a quinta do meu pai.
   - A escritura registada no diz isso - retorquiu o detective. - Essas terras esto em seu nome, Sra. Patterson.
   Os dedos de Natalie fecharam-se sobre a margem do documento.
   - Bem, sim, tecnicamente, pertence-me. A minha av Westfield deixou-me a propriedade quando morreu. Originalmente, era terra dos Mitchell. O pai dela deu-lha 
como presente de casamento, deixando estipulado que deveria ser transmitida  filha mais velha. O meu pai era filho nico, portanto, a propriedade passou para mim. 
O meu av trabalhou essa quinta toda a sua vida, e depois o meu pai assumiu o comando. Nunca tomarei posse dela enquanto os dois estiverem vivos.
   O detective entrelaou os dedos.
   - No estou interessado com o que se passa no seio da sua famlia, Sra. Patterson. Resumindo, essa propriedade  sua, estava em seu nome antes de a senhora se 
divorciar, e o seu ex-marido recebeu cinquenta por cento dela na diviso dos bens. A senhora deve ter ficado muito irritada quando descobriu que ele estava a preparar-se 
para vender a sua herana e arrecadar a sua metade dos lucros.
   Natalie ficou gelada. Deixou cair os papis no colo. Robert estava a preparar um negcio para vender a quinta do pai dela? No queria acreditar.
   Monroe baloiou-se na cadeira.
   - Espera que eu acredite que no sabia de nada disto?
   Natalie mal conseguiu continuar sentada. Comeou a ler o documento mais uma vez. A quantidade de dinheiro mencionada, trs milhes, duzentos e cinquenta mil dlares, 
deixou-a tonta. Uma parcela de terra no podia valer tanto se no houvesse a possibilidade de ser subdividida em lotes. Percorreu as pginas com os olhos at encontrar 
o que procurava, uma clusula em que o comprador poderia reclassificar as terras como residenciais.
   - Isto  definitivo? - perguntou ela ao advogado. - No pode ser. No posso permitir que vendam a quinta do meu pai com ele ainda a viver l.
   - Agora, a venda no pode ir para a frente - garantiu-lhe o detective. - Todos os bens do seu ex-marido, incluindo a parte dele nessas terras, devem, sem dvida, 
ficar congelados por questes de direito sucessrio.
   Natalie percebeu as implicaes do que acabara de ouvir e lanou um olhar preocupado ao seu advogado. Sterling Johnson tocou-lhe na manga do casaco. Ela poisou 
os papis na secretria e esfregou as mos na saia, como se quisesse descontaminar as pontas dos dedos.
   - Obviamente, a minha cliente no tinha conhecimento desta transaco - disse Johnson ao detective.
   - Ah, por favor, Dr. Johnson - disse Monroe com impacincia. - Robert Patterson ia avanar com a venda. Ela tinha de saber. O homem no era parvo, certamente. 
Trata-se de um contrato com vnculo legal, e ela era dona de metade das terras.
   - Est a partir de um pressuposto errado, detective. No estado do Oregon, um contrato de promessa de compra e venda necessita apenas da assinatura de um dos vendedores. 
No caso em que um casal vende uma casa, por exemplo, basta a assinatura de um deles num contrato de promessa de compra e venda. O Sr. Patterson podia ter-se comprometido 
a vender as terras sem o conhecimento da minha cliente.
   - Com que intuito? Ela teria de aceitar assinar mais tarde. Se recusasse, o negcio ficava sem efeito.
   Johnson tirou os culos e guardou-os no bolso da camisa.
   - Outro pressuposto. No estudei o acordo de divrcio dos Patterson, mas  habitual existir uma clusula que impede a obstruo irrazovel  liquidao de bens 
que sejam propriedade comum das duas partes. Caso contrrio, qualquer um deles poderia bloquear sistematicamente o outro cnjuge, impedindo a venda do lar conjugal, 
residncias de frias, e tantas outras coisas.
   - Ou seja, o Sr. Patterson podia ter chegado a este ponto na venda das terras sem alguma vez o ter referido  Sra. Patterson? - perguntou o detective.
   Johnson assentiu.
   - Como lhe disse, no estudei os termos do divrcio, mas ficaria muito espantado se no encontrasse uma clusula de no obstruo nas letras mais pequenas.
   Natalie sentia-se agoniada. Robert andara a negociar por trs das suas costas, preparando-se para vender a sua herana. Era ser mais do que ganancioso. Era maldade 
pura. Ele tinha assinado um acordo em como nunca tocaria na quinta.
   - Ele foi longe de mais ao fazer isto - disse ela. - Ns tnhamos um acordo escrito, extrajudicial, onde era declarado que ambos podamos conservar as heranas 
de famlia. Foi redigido por um advogado.
   - Como  que ele se chamava?
   Natalie esfregou a testa.
   - Baskin, acho eu. Sim, era isso, Harry Baskin.
   Sterling Johnson franziu o sobrolho.
   - Ele tinha escritrio aqui, em Crystal Falls?
   - Sim.
   - Nunca ouvi falar dele - disse o advogado - e tenho a certeza de que conheo todos os advogados desta cidade. A senhora investigou-o, certificou-se de que ele 
tinha licena para exercer?
   Cada vez mais alarmada, Natalie ficou a olhar para ele.
   - Claro que podia exercer. Fui ao escritrio dele, vi as letras douradas na montra. Ele at era notrio e autenticou o contrato. O Robert contratou-o.
   Monroe perguntou-lhe:
   - A senhora pediu ao seu advogado que estudasse o contrato?
   Natalie cerrou as mos. Estava completamente falida na altura e ficara grata quando Robert se oferecera para pagar as despesas legais. No tinha dinheiro para 
pedir a outro advogado que examinasse o contrato.
   - No - murmurou ela.
   Johnson clareou a voz, retirou a mo do brao de Natalie, e recostou-se na cadeira, parecendo desconcertado por um instante. Recuperou rapidamente, endireitou 
os ombros e sorriu como se aquela fosse apenas uma visita de cortesia.
   O detective Monroe fez um esgar.
   - Parece-me bvio, se o doutor nunca ouviu falar desse Harry Baskin, que a Sra. Patterson foi enganada. O contrato que ela assinou com o marido provavelmente 
nem valia o papel em que foi redigido, ou seja, o acordo de divrcio tem precedncia. Robert Patterson podia ter forado a venda da quinta. - Lanou um olhar especulativo 
a Natalie. - Se a Sra. Patterson descobriu o que ele estava a aprontar, o que poderia ela ter feito, seno ficar furiosa?
   Os lbios de Johnson estreitaram-se.
   - Se a minha cliente se tivesse recusado a colaborar, o Sr. Patterson poderia apresentar um recurso legal ao abrigo da clusula de no obstruo do acordo de 
divrcio. As terras acabariam por ser vendidas.
   - Quer a Sra. Patterson gostasse, quer no?
   Johnson clareou a voz novamente:
   - Precisamente.
   O detective olhou para Natalie de forma penetrante.
   - Corrija-me se eu estiver enganado, Dr. Johnson, mas no ser esse um bom motivo para a sua cliente cometer um homicdio?

Captulo Catorze
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   Ainda que fosse pouco provvel encontrar Zeke no clube, Natalie passou por l antes de sair da cidade. A um nvel racional, no sabia por que motivo precisava 
to desesperadamente de ver a cara dele, nem porque tinha aquela urgncia em sentir os braos dele  sua volta. Era financeiramente independente h quase dois anos 
e emocionalmente independente h muito mais tempo, a chave da sua sobrevivncia sendo uma confiana profunda na sua capacidade de triunfar sozinha, desse por onde 
desse. Mas agora, de repente, como se estivesse viciada numa substncia qumica, tinha de estar com ele.
   No ficou surpreendida quando viu a porta do Blue Parrot aberta e a carrinha Dodge de Zeke estacionada junto ao passeio. Em vez de enfrentar o trnsito para conseguir 
um lugar de estacionamento paralelo, deu a volta at ao lote do lado. "Zeke." Ao recordar-se do encontro com Monroe, sentiu um aperto de medo nas entranhas. Precisava 
que Zeke a abraasse e lhe garantisse que tudo ia ficar bem. "Uma loucura." Ele no tinha uma varinha mgica. Contra o sistema, estaria impotente para a proteger 
se Monroe decidisse prend-la pelo homicdio de Robert.
   Quando entrou no edifcio um momento mais tarde, viu Zeke acocorado diante de uma tomada de electricidade na parede que ele queria derrubar. Vestido com as suas 
habituais Wranglers, uma camisa de trabalho de cambraia, e o chapu de vaqueiro cor de chocolate, segurava numa mo um estranho aparelho com duas varetas metlicas.
   Ainda a tremer com o nervoso, Natalie parou para se recompor mal passou a porta. No queria que a vissem como uma mulher carente, luntica, que ia a correr ter 
com ele sempre que alguma coisa corria mal. Aquele negcio era dela. Poupara e trabalhara imenso para o pr a funcionar sem a ajuda de homem nenhum. Ela precisava 
dele, sim, mas tambm tinha de manter a sua dignidade.
   Uma abordagem provocadora, divertida, talvez fosse a melhor, decidiu ela. Depois dos ols iniciais, poderia contar-lhe o encontro com Monroe - calmamente, referindo 
apenas os factos, aparentando estar apenas preocupada, no histrica.
   Assim sendo, aproximou-se por trs dele, inclinou-se, e levantou-lhe a aba do chapu para lhe beijar o pescoo. Ele deu um salto, girou sobre si mesmo, e quase 
caiu para trs.
   - Cristo!
   - Desculpa. No te queria assustar... - "No  ele." Atnita, Natalie ficou de queixo cado. Ele parecia-se o suficiente com Zeke para poder passar por seu irmo 
gmeo. O seu corao deu um salto no peito quando se apercebeu do que tinha acabado de fazer. Um desconhecido? Era um dos momentos mais embaraosos da sua vida. 
- Valha-me Deus!
   O homem empurrou a aba do chapu para cima para a mirar de alto a baixo, com um par de olhos azul-celestes to parecidos com os de Zeke que ela mal podia acreditar.
   - Voc deve ser a Natalie. Sou o Hank, irmo mais novo do Zeke.
   - Peo desculpa. Voc  to parecido...
   - Ests a dormir a sesta? - perguntou outra voz vinda da cozinha. - Liguei o interruptor certo ou no?
   Natalie levantou a cabea e deparou com outro vaqueiro bronzeado de olhos azuis e chapu Stetson  porta da cozinha. Tinha exactamente a mesma postura de Zeke, 
uma anca projectada, o joelho da outra perna ligeiramente flectido - um vaqueiro alto, musculado, cada centmetro do corpo trabalhado at  exausto. S que no 
era Zeke.
   -  o Jake, o mais velho - disse Hank. Depois, quase a matou de susto com um assobio estridente: - Oh, Zeke! - berrou ele. - A tua senhora est aqui!
   Zeke apareceu  porta que dava para o bar. Lanou-lhe um sorriso lento, de esguelha, que ela comeava a registar como a imagem de marca dos elementos masculinos 
da famlia Coulter.
   - Ol, querida. O que vieste fazer aqui?
   - Beijar desconhecidos - respondeu Hank. -  melhor casares com ela e t-la debaixo de olho, ou algum vaqueiro solitrio ainda lhe deita a mo.
   Natalie ficou com a cara a escaldar.
   - Julguei... - olhou para Zeke, desesperada. - Falaste num ar de famlia, mas eu no fazia ideia... - calou-se de novo, sentindo-se demasiado estpida para continuar 
a falar. - Julguei que eras tu.
   - No s a primeira pessoa a cometer esse erro. E no deixes que o Hank te irrite. Ele  um provocador incurvel. - Olhou para o irmo. - Mostra que tens maneiras 
e levanta-te, maninho. Quero que conheas a minha senhora.
   Era a segunda vez em outros tantos minutos que ela era referida como a senhora dele. Por um instante, Natalie ficou sem saber o que pensar a esse respeito. Afinal, 
no era propriedade de ningum. Mas ento olhou para os olhos divertidos de Zeke e soube que o epteto lhe servia perfeitamente. Ela pertencia-lhe, assim como ele 
lhe pertencia a ela. E ela no teria alterado esse facto por nada.
   - A senhora e eu j nos conhecemos - disse Hank enquanto se levantava. Lanou um olhar travesso a Natalie e tirou o chapu da cabea.
   - Hank Coulter - disse ele com um sorriso, estendendo-lhe a mo.
   - No acredite numa palavra do que ele diz sobre mim. Mente com todos os dentes que tem na boca. - Com uma piscadela de olhos, acrescentou num sussurro teatral: 
-  a minha cruz, ser o mais bonito de todos. Eles tm cimes e implicam comigo.
   Zeke deu-lhe uma cotovelada, um sinal no muito subtil para que o irmo se comportasse. Hank cambaleou para o lado, exagerando o impacto.
   - E tambm  mau, ele. No o contrarie.
   Natalie sentiu-se mais calma. Aquele arrazoado entre irmos recordava-lhe a forma como ela e Valerie implicavam uma com a outra. Apertou a mo a Hank.
   -  um prazer, Hank. O Zeke disse-me que cria e treino cavalos de competio?
   - S quando no me ofereo para fazer trabalhos de carpintaria - respondeu ele.
   Jake saiu da cozinha, exibindo a mesma forma de andar que Natalie tantas vezes admirara em Zeke. Quando lhe estendeu a mo para a cumprimentar, disse:
   -  um prazer conhec-la finalmente, Natalie. Agora sei porque  que o Zeke tem andado tontinho h j um ms.
   Como Hank, Jake tinha um sorriso simptico e olhos de um azul caloroso. Natalie gostou imediatamente dele.
   - Estamos aqui para deitar abaixo a sua parede - explicou ele - e os circuitos elctricos no esto bem marcados. O Hank est a usar o aparelho busca-plos para 
perceber quando  que eu desligo a corrente.
   - Ah. - Natalie olhou para a pequena caixa que Hank tinha na mo. - Agradeo muito a vossa ajuda.
   - No h problema - garantiu-lhe Hank. -  para isso que serve a famlia.
   Voltou a baixar-se diante da tomada. Jake levou a mo ao chapu em jeito de despedida e voltou para a cozinha. Zeke passou-lhe um brao  volta dos ombros e levou-a 
para o bar. Depois de fechar a porta atrs deles, puxou-a para si e beijou-a energicamente. Quando a libertou, Natalie estava sem flego, aborrecida por ter de quebrar 
o clima ao dizer-lhe qual o motivo da sua presena.
   - O que  que se passa? - perguntou-lhe Zeke quando viu a cara dela.
   Ela queria tanto ser forte e pragmtica. Em vez disso, encostou-se a ele.
   - Oh, Zeke - murmurou ela -, tenho tanto medo. Aconteceu uma coisa horrvel.
   Ele passou-lhe a mo pelas costas, os dedos massajando-lhe delicadamente os msculos.
   - O que foi, querida? O que disse o Monroe?
   - Lembras-te de ter dito ontem que eu no tinha um motivo para matar o Robert?
   - Sim.
   - Pois, j tenho.
   Zeke levou-a at ao bar, agarrou-a pela cintura e sentou-a num dos bancos. Ainda que estivesse preocupada, Natalie ficou maravilhada com a fora que ele tinha. 
Quando lhe procurou os olhos, foi percorrida por uma sensao incrvel, uma noo de que ele estaria sempre presente para a apoiar, firme como um rochedo. Podia 
ver-lhe nos olhos e na expresso o amor que sentia por ela. "No  como o Robert." No se podia esquecer disso. Poses e fachadas eram desnecessrias com aquele homem. 
Se ela tivesse momentos de fraqueza e tivesse de procurar o seu apoio, ele no lhe levaria a mal.
   - Passaste a ter um motivo desde ontem?
   Ela assentiu.
   - Um motivo muito, mas muito forte.
   Zeke sentou-se no banco ao lado enquanto ela lhe contava a visita ao gabinete de Monroe.
   - Ele pensa que eu sabia da venda das terras. Antes de sairmos, chegou ao ponto de dizer, directamente, que acha que isto me d um motivo forte para cometer um 
homicdio.
   Zeke girou no banco para a encarar, prendendo-lhe os joelhos com os seus, as mos grandes envolvendo as dela com o seu calor. Agarrou-a com uma firmeza idntica 
 do seu carcter, forte mas no castigador, confivel mas no opressivo.
   - O Robert estava a tentar vender a quinta do teu pai?
   - Tecnicamente, pertence-me a mim. - Ela explicou-lhe os termos do testamento da av. - Um dia, haveria de ficar para a Rosie. Estava em meu nome quando me divorciei 
do Robert, o que a inclua nos nossos bens comuns. O Robert sabia que era terra dos Westfield, minha apenas por emprstimo, por assim dizer, e assinmos um contrato 
em que concordvamos no tocar nos bens de famlia um do outro. S que o contrato era falso. - Falou-lhe de Harry Baskin, que se fizera passar por advogado e notrio. 
- O Sterling Johnson diz que eu poderia ter sido forada a vender a quinta.
   - Isso no quer dizer que mataste o Robert.
   - No, mas d-me um motivo muito bom para o querer ver morto. De facto... - calou-se, soltou um suspiro e inclinou a cabea para trs, ficando a olhar para o 
tecto. - Oh, Zeke,  horrvel dizer isto, mas se eu tivesse descoberto aquele contrato h dois dias, talvez tivesse pensado em mat-lo. Saber que ele era capaz de 
descer to baixo... que queria correr com o meu pai e o meu av sem pensar no bem-estar deles... deixa-me to furiosa que era capaz de cuspir.
   Zeke agarrou-lhe no queixo e obrigou-a a olhar para ele.
   - No podes matar um homem s com o pensamento, querida, e no terias ido mais longe do que isso. Nenhum polcia no seu juzo perfeito pode tentar acusar-te. 
O Monroe pode andar atrs de ti agora, mas h-de acabar por voltar aonde estava ontem. No foste tu.
   - Tenho medo, Zeke. Acho que nunca tive tanto medo.
   - Eu sei. - Ele encostou-lhe uma mo  nuca, desceu do seu banco, e envolveu-a no crculo seguro dos seus braos. Quando ele a apertou com mais fora, Natalie 
encontrou a segurana que procurava - uma sensao indescritvel de que estudo estava bem, em paz. - Mas no te preocupes, est bem? Se aquele detective for to 
louco que resolva vir atrs de ti, eu atiro-lhe com tudo o que tiver ao meu alcance.
   Natalie encostou o nariz ao colarinho da camisa dele. Por muito que gostasse de lhe sentir a fora, to quente,  sua volta, gostava ainda mais do cheiro.
   - Enfrent-lo custaria uma fortuna. No posso deixar que faas isso. Perdias tudo.
   - Tenta impedir-me. H cinco anos, eu s tinha uma algibeira cheia de sonhos. O que vem tambm se vai. No sou agarrado s coisas materiais. Nunca fui. As fortunas 
fazem-se e perdem-se num nico dia. No podes deixar que os bens materiais governem a tua vida.
   - E se, apesar de tudo, eles me condenarem?
   Ele passou-lhe uma mo pelo cabelo e fechou-a.
   - Fugimos - sussurrou ele roucamente. - O que achas do Brasil?
   - Desculpa?
   - Pronto, da Colmbia. Para onde  que vo os criminosos? Um lugar tropical onde possamos viver como reis e ficar de papo para o ar debaixo de uma palmeira, a 
saborear daquelas bebidas com sombrinhas de papel. A Rosie ia adorar, centenas de guarda-sis para a Barbie.
   Natalie no pde deixar de rir.
   - Fazias mesmo isso por mim?
   - Nem pensava duas vezes, querida - respondeu ele com sinceridade.
   Era uma resposta tonta, mas, por qualquer motivo, era o que ela precisava de ouvir. Sentiu-se melhor s por saber que ele a amava assim tanto.
   - Tenho tanta sorte por te ter conhecido - murmurou ela.
   - Eu  que tenho - retorquiu ele. - Mas no te metas mais com o meu irmo mais novo, pode ser?
   Ela teve um ataque de gargalhadas. No fazia sentido. Estava apavorada quando chegara ao clube. Mas o milagre era esse mesmo, decidiu ela, estar com algum capaz 
de a fazer rir quando o seu mundo estava a desmoronar-se.
   - Se aquele estupor j no estivesse morto, eu castrava-o e pendurava-o no alto do celeiro - disse Naomi quando a filha lhe contou as ltimas novidades.
   Pete bateu com a sua caneca de caf no tampo da mesa.
   - Quero l saber de castrar o filho da me, eu estoirava-lhe com a cabea.
   Pela primeira vez durante os ltimos dez anos, os pais de Natalie pareciam estar de acordo sobre alguma coisa, neste caso, ambos teriam o maior prazer em causar 
graves danos fsicos a Robert se ele ainda estivesse vivo. Natalie estava sentada  mesa, demasiado esgotada para contribuir para aquela conversa. Estava contente 
por saber que os seus filhos no podiam ouvir nada do que estava a ser dito: Chad estava no celeiro a dar de comer a Chester, e Rosie no piso superior a brincar 
com um buggy novo para a sua Barbie que aparecera misteriosamente no alpendre das traseiras. Ningum da famlia de Natalie admitira ter comprado o acessrio da boneca, 
o que a levara a desconfiar que o especialista em janelas do primeiro andar da quinta do lado talvez fosse o responsvel.
   - Bem, no te preocupes, querida - disse-lhe o pai enquanto lhe dava uma palmadinha no ombro. - Os Westfield so unidos. Se esses polcias dum raio acham que 
te vo acusar disto, nem sabem o que os espera.
   - Isso mesmo - disse Naomi. Olhou para Pete e sorriu. - Nem ho-de perceber o que lhes aconteceu.
   Valerie entrou na cozinha naquela altura, abanando as unhas acabadas de pintar.
   - Ora, se no  uma bela imagem de unidade familiar.
   - Oh, est calada - disseram os pais dela em unssono. - No  altura para comentrios engraados, Valerie. A tua irm est metida num grande sarilho.
   Valerie sentou-se numa cadeira.
   - Para variar,  ela, e no eu.  motivo para celebrao. - Sorriu aos pais. -  bom v-los do mesmo lado, para variar.
   - Est calada - repetiram Pete e Naomi. Em seguida, dispersaram: Naomi para o lava-loia onde estava a descascar batatas e Pete para o fogo, para se servir de 
mais uma caneca de caf. -  o sangue dos Westfield que lhe corre nas veias - disse Naomi por cima do ombro. - Do meu lado, nunca houve ningum assim to respondo.
   - Sangue dos Westfield, uma treta - retorquiu Pete. - Ela  igualzinha a ti, por dentro e por fora, e veio respondona, obviamente. Basta ver a me dela.
   Valerie bateu as pestanas.
   - Talvez seja adoptada, largada no alpendre, como o buggy da Rosie. Foi isso que aconteceu, pai?
   - Est calada - resmungou ele.
   Valerie lanou um sorriso travesso a Natalie.
   - S pode ter sido. No achas, mana? Devemos ter sido deixadas no alpendre por uma cegonha. - Valerie poisou os cotovelos na mesa para soprar as unhas. A cor 
do dia era roxo psicadlico com brilhos prateados e vermelhos. - No sou capaz de imaginar aqueles dois, bem, tu sabes, a fazer aquilo. Matavam-se primeiro.
   - Valerie Lynn! - exclamou Naomi, atirando-lhe uma batata parcialmente descascada.
   Valerie esquivou-se e soltou uma gargalhada.
   - Foi uma batata que acabou de passar a voar ao lado da minha cabea? No admira que eu seja assim. A minha famlia  completamente disfuncional.
   Naomi torceu a boca. Voltou-se rapidamente de costas para que a filha no visse que estava a sorrir.
   - Tinha-te acertado se quisesse, sua pateta. Pergunta ao teu pai pela minha pontaria. Ele diz-te.
   Pete virou-se e deitou um olhar demorado e apreciativo ao traseiro da sua ex-mulher.
   - Ela  bem capaz de acertar no alvo com uma preciso mortfera - disse ele com um sorriso saudosista.
   Naomi riu-se.
   - Mesmo no meio dos olhos, se bem me lembro.
   - Quase me deixou sem sentidos.
   - E foi bem feito. Chegar a casa bbedo e muito animado. Mandei-te curar a ressaca no celeiro e tu recusaste.
   Pete piscou o olho s filhas.
   - Estava cheia de cimes. Achou que eu tinha andado a experimentar a fruta no Chester's Hideaway. Quando entrei por aquela porta, acertou-me com uma batata antes 
que eu tivesse tempo para dizer "ol, o que  o jantar".
   Natalie inclinou-se para trs.
   - E o pai era culpado?
   Pete sorriu.
   - Claro que no. Mas no havia maneira de a convencer.
   Naomi voltou-se. Numa das mos, segurava uma batata descascada.
   - Queres testar a minha pontaria outra vez, Pete Westfield?
   - No, minha senhora.
   Pete bateu rapidamente em retirada para a sala de estar, revelando mais uma vez uma miraculosa recuperao da sua dor de costas. Natalie olhou espantada para 
a irm. Valerie sorriu e soprou novamente as unhas. Naomi virou-se, apanhou as filhas a sorrir e disse:
   - Tirem esses sorrisinhos da cara.
   A expresso de Valerie tornou-se mais sria,  excepo da covinha na bochecha.
   - Ento, me,  por causa disso que temos um ganso chamado Chester, porque o pai gostava de experimentar a fruta no Chester's Hideaway?
   - O raio do bicho - disse Naomi entre dentes. - Ele chamou-lhe Chester s para me irritar. Sabia muito bem que eu havia de torcer o nariz sempre que viesse c.
   Valerie fez um sinal a Natalie com as sobrancelhas.
   - Homens - disse ela com um suspiro teatral. - No se pode viver com eles, no se pode viver sem eles.
   - Tu no podes viver sem eles, isso  bem certo - retorquiu Naomi. Enxugou a batata que tinha acabado de descascar e atirou-a para o escorredor. - Estou muito 
mais feliz no meu condomnio. J viram bem esta cozinha? No mudou nada em dez anos, e j na altura era feia como tudo. - Agarrou noutra batata. - Valerie Lynn, 
levanta esse traseiro e ajuda-me.
   - As minhas unhas ainda no secaram.
   - Passa-as por gua fria. A galinha precisa de farinha.
   Valerie gemeu e tocou numa unha para ver se estava seca. Depois, levantou-se da cadeira para tratar da galinha, que j estava cortada e  espera numa tbua de 
cozinha.
   - Isto  o suficiente para me transformar numa vegetariana. - Tocou numa coxa escorregadia. - Gosto de galinha j cortada e congelada. No mete tanto nojo.
   - Hs-de sobreviver. Passa l o raio da galinha pela farinha.
   Natalie sorriu e esfregou a testa dorida. Naomi secou as mos e foi para a mesa com a garrafa de vinho na mo.
   - Parece-me que ests a precisar de um pouco disto, querida.
   Natalie suspirou.
   - No adianta, me. Tenho a cabea a rodopiar. Nada disto parece real. No consigo acreditar no que me est a acontecer.
   Valerie olhou para ela por cima do ombro.
   - Eu consigo. O Robert s te atrapalhou a vida desde que o conheceste. Este  o golpe de misericrdia, desferido do outro lado do tmulo. Ele no podia descansar 
em paz sabendo que poderias viver feliz para sempre.
   Naomi tirou trs copos do armrio, todos os quais tinham sido bem lavados e esfregados, e poisou-os na mesa.
   - Pe as batatas e a galinha ao lume, Valerie Lynn. Enquanto o jantar no estiver pronto, podemos beber um copo ou dois.
   Valerie aproximou-se da mesa, esperou que a me enchesse um copo, e depois levou-o para a bancada.
   - Quando tudo o resto falha, embebeda-te.
   Natalie aceitou o vinho que a me lhe deu.
   - S queria que isto tudo desaparecesse.
   Naomi bebeu um pouco.
   - No te censuro. Se beberes o suficiente, vais ver que desaparece.
   - Isso no  soluo - disse Natalie desesperada. - Acho que no h soluo. O Monroe tem as baterias apontadas para mim. Se no acontecer alguma coisa que o 
faa desconfiar de outra pessoa, estou frita.
   Naomi agarrou num bloco de notas e numa caneta que estavam junto ao telefone.
   - Ento, vamos dar-lhe outro suspeito. Quem, para alm de ti, queria ver aquele filho da me morto?
   
   Ele procurou Natalie naquela noite como num sonho - esgueirou-se silenciosamente para debaixo dos cobertores, passando levemente as pontas dos dedos pelo corpo 
dela, beijando-lhe depois o pescoo e o peito at que ela gemeu e despertou. Natalie tentou dizer o nome dele, mas ele cobriu-lhe a boca com a sua e reclamou-a com 
mos rijas e hbeis que pareciam conhecer cada segredo do seu corpo. Ela passou do esquecimento ao xtase antes sequer que a sua cabea tivesse tempo para recuperar 
a lucidez, entregando-se depois com ele s sensaes que a faziam tremer a cada toque dele.
   - Amo-te - murmurou ele ao mergulhar fundo, preenchendo-a com a sua firmeza. - Amo-te, Nattie.
   Ela agarrou-se aos seus ombros, a boca tremendo sob a dele, o corpo ondulando para receber as suas investidas, a mente explodindo num caleidoscpio de cores fragmentadas 
quando o seu corpo atingiu o orgasmo.
   Depois, ele apertou-a contra si e acariciou-lhe o corpo trmulo at que ela se fundiu satisfeita naquele calor, perdendo-se mais uma vez entre os vus negros 
do sono. "Zeke." Levou-o com ela para os seus sonhos e sentiu-se segura, mesmo quando o rosto do detective Monroe emergiu das sombras.
   O dia j praticamente tinha nascido quando Natalie foi arrancada do sono por um som tnue mas insistente. Entreabriu os olhos e viu Zeke sentar-se e premir um 
boto no seu relgio de pulso. Ela sorriu e passou-lhe uma mo pelas costas nuas. Ele no falou, e ela tambm no. Limitou-se a beij-la profundamente e desapareceu 
no lusco-fusco que antecede a madrugada como se nunca ali tivesse estado.
   
   Na tarde do dia seguinte, Natalie recebeu um telefonema de Grace Patterson. Assim que a conversa terminou, foi procurar o seu filho. Chad no estava em casa e, 
como tal, Natalie alargou a sua busca, percorrendo primeiro o ptio e depois aventurando-se mais longe, nos restantes edifcios da quinta.
   O calor de Agosto estendia-se sobre a quinta como um cobertor que sugava toda a humidade do ar. Normalmente, Natalie apreciava a pouca humidade do Oregon Central, 
mas naquele dia at a garganta lhe parecia ressequida e a pele dorida onde a roupa lhe tocava. Decidiu que tinha saudades do ar condicionado, algo em que o seu pai 
no acreditava. Quando a casa se tornava quente e abafada, a sua nica soluo era abrir as janelas e usar uma ventoinha.
   Natalie franziu os olhos para se proteger do sol ao passar pela capoeira.
   - Chad? - chamou ela.
   - Estou aqui, me.
   Ela contornou o celeiro e descobriu o filho atrs do edifcio, sentado no que restava da vedao de uma rea que em tempos servira de pasto para os animais. Com 
calas de ganga e sapatilhas, a sua indumentria habitual quando estava em casa, Natalie iou-se para se sentar ao lado dele. Apercebendo-se do estado pensativo 
em que o filho se encontrava, deixou-se ficar calada durante algum tempo. Grilos cantavam na erva alta que se amontoava em redor dos postes da vedao. Galinhas 
cacarejavam no alpendre atrs deles. Ocasionalmente, Daisy e Marygold acrescentavam os seus mugidos quela mistura.
   - Eu costumava sentar-me aqui quando queria ficar sozinha - acabou ela por dizer. - Espero no estar a mais.
   - No, no ests. s vezes gosto de vir at aqui.
   Chad baixou a cabea e saltou para o cho. Natalie recordou-se das horas que passara a ensin-lo a amarrar os atacadores. Agora, pareciam fios de baba pendurados 
na queixada de um co, e o gancho dos cales dava-lhe pelos joelhos. Ela no entendia a moda actual, mas, bem vistas as coisas, duvidava que os seus pais tivessem 
apreciado o seu aspecto quando era mais nova.
   - Eu, hmm, preciso de falar contigo, Chad - comeou ela. - A tua av Grace acabou de telefonar.
   - O que  que ela queria?
   Natalie olhou para os pinheiros que delimitavam as traseiras da quinta. Quando era pequena, fora passear muitas vezes para aqueles bosques nos dias quentes de 
Vero,  procura do silncio e da sombra profunda que s as rvores podem oferecer.
   - Ela est muito transtornada - respondeu ela com honestidade. - O teu pai era o nico filho dela. O av Herbert tambm j morreu. Acho que ela se sente muito 
sozinha.
   - Talvez eu lhe pudesse telefonar - disse Chad quase inaudivelmente.
   - Isso era simptico.
   - No gosto muito dela.
   Natalie partilhava aquele sentimento, mas absteve-se de o dizer.
   - Ela tem os seus bons momentos.
   Chad deitou-lhe um olhar de esguelha.
   - Quando?
   Natalie riu-se baixinho.
   - OK, no so frequentes, mas ela  tua av. No quero falar mal dela.
   Chad assentiu.
   - Eu tambm no o devia fazer, acho eu. E s que...
   - O qu? - insistiu Natalie brandamente.
   - No sei. Veja o bisav, por exemplo. Ele s sabe resmungar e queixar-se disto ou daquilo, mas eu gosto dele na mesma. De vez em quando, deixa de resmungar para 
tomar flego, d-me uma palmadinha no brao ou abraa-me, como se estivesse a dizer-me para no o levar a srio.
   Natalie sorriu. J tinha visto o seu av a abraar os bisnetos.
   - Ele resmunga muito - concordou ela. - Mas ele  assim, penso eu.
   - A av Grace nunca d abraos daqueles. S quando chega ou se vai embora, e mesmo nessa altura fica rgida, como se tivesse medo que eu lhe sujasse a roupa. 
E nunca me d beijos a srio, d os beijos no ar.
   - Ela tem uma maneira de ser muito formal - admitiu Natalie.
   - Gostava que ela fosse mais normal quando a vou visitar. No consigo descontrair quando estou com ela. Mesmo quando me oferece um doce, fico com medo de sujar 
a toalha. Uma vez, espalhei guardanapos de papel  volta da minha tigela de gelado para no ter de me preocupar com isso, e ela ficou toda alterada, a dizer que 
era muito importante que eu praticasse as minhas boas maneiras, que deviam ser como uma segunda natureza.
   - Tenho pena que ela seja assim. No tens de lhe telefonar se no quiseres.
   Chad suspirou.
   - Eu telefono. No a odeio, ou assim. Pode ser que ela se sinta melhor se eu o fizer.
   O corao de Natalie encheu-se de orgulho.
   - Era muito simptico da tua parte. Ela precisa de sentir que gostam dela.
   Ele esticou as pernas para olhar para as sapatilhas.
   - Ela telefonou uma vez, logo depois de sabermos o que tinha acontecido ao pai. Foi quando tinhas ido  esquadra. No parava de dizer que um dia eu havia de herdar 
o dinheiro dos Patterson.
   - Bem, agora que o teu pai morreu, imagino que seja o que vai acontecer.
   - Mas ela est, tipo, completamente obcecada com isso - disse Chad. - Chorou um bocado por causa do pai, mas, essencialmente, s queria falar sobre a responsabilidade 
que eu tinha agora, e que eu devia ter mais orgulho no nome Patterson. - Ele comeou a baloiar os ps, agitado. -  como... no sei. Isto no vai soar bem, mas 
ela age como se fosse minha dona, ou assim.
   Natalie perdera a conta s vezes em que vira Grace e Herbert usarem a fortuna dos Patterson contra Robert, para o obrigarem a andar na linha. Odiava ver o seu 
filho passar pelo mesmo, mas no podia fazer nada para o impedir. Chad era um Patterson, e era o descendente mais prximo. Ela no podia impedir Grace de fazer do 
filho de Robert o seu herdeiro.
   - Uma grande quantidade de dinheiro  uma bno incrvel - disse ela cautelosamente. - Permite que aqueles que a tm satisfaam os seus desejos de uma forma 
que as outras pessoas no podem fazer. Podes ter uma casa bonita e usar roupas boas e andar num carro bom. Podes ajudar os necessitados se ofereceres dinheiro a 
obras de caridade. Em alguns casos, o dinheiro at pode comprar prestgio e poder. Mas tambm tem uma desvantagem.
   - Qual ? - quis saber Chad.
   - O dinheiro pode tornar-se um deus para algumas pessoas, mais importante do que tudo o resto. - Natalie olhou para o seu filho.
   - No te posso dizer o que deves sentir ao saber que um dia vais herdar o dinheiro dos Patterson, nem o que fazer com a tua av quando achas que ela est a tentar 
controlar-te. Mas posso dizer-te que as pessoas raramente so felizes quando deixam que o dinheiro se torne a coisa mais importante da sua vida.
   - No  assim to importante para mim - respondeu o rapaz.
   - No quero ser assim.
   - Ento, no sejas. Podes ter o dinheiro, mas nunca deixes que ele seja teu dono. Faz sentido?
   Chad assentiu.
   - E no deixo que a av Grace seja minha dona s porque controla o dinheiro que um dia hei-de herdar?
   Natalie sentiu a tenso abandonar os seus ombros.
   - Isso mesmo. Quando ela falar da tua herana, uma forma de lidar com o assunto  dizeres que no queres pensar que um dia poders ficar sem a tua av. Assim, 
ela fica contente e percebe, de uma forma simptica, que o dinheiro no  assim to importante para ti.
   Chad sorriu e assentiu de novo.
   - Isso deve resultar, e tambm  o que eu sinto. No quero pensar que um dia ela vai morrer.
   - Ento, diz-lhe isso.
   Chad respirou fundo.
   - Porque  que ela telefonou hoje?
   - O servio fnebre do teu pai devia ser amanh.
   - E j no ?
   - O mdico legista ainda no deu autorizao para levantar os restos mortais.
   - Porqu?
   - No  invulgar em casos destes. - Porque o corpo de Robert era uma prova. Ela no podia dizer isto ao seu filho, no a respeito do pai dele. - Burocracia, imensa 
papelada. No  nada de mais. Talvez para a semana, talvez um pouco depois, ho-de permitir que a tua av levante os restos mortais do teu pai, e ento poderemos 
despedir-nos dele convenientemente.
   Chad engoliu, a sua ma-de-ado subindo e descendo.
   - No tenho pressa nenhuma? Tu tens?
   Natalie estava disposta a dar praticamente qualquer coisa para encerrar aquele captulo da sua vida.
   - No. Vai ser uma ocasio muito triste.
   Chad olhou para ela, curioso.
   - Achas que sim? Quero dizer, para ti. Sei que j no gostavas dele... que, de certa forma, o detestavas.
   Ela passou as mos pela vedao velha.
   - Eu no detestava o teu pai, querido. Detestava as coisas que ele fazia. Consegues perceber a diferena?
   Chad assentiu.
   - Porque  que ele era assim, me? O meu sangue tem uma parte dele, e eu no sou assim. A Rosie tambm no. O que  que aconteceu para fazer com que ele fosse 
assim?
   Naquele momento, Natalie foi capaz de, finalmente, libertar-se do azedume que sentira por Robert.
   - Talvez a me dele tenha sido sempre rgida quando o abraava - disse ela em voz baixa. - Talvez ela nunca o beijasse a srio e apenas beijasse o ar junto ao 
ouvido dele. Talvez ele nunca tenha podido sujar a toalha quando comia gelado. - Inspirou e libertou o ar lentamente, sentindo-se expurgada. - Talvez, para o teu 
pai, o mais importante tenha sido sempre as roupas e as boas maneiras e os bons resultados na escola, e no a necessidade de sentir-se amado. Todos ns precisamos 
de ser amados, Chad. Se no somos amados, crescemos com uma sensao de sermos pessoas de segunda categoria.
   - Mas tu amaste-o, no amaste?
   - Amei-o muito - admitiu ela. Loucamente, inconscientemente, com toda a devoo que um corao de dezoito anos podia sentir. - Mas acho que j era demasiado tarde. 
Ele j tinha passado tantos anos sem receber um abrao a srio que j no se apercebia da necessidade que tinha deles.
   - Isso  triste.
   Natalie despenteou-lhe o cabelo.
   - Sim,  muito triste. Quando pensares no teu pai e te sentires magoado porque ele no te deu um abrao quando tu precisavas, lembra-te que ele tambm nunca os 
recebeu.
   - O Zeke disse-me praticamente a mesma coisa, que talvez o meu pai nunca tivesse aprendido a amar porque nunca ningum o tinha amado a srio.
   "Zeke." Natalie quase podia sentir os seus braos  volta dela.
   - Ests a ver?
   O silncio regressou. Ento, Chad perguntou-lhe:
   - Quando  que achas que vai ser o funeral?
   - Nesta altura, no fao ideia. Calculo que algures durante a prxima semana, e era esta a principal razo que me trouxe aqui. O campo de frias comea na segunda-feira.
   - J me tinha esquecido disso.
   - Est tudo pago e eu acho que ias divertir-te muito. Mas vais ficar fora durante uma semana.
   - E o funeral do pai?
   -  isso que temos de resolver. Se quiseres, podes ir e, se o funeral for durante a prxima semana, eu vou ao lago com o carro e trago-te na vspera.
   Chad olhou para os campos.
   - Acho que este ano dispenso o campo de frias.
   - Eu gostava muito que fosses e que te divertisses bastante. Mas tambm percebo que estejas a sentir-te muito triste nesta altura. Pode ser difcil, estar com 
amigos que no entendem o que ests a passar.
   Chad afastou as mos sobre a vedao, empurrando o tronco para a frente. As omoplatas projectaram-se por baixo da T-shirt, a largura dos ombros maior do que ela 
se recordava. Dentro de pouco tempo, ele seria um homem, apercebeu-se Natalie com um aperto no corao.
   - Eu sinto-me triste - disse ele -, mas talvez conseguisse divertir-me.
   - Ento, vai.
   - Acho que tenho de ficar em casa durante a prxima semana - insistiu ele. - S para o caso de acontecer alguma coisa. Quero estar c por causa da Rosie.
   Natalie ficou sem saber o que dizer. Desfeita, tomou conscincia de que o seu filho sabia muito mais do que ela desejava sobre o que estava a acontecer. Sentiu-se 
muito mal. Chad no perderia apenas o campo de frias, mas tambm o dinheiro que ganhara para pagar a estadia.
   - Porque  que a Polcia acha que foste tu? - perguntou-lhe ele. - Eu no consigo perceber. Ficas perturbada quando o bisav pe veneno para os ratos no celeiro. 
No eras capaz de matar ningum, muito menos o pai. Porque  que eles desconfiam de ti?
   Natalie engoliu com dificuldade e agarrou-se com mais fora  vedao. Se ele tinha idade para fazer aquela pergunta, tambm tinha idade para uma resposta sincera, 
decidiu.
   - E uma histria comprida - comeou ela.
   Quando faltava um quarto de hora para as seis da tarde, o telefone de Zeke tocou. Ele atendeu e percebeu que estava a falar com Naomi Westfield. Depois da conversa 
de circunstncia habitual, ela disse:
   - Eu sei que  em cima da hora, mas queria convid-lo para jantar hoje  noite. Nada de especial, apenas um assado, mas pensei que poderia gostar da companhia.
   Zeke tinha acabado de tirar um bife do congelador. Olhou para a embalagem sobre a bancada.
   - Adorava - disse ele.
   - Ainda bem. Aparea quando quiser. Se o jantar ainda no estiver pronto, podemos conversar enquanto esperamos.
   - Cinco minutos.
   - ptimo. E, Zeke?
   - Sim?
   - Desta vez, traga as botas.
   Zeke sorriu.
   - Sim, minha senhora. Posso levar alguma coisa?
   - No, nada, a no ser que por acaso tenha algum vinho tinto. O do meu ex-sogro serve num aperto, mas sabe a desentupidor de canos.
   Menos de dez minutos depois, Zeke encontrava-se no alpendre das traseiras dos Westfield com duas garrafas de merlot nos braos. Quando bateu, Naomi apareceu do 
outro lado da porta de rede com um par de calas de ganga, camisola justa cor-de-rosa e sapatilhas brancas. De algum modo, no obstante a roupa casual, conseguia 
ter classe. Zeke pensou no que Pete teria na cabea para deixar uma mulher como aquela escapar-lhe do anzol.
   Olhou em redor quando entrou na cozinha,  procura de Natalie, mas no a viu. Naomi aceitou o vinho, agradeceu-lhe, e apontou na direco da sala de estar.
   - A Natalie no sabe que voc vem. Ela e a Rosie esto a brincar com a Barbie. Achei que t-lo c seria uma boa surpresa, algo que a poderia animar.
   - Ela est muito em baixo?
   - Em baixo, no propriamente. - Naomi sorriu. - Mas est preocupada. Sempre que o telefone tocava durante o dia de hoje, ela dava um salto.
   Zeke baixou a voz:
   - Hoje falei com o Monroe.
   - Ah, sim? - Naomi poisou o vinho na bancada. - Sobre o qu?
   Zeke falou-lhe sobre a aparelhagem a tocar Chopin quando Natalie
   estivera em casa de Robert.
   - A Natalie queria contar-lhe, mas depois do que ele lhe fez por causa da questo do contrato de promessa de compra e venda, tive um palpite de que ela se tinha 
esquecido de o fazer. Falei com o Sterling Johnson antes de fazer o telefonema. Ele acha que todas as pistas, por mais insignificantes que sejam, devem ser transmitidas 
ao Monroe.
   - Portanto, falou-lhe do Chopin?
   - Ele est a perder tempo a tentar incriminar a Natalie. Foi o que eu lhe disse.
   - Ele vai interrogar as namoradas todas?
   - J interrogou a Cheryl Steiner, a mais recente. E a Natalie no se enganou. A Cheryl saiu de casa do Robert por volta das cinco e meia da tarde, cerca de uma 
hora antes de a Natalie chegar. - Zeke pendurou o chapu num bengaleiro junto  porta. - A Cheryl diz que ela e o Robert tinham uma noite domstica planeada e estavam 
prestes a subir para o primeiro piso quando o telefone tocou. Depois de atender, o Robert deu-lhe um carto de crdito para ir s compras e pediu-lhe para voltar 
cerca das dez da noite. Foi ela que o encontrou na garagem.
   - Ela ouviu o motor do carro a trabalhar?
   - Por acaso, no. No durante algumas horas. Por volta da meia-noite, o motor do Corvette comeou a engasgar-se. Ela reparou no som estranho e foi investigar.
   Naomi estremeceu e esfregou os braos.
   - Se ela esteve em casa durante duas horas e no ouviu o carro, porque  que o detective Monroe acha estranho que a Natalie no o tivesse ouvido no espao de 
alguns minutos?
   - Foi exactamente o que eu lhe perguntei.
   - E?
   - Ele diz que tem de verificar a histria de todos. Que fez essa pergunta  Natalie essencialmente porque a Cheryl dizia que no tinha ouvido o carro a trabalhar 
at que o motor se engasgou.
   - Mas a Natalie continua no topo da lista dos suspeitos?
   Zeke olhou na direco da sala de estar.
   - Acho que o contrato de promessa de compra e venda  o motivo mais forte. At agora, ela  a nica pessoa com um motivo.
   - Tem de haver mais algum.
   Zeke concordou.
   - Acha que a me do Robert estaria disposta a falar comigo?
   - A Grace? - Naomi revirou os olhos. - Voc frequenta o clube de campo?
   - No.
   - Ento, o mais provvel  que ela no queira falar consigo. Aquela mulher tem uma fixao na posio social.
   - Mas eu tenho um conhecimento muito influente. Talvez consiga entrar para falar com ela, se for com ele.
   - E quem  ele?
   - Ryan Kendrick.
   Naomi arregalou os olhos.
   - Dos Kendrick do Rocking K?
   - Os prprios. O Ryan  meu cunhado.
   Naomi cruzou os braos e sorriu.
   - Ora, ora. A est um nome que sem dvida merecer a ateno da Grace. Posso perguntar por que motivo quer falar com ela?
   - Tenho esperana que ela me possa dar uma lista das pessoas com as quais o Robert tivesse feito negcio recentemente.
   - De certeza que o Monroe j fez isso.
   - Provavelmente. Mas talvez no tenha feito as perguntas que eu gostava de fazer. No estou muito interessado nas pessoas com quem o Robert concluiu transaces. 
Estou mais interessado em saber de negcios que por qualquer motivo no se tenham concretizado.
   Os olhos de Naomi iluminaram-se ao compreender:
   - Ou seja, pessoas que possam ter sido aldrabadas.
   - Exactamente. O tipo que se vai embora com dinheiro no bolso no costuma estar assim to infeliz que pense em cometer um homicdio. - Zeke encolheu os ombros. 
- Pode no dar em nada, mas eu gostava mesmo de falar com a me do Robert. Se algum sabe o que ele andava a fazer, esse algum  ela.
   Com a Barbie numa mo, Natalie namoriscava descaradamente com o Ken numa voz esganiada quando se apercebeu da presena de Zeke atrs dela. Sobressaltada, deu 
um salto e corou de embarao quando deu de caras com aquele par de olhos azuis.
   - O que  que se passa aqui? - perguntou ele naquele tom profundo e ressonante que provocava coisas to estranhas nas suas terminaes nervosas.
   - Estamos a brincar s Barbies! - informou-o Rosie. - Hoje recebi um buggy novo!
   Zeke pareceu muito mais espantado do que seria de esperar, o que disse a Natalie que acertara na identidade de quem deixara o embrulho no alpendre. O seu corao 
ficou mole ao v-lo interagir com a sua filha. Ainda que parecesse tonto com o buggy de cores garridas na mo, fingiu estar muito interessado enquanto Rosie lhe 
explicava todas as caractersticas do carro em miniatura.
   - Uau - disse ele. - Agora, a Barbie tem umas belas rodas. - Inclinou a cabea na direco do Ken, que Rosie entretanto largara no cho. - E aquele rapaz  um 
bom condutor?
   - Sim, sim. Tem carta de conduo e tudo. - Rosie agarrou no boneco e endireitou-lhe os cales de banho. -  muito bom a conduzir.
   - Ainda bem. Se eu fosse o pai da Barbie, obrigava-o a fazer um teste de conduo para ter a certeza de que a minha menina estava segura com ele.
   Rosie lanou-lhe um olhar especulativo.
   - Voc quer ser pai dela?
   - Rosie - interveio Natalie -, provavelmente, o Sr. Coulter...
   - A partir de agora, o Sr. Coulter passa a ser apenas o Zeke - interrompeu ele - e adorava ser o pai da Barbie.
   Sorriu a Natalie, um daqueles sorrisos de fazer derreter os ossos que a deixavam sempre sem fora nos joelhos. Em seguida, sentou-se de pernas cruzadas no soalho 
ao lado delas, olhou demoradamente para o biquni reduzido da boneca e disse:
   - Antes de mais, se vou ser o pai da Barbie, ela tem de se vestir, ou eu ponho-a de castigo at ao fim da vida.
   - Foi o pior momento da minha vida! - disse Naomi, com lgrimas de riso a escorrerem-lhe pelas faces. - Coitadinha. Ali no meio do palco s com a roupa interior, 
e o fato de papoila cado  volta dos tornozelos.
   Segurando a mo de Natalie por baixo da mesa, Zeke apertou-lhe os dedos para lhe dar a entender que tinha perfeita conscincia da sua presena ao seu lado. O 
jantar j tinha acabado h muito, e os pratos tinham sido levados para o lava-loia. Agora, apenas os adultos continuavam sentados, os seus copos de vinho enchidos 
trs vezes e outras tantas esvaziados. As duas garrafas de merlot de Zeke tinham acabado e a zurrapa de Charlie estava sob ataque, o contedo da garrafa diminuindo 
a uma velocidade impressionante.
   - O pior momento da sua vida? - perguntou Valerie. - Eu  que estava no palco, me!
   Naomi enxugou a cara.
   - Finalmente, a coitadinha l teve a presena de esprito de se esconder atrs da cortina. Depois, fugiu. O Pete foi  procura dela. Procurou-a durante meia hora 
e j quase tinha desistido quando a ouviu a soluar dentro de um armrio no camarim. Ele abriu a porta e ali estava ela, encolhida debaixo de um fato de Pai Natal 
da pea da escola, com as flores amarelas todas tortas no alto da cabea.
   Valerie recostou-se na cadeira, fazendo girar o copo de vinho entre os dedos com um sorriso nostlgico.
   - A minha nica oportunidade para ser famosa, e a minha me estragou tudo, usando cola para fazer o fato.
   Naomi comeou a rir outra vez.
   - Oh, esse ano foi horrvel. Eu tinha tanto que fazer, a ajudar o Pete nos campos, que no havia tempo que chegasse. Depois de talhar o fato, decidi usar cola 
para tecidos e o ferro de engomar, convencida de que aguentaria perfeitamente um nico espectculo. No aguentou, e a minha filha nunca me perdoou. Acho que o que 
a incomodou mais foi o facto de ter as cuecas de tera-feira numa sexta.
   Pete piscou o olho  filha.
   - No se importou nada de mostrar o traseiro a trezentas pessoas. No, senhor. S ficou danada porque tinha as cuecas erradas.
   - Nada mudou - disse Valerie, erguendo o copo na direco do pai. - Dem-me roupa interior bonita, e eu desfilo pela rua principal em plena luz do dia.
   Naomi gemeu.
   - Seja como for,  este o passado escabroso da famlia Westfield. - Lanou um olhar expectante a Zeke. -  a sua vez.
   - Eu tenho cinco irmos - comeou ele. - Se eu apenas enumerasse todas as coisas disparatadas que aconteceram na minha famlia, ficvamos aqui toda a noite. Alm 
disso, nenhuma das minhas histrias seria to engraada como as vossas.
   - Ah, v l - disse Naomi.
   - O que  que querem ouvir primeiro, os problemas do meu irmo Hank com a Lei quando ele e alguns amigos levaram o Triumph para dentro do ginsio depois de um 
jogo? Ou aquela vez em que o Tucker se meteu numa briga, e todos os irmos acabaram  pancada para o defender? Ou a vez em que a minha irm Bethany se estava a preparar 
para o baile de finalistas e o Hank resolveu ser ele a maquilh-la?
   Com o queixo apoiado na mo, Naomi sorriu.
   - Quero ouvir as trs histrias. Mas, primeiro, conte alguma coisa sobre si.
   Zeke riu-se.
   - Apanhou-me. Francamente, eu era uma criana bastante sem graa. No consigo lembrar-me de nenhuma histria engraada sobre mim.
   - Pois, pois. - Naomi ergueu uma sobrancelha elegantemente desenhada. - Voc escapa sempre de situaes complicadas com uma mentira, ou  s de vez em quando?
   Zeke rebentou  gargalhada.
   - OK. Uma histria sobre mim. - Pensou durante um momento. - Houve uma vez em que enchi os cigarros do meu pai com estalinhos.
   Os olhos de Naomi assumiram uma expresso divertida, e ela assentiu com a cabea.
   - Pode ser essa.
   Quando comeou a contar a histria, ele passou o polegar ao de leve pelas costas da mo de Natalie.
   - Eu tinha cerca de dezasseis anos, acho eu, e estava muito irritado com o meu pai porque o mdico lhe tinha dito para deixar de fumar, e ele continuava na mesma. 
Como incentivo, tive a ideia de fazer qualquer coisa aos cigarros. S toquei em trs e, sendo um mido esperto que no queria ser apanhado, meti-os na parte de trs 
do mao antes de sair para a escola de manh. O meu pai fumava os cigarros uns atrs dos outros, dois a trs maos por dia, logo, era quase garantido que ele acendesse 
um dos trs quando eu no estivesse em casa. Assim pensei eu. Afinal, ainda que no tivesse desistido, ele estava a tentar reduzir.
   "Quando cheguei a casa ao fim do dia, ele no disse nada sobre os cigarros. Depois do jantar, ele sentava-se sempre na sua poltrona e fumava enquanto via as notcias. 
Reparei que o mao ainda estava a meio. Passei todo o sero em pulgas,  espera que um cigarro rebentasse na cara dele. Mas isso s aconteceu na manh seguinte, 
e quis a sorte que fosse quando ele estava no banco. Tinha ido l tentar fazer um emprstimo para que o rancho no fosse ao fundo. O gerente convidou-o para um gabinete 
privado e perguntou-lhe se se importava que ele fumasse. O meu pai disse que no e tambm acendeu um cigarro. Lei de Murphy, claro. Foi exactamente aquele cigarro 
que explodiu."
   - Pois, s podia - disse Naomi num tom abafado, tentando conter o riso.
   - O meu pai jura que eu devo ter exagerado na dose, porque o estoiro foi ensurdecedor, com tabaco e papel a voar por todo o lado. O gerente do banco apanhou um 
valente susto, e tinha uma bexiga fraca.
   Naomi comeou a rir de tal maneira que escorregou da cadeira.
   - Oh, no!
   - E o seu pai conseguiu o emprstimo? - perguntou Pete entre gargalhadas.
   Zeke sorriu e olhou para Natalie.
   - Por acaso, conseguiu. O gerente tambm tinha filhos adolescentes, e um dos rapazes tinha-lhe pregado a mesma partida alguns meses antes.
   Alguns minutos mais tarde, Zeke preparava-se para descrever o baile de finalistas da irm quando a campainha da porta tocou. Todos os
   que estavam  mesa endireitaram-se de repente. Charlie franziu o sobrolho:
   - Mas quem raio  que poder ser?
   - Ainda faltam vinte minutos para as oito - disse Naomi. Chad apareceu vindo da sala onde estivera a assistir ao canal da vida
   selvagem com a irm:
   - So dois tipos de fato - disse ele em voz baixa. - Talvez sejam polcias.
   Um momento depois, com todos os seus companheiros de jantar reunidos atrs dele, Pete abriu a porta e deu de caras com dois agentes da Polcia de Crystal Falls 
no alpendre. Os agentes  paisana apresentaram os dsticos e depois um mandado de busca. Pete no teve outra hiptese seno deix-los entrar, um facto que Charlie 
repetiu inmeras vezes durante as duas horas seguintes enquanto os detectives destruam sistematicamente a casa com mos enluvadas, despejando caixas de cereais 
e gavetas, revirando armrios, desfazendo camas, virando colches, semeando o caos. Zeke ficou com a impresso de que estariam essencialmente  procura de medicamentos, 
os quais recolheram num saco de plstico transparente, independentemente do que estava escrito nos rtulos dos frascos.
   Quando praticamente todas as dependncias tinham sido passadas a pente fino, Zeke foi a correr ao celeiro trancar Chester. Quando voltou, garantiu a Natalie que 
libertaria o ganso quando regressasse a casa.
   - Acho que eles devem estar a acabar - disse ela a Zeke. - At revistaram o sto.
   Os dois detectives desceram naquele momento. Ao ouvir os seus passos nos degraus de madeira, Natalie e Zeke foram para a sala de estar. Arregalados e plidos, 
Chad e Rosie estavam agarrados um ao outro no sof.
   - Vo arrumar isto tudo? - perguntou Charlie quando os dois detectives se dirigiram para a porta, preparando-se para sair.
   - No, senhor - respondeu o mais velho. - No faz parte do nosso trabalho.
   - E faz parte do seu trabalho ser um chico esperto? - retorquiu o velhote.
   O detective fez um sorriso forado:
   - Peo desculpa pela inconvenincia. Eu sei que  desagradvel revistarem-nos a casa.
   Charlie projectou o peito para fora.
   - Desagradvel? Vocs viraram-nos a casa do avesso!
   - Os nossos superiores entraro em contacto convosco amanh - disse o detective mais novo. - E, mais uma vez, pedimos desculpa pela inconvenincia.
   Charlie seguiu-os at ao alpendre.
   - Esperem l! Vocs levam a os meus comprimidos para a tenso arterial!
   O mais velho olhou para o saco transparente que tinha na mo.
   - Depois de estes medicamentos serem examinados no laboratrio, ser-lhe-o devolvidos.
   - E quanto tempo  que isso vai demorar?
   - Um dia ou dois.
   - E o que  que eu tomo esta noite? Se morrer com um ataque cardaco, o meu filho atira-vos com um processo para cima!
   O detective levantou o saco.
   - Qual dos frascos contm a sua medicao para a tenso arterial, Sr. Westfield?
   - Aquele - respondeu Charlie, apontando para o frasco em questo com o dedo indicador.
   O detective tirou um par de luvas de plstico do bolso, calou-as, retirou cuidadosamente o frasco do saco, leu as instrues de dosagem, e deitou trs comprimidos 
na palma da mo. Depois de os entregar a Charlie, devolveu o frasco ao saco. O mais novo assentou tudo num bloco de notas.
   - Trs doses devem ser suficientes at que lhe devolvamos os medicamentos - disse o detective que segurava o saco.
   Charlie abanou a cabea.
   - Mas aonde  que este pas vai parar? - explodiu ele. - Nunca na minha vida vi uma coisa assim. Faz alguma ideia de quanto custam o raio dos comprimidos? Muito 
mais de cem dlares por ms. No tenho dinheiro para ir comprar mais!
   - Entendo perfeitamente, e garanto-lhe que os medicamentos lhe sero devolvidos. Vou fazer uma nota especial relativamente aos comprimidos para a tenso arterial, 
para que o laboratrio se apresse.
   Quando Charlie voltou para dentro de casa e fechou a porta, Zeke sentiu o corpo de Natalie tornar-se pesado sob o brao com que ele a apoiava. Olhou para baixo 
e viu que a cara dela estava branca como alabastro, os olhos enormes e luminosos no meio daquela palidez.
   - Eles estavam  procura de sedativos - disse ela, a sua voz plena de tenso e cansao. - Acham que fui eu quem drogou o Robert.
   Zeke j tinha percebido isso. Olhou para Rosie, que estava sentada to perto de Chad que pouco faltava para estar no colo do rapaz. Primeiro, o mais importante, 
pensou ele, e deixou Natalie para ir arrumar o quarto da menina. Tinha os dentes cerrados enquanto guardava roupas nas gavetas e fazia a cama de Rosie, furioso com 
o facto de a Lei permitir uma invaso como aquela. No havia uma nica diviso da casa dos Westfield que no tivesse sido revirada. Zeke percebia que os detectives 
apenas tinham estado a fazer o seu trabalho, mas parecia-lhe que, pelo menos, podiam ter tentado no deixar uma confuso to grande.
   Quando estava a endireitar a colcha da cama, Natalie apareceu  porta com a filha adormecida ao ombro.
   - Apagou-se num instante, graas a Deus.
   Zeke abriu a cama.
   - Lamento que isto tenha acontecido, querida.
   Natalie deitou a filha na cama e passou uma quantidade absurda de tempo a compor o lenol e o cobertor sobre o corpo de Rosie. Zeke nunca vira tanta dor nos olhos 
de ningum.
   - A culpa  minha - disse ela. - Entre tanta coisa estpida, ir a casa do Robert leva a taa. Nada disto estaria a acontecer se eu no tivesse sido to idiota.
   - No fazias ideia de que ele tinha sido assassinado. Se ele no tivesse morrido, o que poderia ter acontecido? Na pior das hipteses, ele teria dado pela falta 
dos copos e perguntado por eles. Nada de mal, e tu ficavas com os cristais da tua av.
   - Mas ele foi assassinado - sussurrou ela. - E agora, porque eu estive l, eles esto convencidos de que eu o matei.
   Zeke no podia argumentar, e esse facto deixou-o incomodado. Aquela mulher sofrera mais do que o suficiente s mos de Robert Patterson, todavia, parecia estar 
destinada a penar ainda mais.
   Pela primeira vez desde a morte de Robert, Zeke acreditou que existia uma hiptese real de Natalie ir parar  cadeia pela morte dele.
   
Captulo Quinze
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   Depois de Zeke se ir embora, Natalie fez companhia  me numa tisana antes de subir para se ir deitar. Quando entrou no quarto um pouco mais tarde, encostou-se 
 porta fechada e ficou a olhar para o caos que os detectives tinham deixado atrs deles. Peas de roupa estavam penduradas nas gavetas e amontoadas no cho. Pouco 
tempo antes, ela tinha voltado a fazer a cama e guardara alguma roupa nos respectivos cabides. O resto teria de esperar pelo dia seguinte.
   Exausta, mas ainda muito tensa, Natalie deu alguns passos em frente. Agora podia entender o que sentiam as pessoas cujas casas tinham sido assaltadas. Aqueles 
detectives tinham revirado tudo, at a gaveta da roupa interior. Caixas de sapatos com recordaes estavam espalhadas pelo cho, o seu contedo perturbado por mos 
descuidadas. Natalie baixou-se para as arrumar. Sorriu quando encontrou uma madeixa de cabelo de Chad quando era beb. As lgrimas fizeram-lhe arder os olhos quando 
fechou o livro de beb de Rosie e viu a sua pequena pegada.
   Quando j tinha as caixas arrumadas e colocadas no seu devido lugar na prateleira do roupeiro, estava to cansada que mal se conseguia mexer. Mesmo assim, no 
estava  espera de adormecer rapidamente depois de se ter metido debaixo das cobertas, j com a camisa de noite vestida, e apagado a luz. Ficou deitada de costas, 
a almofada de penas arranjada de qualquer maneira debaixo da cabea. Como sempre, os sons nocturnos que entravam pela janela acalmaram-na. Ouviu o bater das asas 
de um noitib  caa de mosquitos, o trilar animado dos grilos na erva, e as vozes das rs no lago de irrigao. A velha quinta gemia e estalava com a brisa ligeira, 
os sons to familiares e reconfortantes como uma cano de embalar.
   A olhar para as sombras prateadas pelo luar que se desenhavam no tecto, deixou que os seus pensamentos vagueassem, at parar em Zeke. Ele no dissera nada sobre 
a hiptese de aparecer naquela noite para a ver, mas ainda tinha esperana de que ele viesse. Sentir os braos dele  sua volta fora o que a ajudara a aguentar-se 
durante aqueles ltimos dias.
   "Zeke." Durante o jantar, ele dissera-lhe que a parede entre o bar e a sala de jantar do clube tinha sido demolida. No dia seguinte, ele e os irmos iriam comear 
a reparar o pavimento e aplicar pranchas de madeira para disfarar os locais onde anteriormente a parede se encontrava com as outras e com o tecto. Segundo ele, 
as pranchas ficariam a parecer que deviam estar ali, uma demarcao entre as duas zonas que seria envernizada com o mesmo tom do soalho de madeira laminada. Natalie 
estava inquieta para ver o resultado, e alimentara a esperana de poder ir  cidade no dia seguinte. Agora, teria de passar o dia a arrumar a casa.
   As suas plpebras comearam a pesar. Descontraiu-se sob o calor confortvel da colcha, grata numa parte remota do seu crebro pelas noites frescas de Vero no 
Oregon Central. Por mais quentes que fossem os dias, as brisas nocturnas eram um alvio.
   Tinha acabado de adormecer quando um rudo sonoro, semelhante a uma buzina, a fez acordar de novo. Sobressaltada, j tinha sado da tiu-se. "Chester? Oh, no!" 
Ainda meio a dormir, correu para a janela aberta. Ao debruar-se no parapeito, ouviu um homem praguejar. Depois, pareceu-lhe que ele tinha chocado com a chapa metlica 
que Pete deixara encostada  casa das bombas. "Zeke." O raio do ganso estava outra vez atrs dele.
   - Zeke - chamou ela em voz baixa. - s tu?
   Apeteceu-lhe berrar, ordenar ao ganso que tivesse maneiras, mas tinha medo de acordar a casa inteira. Junto aos carros, que estavam estacionados ao acaso entre 
a vedao e o celeiro, Natalie viu uma mancha branca fantasmagrica e pensou que deveria ser o ganso a bater as asas. Em seguida, viu o contorno indistinto de um 
homem a correr para as traseiras do celeiro. Debruou-se ainda mais no parapeito, tentando ver melhor.
   O ganso buzinou de novo, claramente em perseguio de algum. Natalie imaginou Zeke, a correr  volta do celeiro e a saltar vedaes, a tentar escapar s dolorosas 
bicadas de Chester. Queria agarrar no roupo, ir l fora, e trancar novamente a criatura no celeiro.
   - Mas que raio  que est a acontecer?
   A pergunta sussurrada de Valerie assustou Natalie de tal maneira que ela se endireitou de um salto e bateu com a cabea no lintel da janela.
   - Au! - gritou ela num tom abafado, levando a mo  zona dorida.
   - Desculpa. - Valerie entrou no quarto. - Porque  que o Chester est a fazer tanto barulho?
   Natalie baixou a mo.
   - Acho que anda atrs do Zeke.
   - Ui. - Valerie riu-se baixinho. - Como se no bastasse ter de trepar ao telhado para te ver? Estpida criatura. Julgava que j estava a habituar-se ao Zeke.
   - Talvez no o tenha reconhecido no escuro.
   - Um destes dias, o Zeke fica furioso e torce o pescoo quele ganso. - Valerie bocejou e esfregou os olhos. - Se  s isso, vou voltar para a cama.
   - 'noite - disse Natalie em voz baixa.
   Valerie saiu do quarto em pontas dos ps e fechou a porta devagar. Natalie voltou para a janela e espreitou para a escurido. No via qualquer vestgio de Zeke 
- nem de Chester. Com um suspiro, voltou para a cama e deixou-se cair no colcho. "Estpido ganso." Se ele comprometesse a sua hiptese de ver Zeke naquela noite, 
talvez fosse ela quem acabaria por lhe torcer o pescoo.
   Zeke esgueirou-se pela janela de Natalie s trs da manh. Quando se meteu na cama ao seu lado, ela acordou, sorriu sonolenta, e disse:
   - Voltaste.
   - Claro que sim. Desculpa o atraso.
   Ela passou os braos  volta do pescoo dele.
   - Eu  que peo desculpa. O Chester ainda est inteiro?
   Zeke lanou-lhe um olhar intrigado:
   - Porque  que no havia de estar? - sussurrou ele.
   - Espanta-me que no o tenhas matado - disse ela com uma gargalhada sonolenta. - No posso crer que ele tenha ido outra vez atrs de ti.
   Zeke no sabia do que ela estava a falar.
   - O Chester no veio outra vez atrs de mim. Quando o deixei sair do celeiro depois de me ir embora, ele foi um perfeito cavalheiro.
   Natalie baixou a cabea para olhar para ele. Os olhos dela eram to bonitos ao luar. Zeke comeou a beij-la. Ela f-lo parar e perguntou:
   - Ele no andava atrs de ti h bocado?
   - H bocado? - Zeke olhou para a janela. - O Chester andou atrs de algum h bocado?
   - Um homem, a avaliar pelo tamanho, ou talvez um adolescente. O Chester foi atrs dele. No eras tu?
   Zeke abanou a cabea.
   - Depois de sair daqui, fui  cidade tratar dos meus livros e preparar algumas encomendas. Encontrei algumas asneiras e tive de ficar muito mais tempo do que 
esperava. - Zeke saltou para fora da cama. - Tens uma lanterna?  melhor eu ir verificar.
   Natalie ajoelhou-se na cama.
   - Tenho a certeza de que est tudo bem. Provavelmente, foi algum mido a tentar roubar um pouco de gasolina. Nada de mais. - Abriu os braos. - Volta para aqui.
   Zeke olhou para a janela.
   - E se algum assaltou os carros?
   - Ento, algum assaltou os carros. Fosse quem fosse, j se foi embora h muito tempo. Se desapareceu alguma coisa, pensamos nisso amanh.
   Ela parecia to doce e convidativa que Zeke tinha voltado para a cama antes sequer de ter decidido conscientemente faz-lo. Ajoelhou-se diante dela e reclamou-lhe 
os lbios num beijo demorado. Ela suspirou e relaxou contra o corpo dele.
   Ele esqueceu-se imediatamente dos carros e fez amor com ela.
   
   Na manh seguinte, Natalie acordou bem cedo. Quando desceu, encontrou Valerie j levantada, vestida, e a beber uma chvena de caf.
   - Uau. Que bicho te mordeu? - perguntou-lhe Natalie.
   A irm sentou-se numa cadeira.
   - Hoje h muito trabalho para fazer aqui em casa se vamos pr isto tudo em ordem. Pensei comear bem cedo antes que o tempo fique demasiado quente.
   - Boa ideia. - Natalie aproximou-se da porta. - Ontem  noite, o Chester no andava atrs do Zeke.
   - No?
   - No. Vou verificar os carros, s para o caso de terem roubado alguma coisa.
   Momentos depois, Natalie estava de volta dos automveis. No lhe parecia faltar nada. O tijolo de Valerie continuava no lugar do passageiro do seu Mazda, a aparelhagem 
de Naomi ainda estava no tablier da pequena carrinha, e as ferramentas de Pete ainda estavam nas traseiras da carrinha de caixa aberta.
   - Se era um ladro, fugiu antes de conseguir apanhar alguma coisa de jeito - disse Natalie  irm quando voltou para casa. - Midos, a tentar roubar gasolina, 
aposto.
   - Com o Chester de guarda, tambm no devem ter conseguido levar nada - disse Valerie com uma gargalhada.
   - Felizmente. Da maneira que as coisas esto, j quase no tenho dinheiro para atestar o depsito.
   Natalie foi buscar uma caneca ao armrio. A bancada estava coberta de cereais espalhados. Imaginou os detectives a despejar as caixas no lava-loia e a revirarem 
o contedo com as mos. "Que nojo." Todas as caixas de cereais iam para o lixo. Ela no ia deixar que os seus filhos os comessem.
   - Isto deixa-me furiosa - disse ela enquanto agarrava num pano de loia para limpar a bancada. - Como  que a Polcia pode entrar em casa das pessoas e fazer 
uma coisa destas? At vi um deles a mexer na lata da farinha. Quem  que quer tocar em comida remexida por estranhos?
   - Eles tinham luvas.
   - Como  que sabemos que as luvas estavam limpas? S as usaram para no deixar impresses digitais nalguma prova que pudessem encontrar. Tanto quanto sabemos, 
usam as mesmas luvas, uma e outra vez. S Deus sabe as porcarias em que mexeram. Tampas de autoclismo, por exemplo. Nos filmes, eles procuram sempre dentro do autoclismo.
   - Oh, isso  um nojo. - Valerie revirou o lbio. - Acho que tens razo.
   - A farinha e os cereais tm de ir. Eu no os como, e os meus filhos tambm no.
   Valerie assentiu.
   - Percebo o que queres dizer, mas no vale a pena ficares irritada. Eles s estavam a fazer o trabalho deles. - Cruzou as pernas esguias. Tinha um par de calas 
de ganga com rasges estratgicos nas pernas, um deles to acima que deixava ver as cuecas cor-de-rosa. - Se fosses culpada do homicdio do Robert, no escondias 
os sedativos no armrio dos remdios, pois no?
   Natalie suspirou.
   - No, claro que no. Tinha-os deitado fora ou escondido no lugar mais improvvel que me viesse  cabea.
   - Como, talvez, a lata da farinha?
   - Agora, no. A imagem daquele detective a remexer na farinha ficou gravada na minha mente para sempre. - Natalie serviu-se de mais caf. - Desculpa eu estar 
to rabugenta. Hoje queria ir ao clube ver como vo as coisas. O Zeke diz que est fantstico sem a parede. Graas  rusga de ontem  noite, tenho o dia todo estragado.
   Valerie bocejou e bebeu um gole de caf.
   - No necessariamente. A me e eu podemos tratar disto.
   - No posso ir-me embora e deixar-vos com todo o trabalho. Isto aconteceu por minha culpa.
   - Seria melhor para os midos se os tirasses daqui. A coitada da Rosie no percebe nada do que est a acontecer. Viste os olhos dela ontem  noite? Estava cheia 
de medo daqueles tipos.
   Com a caneca fumegante entre as mos, Natalie virou-se e encostou as ancas ao fogo.
   - Esta confuso toda tem sido muito difcil para os dois.
   - Ento, leva-os daqui - insistiu Valerie. - Eu no me importo. E sei que a me tambm no. Leva os midos  cidade e tira o dia. H semanas que no vais  igreja. 
Eles haviam de gostar. Depois, leva-os ao clube contigo. Quando acabares o que tens de fazer por l, leva-os a qualquer coisa bem divertida para eles se distrarem.
   - Tens a certeza?
   - Absoluta. Mas ficas a dever-me uma.
   Natalie olhou para o relgio. Em seguida, acabou de beber o caf  pressa, abraou a irm, e foi ao primeiro andar tirar os filhos da cama. Enquanto as crianas 
corriam de um lado para o outro para se prepararem para a igreja, Natalie gritou:
   - Roupa nova hoje.
   Rosie parou no corredor e poisou as mozinhas nas ancas.
   - Pensava que s a podamos usar depois de a escola comear!
   - A igreja  mais especial do que a escola - insistiu Natalie. - Escolhe as tuas roupas preferidas.
   Rosie guinchou de prazer e correu para o seu quarto. Chad sorriu e disse:
   - Vou levar as minhas Nike novas.
   - E assim mesmo.
   Alguns minutos mais tarde, Natalie estava  mesa com os seus filhos na cozinha para um pequeno-almoo de torradas e leite, nenhum dos quais fora alvo das buscas 
dos detectives na noite anterior. Assim que acabaram de comer, despediram-se e seguiram para a porta. A caminho do carro, Natalie anunciou:
   - Depois da igreja, vamos parar no clube para ver como ficou sem a parede do bar.
   - Boa - disse Chad enquanto entrava para o banco de trs.
   - Boa - disse Rosie, o papagaio, ao sentar-se ao lado do irmo, atarefada com o cinto de segurana.
   Depois de apertar o seu cinto de segurana, Natalie ps o carro a trabalhar.
   - Depois do clube, vamos comprar mercearias.
   - Grande seca - disse Chad.
   - Sim, mam. Isso no tem graa nenhuma.
   Natalie sorriu por cima do banco.
   - Mas depois... - calou-se para lhes chamar a ateno. - Depois, vamos fazer uma coisa muito especial.
   - O qu? - quis saber Chad.
   - Bem, podemos ir ao Papa's Pizza ou, se preferirem, podemos ver se h algum filme bom no cinema. Ou podemos ir quele lugar enorme onde tem um golfe em miniatura.
   - A Fun Village? - perguntou Chad, incrdulo.
   - Isso, vamos  Fun Village. - No extremo do acesso, Natalie virou para a Old Mill Road, que tinha muito pouco trnsito quela distncia da cidade. Assim que 
entrou no asfalto, agitou o brao acima da cabea e gritou:
   - Viva! Vamos a caminho!
   - Viva! - guinchou Rosie. - Posso ir  catequese com a minha roupa nova!
   - E depois, talvez, vamos  Fun Village! - rematou Chad.
   Natalie dedicou a sua ateno  conduo. Depois de acertar os espelhos retrovisores, acelerou para oitenta, o limite de velocidade em zonas rurais no Oregon, 
e deu incio  longa viagem at  cidade, abrandando apenas quando surgia alguma curva. Aquele dia ia ser especial, pensou ela com um sorriso. Chad precisava de 
se distrair e Rosie tambm. Depois da Fun Village, talvez at os levasse ao parque para dar de comer aos patos, uma actividade bastante barata que os seus dois filhos 
apreciavam.
   Foi o ltimo pensamento racional de Natalie. No instante seguinte, deparou com uma curva mais apertada, e, quando usou o travo, o pedal ofereceu apenas uma resistncia 
momentnea antes de ceder por completo. Ela tentou pression-lo outra vez, mas no teve qualquer reaco.
   Agarrou o volante com as duas mos e concentrou-se em fazer a curva a alta velocidade. Os pneus do velho Chevy chiaram, a borracha tentando agarrar o asfalto.
   - Me? - disse Chad.
   - Ficmos sem traves - respondeu Natalie com o tom mais tranquilo que encontrou. - No desapertem os cintos e deitem-se de lado no banco.
   - Mas...
   - Faam o que vos digo! - ordenou ela.
   Depois, no houve mais tempo para conversas. Quando saram da curva, depararam com um camio de gado em marcha lenta. Natalie teve escassos segundos para reagir. 
Dos recantos sombrios da sua mente surgiu uma recordao da voz do seu pai: "Se alguma vez te falharem os traves quando estiveres a conduzir, reduz as velocidades 
e puxa o travo de mo." Usando todas as foras que tinha, Natalie agarrou-se  alavanca das mudanas. A transmisso do Chevy rangeu, o metal gemendo enquanto os 
dentes da engrenagem tentavam resistir. "No chega." Ela inclinou-se para a frente para agarrar o travo de mo, com uma prece nos lbios quando o puxou e as rodas 
ficaram bloqueadas. Com a desacelerao repentina, as traseiras do Chevy fugiram para o lado e o carro comeou a derrapar. Natalie teve de recorrer a toda a sua 
percia como condutora para recuperar o controlo do automvel.
   Naquele instante, o mundo que a rodeava pareceu desaparecer. Tudo o que ela podia ver era as traseiras daquele camio a aproximarem-se a uma velocidade apavorante. 
Sentiu mais do que viu o filho ainda sentado atrs dela.
   - Deita-te! - gritou ela. - J, Chad! P'ra baixo!
   
   Zeke marcou o nmero de casa de Natalie. Quando Naomi atendeu, disse-lhe:
   - Ol, Naomi, aqui fala o Zeke. Eu e os meus irmos estamos praticamente despachados por hoje aqui no clube. Eles tm famlia e, uma vez que  domingo, querem 
sair cedo. A Natalie disse-me que estava a pensar passar por c, mas ainda no apareceu. Antes de fechar tudo, achei melhor ligar para saber se ela ainda vem.
   - Oh, Zeke.
   O tom trmulo da voz de Naomi disse a Zeke que havia algo de terrivelmente errado.
   - O que foi? - perguntou ele.
   - A Natalie e os midos tiveram um acidente.
   O estmago de Zeke caiu-lhe aos ps.
   - Oh, meu Deus. Foi muito grave?
   - Bastante - respondeu Natalie, abalada. - Bateu na traseira de um camio de gado e caiu numa vala. O carro vai para a sucata.
   Zeke estava a borrifar-se para a porcaria do carro.
   - Mas como  que eles esto?
   - Esto no hospital. No sei mais nada. O Pete j foi para l. A Valerie e eu estvamos mesmo a sair quando telefonaste.
   Zeke nem sequer se despediu dela. Saindo a correr do clube, atirou as chaves da porta e do alarme a Jake:
   - A Natalie e os midos tiveram um acidente.
   J dentro da carrinha, estava a tremer tanto que no conseguiu inserir a chave na ignio. "A Natalie e os midos. Meu Deus." No sabia dizer quando comeara 
a amar tanto aqueles trs, mas a ideia de os perder fazia-o sentir-se como se lhe estivessem a arrancar o corao do peito.
   
   "Esperar." Zeke nunca gostara particularmente de esperar, mas agora era uma verdadeira tortura. Contando abstraidamente as manchas no cho de mosaicos cinzentos 
esverdeados, estava sentado numa cadeira de vinil verde na sala de espera das Urgncias, ao lado de Pete e de Naomi. Uma enfermeira fora falar com eles alguns minutos 
antes. Havia uma forte possibilidade de que Rosie tivesse uma concusso, e Chad fora levado para tirar radiografias, para saber se teria costelas fracturadas. Por 
milagre, Natalie escapara apenas com alguns arranhes e ndoas negras, a pior delas no peito, onde o volante lhe atingira o esterno.
   Valerie andava de um lado para o outro  frente de Zeke, roendo as unhas.
   - Odeio isto - queixou-se ela. - Porque  que no podemos entrar e ficar com eles?
   - Os cubculos so pequenos. Eles precisam de espao para trabalhar - respondeu Naomi calmamente. - A Natalie vem falar connosco assim que tiver novidades.
   - Bem, isto  uma grande porcaria! - exclamou Valerie. - Porque  que no tm ningum que venha falar com a famlia mais regularmente?
   - Pra de roer essas unhas de acrlico - disse Naomi. - Se as arrancas, estragas as verdadeiras.
   - Como se eu me importasse.
   Zeke perdeu-se nos seus pensamentos e teve de recomear a contar manchas. Nem sequer sabia por que motivo comeara a cont-las, mas agora no conseguia parar. 
"Trs, quatro - meu Deus, por favor - cinco, seis - eles tm de estar bem." Nunca fora um homem dado a oraes, mas agora estava a rezar. Rosie era to pequenina. 
Zeke encolhia-se interiormente sempre que pensava naquele crnio frgil e pequeno a bater nalguma coisa suficientemente rgida para lhe causar uma concusso. E Chad. 
As costelas fracturadas no eram apenas dolorosas, como tambm perigosas. Quando era pequeno, Zeke vira um homem praticamente afogar-se no seu prprio sangue devido 
a uma costela partida que perfurara o pulmo.
   - Podemos agradecer  nossa boa estrela - disse Pete pela ensima vez. - Vi o carro quando vim para a cidade.  como lhe digo, Zeke,  um milagre que eles no 
tenham morrido.
   Zeke limitou-se a assentir com a cabea. No conseguia falar. Queria ver Natalie - queria estar com ela e segurar-lhe na mo. Mas no era possvel. Apenas um 
membro da famlia imediata podia entrar, e ele no passava de um amigo.
   "Nunca mais", prometeu ele para consigo. Ia casar com aquela mulher antes que as ndoas negras desaparecessem. Nunca mais ficaria sentado numa sala de espera 
enquanto Rosie e Chad se encontravam deitados em macas das Urgncias. E se Rosie adormecesse e nunca mais voltasse a acordar? Ou se desenvolvesse um cogulo sanguneo 
no crebro? Zeke j ouvira dizer que tal podia acontecer depois de uma pancada forte na cabea.
   No parava de se recordar da primeira vez que vira Rosie - como invadira a sua cozinha, toda ela um par de olhos castanhos enormes e cabelo negro encaracolado, 
a tagarelar como uma gralha. Lembrou-se de ter pensado na altura que passava muito bem sem desenhos de crianas na porta do frigorfico. Agora, seria com prazer 
que forraria as paredes todas da casa com eles.
   E Chad. O rapaz passara por tanta coisa durante os ltimos meses. No precisava de danos fsicos para rematar o quadro. Pelo amor de Deus, ele tinha acabado de 
perder o pai.
   Deu por si a pensar mais uma vez no motivo do acidente. Segundo Pete, Natalie dissera qualquer coisa a respeito de perder os traves. "Raio de chocolateira." 
A partir dali, ela ia ter um carro decente. Ele certificar-se-ia disso.
   Quando achava que j no aguentava ficar mais tempo  espera, ouviu o som de botas na entrada das Urgncias. Levantou a cabea e viu Jake e Hank na porta giratria 
de vidro. Atrs, vinham os pais deles.
   Zeke levantou-se. "A minha famlia." O simples facto de ver aquelas caras deixou-o mais calmo, mais lcido.
   - Como  que eles esto? - perguntou Jake ao entrar na sala. - Telefonei para saber quando vnhamos para c, mas a menina que me atendeu no me disse nada de 
jeito.
   - A Natalie vai ficar boa - respondeu Zeke, abraando cada um dos irmos. - O jri ainda est em deliberaes em relao aos midos. A Rosie talvez tenha uma 
concusso, e eles acham que o Chad  capaz de ter algumas costelas partidas.
   - Ah, valha-me Deus - disse a me de Zeke enquanto se punha em pontas dos ps para lhe dar um beijo. - Viemos assim que soubemos. Graas a Deus no houve ferimentos 
graves.
   Depois de abraar a me, Zeke passou um brao em redor dos ombros do pai.
   - Obrigado por terem vindo.
   - Claro que tnhamos de vir! - exclamou Mary em tom repreensivo. - No achavas que te amos deixar passar por isto sozinho.
   Na realidade, ele pensara exactamente isso. Ainda no levara Natalie a conhecer os seus pais. Jake e Hank apenas a tinham conhecido por acaso.
   Recordando-se das suas maneiras, apresentou os seus pais e irmos  famlia de Natalie. Segundos depois, Naomi e Valerie estavam a um canto com Mary, a me de 
Zeke, as trs a conversar como velhas amigas sobre costelas partidas, concusses e acidentes rodovirios. Ainda que estivesse transtornado, Zeke no pde deixar 
de sorrir. Mary Coulter e Naomi Westfield eram to diferentes como a noite e o dia. A me de Zeke era uma senhora baixa, cheia, com olhos azuis alegres e um sorriso 
anglico que passava todo o seu tempo a fazer roupas em croch para os seus netos. Em comparao, Naomi era vistosa, preocupada com as roupas que vestia e com uma 
figura bem conservada.
   Quando Zeke dedicou a sua ateno aos homens, ouviu o seu pai dizer:
   - Pete Westfield, hmm. No nos conhecemos? No sei dizer quando nem onde, mas a cara e o nome no me so estranhos.
   - Por acaso, nunca nos conhecemos - respondeu ele. - Mas j nos cruzmos em assembleias e coisas do gnero. Tenho uma quinta na Old Mill Road.
   A partir dali, os dois homens mais velhos comearam a discutir as semelhanas entre uma quinta e um rancho. Hank e Jake foram ter com o irmo, fazendo-lhe perguntas 
sobre o acidente s quais Zeke no tinha como responder.
   - A Natalie disse qualquer coisa a respeito de ter ficado sem traves. Segundo o pai dela, enfiou-se na traseira de um camio de gado e o carro foi parar a uma 
vala.
   Jake fez um esgar.
   - Por sorte - prosseguiu Zeke -, o camio aguentou a pancada e no derrapou. Se tivesse, podia ter sido muito pior.
   Hank poisou uma mo no ombro do irmo.
   - Eles esto vivos. Isso  que  importante.
   Zeke expressou a sua preocupao com a possvel concusso de Rosie e as costelas partidas de Chad. Jake abanou a cabea:
   - Ests a deixar que o medo pense por ti, Zeke. Se eles nem sequer tm a certeza de que a menina tem uma concusso, um cogulo no crebro  muito improvvel. 
Acho que haveria sintomas inconfundveis se fosse alguma coisa to grave.
   Zeke respirou fundo.
   - Talvez tenhas razo.
   - Eu sei que tenho. Tu ests com medo e a imaginar tudo o que poderia ser pior. As costelas, por exemplo. Eles vo manter o rapaz com o tronco imobilizado at 
saberem com o que  que esto a lidar. Se ele no entrou com um pulmo perfurado, no  provvel que agora aparea com um.
   Uma nova dose de tenso abandonou o corpo de Zeke.
   - Meu Deus, ainda bem que vocs esto aqui. Tm razo, toda a razo. Eu estou a exagerar.
   Hank cruzou uma perna.
   - Isso mesmo. Relaxa, mano. Da prxima vez que a Natalie aparecer, ser com boas notcias. Os teus midos vo ficar bons.
   Pete ouviu o comentrio de Hank e olhou para Zeke.
   - Os seus midos, hmm?
   Zeke enfrentou o olhar do seu futuro sogro:
   - Sim, senhor. Tem algum problema com isso?
   Pete sorriu e abanou a cabea.
   - No. No tenho problema absolutamente nenhum.
   Quando Natalie saiu das Urgncias, toda a famlia de Zeke j se encontrava no hospital. A pequena sala de espera estava cheia de gente, e o nvel de rudo era 
quase ensurdecedor. Zeke levantou-se de um salto e venceu rapidamente a distncia que o separava da porta.
   

   
   Captulo Dezasseis
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   Natalie vacilou e agarrou-se  manga da camisa de Zeke para no perder o equilbrio.
   - Querida, ests bem?
   - Sim. Apenas ligeiramente tonta.
   Zeke afastou-lhe o cabelo da cara.
   - Di-te alguma coisa?
   - Estou um pouco dorida. - Ela encostou o ombro ao peito dele. - Fora isso, estou bem, acho eu. O mdico diz que fico como nova dentro de poucos dias.
   Zeke no tinha assim tanta certeza.
   - E os midos? - conseguiu ele finalmente perguntar.
   A sala mergulhou subitamente num silncio total. Zeke seguiu o olhar espantado de Natalie  medida que ela ia registando todos os olhos curiosos que a fitavam 
com ansiedade.
   - Quem  esta gente toda? - perguntou ela em voz baixa.
   - A minha famlia - respondeu ele. - O Jake e o Hank estavam comigo quando soube do acidente. Os outros vieram assim que souberam.
   Ela assentiu, mas a sua expresso manteve-se confusa.
   - A maioria deles nem sequer me conhece.
   Mary Coulter sorriu na sua cadeira ao canto da sala.
   - No te preocupes connosco, querida. Sei que falo por todos quando digo que no estamos  espera que faas cerimnia. Guardamos as apresentaes para outra altura.
   - Oh, meu Deus - piou Natalie. -  a tua me, no ?
   Zeke inclinou-se para sussurrar:
   - Esquece a minha famlia. Finge que no esto aqui. Como  que esto os midos? Isso  que importa.
   Ela passou uma mo trmula pelos olhos.
   - O mdico diz que eles podem ir para casa. Temos de vigiar a Rosie esta noite e acord-la de duas em duas horas. Ele ainda no excluiu a possibilidade de uma 
ligeira concusso. Tambm estava muito preocupado com as costelas do Chad, mas afinal no houve fracturas.
   Zeke quase gritou de alvio.
   - Ouviram? - Olhou em redor com um sorriso enorme na cara. - Os dois podem ir para casa!
   O nvel de rudo na sala de espera aumentou de novo, os membros das duas famlias exprimindo o seu alvio:
   - Graas a Deus!
   - Coitadinhos!
   - Notcias fantsticas!
   - Ligaram as costelas do Chad para reduzir a dor - prosseguiu Natalie. - E o mdico vai dar-me uma receita para o manter confortvel durante os prximos dias. 
- Franziu o sobrolho e pressionou a tmpora com um dedo. - Acho que vou ter de parar em algum lado para aviar a receita.
   Ao ver a sua cara exausta, a preocupao de Zeke aumentou. Queria l saber das regras do Servio de Urgncias. Ela passara por muita coisa e precisava de repouso.
   Zeke olhou para Pete com uma expresso plena de significado. O pai de Natalie apressou-se a agarrar a filha pelo brao:
   - Vem sentar-te um bocadinho, querida - disse ele em voz baixa.
   - No posso, pai. Tenho de...
   - A tua me e o Zeke tomam conta dos midos. - A voz de Pete tornou-se mais dura: - Tens de te sentar, nada de discusses. Eu trato de tudo a partir de agora. 
J fizeste bastante.
   Natalie deixou que o pai a levasse para uma cadeira. Zeke fez sinal a Naomi. Segundos depois, invadiam as Urgncias. Uma enfermeira baixa e ruiva avistou Zeke 
quase imediatamente e saiu de trs do balco.
   - Posso ajud-lo?
   - Estamos c com as crianas Patterson - respondeu ele. - A me sofreu um acidente com elas e est prestes a ir-se abaixo. Ns tratamos de tudo a partir de agora.
   - O senhor  parente?
   Zeke enfrentou o olhar da mulher sem vacilar.
   - Sou o padrasto das crianas. - Apontou para Naomi. -  a av materna.
   A enfermeira pareceu ficar satisfeita com a resposta e sorriu.
   - Eles esto nas camas cinco e seis. Corremos a cortina entre as camas. - Enquanto se dirigiam para os cubculos, ela continuou: - O mdico no deve demorar com 
algumas instrues a respeito dos cuidados a ter em casa. - Puxou uma cortina azul para trs. - Vou buscar outra cadeira.  s um minuto.
   Zeke viu as duas crianas e avanou entre as duas camas. Rosie tinha uma ndoa negra bastante feia na testa, mas estava a sorrir. A cara de Chad estava plida 
e Zeke percebeu pela sua expresso que o rapaz tinha dores, mas, fora isso, parecia estar bem. Zeke beijou Rosie e deu-lhe um abrao com cuidado. Deixou-a com a 
av enquanto dirigia a sua ateno para Chad.
   - Ento, parceiro? Estava muito preocupado contigo.
   Chad tentou sorrir, mas o resultado foi mais parecido com um esgar.
   - Estou bem. O mdico diz que s fiquei muito magoado.
   - Di como o raio, no di? - Zeke agarrou na mo do rapaz e apertou-a. - Eu sei como . Durante a prxima semana, prometo que no te fao rir e no deixo que 
te ponham pimenta na comida. A ltima coisa que queres fazer  espirrar.
   A segunda tentativa de um sorriso de Chad foi mais bem-sucedida. Zeke soube que o rapaz ia ficar bem quando ele lhe disse:
   - As minhas boxers e as calas esto num saco debaixo da cama. Ajuda-me a vesti-las, Zeke? No quero que a enfermeira me veja nu.
   Uma vaca estava sentada no peito dela. Natalie poisou as palmas das mos nos quartos traseiros do animal e empurrou com todas as suas foras, mas o estpido bovino 
recusou-se a mexer. Ela mal conseguia respirar. Expandir os pulmes era doloroso. Ela empurrou a vaca outra vez, ansiosa por se livrar dela.
   - Natalie, querida? Acorda. Est na hora de tomares o analgsico.
   Natalie pestanejou e viu Zeke debruado sobre ela. Quando se apercebeu de que tinha estado a empurrar os ombros dele, disse:
   - Oh. Julguei que eras uma vaca.
   Ele riu-se e levantou-lhe um dos braos para lhe beijar a palma da mo. Em seguida, recostou-se e fechou-lhe os dedos.
   - Agarra-o bem.  o nico tipo de beijo que vais receber durante alguns dias.
   Respirar era difcil, mesmo agora que estava acordada. Natalie engoliu com dificuldade.
   - O meu peito.
   - Segundo o mdico, aquele volante atingiu-te com imensa fora. Vais ficar bastante dorida durante algum tempo. - Agarrou num copo que estava na mesa-de-cabeceira. 
- Ele receitou-te um analgsico.
   O efeito da injeco que te deu nas Urgncias j est a passar. Deve ser por isso que no te sentes bem. - Passou-lhe uma mo por baixo da cabea. - No tentes 
sentar-te. Deixa-me tratar disto. Pode ser?
   Natalie assentiu debilmente e engoliu os comprimidos que ele lhe deu. Tinha a pele hmida de suor quando ele lhe apoiou a cabea nas almofadas.
   - Onde esto os midos? Eles esto...?
   - Esto muito bem. Os teus pais e a tua irm esto a tomar conta deles.
   Preocupada, Natalie sentiu um aperto no estmago.
   - Esto a acord-la de duas em duas horas?
   Zeke riu-se. Ela adorava aquele som, rico e profundo, que lhe subia do peito.
   - Primeiro, a Rosie teria de fechar os olhos. A Valerie alugou filmes, George na Selva, ou qualquer coisa do gnero, e um outro sobre um cavalo. Ela est instalada 
no sof como uma pequena princesa com os seus sbditos a fazer-lhe todas as vontades.
   Natalie reprimiu um bocejo e sorriu.
   - E o Chad?
   - A Valerie deu-lhe o novo livro do Harry Potter. Ele est demasiado drogado para o conseguir ler, portanto, ela est no quarto com ele, a ler em voz alta.
   Natalie fechou os olhos.
   - Ela no tinha dinheiro para comprar aquele livro! O que  que eu hei-de fazer com aquela rapariga?
   - Limita-te a gostar dela e empresta-lhe dinheiro quando tiver de pagar o seguro do carro.
   Natalie queria rir-se, mas o peito doa-lhe de mais. Abriu os olhos e limitou-se a sorrir de novo.
   - Tu s muito especial, sabias?
   - E tu tambm. Sabias? - Ele passou-lhe a ponta de um dedo pela face. Ela adorava aquela aspereza quente contra a sua pele. - Ia morrendo quando a tua me me 
disse que vocs tinham sofrido um acidente. At quele momento, eu sabia que te amava, mas no tinha noo do quanto gostava dos teus filhos.
   - Oh, Zeke - disse ela, sentindo um ardor nos olhos.
   - A srio. Fiquei com tanto medo que nem conseguia meter a chave na ignio, e foi um milagre ter conseguido chegar ao hospital sem ser eu a provocar um acidente. 
- Levou a ponta do dedo at aos lbios dela. - Decidi que tens de te casar comigo. Nada de noivados demorados, nada de fantasias. Quero isto para ontem. S me deixaram 
entrar nas Urgncias quando menti e disse que era o padrasto dos midos.
   Natalie sentiu as plpebras comearem a pesar. Pestanejou e fez um esforo para continuar acordada.
   - Desculpa. No consigo manter os olhos abertos.
   - No peas desculpa. S tens de dizer que sim.
   Ela no conseguia lembrar-se muito bem da pergunta.
   - Sim - murmurou ela antes de regressar aos seus sonhos, encantadores desta vez, com um homem de cara morena e olhos da cor de um cu de Vero.
   Zeke estava deitado ao lado de Natalie por cima das cobertas. Deixara a porta do quarto aberta, mas apagara a luz para no lhe perturbar o sono. De vez em quando, 
Naomi aparecia para ver como estava a sua filha. A resposta de Zeke era sempre a mesma. Natalie parecia estar a dormir pacificamente.
   Era quase meia-noite. Zeke escutava os sons da noite que entravam pela janela aberta. Rs, grilos, e um mugido ocasional vindo do celeiro. Fechou os olhos e agradeceu 
a Deus o facto de Natalie e os seus filhos estarem bem - de ele poder estar ali deitado, em paz e a considerar com prazer um futuro com todos eles. A descrio que 
Pete fizera do carro de Natalie fora assustadora. Tinha sido por pouco, por muito pouco. Num abrir e fechar de olhos, Zeke podia t-la perdido, assim como os filhos 
dela. S de pensar nisso, sentia um aperto no estmago.
   Falha dos traves. Zeke no parava de pensar naquilo, custando-lhe a acreditar que os traves teriam deixado de funcionar daquela maneira sem qualquer aviso anterior. 
Na maior parte das vezes, quando o nvel do leo descia demasiado ou as pastilhas comeavam a desgastar-se, surgiam indcios muito antes de os traves falharem por 
completo. Pete tambm achava estranho. Dizia que tinha colocado o Chevy num elevador, fazendo-lhe uma inspeco completa antes de Natalie o ter comprado no Inverno 
anterior. Na altura, os traves estavam como novos.
   Zeke suspirou e fechou os olhos, ficando sonolento com o som da respirao lenta e regular de Natalie. J quase adormecera quando Chester grasnou algures no exterior. 
Aquele som f-lo despertar. Ficou um momento  escuta. O ganso no voltou a manifestar-se, uma indicao de que o barulho inicial no tivera importncia. Mesmo assim, 
Zeke levantou-se e aproximou-se da janela. Ao olhar para as sombras da noite, recordou-se da histria de Natalie, sobre a presena de um estranho durante a noite 
anterior. Algum  volta dos carros, dissera ela, um homem ou um adolescente, a avaliar pela altura.
   Uma suspeita terrvel surgiu na mente de Zeke. Era to absurda que ele a rejeitou rapidamente. A morte de Robert estava a afectar-lhe o raciocnio, decidiu ele. 
Quem poderia querer ver Natalie morta? E se fosse esse o caso, por que motivo lhe sabotaria os traves do carro? Qualquer pessoa com dois dedos de testa perceberia 
que estaria a pr em risco os filhos dela ou outros passageiros.
   Zeke passou uma mo pelo cabelo e voltou para a cama. Tentou descontrair e dormir uma sesta, mas aquela suspeita no o largava. Uma falha sbita dos traves. 
Robert fora assassinado apenas h alguns dias. Natalie estava em casa dele quando o homicdio fora cometido. E se ela tivesse visto alguma coisa que pudesse incriminar 
o assassino - algo que ela no considerara relevante na altura?
   Se algum matava uma vez, podia matar de novo, especialmente se uma certa senhora bonita tivesse visto algo que pudesse colocar uma corda  volta do pescoo desse 
algum.
   Zeke levantou-se de novo. Desta vez, ignorou a janela e desceu ao rs-do-cho para discutir as suas suspeitas com Pete.
   - Acha que eu estou maluco? - perguntava ele ao pai de Natalie poucos minutos depois.
   Pete serviu mais um bourbon para os dois, uma reserva secreta que ele mantinha no armrio do seu quarto. Ao que parecia, Charlie gostava de beber o seu copo  
noite, e Pete no queria que o velhote se habituasse.
   -  estranho que os traves tenham falhado daquela maneira - reconheceu Pete. Os seus olhos azuis tornaram-se mais escuros com a preocupao. - Francamente? No 
quero acreditar que algum mexeu no carro dela. Deixa-me apavorado. Mas, dito isto, no posso excluir essa possibilidade. Quando os traves falham de repente, como 
a Natalie descreveu, aconteceu alguma coisa aos cabos.
   - O que por vezes acontece em circunstncias completamente normais. Mas no  habitual. - Zeke bebeu o seu bourbon de uma assentada e poisou o copo na mesa. - 
Da maneira que eu vejo as coisas, acho que devamos fazer uma visita  sucata e dar uma vista de olhos ao carro.
   Pete inclinou a cabea.
   - Conte comigo. No faz mal nenhum dar uma olhadela. Se no encontrarmos nenhuma coisa esquisita, podemos ficar descansados.
   s nove e meia da manh seguinte, Zeke estava deitado de costas por baixo do que restava do Chevy de Natalie. Tinha inspeccionado os traves no outro lado do 
veculo e no descobrira nada fora do vulgar. Quando comeou a verificar o lado direito da traseira, chamou Pete.
   - Bem, parece que eu estava maluco, afinal. Tanto quanto consigo ver, no h problema nenhum. O raio dos traves devem ter falhado e pronto.
   - Antes assim. - Pete estava acocorado ao lado do pneu. - Prefiro que seja uma caa aos gambozinos do que descobrir que algum a tentou matar.
   Zeke estava prestes a sair de debaixo do carro quando se recordou de verificar a vlvula de sangramento.
   - Filha da me!
   - O que foi? - Pete ajoelhou-se para espreitar. - Encontrou alguma coisa?
   - Pode crer que encontrei. Algum abriu a vlvula de sangramento.
   - O qu?
   - A vlvula est aberta - repetiu ele. - Sempre que ela usava o travo, o leo do circuito traseiro ia escorrendo. H muitas curvas na Old Mill Road. Quando ela 
chegou quela mais apertada, o leo j se devia ter escoado todo.
   Pete praguejou entre dentes. Zeke saiu de debaixo do carro para verificar o travo dianteiro do mesmo lado. Descobriu a mesma coisa.
   - Meu Deus. Eu no estava maluco, Pete. Algum mexeu nos traves.
   Meia hora depois, Zeke e Pete estavam diante da secretria do detective Monroe. O detective inclinara-se para trs o mais que lhe era possvel.
   - Vamos ver se nos acalmamos, meus senhores - disse ele.
   - Isso  que era bom! No me acalmo, coisa nenhuma! - Zeke plantou as mos no mata-borro e inclinou-se, ficando cara a cara com o detective. - Algum tentou 
matar a Natalie Patterson. Mande um dos seus homens inspeccionar os traves do carro dela. As vlvulas de sangramento,  frente e atrs, estavam abertas. Sempre 
que ela tocava no pedal, perdia leo. Quem fez isto, queria que ela morresse naquele acidente, Monroe. O limite de velocidade naquela estrada  de oitenta, excepto 
nas curvas. Alguma vez deu por si a acelerar numa estrada estreita, encontrou uma curva, e ficou sem traves?
   - No, no posso dizer que me tenha acontecido. - Monroe passou uma mo pela cabea quase careca. - Oia, entendo que esteja perturbado. Foi um acidente grave, 
e havia crianas no carro. Mas ter de admitir que essa histria  um pouco rebuscada. Um ganso vai atrs de um desconhecido a meio da noite. Na manh seguinte, 
os traves da Sra. Patterson falham. Voc est a tirar concluses e a associar os incidentes ao homicdio. No meu trabalho, aprendemos cedo a no unir os pontos 
a no ser que a imagem faa sentido, e esta no faz.
   - Porque no?
   - Segundo a sua teoria, a Sra. Patterson viu alguma coisa que poder implicar o assassino quando estava no interior da casa. - O detective Monroe ergueu as sobrancelhas 
farfalhudas. - Diga-me, ento, o que  que ela poder ter visto?
   Zeke olhou-o nos olhos. Subitamente, pareciam to vtreos e inanimados como os de uma serpente.
   - Desculpe, mas parece-me que estou do lado errado desta secretria para ouvir essa pergunta. As vlvulas de sangramento daquele carro estavam abertas. Algum 
mexeu naqueles traves para que a Natalie tivesse um acidente ao sair da quinta. Em qualquer direco, o limite de velocidade  de oitenta, e ela teria encontrado 
curvas apertadas. Na semana passada, ela passeou-se pela casa do Robert Patterson,  procura de copos enquanto ele muito provavelmente estava a ser assassinado na 
garagem. Se o senhor no  capaz de unir esses pontos e ver que existe uma forte possibilidade de ela ter visto alguma coisa que no devia, parece-me que voc est 
na profisso errada.
   - Essa  a histria da Sra. Patterson.
   Zeke estava cada vez mais furioso.
   - Mas voc no acredita?
   - No interessa se eu acredito ou no. Tenho de considerar os factos, Sr. Coulter, e, neste momento, ela  a nica pessoa com um motivo para querer ver o Robert 
Patterson morto.
   - A nica pessoa que voc descobriu - emendou Zeke. - E a nica pessoa que vai encontrar se no tirar a cabea do cu.
   Monroe levantou-se.
   - Tanto quanto sei, at pode ter sido a Sra. Patterson quem abriu o raio das vlvulas de sangramento. Agora que a venda da quinta chegou ao nosso conhecimento, 
ela  a principal suspeita, e ela sabe-o. Pode estar a sentir-se desesperada. Que melhor maneira de desviar as suspeitas da sua pessoa do que encenar uma tentativa 
de homicdio contra ela prpria?
   Nunca na sua vida Zeke teve tanta vontade de bater em algum.
   - Os filhos dela estavam no raio do carro, Monroe. No pode acreditar que ela poria a vida deles em risco, intencionalmente!
   O detective encolheu os ombros.
   - Isso depende completamente do tipo de pessoa que ela . Se assassinou o ex-marido,  obvio que no atribui grande valor  vida humana, no lhe parece?
   Pete agarrou no brao de Zeke.
   - Ento, rapaz? Se vais parar  cadeia no nos podes ajudar.
   Zeke libertou o brao com uma sacudidela e apontou o dedo ao nariz do detective.
   - Quero falar com o seu superior, imediatamente. Quero aqui uma testemunha de que estamos a participar uma tentativa de homicdio contra a Sra. Patterson e voc 
est a ignorar-nos.
   - Posso perguntar porque  que acha que isso  necessrio?
   Zeke endireitou a camisa e fez um esforo para se acalmar. Respirou fundo e retribuiu o sorriso de Monroe.
   - Una os pontos, detective.
   A cara de Naomi perdeu a cor quando Pete lhe contou que algum tinha mexido nos traves do carro de Natalie. Olhou atnita para Zeke e abanou a cabea.
   - O que  que ests a dizer?
   Pete passou os dedos pelo cabelo grisalho.
   - Eu sei que  assustador, querida. Tambm no quero acreditar. Mas aquelas vlvulas no se abrem sozinhas. Algum tentou matar a nossa filha.
   Nomi abanou a cabea outra vez.
   - Ela no tem inimigos. Porque  que algum haveria de a querer matar?
   Zeke explicou a sua teoria, segundo a qual Natalie talvez tivesse visto alguma coisa que no devia quando estava  procura dos copos em casa de Robert.
   - Talvez o carro do assassino estivesse estacionado na rua. Talvez ele tenha deixado um isqueiro com monograma na mesa de caf. Talvez ele estivesse mesmo dentro 
de casa e pense que ela o viu. Sabe Deus. S posso dizer com toda a certeza que algum tentou certificar-se de que ela tinha um acidente grave. - Olhou para Pete. 
- Voc no se cansava de repetir isto ontem. Foi um milagre eles terem escapado daquele acidente com vida.
   - Isto  uma loucura. - Naomi tapou os olhos com uma mo. - Parece que estamos a ver uma reposio da srie Lei & Ordem. Coisas destas no acontecem a pessoas 
como ns.
   Pete passou-lhe um brao pelos ombros e levou-a para uma cadeira. Uma vez sentada, ela afastou a mo dos olhos.
   - Como  que algum pode querer mat-la? Vocs devem estar enganados. Se ela tivesse visto alguma coisa dentro daquela casa, ela sabia, ou no?
   Pete levantou as mos.
   - S Deus sabe o que ela viu, mas pode ter visto qualquer coisa.  a nica explicao que eu e o Zeke encontramos.
   Pela primeira vez desde que Zeke a conhecera, Naomi aparentava a sua idade real. A cara tornara-se cor de cinza. A pele parecia cera que tivesse derretido e comeado 
a escorrer, fazendo com que as rbitas e as bochechas parecessem mais encovadas.
   - Se vocs tm razo e algum tentou mat-la, esse algum pode tentar outra vez.
   Zeke sentou-se do outro lado da mesa e agarrou-lhe na mo.
   - No vamos deixar que isso acontea - garantiu-lhe ele.
   Naomi endireitou os ombros e um pouco de cor voltou ao seu rosto.
   - Como  que a podemos proteger?
   Zeke inclinou-se para trs.
   - Primeiro que tudo, no a podemos deixar sozinha. E se no estiver comigo ou com o Pete, acho que ela no deve sair de casa.
   - Ento e o clube? As remodelaes esto praticamente acabadas. Ela no pode deixar o negcio ir ao fundo. Como  que ela se sustenta a ela e aos filhos?
   Zeke quase disse que, a partir daquele momento, ele tomaria conta de Natalie e dos midos, mas o problema tinha outras implicaes. O clube no era apenas uma 
fonte de rendimento para Natalie, mas sim um componente necessrio daquilo que ela era enquanto pessoa.
   - Quando ela for trabalhar, O Pete ou eu vamos com ela - acabou ele por dizer. - Entretanto, temos de descobrir outras pessoas que tivessem um motivo para matar 
o Robert. Na situao actual, o Monroe continua concentrado na Natalie.
   - Ento, porque  que no a prendeu? - perguntou Naomi.
   - Provavelmente, ainda no tm um caso muito forte que o justifique.
   Naomi levantou-se e comeou a andar de um lado para o outro.
   - E, entretanto, no andam  procura do verdadeiro assassino.
   -  muito provvel que no. Acham que a apanharam. S tm de o provar.
   - Como  que vamos procurar outros suspeitos? - perguntou Pete.
   Zeke mudou o saleiro de lugar.
   - Comeamos com a Grace Patterson. Talvez ela saiba alguma coisa. Se no souber, falamos com as namoradas do Robert. Algum odiava-o o suficiente para o querer 
morto. S temos de descobrir quem.
   Natalie entrou na cozinha naquela altura. Parou diante da porta, a sua expresso tornando-se inquiridora quando viu os trs a falar em voz baixa e com um ar to 
srio.
   - O que foi? - perguntou ela.
   Zeke no queria sobrecarreg-la ainda mais. Ela encontrava-se ligeiramente curvada, como se endireitar a coluna fosse demasiado doloroso. Infelizmente, no era 
um assunto que lhe pudessem esconder.
   - Vem sentar-te aqui, querida - disse ele.
   Uma expresso desconfiada apoderou-se dos olhos de Natalie quando se dirigiu para a mesa. Caminhava como se o cho fosse feito de cascas de ovo, um indicador 
de que no era apenas o peito que lhe provocava desconforto. Considerando o facto de que o seu Chevy se assemelhava a uma lata de alumnio esmagada, Zeke no estava 
surpreendido. Ela tinha sorte em estar viva.
   Quando se sentou, Natalie disse  me:
   - Vim c abaixo buscar mais sorvete e 7 Up para o Chad. O analgsico ainda est a afectar-lhe o estmago.
   Naomi levantou-se.
   - Eu trato disso. - Diante do frigorfico, perguntou-lhe: - Como est a Rosebud?
   - Aborrecida - respondeu ela com um sorriso dbil. - A Valerie est prestes a desistir de a manter na cama. Acho que ela vai ficar boa. - Olhou para Zeke e para 
o seu pai. - Vocs estavam a falar sobre qualquer coisa sria quando eu entrei. Vo dizer-me o que , ou no?
   Zeke olhou para Pete. O homem mais velho esfregou o queixo, aparentemente com pouca pressa em responder  pergunta da filha. Zeke inclinou-se para a frente, cruzou 
os braos sobre a mesa, e, com o maior cuidado possvel, contou a Natalie o que tinham descoberto na sucata. Ao ouvir aquilo, os olhos dela ficaram quase negros 
de pavor.
   - Vocs acham que algum tentou matar-nos? - perguntou ela incredulamente.
   Zeke desejava de todo o seu corao que no fosse necessrio sobrecarreg-la com aquele assunto.
   - Por acaso, querida, parece-me que a presena dos midos foi pura coincidncia. Quem mexeu nos teus traves estava a tentar apanhar-te a ti, no a eles.
   A garganta dela agitou-se, a pequena laringe subindo e descendo como um berlinde abaixo do queixo.
   - Mas isso  uma loucura. Eu no vi nada em casa do Robert.
   - Deves ter visto alguma coisa - insistiu Zeke brandamente.
   - Quando l chegaste, lembras-te de algum carro estacionado na rua?
   Ela abanou a cabea.
   - Nem sequer reparei. Na altura, no sabia que tinha de prestar ateno a esse gnero de coisas.
   - Ento, e quando entraste? - Zeke sentia-se um pouco tolo, uma verso masculina da Nancy Drew,  procura de pistas. S que aquilo no era um jogo. Ele acreditava 
que a vida de Natalie estava em risco.
   - Mesmo que no lhe tenhas dado importncia na altura, deves ter visto alguma coisa que implicasse o assassino, querida. - Comeou a referir algumas hipteses, 
mas ela limitou-se a abanar a cabea. - Regressa ao momento em que entraste - sugeriu-lhe ele - e diz-nos o que viste, sala a sala.
   Naomi aproximou-se da mesa, as suas mos ocupadas com um copo e uma tigela. Deixou-se ficar enquanto Natalie se lanava numa descrio hesitante da residncia 
de Robert Patterson. A imagem que comeou a formar-se na mente de Zeke era de uma opulncia vistosa: esttuas douradas, quadros emoldurados a ouro, mobilirio sado 
de um estdio de Hollywood. Tornava-se claro que Robert apreciava o luxo, mas, fora isso, nada do que Natalie dizia parecia ser significativo.
   - Volta atrs - disse ele quando ela comeou a descrever o escritrio. - O que  que disseste? - Ela olhou para ele, sem perceber.
   - Viste documentos na secretria dele?
   Ela assentiu.
   - Por acaso,  estranho, porque o detective Monroe disse-me que no tinham encontrado documentos na secretria. - Ela encolheu os ombros. - Pensei que no tivessem 
importncia e que um dos investigadores os tivesse mudado de lugar ou qualquer coisa do gnero.
   Uma sensao gelada comeou a subir pela coluna de Zeke.
   - Viste-os bem?
   - No, nem por isso. Pouco depois de os ter visto, reparei nos copos da av Devereaux.
   Outra vez o raio dos copos.
   - Pensa, Natalie. Pode ser muito importante. Reparaste nalguma coisa nesses papis?
   As sobrancelhas dela uniram-se.
   - Era alguma espcie de contrato. Lembro-me de pensar na altura que me estava a borrifar para os negcios do Robert, e foi ento que vi os cristais. Fiquei to 
irritada que no voltei a olhar para os papis.
   - Mas o Monroe diz que o contrato no estava l?
   - Achas que  isso, no ? - perguntou ela, olhando-o nos olhos.
   - Alguma coisa naquele contrato identificava o assassino. O corao de Zeke estava a bater muito depressa.
   - Acho que  muito provvel que tenhas visto o nome no contrato e no tenhas dado por isso.
   Quando Zeke telefonou ao detective Monroe alguns minutos depois, o agente revelou-se muito pouco amistoso. Zeke foi direito ao assunto.
   - No havia documentos na secretria do Sr. Patterson - insistiu Monroe depois de Zeke lhe ter explicado. - Eu fui um dos primeiros a entrar e tomei notas meticulosas. 
No havia contrato nenhum, Coulter. Se houvesse, eu tinha-o visto.
   - Isso no exclui a possibilidade de estar l quando a Natalie entrou no escritrio.
   - O que  que me est a dizer, que ganhou pernas e foi-se embora?
   Zeke tomou nota mentalmente da necessidade de fazer com que
   aquele homem fosse despedido assim que tudo estivesse resolvido.
   - No, estou a dizer que algum o tirou da secretria. Quando ia a sair, a Natalie ouviu uma porta fechar-se algures no interior da casa. O assassino ainda devia 
estar l dentro.
   -  uma teoria interessante, Sr. Coulter, mas eu  que sou o detective encarregado do caso. Porque  que no se acalma e me deixa fazer o meu trabalho?
   - Porque, pelo que estou a ver, voc no est a faz-lo - respondeu Zeke. - Aquela mulher... a namorada do Patterson. Ela diz que o Robert recebeu um telefonema 
e a mandou fazer compras durante algumas horas. Ele e essa pessoa conversaram no estdio enquanto bebiam alguns copos de vinho. Podiam estar a discutir algum negcio.
   - Sim, ou podia ser um encontro entre ex-cnjuges para discutir a venda de uma certa quinta.
   O sangue de Zeke gelou. Naquele momento, teve a certeza de que a Polcia estava concentrada quase exclusivamente na hiptese de Natalie ser a assassina.
   

      
   Captulo Dezassete
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   Ainda naquela tarde, quando Zeke e Natalie foram visitar Grace Patterson, ela serviu-lhes um ch. Zeke ficou fascinado com ela. At ento, j conhecera algumas 
pessoas ricas, mais recentemente as mais ricas de todas elas: a famlia Kendrick. Mas nunca encontrara ningum to dado  ostentao como a me de Robert. Fazia-o 
pensar numa personagem em palco, os adereos que a rodeavam cuidadosamente escolhidos e organizados para transmitir a sua majestosa importncia.
   Quando os recebeu  porta, trazia vestido uma tnica e umas calas pretas de tecido macio e sedoso que parecia adejar sempre que ela se movia. Com a sua pele 
plida e cabelo loiro, o efeito era impressionante, o que, para ele, deveria ser o objectivo pretendido. As mulheres da sua posio social vestiam-se sempre para 
afirmar alguma coisa, pensou ele, mesmo quando estavam de luto. Para rematar a indumentria, usava sapatos pretos de salto baixo debruados com penas. Deviam ser 
chinelos, calculou ele, porque ningum no seu juzo perfeito usaria aquilo na rua.
   Ela levou-os para uma bela sala  direita do hall de entrada onde era visvel uma coleco do que pareciam ser antiguidades bastante dispendiosas. Perto da lareira, 
o lanche aguardava-os numa mesa de ch rodeada por quatro cadeires de orelhas. Ele no se surpreendeu quando a viu sentar-se primeiro. Algum com a sua linhagem 
real no podia ficar de p enquanto as outras criaturas inferiores se sentavam.
   - Faam o favor, sentem-se - disse ela com um tom suficientemente caloroso para parecer sincero, mas com a frieza necessria para dar a entender que a visita 
era um incmodo.
   Natalie, ainda muito desconfortvel devido ao acidente, no hesitou em obedecer. Zeke quase teve medo em depositar o seu peso considervel na cadeira ao lado 
dela. Com a sorte que tinha, ainda a poderia partir. Enquanto se baixava lentamente, registou a incrvel variedade de pequenos bolos, bolachas, e pequenas sanduches 
dispostos em pratos de flores com filete dourado. Eles estavam ali para falar, no para comer.
   Ao servir o ch com uma preciso fruto da prtica, Grace disse:
   - Estou encantada com a tua visita, Natalie, mas devo confessar alguma estranheza. Disseste ao telefone que querias fazer-me algumas perguntas?
   Natalie aceitou a chvena e o pires que Grace lhe ofereceu. Com o pires na mo esquerda, recostou-se na cadeira, usando a direita para beber da pequena chvena. 
Parecia sentir-se mais  vontade do que ele naquele ambiente.
   - As crianas e eu sofremos um acidente bastante grave ontem, Grace.
   A me de Robert quase derramou o seu ch.
   - Oh, valha-me Deus - disse ela. - O Chad. Ele est bem?
   Os olhos de Natalie brilharam de fria.
   - Ficou com as costelas bastante magoadas, mas, fora isso, est bem. A Grace tem dois netos. No est preocupada com a Rosie?
   As bochechas de Grace ficaram rosadas com a mesma rapidez com que tinham empalidecido.
   - Claro que estou. Como  que ela est?
   - Sofreu uma pancada muito forte na cabea - respondeu Natalie. - Felizmente, parece que no tem uma concusso.
   - Graas a Deus. - Grace poisou a chvena no pires sem que a porcelana fizesse qualquer rudo. - Fico aliviada por saber que os dois esto bem.
   O dedo de Zeke no cabia na asa da chvena. Como tal, teve de a agarrar com o polegar e o indicador.
   - Por acaso, Sra. Patterson, a Natalie exprimiu-se mal. Eles no sofreram um acidente.
   Os olhos azuis de Grace arregalaram-se.
   - O que quer dizer com isso?
   - Quero dizer que algum tentou matar a Natalie ontem. Por acaso, as crianas estavam no carro quando aconteceu.
   - Meu Deus - murmurou Grace.
   Natalie parecia to esgotada que Zeke assumiu o comando, contando a Grace a histria desde o princpio at ao fim.
   - Acreditamos que o nome do assassino do seu filho estava naquele contrato, Sra. Patterson, e que ele pensa que a Natalie o deve ter visto. Para no correr o 
risco de ser desmascarado, pensamos que ele est a tentar calar a Natalie antes que ela se recorde do que viu e v falar com a Polcia.
   Grace comeou a puxar nervosamente pelas volumosas mangas da sua tnica e, de repente, poisou a chvena na mesa, levantou-se e dirigiu-se a uma escrivaninha que 
estava encostada  parede. Quando voltou para a sua cadeira, trazia uma garrafa de usque. Deitou uma poro generosa na sua chvena e empurrou a garrafa na direco 
de Zeke.
   - No, obrigado - disse ele. - Tenho de conduzir.
   Zeke olhou para Natalie. A sua expresso dizia-lhe mais claramente do que quaisquer palavras que ela nunca vira a sua ex-sogra naquele estado. A mulher despejou 
a sua chvena em quatro goles e serviu-se de mais uma dose de usque. A primeira pareceu acalm-la um pouco. Encostou-se ao espaldar almofadado da cadeira para consumir 
a segunda mais lentamente.
   - Ningum sabe mais do que eu sobre os negcios do Robert - disse ela, abalada. - Se algum est a tentar matar a Natalie, no existir uma forte probabilidade 
de tambm querer fazer o mesmo comigo?
   At quele momento, Zeke estivera a fazer o seu melhor para tentar gostar daquela mulher. Agora, a repulsa ardia-lhe no fundo da garganta como um cido. Ela no 
estava preocupada com Natalie nem com os netos dela, apenas consigo prpria. Lanou-lhe um olhar demorado, medindo-a de alto a baixo: decidiu que, quanto mais assustada 
ela estivesse, mais til poderia ser, e respondeu:
   - Tem toda a razo. No tinha pensado nisso. Ele pe vir atrs de si.
   Ela bebeu mais um pouco de usque.
   - Eu no me cansava de dizer ao Robert para se endireitar. Acham que ele me dava ouvidos? Agora, est morto e a seguir posso ser eu.
   - Lanou um olhar de pnico a Zeke. - O que  que hei-de fazer, contratar segurana permanente? Onde  que se pode encontrar um guarda-costas?
   Pessoas como Natalie tinham voluntrios para as proteger, pensou ele. Algum como Grace Patterson tinha de pagar por esse tipo de lealdade.
   - Uma empresa de segurana pode ser um bom lugar para comear
   - respondeu ele, pouco convicto de que ela poderia correr perigo. - Se no a puderem ajudar, talvez eu conhea algum que o possa fazer.
   Grace levantou-se da cadeira. Zeke deteve-a com um:
   - Primeiro, o mais importante. Contratar proteco  uma medida de recurso, Sra. Patterson. A senhora no pode viver apavorada durante um longo perodo de tempo. 
- Quando ela tentou levantar-se de novo, ele acrescentou: - At os melhores agentes comeam a relaxar a guarda passado algum tempo. Se o assassino quer livrar-se 
de si, h-de esperar pela sua oportunidade, e acabar por encontrar uma falha na sua segurana. - Ficou  espera que ela se sentasse. Ento, prosseguiu: - A primeira 
coisa, e a mais importante, que temos de fazer  fornecer mais dados  Polcia. Enquanto o assassino do seu fdho estiver  solta, a senhora corre grande perigo, 
assim como a Natalie e as crianas.
   Com um par de olhos enormes e implorativos, Grace perguntou-lhe:
   - O que  que quer saber?
   s quatro da tarde, Zeke teve o dbio prazer de visitar mais uma vez o gabinete do detective Monroe. O agente anafado de meia-idade pareceu ficar to contente 
quanto ele quando o viu. Instalaram-se em lados opostos da secretria de metal cinzento, fitando-se como adversrios num combate mortal. Zeke atirou uma folha de 
papel para cima do mata-borro.
   - Fui visitar a me do Robert Patterson esta tarde. Ela deu-me uma lista de indivduos que tinham motivos para querer ver o filho dela morto. A maioria dos nomes 
 duvidosa: namoradas abandonadas, alguns empresrios enganados, esse gnero de coisa. Mas o jovem que se encontra no topo da lista merece alguma investigao. O 
Robert aldrabou-o em mais de quatro milhes de dlares.
   Monroe desdobrou o papel, olhou para o nome e disse:
   - Continue.
   - Stan Ragnor, trinta e poucos anos, agente imobilirio com um curso de agrimensor que trabalha por conta prpria.  um tipo esperto com faro para terras urbanizveis. 
H um ano, descobriu uma grande parcela de terreno de primeira para o Robert aqui mesmo, nos arredores de Crystal Falls, quarenta hectares loteados para habitao 
rural, cada lote com uma rea mnima de quatro hectares.
   - Eu sei o que  um loteamento de habitao rural, e ele ainda no me parece um assassino. - Monroe largou a folha. - V direito ao assunto.
   - Este Ragnor  ganancioso. Voltou  universidade depois dos vinte anos para conseguir o curso de agrimensor, trabalhou durante algum tempo no terreno na Califrnia, 
e depois voltou para o Oregon, decidido a triunfar por aqui. Teve a ideia de vender terrenos, apercebeu-se rapidamente de que a sua especialidade eram os loteamentos, 
acabou por estabelecer-se por sua conta, e estava a preparar-se para ganhar a sua primeira fortuna quando deu de caras com o Robert Patterson. Infelizmente para 
ele, ainda era muito verde no que tocava a negociaes e pensou que a palavra de um homem ainda valia alguma coisa.
   - Em que  que isso o associa ao homicdio?
   - Oia-me at ao fim. O Ragnor tinha feito as suas pesquisas e tinha descoberto que a cidade de Crystal Falls e o condado tm um plano conjunto de desenvolvimento 
de vinte anos para expanso urbana. Em certas zonas dentro de um raio de quinze quilmetros da cidade,  permitida a reclassificao de terrenos actualmente considerados 
de habitao rural, passando a ser classificados como de densidade urbana padro. O Ragnor andou de porta em porta, a tentar convencer os proprietrios numa dessas 
reas a entregar-lhe as suas parcelas de quatro hectares para urbanizao. No total, conseguiu juntar mais de quarenta hectares contguos, uma verdadeira mina de 
ouro. Depois, fez todo o trabalho necessrio para garantir que sistemas de esgotos, acessos, e estudos de trnsito no constitussem um entrave ao loteamento. Quando 
j tinha um pacote  prova de bala, apresentou-o ao Robert, um dos maiores urbanizadores da cidade.
   - Continue - disse Monroe, revelando agora um pouco mais de interesse.
   Zeke chegou-se  frente na cadeira.
   - Em negcios como este, um agente imobilirio pode entrar a matar se souber jogar as cartas certas. Quando o Ragnor apresentou o negcio ao Robert, pediu-lhe 
um contrato exclusivo de trs por cento sobre todos os lotes, assim como sobre todas as casas que um dia seriam construdas nos mesmos. Era uma excelente oferta 
para o Robert, sensivelmente um quinho de cinquenta por cento nas comisses de transaco, e era igualmente lucrativa para o Ragnor. Faa as contas. Em mdia,  
possvel conseguir cinquenta lotes em cada quatro hectares, vendendo-os por noventa a cem mil dlares cada. O Ragnor ia ganhar mais de um milho apenas com a venda 
dos lotes, mais um valor de trs milhes pelas casas, que seriam vendidas por, pelo menos, duzentos mil cada uma, sendo mais provvel que chegassem aos quatrocentos, 
o que duplicava a parte dele.
   Monroe assobiou baixinho.
   - O rapaz ia ganhar uma pipa.
   - Exactamente. Em troca, aceitou apresentar o projecto de urbanizao  cmara no lugar do Robert, reunindo-se com os engenheiros e os urbanistas. Foi ele quem 
descobriu as terras, negociou a venda com os proprietrios, e depois esfalfou-se para preparar o negcio, convencido de que o Robert cumpriria o prometido quando 
as terras fossem loteadas. No fim, o Robert deixou-o de fora.
   Monroe alou as sobrancelhas.
   - Parece-me que esse Ragnor  um tolo. Hoje em dia, ningum faz negcio sem um contrato.
   - No estou aqui para discutir tcticas negociais, Monroe. Estou aqui para lhe falar de um rapaz que confiou no Robert Patterson e foi lixado  grande. - Zeke 
pensou em Natalie e nos anos de casamento que ela suportara, acreditando que ainda o conseguiria salvar. Robert Patterson tinha sido um mestre da manipulao. - 
O Robert sabia dar a volta s pessoas. Disse ao Ragnor que no assinava um contrato de urbanizao sobre parcelas e casas que ainda no existiam. Continuou a adiar, 
obrigando-o entretanto a trabalhar como um mouro, prometendo que teria o maior prazer em assinar na linha a tracejado quando chegasse a altura. O Ragnor ia ganhar 
uma fortuna e, como tal, continuou a trabalhar imenso durante mais de um ano para que tudo resultasse. Quando a cmara finalmente aceitou, dando luz verde para um 
loteamento enorme, o Robert deixou que o Ragnor trabalhasse ainda mais. Segundo a
   Grace Patterson, existem numerosos aspectos a resolver num projecto desta dimenso, e o Ragnor tratou de tudo, apenas para ver o Robert rir-se na cara dele quando 
estava tudo pronto, dizendo-lhe que devia estar a sonhar se pensava que um agrimensor de meia tigela ia ganhar praticamente o mesmo que ele com o negcio. O Robert 
procurou outro tipo, ofereceu-lhe um por cento, e o outro agarrou logo a oportunidade. Depois de todo o seu trabalho, tudo o que o Ragnor conseguiu com o negcio 
foram os trs por cento iniciais quando o Robert comprou as terras originais.
   Monroe agarrou novamente na folha e olhou para o nome.
   - Vou verificar este sujeito.
   Zeke assentiu.
   - Faa melhor do que isso, Monroe. Coloque-o debaixo de uma lupa. Fale com a Grace Patterson. Ela ouviu o Ragnor ameaar o filho.  como lhe digo, no foi a Natalie 
quem fez isto. Quanto mais tempo pensar que sim, mais tempo demorar a resolver o caso.
   Natalie tinha acabado de apagar as luzes do rs-do-cho para se ir deitar quando o telefone tocou. Eram quase onze da noite, e ela no fazia ideia de quem poderia 
estar a ligar to tarde. Voltou a acender o candeeiro da sala de estar e correu para a cozinha.
   Quando atendeu o telefone ao quarto toque, uma mulher pediu para falar com Natalie Patterson.
   -  a prpria - disse ela.
   -  a proprietria do Blue Parrot?
   Depois dos acontecimentos da vspera, Natalie no queria responder quela pergunta sem saber quem estava do outro lado da linha.
   - Com quem estou a falar?
   - Fala Nancy Steingold, da Iron Clad Security. Estou a ligar-lhe para a informar de que o alarme de segurana do seu estabelecimento foi activado. A Polcia est 
a caminho.
   - O alarme do meu clube foi activado? - Desde que ela era dona do clube, era a primeira vez que tal acontecia.
   - Seria melhor estar presente para falar com a Polcia e voltar a ligar o alarme quando eles tiverem acabado. - Nancy Steingold fez uma pausa e depois acrescentou: 
- Na maioria dos casos, no passa de um alarme falso. Alguma coisa pode dar sinal, um detector de movimento, ou um fecho de uma porta que abana com o vento e perturba 
o campo magntico.
   Natalie no tinha detectores de movimento no interior do clube. Devido aos custos, optara por um sistema perifrico bsico que apenas disparava quando uma porta 
ou janela era forada.
   - Obrigado por ter telefonado.
   - No tem importncia. Espero que no haja nenhum problema.
   Depois de desligar, Natalie correu para o quarto do pai.
   - Pai? - bateu  porta, abriu-a e acendeu a luz do tecto. - O alarme do clube foi activado. Tenho de ir  cidade.
   Pete sentou-se na beira da cama. Vestia um pijama de algodo branco demasiado grande com riscas cor de vinho. Agarrou nas calas e disse-lhe:
   - Devias telefonar ao Zeke e dizer-lhe que vamos l. Ele pode querer ir connosco.
   - Ele deve estar na loja. Vai l todas as noites para tratar dos livros, acho eu.
   - Ento, telefona-lhe para saber se vai ter connosco ao clube. - Pete sacudiu as calas para as endireitar. - No gosto do aspecto disto.
   Natalie tambm no.
   - Tens l algum dinheiro? - perguntou-lhe Pete.
   - Esvazio sempre as caixas e fao um depsito nocturno a caminho de casa. S ficam alguns trocos em cada caixa para o comeo de noite, cerca de trezentos dlares 
no total, e deixo sempre as caixas no cofre quando o clube est fechado.
   Pete bufou.
   - Ento, o que  que um ladro podia levar: bebidas alcolicas e comida congelada? A no ser que sejam midos, no faz sentido. Liga ao Zeke. Diz-lhe que samos 
daqui a cerca de cinco minutos.
   Natalie fechou a porta e correu para a cozinha. Naomi apareceu no patamar do primeiro piso quando ela atravessou a sala de estar.
   - O que  que se passa?
   - O alarme do clube disparou. - Natalie entrou na cozinha, acendeu as luzes e agarrou na lista telefnica para procurar o nmero da loja de Zeke.
   Uma hora mais tarde, Zeke e Natalie encontravam-se no interior da entrada do Blue Parrot. Zeke olhava para as portas como se, assim, as conseguisse convencer 
a dar-lhe algumas respostas. A Polcia acabara de partir. Os agentes tinham ficado to intrigados quanto eles. No fora um falso alarme. As portas do clube tinham 
sido foradas. A parte estranha residia no facto de terem sido foradas pelo interior.
   Natalie estava a olhar para as marcas deixadas na superfcie interna da madeira.
   - Isto no faz sentido. J ouvi falar de gente que forou a entrada num edifcio, mas nunca de quem tenha forado a sada.
   Ainda a examinar as portas, Zeke passou-lhe um brao deliciosamente forte em redor dos ombros.
   - Existe uma resposta para este enigma, Watson. D-me um minuto para encontrar uma explicao.
   Natalie no conseguiu deixar de sorrir. Nas ocasies mais crticas, aquele homem encontrava sempre uma forma de a deixar com o corao mais leve. Olhou para ele 
- para o rosto tisnado, cinzelado, olhos azuis cintilantes e cabelo negro lustroso - e acreditou, acreditou realmente pela primeira vez na sua vida, que todas as 
mulheres do mundo estavam destinadas a encontrar um homem que tinha sido especialmente criado para elas. Ela apenas no tinha procurado o suficiente para encontrar 
o seu.
   - Como  que um ladro acaba dentro de um edifcio e tem de arrombar a porta para sair? - perguntou-se ele em voz alta. - Teria de estar c dentro quando as portas 
foram fechadas e o alarme foi ligado. - Tinha acabado de dizer isto quando olhou para ela. - As portas - disse ele em voz baixa. - Eu e os meus irmos temo-las deixado 
abertas para o ar circular enquanto trabalhamos.
   - E tu achas que algum se meteu c dentro?
   - E a nica explicao que me ocorre.
   - Mas tu no estiveste c hoje.
   Zeke olhou para trs.
   - No, mas os meus irmos estiveram. - Apontou para o soalho reparado. - Aquilo no estava pronto quando me fui embora ontem. Enquanto o Jake e o Hank estavam 
aqui a trabalhar, algum meteu-se c dentro, escondeu-se algures, e ficou  espera que eles sassem.
   Natalie esfregou os braos e estremeceu, olhando desconfortavelmente em redor.
   - Mas, Zeke, os teus irmos saram durante esta tarde e o alarme s disparou por volta das onze. Se o ladro estava fechado aqui dentro, o que  que andou a fazer 
entretanto?
   Zeke deu uma volta lenta sobre si prprio para observar a sala.
   - Boa pergunta. Tanto quanto posso dizer, no falta nada. O que exclui o roubo como motivo, e no h sinais de vandalismo, o nico outro motivo que me vem  cabea 
para algum ter entrado.
   Natalie no tinha respostas, o que apenas a deixava ainda mais intrigada. De repente, Zeke chamou o pai dela, que se encontrava na rea do bar a observar as reparaes 
efectuadas nas paredes.
   - Leve a Natalie daqui para fora, est bem, Pete?
   Ela franziu o sobrolho:
   - Porqu tanta pressa em tirar-me daqui?
   - Tu devias estar a descansar. - Zeke agarrou-lhe no cotovelo, levou-a para a rua e tirou-lhe as chaves da mo. - Yemo-nos quando eu chegar a casa, OK?
   De p no passeio coberto de sombras, ela sentiu que lhe estava a escapar alguma coisa. Quando o pai dela saiu e foi ter com eles, Natalie olhou para as portas 
do clube. Ento, uma ideia terrvel passou-lhe pela cabea:
   - Oh, meu Deus? Achas que o clube est armadilhado?
   Na escurido, Pete olhou para ele.
   - Como  que chegou a essa concluso?
   - No  propriamente uma concluso, mais uma medida de precauo. Depois de ontem, devo estar um pouco paranico. Mas acho estranho que algum se esconda ali 
dentro e fique tanto tempo  espera para forar as portas e sair. Para jogar pelo seguro, quero inspeccionar tudo mais uma vez.
   Natalie foi percorrida por um calafrio, e olhou ansiosamente para o seu pai. Pete aproximou-se e agarrou-lhe no brao.
   - Ele tem razo, querida. Tenho de te tirar daqui.
   - Porque  que no podemos voltar a chamar a Polcia? - perguntou-lhe ela. - Podemos ficar todos aqui fora  espera at eles terem verificado tudo. Afinal,  
o trabalho deles. Esto treinados para coisas como esta.
   - Eu telefono-lhes - disse-lhe Zeke. - Mas no te quero aqui perto enquanto eles estiverem a trabalhar. - Voltou-se para o pai dela: - Leve-a para casa, Pete. 
Assim que estiver despachado, tambm vou. Se esperarem, eu passo por l para vos dizer o que descobrimos.
   Natalie no percebia por que motivo no podia esperar no passeio. Certamente, seria seguro. Sentiu a mo do pai apertar-lhe o brao, transmitindo-lhe urgncia 
e medo. S ento ela percebeu, e o seu corao comeou a bater descontroladamente.
   - Meu Deus - murmurou ela. - Vocs acham que pode haver uma bomba ali dentro. No acham?
   Zeke olhou para o edifcio durante um momento. Em seguida, retirou o telemvel do cinto.
   - No sei o que pensar, Natalie. Mas no vou excluir nenhuma possibilidade antes de a Polcia ter inspeccionado este lugar.
   Pete puxou o brao de Natalie.
   - Vamos, filha. Temos de te levar daqui.
   - No! - Natalie recusou-se a mexer-se. - O clube  meu, no do Zeke. No o posso deixar voltar ali para dentro enquanto vou para casa, onde no corro riscos. 
- Soltou uma gargalhada histrica. - Quero dizer, bem, uma bomba  um bocado rebuscado, mas no se sabe o que ele pode ter feito ali dentro. Os foges tm canalizao 
de propano. E se ele furou ou...
   - Natalie - disse Zeke em voz baixa.
   Se ele tivesse gritado, talvez ela o tivesse ignorado. Mas o tom baixo da sua voz f-la calar-se. Ele aproximou-se e agarrou-lhe no queixo. Sob a luz dos candeeiros 
da rua, os seus olhos brilhavam como safiras.
   - Percebo o que ests a sentir. A srio. Se estivesse no teu lugar, tambm no me queria ir embora. Mas tens de pensar no Chad e na Rosie. - O corao dela falhou 
uma batida. - Eles j perderam o pai. O que  que lhes acontece se te perderem tambm?
   Natalie recordou-se da expresso apavorada do filho quando ela fora levada para a esquadra para ser interrogada. Tivera medo que ela nunca mais voltasse, que 
ele e Rosie ficassem sozinhos.
   Zeke aproximou-se ainda mais.
   - No podes correr riscos desnecessrios. Eles precisam demasiado de ti.
   - Mas tu podes correr riscos desnecessrios? - Natalie tentou imaginar como seria perd-lo, e s a ideia deixou-a em pnico. No sabia quando comeara a am-lo 
tanto, quando comeara a precisar tanto dele. Apenas sabia que agora no era capaz de encarar a vida sem ele. - Eu no quero que te acontea nada.
   Zeke agarrou-lhe na mo e levou-a at  esquina do edifcio, onde a carrinha de Pete se encontrava. Pareceu descontrair-se quando se afastaram do clube.
   - Eu tambm no quero que me acontea nada - garantiu-lhe ele. - Mas um de ns tem de ficar para fechar isto depois de a Polcia passar o clube a pente fino. 
Eu fico.
   - Porqu? Porque s homem e eu sou uma mulher?
   - Sim. - Ele abriu a porta do passageiro da carrinha. - Chama-me antiquado. Chama-me arcaico se quiseres. No estou preparado para pr em perigo a mulher que 
amo, to simples quanto isso. Vais para casa e tomas conta dos midos enquanto eu resolvo isto. Prometo que no corro riscos desnecessrios.
   Agarrou-a pela cintura e iou-a para o banco da carrinha. Natalie ainda estava a protestar quando ele lhe apertou o cinto de segurana:
   - Sou uma mulher adulta, pelo amor de Deus! - exclamou ela quando Zeke comeou a fechar a porta. - No podes meter-me na carrinha, dar-me uma palmadinha na cabea 
e mandar-me para casa.
   O pai dela entrou para trs do volante e ligou o motor.
   - Nattie, vais para casa nem que eu tenha de te amarrar. Tenho dito.
   - No acredito nisto.
   Zeke debruou-se e deu-lhe um beijo rpido.
   - Discutimos sobre isto depois. Est bem? Tens de pensar nos teus dois filhos. Eu no. - Deu-lhe mais um beijo. - Vai para casa e toma conta deles. Assim que 
eu me despachar, vou l ter.
   Fechou a porta antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa, e a carrinha j tinha arrancado antes que ela pudesse reagir. Natalie torceu-se no banco, aliviada 
ao ver que Zeke j estava a falar ao telemvel, quase de certeza com a Polcia. Voltou-se novamente para a frente e lanou um olhar furioso ao pai. Estava to zangada 
que at tremia.
   - Isto  inadmissvel.  o meu clube. Se algum devia ficar era eu.
   O pai dela entrou na estrada Nove e acelerou. Quando parou no semforo, sorriu-lhe:
   - Gosto daquele rapaz. Desta vez, encontraste um que vale a pena guardar, Nattie. Deixa-te de coisas e casa com ele.
   Natalie no sabia o que lhe passou pela cabea, mas quando deu por si estava a dizer:
   - O pai tambm encontrou algum que valia a pena guardar. Porque  que no segue o seu prprio conselho, deixa-se de coisas, e casa-se com ela outra vez?
   Estava  espera de deixar o seu pai furioso. Em vez disso, ele limitou-se a sorrir e respondeu:
   - Tenho andado a pensar exactamente nisso.
   Zeke chegou a casa cerca de duas horas depois. Depois de estacionar a carrinha ao lado da sua casa, foi direito para a dos Westfield. Viu Natalie vir ao seu encontro 
assim que comeou a atravessar o campo. Ao luar, ela parecia etrea - como um anjo a flutuar acima da erva. Quando estavam sensivelmente a cinco metros um do outro, 
ela parou para esperar por ele, com os braos  volta da cintura, o cabelo negro cobrindo-lhe a cara com a brisa nocturna.
   - O que  que ests a fazer aqui fora? - perguntou-lhe ele.
   - Estava  espera de ver os teus faris.
   - Devias estar a descansar.
   - Tenho estado to preocupada que no conseguia fechar os olhos, quanto mais dormir.
   Zeke abrandou o passo. Quando chegou junto dela, no resistiu a afastar-lhe as madeixas de cabelo da cara plida. Ento, como se uma fora magntica o atrasse, 
teve de saborear aquela boca - apenas um beijo demorado. Afastou-se para olhar para ela quando reparou que no lhe retribua.
   - Estou bem - disse-lhe ele. - No tinhas de te preocupar.
   - O que  que a Polcia descobriu?
   - Quase tenho vergonha de dizer. No encontraram nada.
   Os ombros dela descontraram-se ligeiramente.
   - Graas a Deus. Exagermos, no foi?
   - Parece que sim. Casa roubada, trancas  porta. Desde que vi o que fizeram ao teu carro, desconfio de tudo. Esta noite no clube, vi aquelas portas e convenci-me 
de que era algum que queria matar-te outra vez. No queria ser apanhado mais uma vez com a guarda em baixo.
   - Algum que arromba uma porta para sair e no para entrar no deixa de ser estranho. O meu pai e eu achmos que a tua teoria era plausvel. Antes prevenir do 
que remediar.
   - O Monroe no foi da mesma opinio. Ficou furioso.
   - Ele foi l?
   Zeke prendeu os polegares no cinto.
   - Quando voltei a telefonar, devo ter sido muito convincente. Ele apareceu para verificar tudo em pessoa. Senti-me um idiota chapado quando no encontraram nada.
   Ela respirou fundo. Depois, franziu ligeiramente a testa.
   - Temos de conversar, Zeke. No gostei da forma como trataste da situao. Foste muito ditatorial.
   - Temos de falar sobre isso? Afinal, no havia perigo nenhum.
   - Tu disseste que podamos discutir depois.
   Zeke preferia fazer amor com ela. Mas podia ver pela expresso obstinada no rosto de Natalie que tal no iria acontecer.
   - Desculpa. No era essa a minha inteno.
   - Meter-me na carrinha e mandar-me embora no foi ditatorial?
   - Eu no te meti na carrinha. Sentei-te no banco com muito cuidado. E no te mandei embora. Apenas te pedi que fosses para casa.
   - Pois. O que eu ouvi no era um pedido.
   Muito bem, tinha sido mais parecido com uma ordem. Zeke pensou na questo, tentando ver o lado dela, mas por mais voltas que desse sabia que voltaria a reagir 
da mesma maneira caso a situao se repetisse. Amava-a demasiado para fazer outra coisa.
   - Est bem - cedeu ele -, foi uma ordem.
   - No me agradou nada. No gosto que me digam o que devo fazer.
   Zeke esfregou a cara ao lado do nariz e comeou a remexer a terra com o taco da bota.
   - Vou tentar no repetir. - At  prxima. - Eu entendo, a srio.  s que...
   -  s que o qu?
   Zeke tinha a sensao de estar a cavar um buraco cada vez maior para si prprio.
   -  s que, de onde eu venho, nenhum homem digno desse nome permite que a mulher que ele ama corra perigo se houver alguma maneira de ele a proteger.
   - J h mulheres no exrcito que combatem na linha da frente, Zeke.
   - Mas a minha mulher, no. - Pronto. Um buraco com profundidade suficiente para o engolir.
   Ela levantou uma mo, como se quisesse repelir qualquer nova informao antes de processar o que acabara de ouvir.
   - Espera l. Volta atrs. A tua mulher, no? Ests a falar de mim?
   Ele olhou para o vazio, fazendo um grande esforo para dizer as coisas de outra forma, que no soasse to mal. Mas no estaria a ser honesto.
   - Acho bem que sim. s uma mulher e penso que s minha. Se estou enganado,  melhor que mo digas agora.
   Ela levantou novamente o queixo.
   - Gosto muito de ti, Zeke. - Ui, ui. Tinham passado de amar para gostar muito. No era um bom sinal. - E quero ter uma relao contigo - prosseguiu ela. - Mas 
isso no quer dizer que estou a pensar ser uma coisa tua, mais precisamente, uma criatura inferior  qual podes dar ordens. Quem toma as minhas decises sou eu. 
No preciso de um homem, por muito que possa gostar dele, que as tome por mim.
   - Tu podes tomar as tuas decises. No tenho nenhum problema com isso.
   - Ento, porque  que no deixaste que eu o fizesse esta noite?
   - Porque era diferente.
   - No, no era. Eu queria ficar, e tu no me deixaste. Fizeste-me sentir como uma criana que no  capaz de decidir o que  melhor para ela.
   Zeke voltou a esfregar a cara junto ao nariz.
   - No vale a pena exagerar o que aconteceu, Natalie. Eu tenho algumas ideias definidas a respeito do papel de um homem quando se trata de proteger aqueles que 
ama. Pronto, j disse. No tem qualquer influncia nas tuas decises durante o resto do tempo.
   - Receio que tenha. No admito ser tratada como uma criana. Tive de o engolir durante quase onze anos e no vou passar pelo mesmo outra vez.
   - Ests a comparar-me com o Robert?
   - A carapua serve-te?
   Zeke cerrou os dentes.
   - Diz-me tu.
   - No vais recuar um milmetro que seja nesta questo, pois no?
   Zeke estava a ficar zangado.
   - No. Queres ir comprar um carro? Muito bem. Queres fazer-te  estrada e cantar? Perfeito. Podes tomar todas as decises que quiseres, no ouvirs uma nica 
objeco da minha parte. Mas raios me partam se te deixo entrar num edifcio quando tenho motivos para pensar que ele pode explodir. Se isso me torna ditatorial, 
ento, sou ditatorial, e serei sempre. Podemos ficar a falar a noite inteira sobre isso, mas no te vai servir de nada.
   - Estou a ver.
   Zeke teve o pressentimento desagradvel que ela estava prestes a ir-se embora, e o pior era que ele no a podia impedir. No podia dizer o que ela queria ouvir 
e depois voltar atrs. Ele no era assim.
   Como receava, ela deu meia-volta e dirigiu-se para casa sem dizer mais uma palavra. Zeke ficou a v-la afastar-se durante o que lhe pareceu uma eternidade e, 
ento, o seu temperamento Coulter atingiu o ponto de ebulio.
   - OK, est bem! - berrou ele. - Ganhaste. Da prxima vez que houver o risco de um edifcio explodir, eu dou-te um beijo de boa-sorte e mando-te l para dentro 
enquanto eu vou para casa tomar conta dos midos! Depois, quando estiver a apanhar os teus restos, vou sentir-me muito bem porque a deciso foi tua! Ficas feliz 
assim?
   Ela virou-se.
   - Ests a ser deliberadamente obtuso, a reduzir tudo a esta situao! Preciso que me digas que no o voltas a repetir. Posso entender que no quisesses que eu 
entrasse no clube, Zeke, mas no tinhas o direito de me tratar como se eu fosse uma criana!
   - Se eu achasse que eras uma criana, estavas agora deitada no meu joelho por te comportares como uma.
   No devia ter dito aquilo. Ela cerrou os punhos e avanou direita a ele. Pensando melhor, decidiu ele, talvez tivesse feito bem em dizer aquilo mesmo. Assim, 
ela no lhe virava as costas.
   Ela parou a pouco mais de um metro dele.
   - O que  que disseste?
   - O que  que eu disse quando?
   - Acabaste de ameaar que me deitavas no teu joelho?
   - Nunca fao ameaas.
   - Sempre gostava de ver isso.
   Zeke recordou-se da primeira manh em que tinham falado. Pensara na altura que ela era a mulher mais bonita que alguma vez tinha visto, e os seus sentimentos 
continuavam inalterados.
   - Ento? - desafiou-o ela. - No fiques para a s a falar. Ou s tens garganta?
   Zeke fez um esforo para no sorrir. Ele tinha mais cinquenta quilos do que ela. Agora, sabia a quem Rosie tinha ido buscar a sua verborreia.
   - Natalie, isto  um disparate.
   - O que  que  um disparate, tu teres-me ameaado ou eu no estar a fugir? - Ela estava to zangada que a voz quase lhe falhava.
   - No era uma ameaa. Era uma figura de retrica, nada mais do que isso. Eu nunca te faria uma coisa dessas.
   - Espero bem que no. Deves ter foras para o fazer, mas era bom que pensasses duas vezes antes.
   Zeke percebeu que a tinha magoado. Tambm comeava a perceber que o que a incomodava era muito mais do que o incidente daquela noite. "Robert." Obviamente, ele 
ressuscitara algumas recordaes bastante desagradveis quando a metera naquela carrinha. Em retrospectiva, talvez a tivesse tratado como se ela fosse uma criana. 
Mas no fora essa a sua inteno.
   - Podemos concordar numa coisa? - perguntou-lhe ele.
   - Em qu, que s maior do que eu?
   - Nisso tambm. Mas estava antes a pensar no pomo da discrdia. Se eu te jurar por tudo o que tenho de sagrado que nunca mais volto a interferir com o teu inalienvel 
direito de tomar as tuas prprias decises, aceitas um compromisso no aspecto da proteco e deixas-me fazer o que acho que um homem deve fazer quando surgir uma 
situao perigosa?
   - O que um homem deve fazer? - repetiu ela.
   - Essencialmente,  disso que se trata, no , o que um homem deve fazer? Tenho uma natureza protectora. Sei que  antiquado, mas foi assim que o meu pai me educou, 
 assim que eu acho que os homens de boa ndole se devem portar. No posso prometer que no repito. Para mim,  instintivo, no  uma deciso, nem uma escolha, e 
acho que no sou capaz de mudar.
   - Isso no me agrada.
   - Lamento que te incomode.
   -  s isso que tens para me dizer? Nada feito, Zeke.
   - No estars a abater o cavalo porque tem uma pata magoada? Se vires o quadro geral,  uma coisa secundria, no ? Se eu no me comportar desta maneira noutras 
ocasies, achas que no s capaz de aguentar uma vez em cada vinte anos?
   - Uma vez em cada vinte anos?
   - Quantas vezes durante os prximos cinquenta anos esperas voltar a preocupar-te com bombas ou exploses de gs?
   Ela baixou a cabea e comeou a dar pontaps na terra. Quando voltou a olhar para ele, os seus olhos estavam plenos de incerteza.
   - Juras que nunca mais voltas a tratar-me daquela maneira?
   Era uma promessa que ele podia fazer. Tambm registou mentalmente que teria de falar com ela depois sobre aquela questo da independncia. Era claro que ela tinha 
problemas que ele devia evitar agravar.
   - Juro que no volto a tratar-te daquela maneira, a no ser que surja uma situao que me parea ser perigosa para ti. E vou tentar no ser ditatorial se isto 
voltar a acontecer.
   - Foi como se no estivesses a ouvir-me. Julgava que tu me vias como uma igual, e, de repente, eu nem sequer tinha direito de voto.
   - Nunca foi minha inteno que te sentisses assim. Hs-de ter sempre direito a voto, Natalie, e, na maior parte das vezes, o teu voto ter mais peso do que o 
meu. E s que... raios. Isto para mim  uma novidade. D-me um pouco de folga, pode ser? H um ms, eu era um solteiro apenas preocupado comigo. Agora, amo-te tanto, 
a ti e aos teus filhos, que quase perco o juzo s de pensar que alguma coisa pode acontecer a algum de vocs.
   - Como  que achas que eu me senti? - Ela encostou uma mo ao peito. - E se tivessem mexido na canalizao do gs e o cheiro no fosse assim to forte que desse 
para reparar? E se houvesse mesmo uma bomba ali dentro? Comportaste-te como o homem grande e forte que toma conta de tudo, e eu s conseguia pensar que podias ficar 
feito em bocados se voltasses a entrar.
   Ouvir a situao descrita daquela forma fez com que Zeke se sentisse um cretino.
   - Tens razo - disse ele, a sua voz spera como lixa num ralador de queijo. - No gostava de me ter sentido assim. Desculpa ter-te feito passar por isso.
   - O que me incomoda  que nunca encontrei um vestgio de autocracia na tua pessoa e, de repente, ali estava ela, como se tivesses apenas estado a fazer-me as 
vontades. Consegues perceber porque  que fiquei irritada? No posso estar com algum que apenas finge que me respeita.
   Zeke cruzou os braos para no a agarrar.
   - Eu no estou a fingir, querida. Onde  que foste buscar essa ideia?
   Ela fechou os olhos e deixou a cabea cair para trs, como se estivesse
   a arrumar as ideias. Passado um momento, disse:
   - Talvez eu esteja a exagerar. No meu casamento, o Robert nunca me tratou como igual. Recusava-se a falar comigo sobre os seus negcios. Se algum aparecia l 
em casa para falar com ele, ele mandava-me s compras ou ver televiso. Nem sequer me queria na mesma sala. As decises eram todas dele, e eu limitava-me a ficar 
contente com os resultados. Durante tantos anos, eu estava na pista, mas ele  que tinha o volante. Ele  que escolheu a nossa casa, e depois escolheu a moblia. 
At contratou uma consultora de moda para me vestir. Se tinha problemas nos negcios, nunca os partilhava comigo. Era como se eu no tivesse um crebro. Quando pedi 
o divrcio, jurei que nunca mais voltaria a viver assim.
   - E esta noite eu portei-me exactamente como ele.
   Ela baixou o queixo para o encarar.
   - No exactamente como ele. Naquela situao, acho que ele tinha ido para casa com os midos e eu que me desembaraasse.
   Zeke sorriu. Foi mais forte do que ele.
   - Peo desculpa se me portei como um palerma. Para a prxima, prometo que tenho mais tacto.
   - Mas mandas-me para casa na mesma. - Ele concordou. - Mesmo que eu no admita que me faam uma coisa dessas?
   Ele no queria que ela se fosse embora outra vez, mas no podia fazer promessas que sabia no poder cumprir.
   - Contentavas-te com uma plstica ao nariz?
   Ela ficou a olhar para ele.
   - Desculpa?
   -  bem grande. Eu sei porque tambm est escarrapachado no meio da cara dos meus irmos. Podiam tirar-me um centmetro da ponta que eu nem dava pela falta.
   - O que  que o teu nariz tem a ver com o assunto?
   - E um defeito que eu posso corrigir.
   Natalie continuava a olhar para ele, pensativa.
   - No  um defeito. Adoro o teu nariz.
   Zeke semicerrou um olho.
   - Minha querida, se adoras esta penca, s pode haver uma explicao. Ests loucamente apaixonada por mim. Sendo esse o caso, sers mesmo capaz de virar costas 
por causa de uma coisa que talvez nunca volte a acontecer?
   Ela torceu a boca.
   - Jogo sujo. Ests  espera que eu simplesmente aceite que, de vez em quando, te comportes como um palerma autocrtico?
   - Sim, basicamente,  isso, de vez em quando sendo a expresso certa. Durante o resto do tempo, serei o Sr. Fcil.
   Ela mirou-o de alto a baixo com uma expresso especulativa.
   - Fcil, a que ponto?
   - S tens de estalar os dedos e j vs.
   
Captulo Dezoito
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   Na manh seguinte, Natalie recebeu um telefonema de Grace Patterson para a informar de que o mdico legista libertara os restos mortais de Robert para o enterro. 
O funeral teria lugar s onze da manh de quinta-feira na Ehringer's Funeral Home. A sala estaria aberta na quarta-feira anterior entre as seis e as nove da noite.
   Natalie subiu imediatamente ao quarto de Chad para lhe contar a novidade. O filho estava sentado contra um monte de almofadas, absorto na leitura de Harry Potter 
e a Ordem da Fnix. Ela sentou-se na beira da cama, sentindo-se grata  irm por ter oferecido o livro a Chad. Tinha-lhe dado um escape bastante necessrio, no 
apenas da dor das costelas magoadas, mas tambm da tristeza pela morte do pai.
   - Ol - disse ela, estendendo um brao para lhe endireitar o cabelo despenteado. - Gosto de ver que comeste um bom pequeno-almoo.
   Ele manteve um dedo no livro para marcar a pgina e fechou-o. Olhou para o prato vazio que ainda estava na mesa-de-cabeceira.
   - A av fez panquecas de mirtilo.
   Natalie assentiu:
   - As tuas preferidas, eu sei. Ela est a estragar-te com mimos. O que  que eu vou fazer quando ela voltar para casa?
   Chad sorriu e encolheu os ombros.
   - Desde que no faas panquecas de mirtilo...
   Natalie riu-se e olhou para a janela aberta. L fora, um par de piscos encontrava-se poisado num ramo do velho carvalho, chilreando animadamente com o sol da 
manh. Deu por si a desejar ser to livre e despreocupada como aqueles pssaros, que Robert ainda estivesse vivo, e que tudo estivesse bem no mundo de Chad.
   - A tua av Grace telefonou agora mesmo - acabou ela por dizer. - O funeral vai ser s onze na quinta-feira. A capela morturia est aberta amanh  noite.
   Chad empurrou o livro do colo, esquecendo-se de marcar a pgina. Deixou-se cair para trs e fechou os olhos.
   - A capela vai estar aberta para qu?
   Natalie engoliu com dificuldade.
   - Para os amigos e os membros da famlia poderem l ir para uma ltima despedida em privado. - Engoliu de novo, tentando livrar-se do n desagradvel que tinha 
no fundo da garganta. - O caixo fica aberto e h flores bonitas na sala toda. Costuma ser uma sala pequena, muito sossegada, e uma ou duas pessoas entram ao mesmo 
tempo. Com a porta fechada, podes sentir-te triste se quiseres que ningum te veja.
   - Me?
   Natalie agarrou-lhe na mo.
   - Diz, querido.
   - Acho que tenho medo. Nunca vi uma pessoa morta. Vai ser horrvel?
   - Horrvel, no. O teu pai h-de estar como sempre foi, mas vai ser como se estivesses a olhar para um boneco de cera, porque o esprito dele j abandonou o corpo.
   - Achas que o esprito dele est no cu?
   Natalie esperava que sim. Desde a sua morte, comeara a perceber Robert de uma forma que nunca conseguira quando ele ainda era vivo.
   - Tenho a certeza que sim - respondeu ela.
   - Mas ele fez coisas ms - murmurou ele. - E se Deus no o deixa entrar?
   - Se fosses tu quem tivesse de decidir, Chad, se tivesses a chave do porto e o teu pai aparecesse, mandava-lo embora?
   - No, mas ele era meu pai, e eu gostava dele.
   - E achas que Deus gostava menos dele? Mais ainda, acho eu, porque Ele podia ver o interior do corao do teu pai.
   Chad olhou para ela.
   - Podes ir comigo? Acho que no consigo ir sozinho.
   - Claro que sim. J pedi  av Naomi para ficar com a Rosie. Est tudo tratado.
   Zeke parou na orla do ptio dos Westfield para dar uma bolacha de gua e sal a Chester, uma demonstrao de boa vontade para promover uma futura amizade. O ganso 
grasnou satisfeito, comeu o que conseguiu com a primeira dentada e depois comeou a bicar a erva para recolher as migalhas. Zeke contornou-o e dirigiu-se para as 
traseiras da casa. Ficou surpreendido ao encontrar Natalie sentada nos degraus.
   Ela deu um salto quando ele a chamou.
   - Zeke! - Sorriu e bateu com a mo no degrau ao lado dela. - Pensas no diabo e ele aparece.
   - 'dia, Olhos Lindos.
   A covinha apareceu na bochecha de Natalie.
   - Porque  que me chamaste isso?
   - Porque tens uns olhos lindos. Sempre que os vejo, parece que o Sol acabou de nascer.
   Ao dirigir-se para os degraus, pensou se alguma vez se cansaria de olhar para ela. Naquela manh, Natalie trazia vestido umas calas de gangas velhas e desbotadas 
e uma T-shirt dos Oregon Ducks que j vira melhores dias, mas, mesmo assim, conseguia estar linda. Tinha o cabelo solto sobre os ombros numa nuvem de caracis negros. 
A boca ainda estava ligeiramente inchada dos beijos que tinham partilhado pouco antes do amanhecer.
   Quando se sentou ao seu lado, ela disse-lhe:
   - O funeral  na quinta-feira. Ainda no passou assim tanto tempo desde que o Robert morreu, mas, para mim, parece que foi um ms.
   Zeke poisou os braos nos joelhos e olhou para o celeiro.
   - Aconteceu muita coisa desde a noite de sexta-feira. Tambm a mim me parece que passou um ms. - Olhou para ela. - Como  que o Chad est a reagir?
   - Est triste. Falmos uma vez, mas, fora isso, no disse muito mais. - Ela encolheu os ombros. - Tenho medo de que ele caia em si de repente, e que se v abaixo. 
Ele adorava o Robert. No ponho isso em questo. Mas tambm se trata de oportunidades perdidas. Entendes? Ele queria tanto que o pai tivesse orgulho dele, e, agora, 
nunca ter hiptese de o fazer.
   Zeke sentiu como se tivesse um punho frio a apertar-lhe o peito. Tendo passado por aquela idade, podia imaginar como Chad devia estar a sentir-se. Para um rapaz, 
era importante conquistar o respeito do seu pai.
   - E tu, como ests a reagir? - perguntou ele.
   Ela voltou a olhar para o celeiro.
   - Sinto-me assim como que vazia - admitiu ela. - Queria que ele no estivesse morto, que a vida lhe tivesse dado mais oportunidades, a ele e ao Chad. Ele era 
to novo. Ainda me custa encarar a realidade, o facto de ele estar morto.
   - O funeral vai ajudar. Dar-vos- a todos uma sensao de fim. Os teus pais vo?
   - O meu pai e a Valerie, sim. A minha me fica em casa com a Rosie. Acho que ela ainda no tem idade para ir. - Ela esfregou as mos. - Francamente, at me custa 
deixar o Chad ir. Uma parte de mim preferia poup-lo a isto.
   - Ele precisa de ir, Natalie. Ele vai ficar bem.
   - Espero que sim.
   - Acredita. O rapaz tem fibra. - Zeke ouviu os pssaros a cantar, o que lhe recordou o motivo da sua presena. - Ests preparada para uma boa notcia?
   - Por favor - respondeu ela com uma gargalhada.
   - Marquei uma grande reabertura para a noite de sexta-feira. - Zeke apressou-se a acrescentar: - Se ainda no te sentes capaz de cantar, tudo bem. O equipamento 
de karaoke chega hoje. O Frank pode tocar alguma coisa pelo meio. E se as coisas se tornarem aborrecidas, toco a minha rabeca.
   Os olhos dela brilharam.
   - Eu tenho de estar l para te ouvir tocar.
   Zeke sorriu.
   - Eu no me limito a tocar a rabeca, minha querida, eu fao-a cantar. E no me esqueo do que me prometeste.
   - Vou adorar. Talvez o possamos fazer no clube.
   Zeke ficou novamente srio.
   - Coloquei alguns anncios nos jornais. Comeam amanh  noite e vo at domingo. A minha cunhada, a Molly, mulher do Jake,  a ruiva que conheceste na sala de 
espera das Urgncias,  muito boa nesse gnero de coisas, e eu pedi-lhe uma ajuda. Nada de especial, mas servem para divulgar.
   Os olhos dela brilharam com lgrimas.
   - Obrigada, Zeke. Tenho estado to embrenhada em tudo o resto que nem pensei na reabertura do clube. Uma loucura. Se isto no der certo, vou ao fundo.
   - No vais, no. Na sexta-feira  noite, vais ter casa cheia,  garantido. No vai ser apenas um sero de karaoke: vais oferecer prmios em dinheiro para as trs 
melhores actuaes da noite, escolhidas com os votos do pblico.
   - Prmios em dinheiro?
   - Fiz-te um emprstimo, lembras-te? Tambm inclui isso. Podes pagar-me quando o clube comear a dar lucro outra vez.
   Ela inclinou-se e deu-lhe um beijo por baixo do queixo.
   - Obrigada.
   - No sabes fazer melhor do que isso? - Ele procurou-lhe a boca com a sua e beijou-a profundamente. Quando finalmente levantou a cabea, murmurou: - Assim est 
melhor.
   Na noite seguinte, Natalie acompanhou o filho  casa funerria. Assim que entraram no edifcio, o cheiro a flores assaltou-lhes as narinas e ela sentiu-se como 
se lhe tivessem besuntado a pele com gua aucarada. Agarrou na mo de Chad, sem saber muito bem se para o reconfortar a ele ou a ela. A gerente, uma loira jovem 
e bonita com um saia e casaco azul-escuro idntico ao de uma hospedeira de bordo, recebeu-os no foyer. Natalie no parava de olhar para a lapela da mulher,  espera 
de ver um par de asas douradas.
   - Por aqui - disse ela amavelmente. Enquanto os conduzia por um corredor, disse: - Entre as seis e as sete o espao encontra-se reservado exclusivamente a membros 
da famlia. A me do falecido j se foi embora, portanto, ningum vos deve incomodar. - Parou  porta e fez um ligeiro sorriso. - Tem um boto junto  porta. Se 
precisar de alguma coisa, no hesite em tocar.
   - Obrigada. - Natalie ficou a v-la afastar-se e, ento, voltou-se para o filho. - Ests pronto, matulo?
   Chad assentiu, mas os seus olhos castanhos estavam arregalados. Natalie agarrou-lhe no ombro e abriu a porta. Entraram lado a lado, ela mentalizando-se para ser 
forte, ele a tremer. Foi um choque ver Robert deitado num caixo. Porqu, Natalie no sabia muito bem. Claro que ele haveria de estar num caixo. Chad estacou. Natalie 
podia ver-lhe uma fina pelcula de suor na testa.
   - Est tudo bem, querido.
   Chad assentiu e avanou de novo. Quando chegaram ao caixo, Natalie passou o brao  volta do filho e olhou para as feies tranquilas de Robert. O cabelo loiro 
brilhava como oiro polido sobre o cetim branco. O agente funerrio fizera um excelente trabalho, dando-lhe um aspecto natural. Natalie estava sempre  espera de 
que ele abrisse os olhos e sorrisse, mas ele no o fez.
   Chad no disse nada. Ficou ali parado, a olhar para o pai como se tivesse sido transformado numa coluna de sal. Natalie estendeu um brao e poisou os dedos sobre 
as mos cruzadas do filho. Ele parecia um pedao de galinha congelada que tivesse sido deixado no lava-loia a descongelar. O primeiro impulso de Natalie foi encolher 
o brao, mas resistiu. "Robert." Ele estava mesmo morto. Aqueles olhos nunca mais voltariam a abrir-se. Aquele peito nunca mais voltaria a elevar-se a cada respirao. 
Ele partira, a sua vida apagada como a chama de uma vela.
   - Pai! - exclamou Chad. E, ento, comeou a soluar. - Oh, pai!
   Natalie passou-lhe um brao pela cintura para o impedir de cair. Ao
   ouvi-lo soluar deu por si com vontade de chorar e no tardou muito para que o fizesse: por Robert, que nunca aprendera a amar, e pelo seu filho, que estava a 
ser obrigado a crescer depressa de mais.
   Quando Chad esgotou as suas lgrimas, ele e Natalie sentaram-se durante algum tempo nos cadeires que se encontravam perto do caixo. Ento, sem terem de falar, 
levantaram-se ao mesmo tempo. Chad parou ao lado de Robert. Em seguida, deu meia-volta e quase correu para fora da sala. Natalie apressou-se a segui-lo.
   Quando chegou ao corredor, viu Bonnie Decker sentada numa das cadeiras dispostas ao longo da parede oposta. Com os olhos inchados pelo choro, Bonnie inclinou 
a cabea na direco dela e depois virou a cara. Natalie queria dizer-lhe alguma coisa, mas no lhe ocorreu nada.
   E tinha de pensar em Chad. Ele j desaparecera porta fora ao fundo do corredor.
   O instinto maternal de Natalie venceu e ela correu atrs do filho. Mas, assim que abandonou o edifcio, pensou naquela rapariga sozinha ali dentro, que fora despedir-se 
de um homem que no compreendera nem dera valor  devoo que ela tivera por ele.
   Zeke trepou a escada de acesso ao sobrado do celeiro dos Westfield, seguindo o som abafado dos soluos de Chad. Natalie telefonara-lhe poucos minutos antes, preocupada 
porque o filho voltara a desaparecer. Perguntara-lhe se ele no se importava de a ajudar a procur-lo. Ele ouvira o rapaz a chorar assim que entrara no celeiro. 
Voltara atrs para fazer um sinal a Natalie, para que ela no se preocupasse. Agora, tinha pela frente a tarefa de conversar com Chad e ajud-lo a acalmar.
   A escurido era quase absoluta, a nica luz a do luar que entrava pelas portadas abertas. Zeke teve de seguir os ouvidos para encontrar Chad. Ao avanar na direco 
do rapaz, os seus ps ora encontravam fardos ora palha solta, fazendo-o tropear. O cheiro a p de alfalfa incomodava-lhe o nariz. Pessoalmente, Zeke nunca percebera 
o encanto daqueles sobrados de celeiro. O feno provocava comicho e dava-lhe vontade de espirrar.
   Praticamente invisvel nas sombras, Chad estava encolhido num canto perto das portadas. Zeke baixou-se para se sentar ao lado dele. Formou-se nova nuvem de p, 
trazendo-lhe lgrimas aos olhos.
   - Ento, rapaz. Uma noite difcil, no?
   Chad resfolegou e quase se engasgou num soluo reprimido.
   - Eu f-fui v-ver o m-meu p-pai - disse ele.
   Zeke passou os braos em redor dos joelhos. Tentou imaginar o que sentiria se perdesse o seu pai. No era uma ideia agradvel. No lhe parecia justo que um mido 
que ainda nem completara doze anos tivesse de passar por aquela dor. Infelizmente, anos de experincia tinham-lhe ensinado que a vida raramente  justa.
   - Lamento que o tenhas perdido - murmurou ele. - Sei que devias gostar muito dele. Eu gosto muito do meu pai. Quando ele morrer, vou chorar como um beb, no 
tenho dvidas.
   Ao ouvi-lo admitir aquilo, Chad pareceu sentir-se menos envergonhado e os soluos recomearam. Zeke decidiu que a ocasio no era para conversas. Em vez de falar, 
poisou um brao nas costas do rapaz. Chad no resistiu. Limitou-se a encostar-se ao peito dele e chorar.
   Zeke apoiou as costas na parede do celeiro, esticou a perna mais prxima de Chad e preparou-se para esperar. Perdeu a noo do tempo. Quando os soluos do rapaz 
comearam a abrandar, ele no sabia se estava ali h minutos ou h horas, e no fazia diferena. O mais importante naquele momento era estar exactamente onde estava.
   Quando Chad j tinha chorado o que tinha para chorar, murmurou num tom vazio:
   - Quando eu marcar um golo, o meu pai no vai estar l para ver.
   Zeke encostou a face ao cabelo do rapaz, que tinha a mesma textura
   do de Natalie.
   - No, ele no vai estar l fisicamente. Mas eu acredito que estar em esprito, a olhar por ti.
   O peito de Chad estremeceu com um soluo residual.
   - Acha que sim?
   - Tenho a certeza - respondeu Zeke. - Deixa-te ficar quieto, Chad, e limita-te a sentir quem s. No o teu corpo, no a tua voz, no o que vs. Fica aqui comigo 
no escuro e sente quem tu s. - Chad descontraiu-se e ficou calado durante algum tempo. - Essa parte de ti que ests a sentir agora nunca h-de morrer - murmurou 
ele. - Como  que podia? Aquilo que somos, todos os nossos sentimentos, os nossos pensamentos, no param assim. Eu acredito que essa parte de ns abandona o nosso 
corpo e continua a existir. Algumas pessoas dizem que vamos para o Cu, onde h portes de cristal e ruas cobertas de ouro. Custa-me um pouco a acreditar. Eu acho 
que o Cu fica aqui mesmo,  nossa volta, mas ns no o podemos ver, uma existncia paralela, maravilhosa, pacfica, na presena do nosso Criador. Uma espcie de 
vidro espelhado, onde as pessoas do outro lado podem ver-nos, mas ns no as podemos ver a elas.
   Chad inteiriou-se.
   - Ento, acha que talvez o meu pai esteja aqui mesmo?
   - Acho. Mesmo que no o tenha sabido demonstrar, ele gostava muito de ti. Talvez com o tempo, quando souber que tu vais ficar bem, ele se afaste e apenas te venha 
visitar quando precisares dele, mas por enquanto, imagino que esteja bem perto. H-de estar presente quando marcares aquele golo. Um dia, quando tiveres o teu filho 
nos braos, ele estar l, a sorrir por cima do teu ombro.
   Chad respirou fundo e suspirou.
   - Eu queria marcar um golo e que ele levasse a minha equipa a comer uma piza.
   Zeke sorriu para consigo. Piza. A primeira vista, parecia um desejo tonto, mas quando Zeke imaginou todos os midos com os seus equipamentos, a entrar na pizaria 
para celebrar, percebeu que o menos importante daquilo tudo era a piza. Tratava-se de um rapaz cujo pai nunca lhe dera uma palmadinha nas costas, um pai que nunca 
se gabara das proezas do filho. "Oportunidades perdidas." Chad chorava todas as vezes em que iria brilhar e o pai no estaria presente para partilhar o momento com 
ele.
   - Eu no sou teu pai - disse ele cautelosamente - e sei que nunca poderei ocupar o lugar dele, mas seria uma honra levar a tua equipa a comer uma piza quando 
tu marcares o tal golo.
   Chad endireitou-se e olhou para ele atravs das sombras.
   - Isso  uma coisa que os pais fazem.
   - Sim, eu sei. Ando para falar contigo sobre isso. Ainda no apareceu a altura certa. E agora tambm no .
   - Est apaixonado pela minha me, no est?
   Zeke assentiu.
   - Sim, completamente.
   Chad fungou e limpou o nariz.
   - Vai casar com ela?
   - Sem a tua autorizao, no.
   - Porqu?
   - Porque ela  tua me, e tu s o homem da casa. Sou antiquado nesse gnero de coisas. Tenho de pedir a mo dela a algum. Normalmente, um homem pede ao pai da 
mulher. Mas, neste caso, tu tens mais a dizer do que o Pete.  justo. O homem que escolheres vai ser teu padrasto. - Zeke fez uma pausa. - Como te disse, esta no 
 a altura certa para falar sobre isto. Dentro de algumas semanas, talvez, quando te sentires melhor.
   - A minha me sabe que voc me vai pedir a mo dela?
   - Sim.
   - E se eu disser que no?
   Zeke ponderou aquela possibilidade.
   - Bem, imagino que terei de esperar e voltar a pedir. Ela  como um mau hbito do qual no me posso livrar.
   Sentiu Chad sorrir contra a sua camisa.
   - No lhe diga isso. Ela ficava danada.
   Zeke riu-se.
   - Devidamente registado.
   Ficaram sentados no escuro, sem falar, confortveis com o silncio. Mais uma vez, Zeke no tinha noo do tempo que teria passado. As sombras pareciam pesadas 
com tristeza, como deviam parecer. O futuro e o que ele poderia trazer no passava de uma claridade que nenhum deles era capaz de ver com muita nitidez.
   Por fim, Chad disse:
   - J me sinto melhor. Estou pronto para voltar para casa.
   - Tens a certeza? Agora que eu estava a sentir-me to bem.
   - Tenho. J no me sinto to triste por causa do meu pai.  bom saber que talvez ele me possa ver. Obrigado por ter falado comigo.
   Zeke deu-lhe uma palmadinha no ombro.
   - Tudo bem.  para isso que servem os amigos.
   Quando chegaram  escada, Zeke desceu primeiro e ficou  espera l em baixo, atento para que Chad no casse. Quando os ps do rapaz tocaram no cho, Chad manteve 
uma mo num degrau e virou-se.
   - Se quiser, pode casar com a minha me - disse ele.
   Zeke abanou a cabea.
   - Isso no  uma deciso que devas tomar esta noite. Pode esperar algumas semanas.
   Chad encolheu os ombros.
   - No vou mudar de ideias. Voc j era meu amigo antes de comear a gostar da minha me. Acho que vou gostar de o ter como pai, e voc tambm vai ser um bom pai 
para a Rosie.
   Foi um dos melhores elogios que Zeke alguma vez recebera.
   - Obrigado. Acho que tambm vou gostar de te ter como filho. Mas nada de atirar tomates. Pode ser?
   - Pode. - Chad j tinha sado do celeiro, quando parou de repente. - Imagino que no queira ir amanh.
   Zeke abrandou o passo.
   - Ao funeral, queres tu dizer?
   - Sim. No tem de ir nem nada. Eu s estava a pensar, bem, voc sabe, que talvez fosse mais fcil para a minha me se o tivesse l.
   Zeke assentiu. Tinha um palpite de que Natalie no seria a nica a precisar de um brao forte para se apoiar.
   - Deves ter razo. No tinha pensado nisso.
   - Isso quer dizer que vai connosco?
   Zeke assentiu de novo.
   - Claro. S para o caso de a tua me precisar de mim,  melhor eu estar l.
   O dia seguinte passou-se numa nvoa para Natalie. Ela sentia-se como se estivesse em piloto automtico. Mexia-se, falava, e fazia o que tinha de fazer, mas nada 
lhe parecia real. Em diversas ocasies, durante a tarde, imaginou que o seu crebro era um emaranhado de fios elctricos que se tinham gasto e feito curto-circuito. 
Numa parte remota da sua mente, estava preocupada com Chad e com a sua reaco ao funeral, mas nem mesmo essa preocupao conseguiu penetrar no torpor que parecia 
ter-se apoderado do seu corpo. Estava grata a Zeke. Ele movimentava-se na nvoa da irrealidade, grande, forte, e slido, a sua voz um trovo que a acalmava de uma 
forma que nem ela conseguia compreender.
   O funeral foi andino. Grace, impecavelmente vestida de preto total, chorava para um pequeno leno preto debruado a renda. Quando a viu soluar, Natalie no sentiu 
nada, apenas um vazio terrvel, como se o seu corao fosse um quadro de ardsia e algum o tivesse apagado. Chad foi o nico a chorar lgrimas verdadeiras, e nem 
ento Natalie sentiu alguma coisa. No era necessrio porque Zeke estava presente, um rochedo no qual o rapaz se podia apoiar. Zeke parecia saber tudo o que devia 
ser dito naquela ocasio. Ela no era capaz de juntar palavras numa frase coerente.
   No sabia o que se passava com ela. Era como se estivesse trancada num armrio escuro apenas com a cabea de fora. Podia ver e ouvir e responder s perguntas, 
mas nada entrava, nada lhe tocava.
   Depois do funeral, Zeke levou-os a casa, Natalie no banco da frente e Chad, Valerie e Pete atrs. Natalie revirava um pedao de papel de cozinha entre as mos, 
sem saber de onde viera nem por que motivo o tinha consigo. No derramara uma nica lgrima durante todo o dia, no tinha vontade de chorar. Porque  que estava 
agarrada a uma folha de papel de cozinha?
   O que tinha sido aquilo tudo? Aquela era a pergunta que no parava de girar na sua cabea. Depois de um jantar simples, Natalie subiu ao primeiro andar para dar 
banho a Rosie e lev-la para a cama. Foi a sensao mais estranha, percorrer a rotina da normalidade - sentir a gua morna nos dedos, esfregar o sabonete na pele 
escorregadia da filha, passar uma escova pelos caracis emaranhados, ouvir-se a si prpria a ler uma histria em voz alta, dando expresso a palavras que no eram 
registadas pelo seu crebro.
   Quando Rosie adormeceu, foi ao quarto de Chad ver como ele estava porque era isso o que uma me devia fazer. O filho adormecera a ler o seu livro do Harry Potter. 
Natalie encostou-se  ombreira da porta, sentindo-se pesada.
   Valerie apareceu atrs dela no corredor:
   - Ests bem? - perguntou-lhe ela num sussurro.
   Natalie endireitou-se.
   - Estou, sim. - Fechou a porta para que as vozes das duas no perturbassem Chad. - Sabes o que aprendi com tudo isto?
   A cara bronzeada de Valerie estava invulgarmente plida.
   - No. O qu?
   - No passamos de galinhas s quais ainda no torceram o pescoo.
   Valerie deu meia-volta e apressou-se a descer as escadas. Natalie foi
   para o seu quarto, absorta em pensamentos de troves e frescas brisas nocturnas. S queria fechar os olhos e esvaziar a mente.
   J se encontrava em roupa interior quando Zeke entrou no quarto. No obstante a escurido, soube que era ele pelo som das botas no velho soalho de madeira. Atirou 
o vestido na direco do roupeiro, sem se preocupar se ficaria amarrotado ou se algum o poderia pisar.
   - Se foi a Valerie que te mandou, no era preciso. Estou bem. No estou triste nem nada.
   Ele deu um passo direito a ela.
   - Eu sei. Essa  uma parte do problema, no ? No conseguires sentir-te triste?
   Ela sentou-se na beira da cama e ficou a olhar para ele. Zeke era uma silhueta alta sem rosto, o que lhe tornava mais fcil falar com ele.
   - Isto tudo, Zeke. O que ?
   Ele foi sentar-se ao lado dela. Natalie queria que ele lhe dissesse todas as coisas certas para a fazer sentir-se novamente viva por dentro, como fizera com Chad. 
Mas em vez disso, ele no disse nada, o que a deixou zangada. Sabia que ele tinha as palavras que ela precisava de ouvir, e ele recusava-se a diz-las.
   - Que tal um passeio? - perguntou-lhe ele.
   - O qu?
   Ele levantou-se da cama e foi at  cmoda. Depois de procurar nas gavetas, voltou e atirou-lhe um par de calas de ganga e uma camisola para o colo.
   - Veste-te. Tens de sair daqui durante algum tempo.
   - No me apetece passear.
   - Eu sei. Por isso mesmo.
   Aquilo no fazia sentido, mas os pensamentos dela estavam to descoordenados que Natalie no foi capaz de argumentar. Depois de se vestir, Zeke acocorou-se diante 
dela e calou-lhe um par de sapatilhas. Exagerou quando lhe apertou os atacadores, fazendo com que o sangue aflusse aos ps, mas ela no encontrou foras para reclamar.
   Depois de ele a levar para o rs-do-cho e quando j estavam na rua, Natalie perguntou-lhe:
   - Aonde vamos?
   - E isso importa?
   Segurando-lhe na mo, Zeke puxou-a atrs de si, atravessando o ptio e seguindo pelo acesso de cascalho, rumo  estrada. Quando chegaram ao asfalto, ele comeou 
a andar mais devagar, sem falar, sem a forar a partilhar os seus sentimentos. E ainda bem, porque ela no sentia nada.
   A medida que caminhavam, ela concentrava-se em poisar um p  frente do outro, em inspirar e expirar. No era fcil. Os seus ps e os seus pulmes encontravam-se 
em extremos praticamente opostos do corpo. Estava to concentrada no simples acto de andar que deu por si surpreendida quando ouviu a sua voz dizer:
   - Devia sentir-me triste, mas no sinto. Em tempos, amei-o. Ele era o pai dos meus filhos. Como  que eu pude olhar para ele e no sentir nada?
   Zeke parou. Ao luar, os olhos dele brilhavam como prata fundida.
   - Querida, passaste por uma semana terrvel. Ests exausta, fsica e emocionalmente. A mente  um mecanismo fabuloso. Quando a vida se torna de mais, a mente 
desliga. A tristeza est l, bem no fundo. Hs-de comear a senti-la quando fores capaz de lidar com ela. Por enquanto, apenas tens de te deixar ir.
   - No achas que sou horrvel?
   Ele rodeou-lhe o pescoo com um brao e puxou-a para si.
   - Meu Deus, no. Acho que s maravilhosa. No te martirizes por no sentires nada. Hs-de sentir, quanto mais no seja porque o Robert era o pai dos teus filhos. 
Tens de dar tempo a ti mesma.
   Natalie apoiou os punhos na camisa dele e encostou-se a ele.
   - Oh, Zeke. Amo-te.
   Ele cobriu-lhe o cabelo de beijos, ao de leve.
   - Eu sei que sim. E sabes que mais?
   - No. O qu?
   - Acho que precisas de uma boa demonstrao, das antigas, de que ests bem viva.
   Ela fechou os olhos, escutando o ritmo regular do corao dele.
   - Como  que fao isso?
   - Eu mostro-te - sussurrou ele.
   No instante seguinte, tinha-a levantado nos braos, atravessado a vala paralela  estrada, e avanado campo fora. Quando a poisou no cho, Natalie olhou em redor.
   - No podemos fazer amor aqui.
   - Porque no?
   - Estamos na propriedade de algum.
   - Repito: porque no?
   Ela riu-se enquanto ele lhe passava um brao pela cintura e a deitava na erva alta. Minutos mais tarde, transportada com ele numa onda de sensao pura, Natalie 
olhou para a Lua, exultante com o facto de poder sentir de novo. "Estou viva." Definitivamente, Zeke fazia-a sentir-se gloriosamente viva.
   Apenas podia ter a esperana de que o destino lhe permitisse ter um futuro com ele.
   
Captulo Dezanove
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   Quando a noite de sexta-feira chegou, Natalie sentia-se suficientemente restabelecida para estar presente na grande reinaugurao, e, exactamente como Zeke previra, 
o Blue Parrot estava a abarrotar. Viciados em karaoke tinham acorrido ao clube, com a esperana de ganhar um prmio em numerrio pela melhor actuao. Ao contrrio 
do que acontecia antes, em que os clientes apenas apareciam para um jantar com acompanhamento musical ao vivo, aquela gente ficava, prolongando as suas refeies 
com rodadas de bebidas, o que gerava uma grande margem de lucro. Quando o sero ia a meio, Natalie fez o inventrio do stock do bar e deu por si com medo de ser 
apanhada desprevenida antes da hora de encerramento.
   Sentada a uma mesa perto do palco alguns minutos mais tarde, batia o p ao som da msica enquanto observava a pista de dana apinhada.
   - No consigo acreditar - disse ela a Zeke, que estava sentado diante dela. - V s esta gente toda, e parece que esto a divertir-se imenso.
   Ele sorriu e piscou-lhe o olho.
   - E ainda tens aqui um clube com classe - disse-lhe, lanando um olhar demorado ao vestido vermelho de lantejoulas de Natalie. - A primeira vez que te vi com 
esse vestido, corri to depressa na direco oposta que quase tropecei nos meus prprios ps.
   Natalie viu a chama que ardia naqueles olhos e soube que era uma promessa do prazer indescritvel que a esperava algumas horas depois.
   - Porque fugiste?
   - Sabia que me ias trazer sarilhos.
   Ela riu-se, sentindo-se deliciosamente leve. O negcio estava a correr bem, Chad aguentara a tempestade e parecia estar a reagir bem  morte do pai, e ela estava 
desvairadamente apaixonada por um vaqueiro lindo de morrer que queria passar o resto da sua vida com ela. Melhor era difcil.
   - Ainda bem que no fugiste para longe - disse ela, esperando que ele tambm visse a promessa nos olhos dela.
   - Tambm acho, mas devo avisar-te, a nossa vida nunca ser simples. - Apontou com o polegar para as cinco mesas atrs deles que os membros da sua famlia tinham 
ocupado. - Junta-os aos Westfield, e h-de haver sempre alguma coisa a acontecer. Casamentos, aniversrios, nascimentos, crianas que se magoam, e problemas conjugais 
de vez em quando, s para manter as coisas interessantes.
   - Problemas conjugais de quem?
   Surgiu um brilho nos olhos dele.
   - Deles, claro. Ns nunca havemos de os ter.
   Natalie riu-se.
   - Espero que no. Tu no fazes jogo limpo.
   Ele olhou-a novamente de alto a baixo.
   - Fazer as pazes tem os seus benefcios.
   - Pra com isso. Estamos num lugar pblico.
   - Danas comigo?
   Um momento depois, estavam na pista, a girar ao som de uma cano de amor lenta. Natalie sentia-se leve como o ar nos braos dele, o seu corao inchado de felicidade 
ao olhar para os olhos de Zeke.
   - Falei com o Chad - sussurrou ele num tom rouco. - Temos a bno dele. Queres casar comigo?
   Estava to srio que ela no resistiu a provoc-lo, s um pouco.
   - J disse que sim, portanto, a grande pergunta  "quando". Sempre quis casar-me em Junho.
   Ele semicerrou um olho.
   - Esquece Junho, menina. No vou passar o Inverno inteiro a trepar quele telhado. Depois da primeira neve, escorrego e parto o pescoo.
   Natalie seguiu a presso da coxa dele, dando trs passos para trs.
   - A neve  um problema, imagino. Ento, casamos no Natal? Podamos trocar os nossos votos junto  rvore. No era romntico?
   Ele abanou a cabea.
   - Temos neve por volta do Dia de Aco de Graas. Que tal em meados de Outubro? Assim, os midos tm algum tempo para se habituarem  escola e  perda do pai. 
Se estivermos fora cerca de uma semana, ainda voltamos a tempo do Halloween, e a Rosie pode pendurar desenhos de abboras na casa toda, e tambm podemos fazer uma 
lanterna de abbora.
   - Um casamento de Outono? - Natalie imaginou as folhas a cair e o ar seco, e, de repente, pareceu-lhe que seria a altura perfeita do ano para comearem uma vida 
juntos. - Muito bem. Meados de Outubro. Parece-me delicioso.
   Zeke alou uma sobrancelha.
   - Outra pergunta. Onde queres viver? Estou disposto a arrendar ou vender a minha casa se preferires ficar na quinta.
   - Com a minha famlia? - Natalie no queria acreditar.
   - Estou habituado a casas cheias de gente. Aguento uma nova dose.
   Ela sorriu e abanou a cabea.
   - Estaremos suficientemente perto na casa ao lado. A minha famlia  louca, caso no tenhas reparado.
   - Gosto desse gnero de loucura. Tu  que decides. Francamente, no me faz diferena onde vivo, desde que seja contigo.
   - Em tua casa - murmurou ela. - Se quiser ir visit-los, vou. Quando comearem a mexer-me com os nervos, posso ficar em casa.
   Ele concordou.
   - Fazes-me um favor? - perguntou-lhe ele roucamente. - Canta Forever and Always a seguir.
   Natalie teve vontade de o beijar.
   -  para j, vaqueiro.
   Alguns minutos depois, quando Natalie regressou ao palco, olhou directamente para Zeke quando comeou a cantar a cano pedida. Quando chegou  parte em que dizia 
que queria ficar nos braos dele para sempre, ele levantou-se e aproximou-se lentamente do palco. Ela continuou a cantar enquanto ele subia os degraus e avanava, 
parando atrs dela. Na ltima frase do refro, juntou-se a ela, dizendo que queria ficar com ela para sempre. E, ento, tirou um anel de diamantes do bolso da camisa.
   Natalie ficou to atordoada que parou de cantar a meio de uma cano pela primeira vez na sua vida. Olhou para ele com lgrimas de alegria nos olhos, quase no 
acreditando que aquele homem lindo, maravilhoso, lhe queria meter um anel no dedo  frente de tanta gente. Ainda ficou mais abismada quando ele se ajoelhou.
   - Oh, Zeke, nol - exclamou ela. - Levanta-te. Isso  uma loucura.
   - Boa, Zeke! - gritou Hank.
   Jake soltou um assobio agudo e a sua voz cheia ressoou na sala subitamente silenciosa quando disse:
   - H anos que tento apanhar esse homem de joelhos, Natalie. Deixa-o ficar a.
   Zeke lanou-lhe um daqueles sorrisos de esguelha demorados que lhe derretiam os ossos. Depois, perguntou:
   - Natalie Westfield Patterson, queres fazer de mim o homem mais feliz do mundo e casas comigo?
   Natalie tinha a garganta to apertada que tudo o que conseguiu fazer foi assentir com a cabea. Zeke colocou-lhe o anel na mo esquerda, levantou-se e debruou-se 
para lhe dar um sonoro beijo na boca, o que no era fcil com a guitarra entre os dois. Todos os presentes desataram a bater palmas. Em seguida, comearam a pedir 
o resto da cano, desta vez com os dois a cantar.
   Foi o momento mais bonito de vida de Natalie - e, sem dvida, a sua actuao mais memorvel, no porque a sua prestao fosse perfeita, mas porque todas as palavras 
lhe saam directas do corao, tendo apenas de olhar para os olhos de Zeke para saber que as mesmas palavras tambm vinham do corao dele. Ele queria-a mesmo, e 
para sempre.
   Ainda nova, Natalie abrira mo dos seus sonhos de amor verdadeiro e felicidade eterna. Durante os ltimos anos, dera-se por satisfeita com uma vida razovel e 
deixara de ter expectativas. Agora, sbita e inexplicavelmente, todos os seus desejos de rapariga estavam a tornar-se realidade. Quando j se convencera de que no 
nunca viriam a realizar-se, encontrara finalmente num belo prncipe vaqueiro um amor para toda a vida.
   Pouco antes, Zeke perguntara-lhe se estava preparada para todos os transtornos que as famlias de ambos provocariam no seu casamento. Natalie estava preparada 
para tudo. Queria uma vida com aquele homem. S podia ter sido enviado pelo Cu. Ela acreditava de todo o seu corao que Deus se dignara a olhar para sua vida triste 
e pequenina e decidira enviar-lhe um heri.
   Quando a cano terminou, Zeke beijou-a de novo e abandonou o palco para regressar ao seu lugar. Entre o pblico surgiram novas palmas, gente a bater o p, para 
que Natalie comeasse uma nova cano.
   Sentindo-se feliz e completo, Zeke recostou-se para apreciar a actuao. Natalie era uma chama resplandecente naquele vestido vermelho, to bonita que metade 
dos homens presentes na sala no conseguia tirar os olhos dela. Zeke no se importou. Ela amava-o a ele, e prometera-lhe a eternidade ao deix-lo colocar-lhe aquele 
anel no dedo. Eles que olhassem e se roessem de inveja. A senhora estava ocupada.
   Como sempre, ela j deixara o ar electrizado antes sequer de abrir a boca para cantar de novo. Os que estavam a danar calaram-se, e os que estavam sentados ficaram 
imveis. Como se quisesse aumentar o suspense, ela acariciou o microfone e sorriu  assistncia.
   - A prxima cano  uma das minhas preferidas porque  muito divertida. Espero que marquem o ritmo e a cantem comigo.
   Poisou a guitarra na anca e tocou algumas notas, a covinha surgindo na bochecha acompanhada por um sorriso travesso. Ento, com uma voz que mais parecia uma exploso 
adocicada de magia, gritou:
   - Sweet Home Alabama!
   O pblico gritou e assobiou. Os danarinos comearam a bater o p e a bater palmas ao compasso da msica. Sorrindo ao ver tanto entusiasmo, Zeke tambm comeou 
a cantar, marcando o ritmo com o p. "Natalie." Ela tinha nascido para o espectculo, abenoada com a estranha capacidade de cativar uma assistncia.
   Pouco depois, a vibrao de tantos ps a bater a compasso j fazia tremer a mesa de Zeke. Sempre a olhar para Natalie, teve uma sensao estranha, inexplicvel, 
de catstrofe iminente. O corao comeou a martelar-lhe no peito. O corpo ficou tenso. Mas ele no fazia ideia porqu. Talvez fosse um sexto sentido a manifestar-se 
para lhe dar alguns segundos de antecipao, permitindo-lhe reagir a tempo.
   Foi ento que ele viu - um ligeiro movimento na plataforma do sistema de som suspensa por cima do palco.
   Levantou-se de um salto com tal rapidez e energia que a sua cadeira voou para trs. Natalie virou a cabea para olhar para ele, os seus olhos castanhos plenos 
de interrogao. Correndo direito a ela, Zeke apenas pensava: "Oh, meu Deus! Oh, meu Deus!"
   Foi como se tudo estivesse a acontecer em cmara lenta. Zeke tinha de vencer apenas alguns metros - dois ou trs, no mximo -, mas pareceu demorar uma eternidade. 
Viu a plataforma soltar-se completamente do tecto num dos lados, o estuque a saltar em todas as direces to lentamente que parecia flutuar como penas. Natalie 
olhou para cima, o seu rosto distorcido pelo pavor. A guitarra escorregou-lhe da anca num arco amplo, o brao preso apenas por uma das suas mos delicadas. Atrs 
dela, Frank Stephanopolis saltou do banco do piano, virou-se, e tentou fugir.
   Zeke via tudo desenrolar-se diante dele como uma cena de um filme. As suas botas encontravam o cho com tanta fora que cada passo lhe fazia vibrar o corpo todo. 
Tentando salvar-se, Natalie curvou os ombros, levantou um brao para proteger a cabea, e correu para a beira do palco. "Demasiado lenta." Zeke no fazia nenhuma 
ideia do peso dos altifalantes e dos amplificadores, mas soube instintivamente que seria o suficiente para matar quem tivesse o azar de estar ali em baixo.
   "Natalie." Numa ltima tentativa desesperada para a alcanar antes que a plataforma casse no palco, Zeke deu um salto. Apanhou Natalie pela cintura, arrastando-a 
com ele quando aterrou nos degraus, rolando sobre si mesmo. Ouviu gritos, seguindo-se uma exploso ensurdecedora de barulho.
   Quando Zeke e Natalie se imobilizaram, ele rolou mais uma vez para ficar por cima e curvou o corpo sobre o dela para a proteger da queda de detritos. Uma barra 
metlica atingiu-o nas costas. Um altifalante caiu ao lado deles, um dos cantos acertando-lhe violentamente na anca.
   Ento, quase to depressa como tinha acontecido, o barulho parou, e a sala mergulhou no silncio. Passou-se apenas um instante antes que o caos se instalasse. 
Passos a correr, gritos e imprecaes. Zeke levantou-se, passando freneticamente as mos pelas mos e pelos braos de Natalie  procura de ferimentos.
   - Ests bem? - perguntou-lhe ele. - Ests ferida?
   - Bem! Eu estou bem. O que  que aconteceu? - Tinha acabado de fazer a pergunta quando olhou para o palco e gritou, um som demorado, agudo, seguido de um: - Frank! 
Oh, meu Deus! Frank?
   Zeke levantou-se e correu para o palco, onde Frank Stephanopolis jazia sob o que restava da plataforma. "Imvel." Enquanto puxava tbuas e pranchas de contraplacado 
azul para chegar ao pianista inconsciente, Zeke gritou:
   - Chamem uma ambulncia!
   Natalie no suportava linleo mosqueado. Com o casaco desportivo de Zeke por cima dos ombros, encontrava-se sentada na beira de uma cadeira na sala de espera 
das Urgncias, segurando um copo de caf frio entre as mos, pensando vagamente como a sua vida se tornara um pesadelo. Frank Stephanopolis estava a ser operado. 
Tinha sofrido um golpe grave na cabea, tinha vrios ossos partidos e a plvis desfeita. O mdico que fora falar com eles h pouco tempo dissera que fora o piano 
que lhe salvara a vida. A plataforma atingira primeiro o Baldwin, quebrando o impacto de todo aquele peso
   Sharon Stephanopolis, mulher de Frank, estava sentada diante de Natalie numa cadeira verde e feia, o cabelo amassado, as plpebras borradas de rmel. Era uma 
mulher magra com uma cara ossuda e angulosa e cabelo loiro sujo. De vez em quando, olhava para o relgio.
   - J passou tanto tempo - disse ela de novo. - Ele j deve ter sado da sala de operaes.
   Natalie abanou a cabea.
   - S passaram quarenta minutos. Tens de ter f, Sharon. Ele vai ficar bem. Tem de ficar.
   Sharon olhou para ela com uma expresso implorativa.
   - Porque  que uma coisa destas vai acontecer a algum como o meu Frank? E um homem to bom. Nunca fez mal a ningum.
   Natalie sentia-se como se lhe estivessem a insuflar um balo dentro do peito. Sempre que olhava para os olhos repletos de dor de Sharon, a presso aumentava. 
Queria dizer-lhe que o acidente no tivera Frank como alvo, que a plataforma devia ter cado em cima dela. Mas se ela sugerisse que a queda no tinha sido acidental, 
Sharon faria uma dzia de perguntas.
   Natalie ainda no tinha respostas. Zeke levara-a ao hospital para ficar com Frank e depois voltara para o clube, para apurar o que provocara a queda da plataforma. 
Telefonara-lhe h poucos minutos para o telemvel, a sua voz tensa pela preocupao, para lhe dizer que os parafusos de orelhas que prendiam a plataforma do sistema 
de som ao tecto tinham sido praticamente serrados ao meio. "No foi um acidente." Natalie apenas conseguia pensar naquilo. Zeke no exagerara naquela noite depois 
de as portas do clube terem sido foradas. De facto, algum entrara e deixara-se ficar escondido at  partida de Jake e de Hank, e o clube fora armadilhado, exactamente 
como Zeke desconfiara. Apenas se enganara quanto ao tipo de ameaa. Algum passara aquelas horas todas a danificar os parafusos, com a expressa inteno de fazer 
com que a plataforma casse durante um dos espectculos de Natalie.
   Depois de ouvir aquilo, Natalie ficara inicialmente assustada. Agora, estava apenas furiosa. "Frank." Ele corria risco de vida por causa dela. Ele tinha dois 
filhos pequenos e uma mulher maravilhosa. Sharon tinha razo: ele nunca fizera mal a ningum tanto quanto Natalie sabia. E agora estava na sala de operaes, a lutar 
pela vida porque algum a tentara matar a ela. Como  que aquilo podia acontecer a um homem bom cujo nico objectivo na vida era criar msica para o prazer dos outros?
   "Porqu?" Aquela pergunta no parava de dar voltas dentro da sua cabea. No vira nada de extraordinrio no interior da casa de Robert. Sentia uma vontade irracional 
de correr para a rua e gritar: "Eu no sei nada, raios! Deixem-me em paz! Deixem aqueles de quem gosto em paz!" O pior, segundo Zeke, era o facto de a Polcia considerar 
que a queda da plataforma fora um acidente, provocado pelo excesso de peso nos suportes debilitados. Acreditavam que os parafusos se tinham partido com o esforo 
quando a assistncia comeara a bater os ps. Zeke no parara de praguejar, dizendo que qualquer idiota podia ver que os parafusos tinham sido serrados, mas Monroe 
limitara-se a acus-lo de ser um alarmista.
   Natalie sentia-se to cansada. To terrivelmente cansada. Os acontecimentos da semana anterior estavam todos enredados na sua mente. Antes de terminar a conversa, 
Zeke obrigara-a a prometer que no sairia da sala de espera das Urgncias sem companhia. Era uma loucura. Algum estava a tentar mat-la. Coisas daquelas no aconteciam 
em Crystal Falls, todavia, estavam a acontecer. A sua grande reabertura culminara num grande desastre porque algum queria v-la morta.
   Natalie estava a olhar para o seu caf, a ponderar todo aquele absurdo, quando os pais dela chegaram. Naomi sentou-se de um lado e Pete do outro. Cada um deles 
passou-lhe um brao por cima dos ombros. Natalie olhou para Sharon e sentiu-se incomodada. A mulher de Frank era quem precisava da presena de familiares. Infelizmente, 
os parentes de Sharon e de Frank viviam em Modesto.
   Meia hora mais tarde, o cirurgio apareceu para falar com eles. Sem ter trocado de roupa e com uma touca azul na cabea, sentou-se ao lado de Sharon.
   - Ele j est fora de perigo - comeou ele.
   - Oh! - Sharon tapou a cara com as mos e comeou a chorar. - Oh, graas a Deus.
   O mdico deu-lhe uma palmadinha no ombro.
   - Ele  um homem com muita sorte, Sra. Stephanopolis. Se estivesse debaixo daquela plataforma, no estaria agora connosco. No presente estado de coisas, vai passar 
uma semana no hospital a recuperar da cirurgia, e depois far a convalescena em casa durante, pelo menos, doze semanas.
   Passou a descrever os ferimentos que Frank sofrera no acidente, o qual Natalie sabia no ter sido acidente nenhum. No era capaz de se concentrar naquele jargo 
mdico. Apenas se sentia aliviada por saber que Frank no morrera.
   - Quando  que o podemos ver? - quis saber Sharon.
   - Ele est na sala de recobro. - O mdico olhou para o relgio. - Uma hora ou duas. As enfermeiras vm cham-la quando puder ir v-lo.
   Com as lgrimas a correr-lhe pela cara, Sharon assentiu e fechou os olhos.
   - Obrigada, senhor doutor. Muito obrigada.
   Antes de sair, o mdico voltou-se para Natalie e para os pais dela.
   - So parentes?
   A lngua de Natalie parecia uma bola de algodo. Quase teve de a puxar para fora da boca para responder:
   - No, eu sou a patroa do Sr. Stephanopolis. - "E aquela que quase provocou a sua morte." - Ficamos com a Sharon at ela poder entrar.
   O mdico assentiu.
   - Ainda bem. A espera  sempre mais fcil com companhia.
   Trs horas depois, quando Natalie se arrastou at  cama, a sua cabea encontrava-se cheia de recordaes confusas dos pais e irmos de Zeke, os quais tinham 
chegado ao hospital pouco depois de o mdico ter sado. Ela sorriu, ainda que com tristeza, ao meter-se debaixo das cobertas, recordando-se da previso de Zeke, 
que a vida deles nunca seria calma com tanta gente de ambos os lados da famlia para causar perturbaes. Natalie gostava dos pais dele, e ficara aliviada ao ver 
Jake e Hank, que se tinham colado a ela, chegando mesmo a acompanh-la at  porta da casa de banho. Fora quase to bom como ter Zeke ao seu lado. Quase.
   Ele telefonara-lhe vrias vezes do clube para a actualizar enquanto lidava com a Polcia e depois, enquanto tentava limpar alguma da confuso e os empregados 
fechavam a casa. Natalie imaginara-o a empurrar entulho, a varrer estuque, a prender fios elctricos soltos com fita isoladora para evitar um incndio, a fechar 
as caixas registadoras e, finalmente, a fazer um depsito nocturno, tudo tarefas necessrias que ela no pudera concluir. Estava-lhe profundamente agradecida por 
ter ficado a tratar de tudo. Mas, ao mesmo tempo, ansiava por sentir os braos dele  sua volta.
   Aquela ansiedade f-la sentir-se pequena e egosta. Sharon Stephanopolis estava sentada ao lado da cama do marido naquele momento, a rezar para que ele sobrevivesse. 
Zeke iria ter com ela em breve, inteiro e saudvel. Meter-se-ia debaixo das cobertas e abra-la-ia. Ela poder-lhe-ia tocar - poderia sentir as mos dele, to grandes 
e meigas, no seu corpo. Ele chegaria, e ento tudo voltaria a ficar bem.
   Com aquele pensamento, Natalie deixou-se cair num sono exausto, sonhando com ele a seu lado.
   Algum tempo depois, Natalie acordou quando o colcho cedeu sob o peso de algum. "Zeke." Sorriu ensonada e ergueu os braos para o receber, to contente por t-lo 
ali consigo que a sua pulsao acelerou, apesar de ainda estar meio adormecida. Poisou-lhe as mos nos ombros, registou vagamente que no pareciam ser os ombros 
dele, e soltou uma exclamao de surpresa. Antes que pudesse gritar, uma mo dura e cruel fechou-se sobre a sua boca, empurrando-lhe os lbios contra os dentes com 
bastante fora. O terror instalando-se lentamente no seu crebro embotado pelo sono, Natalie viu a silhueta escura de um homem acima dela.
   - Cabra de merda!
   "No  o Zeke." Instintivamente, tentou cravar as unhas na mancha que devia ser um rosto. As unhas mergulharam na carne macia, que, mais uma vez, definitivamente 
no pertencia a Zeke. "Pnico." Sem dar por isso, Natalie estava a lutar pela sua vida. S que ele estava em cima dela, um corpo grande e pesado que a prendia contra 
o colcho. As pernas dela, presas debaixo do lenol e das cobertas, eram inteis. Apenas podia lutar com as mos. O homem praguejou, agarrou na outra almofada, e 
empurrou-lha para cima da cara, abafando-lhe os gritos enquanto tentava agarrar-lhe nos pulsos.
   Natalie tentou reagir, mas tinha as pernas e os braos presos. O seu atacante prendeu-lhe as coxas com os joelhos, deixando as cobertas e o lenol to esticados 
como um colete-de-foras em volta do seu corpo. O terror no parava de crescer dentro dela. Tentou inutilmente gritar, mas a almofada no a deixava respirar e abafava 
qualquer som que pudesse fazer. Tentou torcer a cabea para se libertar, mas o brao do homem empurrava-lhe a almofada contra a boca e o nariz.
   Ela no conseguia ver, no conseguia libertar-se. Os pulmes procuravam oxignio que no existia, lanando-lhe o corpo numa luta convulsiva. Natalie sempre se 
imaginara a oferecer bastante resistncia numa situao como aquela: a bater, a espernear, a arranhar. Agora, impotente, apenas conseguia deixar-se estar, tentando 
freneticamente respirar. O homem no era assim to mais forte do que ela - apercebera-se disso quando lhe tocara nos ombros e na cara -, mas tinha a vantagem do 
peso e das roupas da cama que o ajudavam a prend-la.
   Um latejar terrvel, sufocado, encheu-lhe a cabea. O peito era agitado por convulses espasmdicas. Os msculos comearam a contrair-se  medida que os pulmes 
deixavam de funcionar, a boca aberta apenas encontrando a fronha. "Meu Deus!" Numa parte distante da sua mente, soube que estava a morrer.
   Quanto tempo poderia aguentar sem respirar? Aquela pergunta tornou-se o seu nico pensamento, e no quem poderia ser o seu agressor, nem como ela pensava escapar 
daquela situao. Tudo se limitava quela pergunta: quanto tempo conseguiria resistir? A sua mente rodopiava com uma necessidade terrvel de oxignio. Os seus dedos 
agarravam freneticamente o vazio, as unhas lacerando as palmas das mos at fazer sangue. Um pnico pesado, negro, abateu-se sobre ela.
   Estava a morrer. Viu o rosto imvel de Robert. Pensou nos seus filhos, que precisavam dela. Empurrou com todas as foras que lhe restavam, tentando soltar os 
pulsos das mos do desconhecido. Ento, numa ltima tentativa para se libertar, arqueou as costas e tentou derrub-lo. Nada do que ela tentava fazia diferena. Quando 
tentou respirar mais uma vez, a fronha preencheu-lhe a boca e as narinas.
   Zeke saltou para a balaustrada do alpendre, uma estrutura de madeira raqutica que oscilava cada vez mais a cada noite que passava devido ao esforo repetido. 
Tinha mesmo de casar com aquela mulher, pensou ele. Aquilo era de loucos. Agarrou-se ao beiral, iou-se apenas com a fora dos braos, e alou uma perna para conseguir 
algum apoio nas telhas. Torceu o tronco, rolou sobre si prprio, e estava deitado sobre o telhado.
   J de gatas, ouviu um soluo abafado. "Natalie?" Pensou que talvez ela estivesse a sonhar. No seria de admirar. A pobre mulher passara por tanta coisa durante 
os ltimos sete dias que era um milagre ainda no ter perdido o juzo. Zeke aproximou-se da janela do quarto dela, com a esperana de a acordar daquele pesadelo 
com um beijo. Deus, como ele a amava. Quase conseguia saborear a doura daquela boca quando apoiou as mos no parapeito da janela para entrar.
   Quando um dos ps tocou no soalho do quarto, Zeke estacou, atnito, o seu olhar fixo na cama de Natalie. No conseguia ver o que estava a acontecer, apenas que 
a silhueta debruada em cima do colcho era demasiado grande para ser uma mulher. Passou a outra perna por cima do parapeito e saltou em frente.
   - Ento!? - gritou ele.
   O homem - ao aproximar-se, Zeke teve essa certeza - girou sobre si prprio, o seu rosto uma mancha esbranquiada pelo luar que entrava pela janela. Com um rosnido 
bestial, deu um salto, o seu corpo atingindo Zeke com tal fora que os dois caram no cho. Zeke quase nem deu pelo impacto. "Natalie." Num acesso de pensamentos 
desconexos, somou dois mais dois, e soube que aquele assaltante frentico estava a tentar mat-la..
   A fria queimou-lhe as veias, deixando-lhe o sangue em ebulio. Dobrou uma perna por cima das coxas do outro e rebolou, levando-o atrs. Quando ficou por cima, 
no se deu ao trabalho de lhe aplicar um nico soco. Foi direito  garganta do estupor, cravando-lhe os polegares na laringe. No era uma deciso, nem sequer um 
pensamento: ele apenas o queria ver morto.
   Ainda a tentar recobrar o flego, Natalie jazia imvel na cama, a olhar para os dois homens que lutavam no cho. Zeke no largava o pescoo do seu adversrio. 
O homem esperneava e esbracejava inutilmente, tentando agarrar-lhe nos pulsos. Zeke era de longe o mais forte. Ao luar, ela podia ver os msculos das costas e dos 
ombros retesados com a fora que estava a fazer.
   Natalie precisou de alguns segundos para recuperar a sua presena de esprito. Quando o fez, saltou da cama e correu para Zeke.
   - Pra! - gritou ela. - Zeke! - agarrou-lhe no brao. - Zeke, por favor. Vais mat-lo. Pra!
   A princpio, Zeke pareceu no a ouvir. Ento, lentamente, largou o pescoo do outro e sentou-se em cima da barriga dele.
   - Mexes-te, seu filho da puta, e eu dou cabo de ti!
   O homem agarrou-se  garganta, tentando respirar. Natalie sentiu uma vontade pouco digna de o cobrir de pontaps agora que estava indefeso. Felizmente, a porta 
do quarto escancarou-se naquele instante. Pete entrou primeiro, Valerie e Naomi imediatamente atrs. Valerie trazia uma lanterna na mo e parecia pronta a atacar 
quem quer que se mexesse.
   Ainda sem fora nos joelhos, Natalie deixou-se cair na beira da cama, grata pelo ar que lhe enchia os pulmes sempre que inspirava.
   - O estupor estava a tentar sufocar a Natalie com uma almofada - disse Zeke a Pete. - Algum chame a Polcia antes que eu o mate.
   Valerie poisou a lanterna e saiu do quarto a correr. Com as mos nas ancas, Naomi aproximou-se de Zeke e do outro homem:
   - Matar  demasiado fcil. Deixem-me ter cinco minutos com este filho da me.
   Duas horas depois, Zeke e Natalie estavam sentados lado a lado  mesa da cozinha, o resto da famlia, exceptuando as crianas, ocupando as restantes cadeiras. 
Natalie acabara de voltar a deitar os filhos e o detective Monroe chegara finalmente, para lhes explicar quem era o atacante e por que motivo tentara matar Natalie. 
Estranhamente, o detective, que nunca se mostrara reticente nos seus anteriores encontros, parecia estar  procura de palavras.
   Passando uma mo pela cabea quase calva, Monroe enfrentou finalmente o olhar de Natalie.
   - No  frequente no meu trabalho eu dar por mim a braos com a necessidade de pedir desculpa, Sra. Patterson, mas eu estava completamente enganado a seu respeito.
   Natalie mudou de posio na sua cadeira. Sabia-lhe bem ter o brao de Zeke  volta dos seus ombros. Com a mo livre, ele brincava com os dedos dela, tocando ao 
de leve nos cortes da palma da mo de Natalie, provocados pelas suas prprias unhas.
   - Estive muito perto de lhe estragar a vida. - O detective parecia to envergonhado e sincero que Natalie teve pena dele. - Dizer que lamento no me parece suficiente, 
nem de longe.
   - Tudo est bem quando acaba bem - conseguiu ela dizer. - Naturalmente, preferia que tivesse acreditado em mim mais cedo. Os meus filhos podiam ter morrido naquele 
acidente. Mas tambm entendo que o seu trabalho no  fcil, e que as provas circunstanciais apontavam para mim.
   O detective encheu as bochechas de ar. Em seguida, fez um leve sorriso.
   - Obrigado pelas suas palavras. Sinto-me mesmo muito mal por t-la feito passar por tudo isto, a si e  sua famlia.
   Zeke abraou-a com mais fora.
   - Quem  o filho da me? - perguntou ele. - A Natalie diz que nunca o viu na vida.
   - E  verdade. Ela nunca o viu. Mas, infelizmente, ele j a tinha visto. - Monroe retirou um pequeno bloco de notas do casaco. Enquanto o abria, disse: - O nome 
dele  Mike Salisbury. A caminho da esquadra, no quis abrir a boca, mas quando comemos a interrog-lo, acabou por ceder e contou-nos tudo. - Monroe consultou 
mais uma vez as suas notas e olhou para Zeke. - Voc estava na pista certa, ao pensar que o assassino era um agente imobilirio. S que desconfiou do homem errado. 
Afinal, o Sr. Salisbury  mais um dos que foram enganados pelo Sr. Patterson, como o Stan Ragnor. - Zeke passou a mo pela manga do roupo de Natalie, o seu toque 
acalmando-a enquanto o detective prosseguia: - O Salisbury e o Patterson tinham um acordo escrito para dividir a meio os lucros de um negcio de terras na Twenty-seventh 
Street - explicou o polcia. - Nada reconhecido por um notrio nem redigido por um advogado, apenas um simples acordo preliminar que um deles escrevera  mquina. 
No dia do homicdio, o Salisbury descobriu que o Patterson tinha negociado um contrato exclusivo de duas partes com o dono da propriedade por trs das costas dele, 
deixando-o de fora. - O rosto anafado de Monroe tornou-se sombrio. - Quando o Salisbury o confrontou, ele limitou-se a rir, dizendo que o acordo inicial no valia 
o papel em que tinha sido escrito. O Salisbury tinha ido l a casa preparado pra matar se fosse preciso, e a atitude do Patterson deixou-o to furioso que foi isso 
mesmo que ele fez.
   Natalie estremeceu e aproximou-se mais de Zeke.
   - Assim, sem mais nem menos? Como  que se pode tirar a vida a outra pessoa e viver em paz com a nossa conscincia?
   Monroe abanou a cabea.
   - Nem sempre  possvel entender a natureza humana, Sra. Patterson. Passei trs quartos da minha carreira a tentar perceber o que corre mal dentro da cabea das 
pessoas. Vendo de fora,  difcil imaginar como  que algum pode cometer um homicdio por causa de dinheiro. Mas acontece. As pessoas ficam desesperadas, e no 
conseguem ver outra sada. Quando do por si, tm as mos cobertas de sangue.
   - Porque  que esse Salisbury queria matar a Natalie? - perguntou-lhe Zeke.
   Monroe passou para outra pgina, consultou as suas notas e fechou o bloco.
   - Ele estava convencido de que ela sabia o nome dele e que o poderia revelar  Polcia quando finalmente associasse as duas coisas. A mulher dele tem leucemia 
em fase terminal. Sendo um agente imobilirio com um rendimento irregular, no podia pagar o seguro de sade e, quando ela adoeceu, as despesas mdicas quase o levaram 
 runa. Perdeu o carro h vrios meses e teve de comprar uma chocolateira, e agora est prestes a perder a casa. Com a corda ao pescoo financeiramente, viu aquele 
negcio com o Patterson como a sua nica hiptese para pagar algumas das contas e dar  mulher os cuidados que ela merecia durante os seus ltimos dias de vida.
   Natalie recordou-se daquele momento pavoroso em que vira atravs do pra-brisas as traseiras de um camio de gado em marcha lenta. Os seus filhos quase tinham 
morrido devido a um negcio de terras. Uma parte dela conseguia entender o dio de Salisbury contra Robert, mas a sua simpatia terminava a. Chad e Rosie nunca tinham 
feito mal a ningum.
   Monroe olhou directamente para Natalie e prosseguiu:
   - O Salisbury estava sob uma presso incrvel, e quando o Patterson tentou engan-lo, foi a ltima gota. Infelizmente, voc apareceu na pior altura possvel e 
quase o apanhou com a boca na botija. Segundo ele, depois de levar o Patterson para a garagem, saiu sem se lembrar de ir buscar o contrato que ele e o seu ex-marido 
tinham feito. Tinha acabado de entrar em casa para o recuperar quando voc chegou. Ele meteu-se num armrio,  espera que voc se fosse embora. Tinha estacionado 
o carro na rua seguinte. No havia nada que o ligasse ao homicdio  excepo daquele contrato.
   - E quando a Natalie entrou no escritrio, o Salisbury convenceu-se de que ela o tinha visto - comentou Naomi.
   Monroe assentiu.
   - O medo de ser apanhado f-lo perder a cabea. J vi isso acontecer mais vezes do que posso contar. Um cidado cumpridor da Lei comete um crime e ento, para 
no ser acusado, d por si a fazer coisas que nunca imaginou ser capaz de fazer. Ele no queria ser preso e deixar a mulher doente sem ningum. A sua resposta foi 
tentar certificar-se de que a Sra. Patterson nunca se recordaria do contrato, logo, nunca iria falar com a Polcia.
   - Graas a Deus, todas as tentativas para a matar correram mal - murmurou Valerie.
   - Pois - interveio Charlie. - Foi ele quem serrou os parafusos no clube?
   Monroe assentiu mais uma vez e olhou pesarosamente para Zeke.
   - Por acaso, foi uma jogada brilhante, muito inteligente para um amador. Se a plataforma tivesse cado em cima da Sra. Patterson,  muito provvel que tivesse 
sido considerado um acidente.
   - Eu disse-lhe que aqueles parafusos tinham sido serrados - disse Zeke, a sua voz quase um rosnido.
   O detective assentiu de novo.
   - Peo desculpa por no o ter levado a srio. - Encolheu os ombros, exausto. - Ainda bem que a Sra. Patterson no ficou ferida e os seus filhos esto bem. Retrospectivamente, 
 um milagre que o Salisbury no tenha sido bem-sucedido em pelo menos uma das tentativas.
   - Sorriu a Natalie, mas o seu sorriso era triste. - J ouvi falar de anjos da guarda. O seu deve ter andado a fazer horas extraordinrias.
   Natalie estremeceu, recordando-se daquele momento horrvel em que vira Frank soterrado debaixo do entulho. Mesmo com o piano a proteg-lo, ficara gravemente ferido. 
Se no tivesse sido a reaco rpida de Zeke, ela teria morrido. Talvez tivesse mesmo um anjo da guarda.
   - Como  que ele soube qual era o quarto de dormir da Natalie?
   - perguntou Pete. - Ele podia muito bem ter entrado pela janela da Valerie.
   - Na noite em que o Salisbury sabotou o carro da Sra. Patterson, ela foi  janela quando ouviu o ganso a grasnar - explicou Monroe.
   - Ele diz que ouviu a voz dela e que a viu perfeitamente ao luar, como tal, sabia onde ela dormia. - O detective suspirou e encolheu mais uma vez os ombros. - 
Todas as suas tentativas para a matar e fazer com que parecesse um acidente tinham falhado. Frustrado e em pnico, acabou por recorrer a um ataque pessoal para acabar 
o trabalho de uma vez por todas.
   Natalie fechou os olhos e levou a mo ao pescoo, grata por Zeke ter chegado a tempo de evitar que Salisbury a sufocasse.
   Monroe continuou a falar, mas a sua voz parecia distante, e as palavras j no ficaram registadas na mente de Natalie. No se importou. Tinha ouvido o suficiente. 
Estava tudo acabado. Agora, s queria esquecer o que acontecera.
   Momentos mais tarde, os pais dela levaram o detective Monroe  porta e despediram-se dele. Quando voltaram, a cozinha mergulhou no silncio. Estavam todos sentados 
 volta da mesa, a olhar para o vazio. Para variar, at Charlie parecia no saber o que dizer.
   Valerie quebrou finalmente o silncio:
   - Como  que um tipo perfeitamente normal que nunca infringiu a Lei  capaz de passar-se daquela maneira e assassinar algum? Pior ainda, como  que ele resolve 
tentar matar a Natalie, que nunca lhe tinha feito mal nenhum?
   - Parece que o homem andava sob uma presso terrvel h j muito tempo - disse Zeke em voz baixa. - Perder algum que amamos no  fcil. Se acrescentarmos problemas 
financeiros e tirarem-lhe o dinheiro de que precisava para se endireitar, muita gente teria perdido a cabea.
   Naomi poisou os cotovelos na mesa.
   - A minha me morreu com cancro. Eu vi o que isso fez ao meu pai. - Olhou para Natalie. - Durante um curto espao de tempo, ele perdeu tudo pelo qual tinha trabalhado 
toda a vida, apenas para tentar garantir-lhe bons cuidados de sade. Ele ficou to diferente. Sempre tinha sido alegre, despreocupado, e de repente gritava por tudo 
e por nada e nunca mais se riu. Uma noite, recebi um telefonema da esquadra, a dizer que ele tinha sido apanhado a roubar numa loja. Eu no queria acreditar. O meu 
pai era do mais honesto que havia. Nunca roubara nada na vida. - Os olhos de Naomi brilhavam com lgrimas. - Afinal, tinha roubado Maalox para o estmago da minha 
me.
   Pete assentiu:
   - Lembro-me disso. Quando o trouxemos para casa, ficou sentado no sof a chorar como uma criana. Tudo o que ele era, tudo o que se orgulhava de ser, tinha-lhe 
sido tirado. - Pete sacudiu uma mo. - Mas ele nunca teria matado ningum. Isso  completamente de mais.
   - Completamente - concordou Valerie. - O Monroe pode dizer o que quiser, mas, para mim, algum que  capaz de ser levado a cometer um homicdio, provavelmente 
sempre teve essa propenso.
   Charlie concordou com aquela teoria e todos passaram alguns minutos a rever os acontecimentos da noite. Por fim, Natalie passou uma mo pelos olhos e disse numa 
voz tensa:
   - Lamento, mas no quero falar mais sobre isto. Pode ser? Aconteceu, j passou, e agora tenho de seguir em frente.
   - men - disse Charlie.
   Naomi foi fazer ch. Valerie levantou-se e encheu um prato com bolachas. Pete desencantou a sua reserva de bourbon e serviu um shot a todos. A conversa passou 
para assuntos mundanos - o tempo, a dobradia de um armrio que tinha de ser substituda, e uma exposio de equipamento agrcola que teria lugar na semana seguinte. 
Natalie apreciou o esforo de todos para aparentar uma conversa normal quando os nervos e as emoes ainda se encontravam  flor da pele.
   Trinta minutos depois, ela foi levar Zeke  porta e saiu com ele. J no alpendre das traseiras, ele abraou-a - nada mais do que isso, apenas um abrao maravilhoso 
que parecia no ter princpio nem fim. Natalie poderia ter ficado aninhada contra aquele calor forte e reconfortante toda a noite.
   - Ests exausta - sussurrou ele por fim contra o cabelo dela.
   - Talvez seja melhor eu ir para casa, e vemo-nos amanh.
   Ela fechou os dedos, agarrando-lhe a camisa.
   - Preciso de ti esta noite.
   Ele passou-lhe uma mo grande pelas costas, o polegar fazendo coisas maravilhosas aos ns que ela tinha nos msculos.
   - Se eu vier, prometes que dormes? Mais nada. Ests a tremer tanto que me metes medo.
   Natalie passou-lhe as mos pelos ombros, apreciando a fora que sentiu sob as palmas. Era verdade: o choque e o cansao tinham-na deixado a tremer. E o facto 
de ele se aperceber e no querer mais nada dela por isso mesmo quase a deixou em lgrimas.
   - Oh, Zeke, amo-te tanto.
   Os lbios dele encontraram a depresso sensvel abaixo da orelha. Num sussurro que pareceu penetrar at ao tutano de Natalie, disse:
   - Vai subindo, Olhos Lindos. J l vou ter.
   - Porque no sobes comigo como uma pessoa normal? O meu pai no se importa. A srio. Acho que ele sabe o que tu costumas fazer.
   - O que ele sabe e o que ele desconfia so duas coisas diferentes.
   - Ele inclinou-se para trs, segurando-lhe no rosto com as duas mos.
   - Se fosses outra mulher, eu provavelmente dizia que sim. Mas no s.
   - Sorriu lentamente. - No me importo que me chames antiquado.
   - Ela assentiu porque sentiu que Zeke precisava que ela o fizesse. - Tu vais ser a minha mulher - murmurou ele. - Tenho de pensar na tua reputao.
   Ainda que estivesse exausta, Natalie riu-se.
   - A minha reputao, estou a ver.
   - Tu s especial. - Ele beijou-lhe as sobrancelhas e a ponta do nariz. - s a me dos meus filhos, dos que j nasceram e dos que ainda ho-de vir. No quero que 
eles oiam histrias sobre o pai deles provar o leite antes de comprar a vaca. Quero que acreditem que tu te encontras acima de qualquer censura.
   Natalie passou-lhe os braos  volta do pescoo.
   - Meu Deus, vou casar com um neandertal.
   - Por acaso, est provado que eles no fazem parte da nossa cadeia de evoluo.
   - No sejas picuinhas. s um arcaico.
   Ele sorriu e beijou-a ao de leve.
   - Queres devolver-me  procedncia?
   Ela agarrou-lhe na camisa com mais fora.
   - Nunca, Sr. Coulter. Voc  para guardar. Hei-de dar um jeito a esses ideais impossivelmente antiquados.
   Ele riu-se.
   - Boa sorte. Esto bem entranhados. Se o meu pai soubesse que eu entro no teu quarto s escondidas e que durmo contigo em casa do teu pai, corria-me a pontaps 
at Timbuctu. - As sobrancelhas dele uniram-se. - Pensando melhor, ele corria-me a pontaps se soubesse que durmo contigo, ponto final. Ele acha que um homem deve 
estar to apaixonado por uma mulher que  capaz de atirar-se de cabea sem precisar de um teste de ensaio.
   Natalie pensou naquilo por um momento.
   - E tu no ests assim to apaixonado por mim?
   Ele baixou a cabea e mordiscou-lhe o lbio inferior.
   - Naquela noite em que jurei que adorava casca de laranja, atirei-me de cabea, minha senhora. No havia retorno nessa altura, e agora tambm no. No para mim.
   Natalie olhou para aquele rosto na sombra, amando-o tanto que at lhe doa. O incrvel era que ela acreditava nele - absolutamente, inequivocamente, sem quaisquer 
reservas. Enquanto ele respirasse, estaria presente para a apoiar.
   - Tambm no h retorno para mim.
   Ele agarrou-lhe no pulso, afastou-lhe a mo do seu pescoo, e beijou o anel que lhe tinha dado horas antes. Para Natalie, parecia que se passara um sculo entretanto.
   - Para sempre - murmurou ele.
   E desapareceu na escurido.
   Natalie limitou-se a sorrir. Desconfiava que ele estaria  espera no seu quarto quando ela l chegasse - to certo e confivel como o Old Faithful.
   Um pensamento delicioso para segurar bem junto ao corao quando voltou para casa e deu as boas noites  sua famlia.
   
Eplogo
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   Zeke meteu a terceira, e Natalie aninhou-se satisfeita contra ele. Marido e mulher, finalmente. Ela estava contente por ver a cerimnia concluda e o resto da 
vida de ambos pela frente, especialmente a semana seguinte, que iria ser a sua lua-de-mel. No conseguia deixar de imaginar a estadia romntica na costa, num quarto 
com lareira e vista para o mar, um ptio que dava para o oceano, longos passeios na mar-baixa, e sexo sem Rosie por perto.
   No que ela no adorasse a sua filha. Era s que... bem, Rosie tinha o condo de entrar num quarto de cama nas alturas mais imprprias. A brincar, Zeke chamava-lhe 
um despertador avariado que disparava sempre na pior ocasio possvel. Natalie no podia discordar daquela descrio, ainda que Rosie fosse a interrupo mais fofa 
do mundo.
   - Amo-te - disse ela, aproximando-se ainda mais dele no banco da frente e emprestando  sua voz tanto desejo quanto uma mulher poderia ser capaz de transmitir.
   - Prova-o - disse ele.
   Natalie estava a pensar em formas engenhosas de o fazer sem que ele se despistasse quando o seu telemvel tocou. Olhou para o aparelho com o seu estojo de pele 
de leopardo, desejando apenas que ele se arrumasse sozinho no porta-luvas e se calasse. Ela estava em lua-de-mel. A sua primeira e nica lua-de-mel. No queria atender 
aquele telefone.
   - E se eu o ignorasse? - perguntou ela em voz alta.
   Zeke olhou de esguelha para o cinzeiro, onde ela tinha colocado o detestvel aparelho - um contacto com a sua famlia de loucos.
   - O Chad pode ter partido um brao.  melhor atenderes.
   Natalie suspirou e agarrou no telefone.
   - Estou?
   - Ol, me! Sou eu.
   "Chad." No parecia estar mortalmente ferido, e ela partira h menos de cinco minutos. Natalie obrigou-se a perguntar no tom mais doce que encontrou:
   - Ento, querido, o que  que se passa? - teria sido capaz de apostar que no era nada de especial, nada que a me dela no pudesse resolver. - Ests bem?
   - Estou ptimo. S queria dizer-lhe que mudei de ideias. No quero uma T-shirt das Sea Lion Caves. Quero um bon de Bandon.
   - Hmm. E s isso? - Natalie podia ouvir os seus pais a gritar um com o outro. - Porque  que os teus avs esto a discutir?
   - Nada de especial. O av no quer comprar uma mquina de lavar loia e a av diz que se vai embora outra vez se ele no o fizer.
   Natalie recostou-se no banco e sorriu. Quase podia ver os seus pais a discutir por causa da loia suja. Pete s tinha duas escolhas: ou via Naomi sair porta fora 
ou telefonava para a Sears. Natalie apostava na segunda. Pete Westfield adorava a sua ex-mulher e, muito simplesmente, no era capaz de ser feliz sem ela.
   - Como  que est a Rosie? - perguntou ela.
   - Est bem. Mas no te esqueas, est bem? Quero um bon de Bandon.
   - Eu no me esqueo - disse ela, lanando um sorriso a Zeke. - Se acontecer mais alguma coisa, tens o nosso nmero.
   - Adoro-te, me.
   Natalie mandou beijos pelo telefone:
   - Eu tambm te adoro, querido.
   Assim que desligou, virou-se para beijar Zeke, mas os seus lbios apenas encontraram um grande envelope pardo. Ela recuou, olhou para o envelope e depois para 
Zeke.
   - O que  isto?
   Ele sorriu e abanou o envelope.
   - Abre-o e j vs. E um presente de casamento de ltima hora, algo que te far recordar este momento para o resto da vida.
   Natalie tirou-lhe o envelope da mo e ficou a olhar para o endereo do remetente no canto superior esquerdo.
   - O que  a Granger Enterprises?
   - Abre, se fazes favor - respondeu ele com um sorriso satisfeito.
   Natalie passou o polegar por baixo da fita adesiva. Quando espreitou o interior, no conseguiu perceber nada na mancha de letras impressas e puxou o que lhe pareceu 
ser um contrato. Enquanto lia o topo da pgina, viu o ttulo da sua cano, If Only, escrito algumas linhas mais abaixo.
   - O que  isto? - perguntou ela de novo.
   - Isso - disse ele lentamente -  um contrato de aquisio, Sra. Coulter. Mandei a tua cano para vrios agentes, e um deles ficou com ela. Acabaste de a vender 
a um cantor dos grandes, Roger Granger.
   Roger Granger era o novo fenmeno da msica country-western, um cantor que tivera uma ascenso meterica e parecia no querer largar o topo das tabelas de vendas. 
Natalie ficou parada a olhar para aquele monte de palavras, incapaz de perceber.
   - No posso acreditar. Ests a gozar, no ests?
   Zeke apenas encolheu os ombros.
   - Coisas como esta acontecem quando algum escreve uma letra fabulosa com uma msica ainda melhor. O Granger adorou. O agente diz que ele est a pensar fazer 
um dueto com uma cantora famosa, daquelas canes do tipo diz-ele-diz-ela, mas que tu vais ter de escrever mais qualquer coisa para encaixar o ponto de vista masculino.
   Natalie j tinha ouvido aquele gnero de canes, e a sua imaginao comeou imediatamente a trabalhar. "Sim!" Aquela cano era perfeita para isso. No queria 
acreditar que um cantor famoso gostava da letra e da msica. Era, tipo, o trabalho mais importante da sua vida... quase.
   - Ests lanada.
   Ento, o cheque escorregou do envelope e caiu no colo dela. Natalie ficou a olhar incredulamente para a importncia. Depois, rebentou s gargalhadas.
   - Isto s pode ser uma piada.
   Zeke olhou para ela.
   - No, no , podes ter a certeza que vou depositar a minha comisso no banco. Podes pagar-me a remodelao do clube com esse cheque, querida. - Natalie mal o 
ouvia. Ainda estava a olhar para o valor do cheque e a contar mais uma vez o nmero de zeros. - Isso  sem os dez por cento do agente. Tudo o que tens de fazer  
assinar, querida, e, no s acabaste de conseguir um agente, como fizeste a tua primeira venda. E das grandes. Fiquei a saber algumas coisas durante esta nossa aventura, 
e uma delas  que um bom autor pode ganhar uma fortuna.
   - Oh, Zeke.
   Ele sorriu e baixou a cabea para lhe roubar um beijo rpido.
   - J te fiz esta pergunta. Volto a faz-la: mas que raio  que tu ests a fazer numa cidade como Crystal Falls? Nasceste para Nashville, querida. Ests a perder 
o teu tempo aqui.
   Olhando para aquelas feies tisnadas e para aqueles olhos azuis que ela amava tanto, Natalie soube exactamente por que motivo estava em Crystal Falls - e por 
que motivo tencionava ficar. Outra pessoa poderia fazer-se  estrada e tentar chegar ao estrelato. Se ela conseguisse vender as suas canes, seria uma mulher feliz. 
O sucesso mais importante da sua vida estava sentado ao seu lado, um homem maravilhoso, bonito, leal, que a amaria para sempre, mesmo quando ela queimasse os ovos, 
e que acreditaria nela mesmo quando perdesse a f em si prpria.
   Natalie tivera canes no corao toda a sua vida. Aquele homem era a melhor de todas elas - uma doce melodia que lhe surgira quando ela menos esperava, como 
acontecia com todas as canes realmente boas. S que no havia nada para reescrever.
   Ele j surgira perfeito.
   
   
   
   
   FIM
1 Referncia a Reba McEntire, famosa cantora norte-americana de estilo country-western. (N. do T.)

2 Referncia ao livro It Takes A Village: And Other Lessons Children Teach Us, da autoria de Hillary Clinton. (N. do T.)
3 Pardon my French, no original. Expresso utilizada nos EUA quando  empregada linguagem considerada menos prpria. (N. do T.)
4 The show aint over 'til the fat lady sings, no original. Jogo de palavras feito  custa do coloquialismo "it ain't over 'til the fat lady sings", o qual alegadamente 
ter a sua origem na percepo dos espectculos de pera por parte das classes trabalhadoras norte-americanas no incio do sculo xx. As sopranos, tradicionalmente 
com excesso de peso, cantavam a ria final, e s ento o espectculo terminava. (N. do T.)
5 Boto de rosa. (N. do T.)
6 Nova referncia a uma cantora de country-western. (N. do T.)
7 Gim onde foram macerados abrunhos ou outros frutos aromatizantes. (N. do T.)




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